2 de novembro de 2015

Nove

Lá pelas sete da noite, a última venda foi feita, a porta da frente foi trancada, e estou na sala dos fundos com os pés na mesa, mexendo no celular e vendo que Sabine deixou nada menos do que nove mensagens, todas exigindo saber onde estou, quando vou voltar e que possível explicação tenho para ignorar suas regras tão descaradamente.
Mesmo me sentindo mal com isso, não retorno as ligações. Apenas desligo o telefone, jogo-o na bolsa e deixo tudo de lado para ir até Summerland.
Entro no véu brilhante de luz dourada e suave e aterrisso bem na escadaria dos Grandes Salões do Conhecimento. Espero que, mais uma vez, ele possa ajudar em um momento difícil e me dê a resposta que procuro.
Fico diante da porta, com ar preso na garganta enquanto olho para a gloriosa fachada que se transforma, mostrando todos os lugares mais belos e impressionantes do mundo. Vejo o Taj Mahal virar o Parthenon, que transforma no Templo de Lótus, e depois nas grandes pirâmides de Gizé, e assim por diante, até que as portas se abrem e entro. Tiro um tempo para olhar em volta, imaginando se vou cruzar com Ava ou com Jude, agora que ambos sabem como chegar aqui. Mas, sem reconhecer ninguém, acomodo-me em um dos compridos bancos de madeira, encaixando-me entre monges, rabinos e padres e várias outras pessoas em busca de algo.
Fecho os olhos e me concentro na resposta que procuro.
Minha mente volta ao momento exato em que o café derrubando por Jude escorreu pela mesa, prestes a cair pela lateral até o chão, quando ele o obstruiu com a manga. Permitindo que o liquido penetrasse no tecido, se misturasse com as fibras, até formar uma grande mancha, assim como o antídoto manchou a camisa branca de Roman.
Deixando um grande borrão verde.
Uma estampa de substâncias.
Uma combinação de elementos químicos — um tipo de receita, se preferir — presa para sempre naquelas macias fibras de algodão.
Elementos químicos que, se isolados de forma adequada, poderiam me levar à formula do antídoto de que preciso... A única coisa que permitirá que Damen e eu voltemos de fato a tocar um no outro.
Eu pensava que toda a esperança de cura havia morrido com Roman, mas agora eu sei, sei que ela ainda existe.
O que eu pensava estar perdido para sempre sobreviveu na macha de sua camisa.
A camisa que Haven roubou de minhas mãos.
A camisa que não tenho escolha a não ser pegar de volta se Damen e eu quisermos ter uma vida normal juntos.
Respiro fundo, substituindo a imagem da camiseta manchada de Jude pela camisa de linho de Roman, enquanto minha mente faz a pergunta:
Onde ela está?
Logo seguida por:
E como faço para pegá-la?
Mas não importa quanto eu espere, não importa quantas vezes indague, nenhuma resposta vem.
O silêncio persistente acaba se transformando na própria mensagem.
Uma inegável recusa em ajudar.
Só porque os Salões permitiriam minha entrada, não quer dizer que pretendem me auxiliar.
Não é a primeira vez que me negam uma resposta.
Finalmente percebo que isso pode ter um dentre dois significados: ou estou questionando algo que não é de minha conta, o que na verdade não faz muito sentido neste caso, porque obviamente é muito de minha conta, ou estou mexendo em algo que não devo saber agora, ou talvez nunca, o que, infelizmente, faz todo o sentido.
Algo sempre conspira contra nós.
Algo sempre nos mantém afastados.
Seja Drina sempre me matando, Roman sempre me enganando, ou Jude, intencionalmente ou não, me sabotando. Há sempre algo atrapalhando minha felicidade definitiva com Damen.
E não posso deixar de pensar se não haveria um motivo por trás disso.
O universo não é tão caótico quanto parece.
Há um motivo definido para tudo.
Mas, quando os Grandes Salões do Conhecimento decidem ignorar alguém, reformular a pergunta não muda nada.
Agora é por minha conta.
Eu devo encontrar a camisa. E devo descobrir se Haven tem noção do que está tirando de mim.
Ela estaria guardando a camisa por ser a última coisa que Roman usou na noite em que morreu?
Estaria guardando-a como um lembrete visual, algo que a ajuda a abastecer sua raiva contra mim e Jude?
Ou ela saberia sobre a mancha e a promessa que ela contém?
Ela saberia o tempo todo sobre isso que eu acabei de descobrir?
Quanto a mim, sem a ajuda de Summerland, não tenho escolha senão voltar ao plano terreno para ver o que posso aprender lá.
Estou prestes a criar o portal novamente quando sinto a presença dele.
Damen.
Ele está aqui.
Em algum lugar próximo.
Então, em vez de voltar, fecho os olhos e faço um último pedido: que Summerland me guie até ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!