2 de novembro de 2015

Nove

Nós estamos outra vez na ilha, nós dois caímos lado a lado na grama, sinto-me melhor. Um milhão, trilhão, zilhão de vezes melhor. Saltando com meus pés e pulando pelo campo, livre daquela horrível invasão energética — aquele estranho batimento interno e os pensamentos sobre Roman. Tudo isso se reduziu a nada mais que uma vaga e distante memória, com essa grama flutuando abaixo dos meus pés e as flores perfumadas se movendo sob as pontas dos meus dedos. Olhando por cima do ombro, aceno para que Damen se junte a mim, e um verdadeiro sorriso ilumina meu rosto pela primeira vez em dias.
Estou regenerada, renovada, capaz de começar tudo de novo.
Ele vem em minha direção, parando tímido em meu alcance enquanto ele fecha os olhos e imediatamente transforma os vastos campos perfumados de Summerland em uma réplica exata de Château de Versailles. Colocando-nos no meio de uma sala tão grande e opulenta que tira o meu fôlego.
Os pisos são feitos de tacos polidos, enquanto a cor creme da parede brilha com os batentes dourados. E o teto – aqueles insanamente altos que são decorados por uma sucessão de lustres brilhantes, seus cristais finamente cortados pelo brilho e cintilar das chamas das velas queimando, enchendo a sala com um caleidoscópio de luz suave e brilhante. E quando eu acho que não pode ficar melhor, o som de uma majestosa sinfonia começa e Damen para diante de mim oferecendo sua mão.
Eu abaixo meu olhar, rapidamente, aproveitando a oportunidade para olhar o corpete do meu vestido — um corpete apertado e baixo, derramando em suaves dobras soltas da mais brilhante seda azul que percorre girando até o chão. Levantando meus olhos e encontro ele retirando uma caixa de fino veludo do casaco, prendo a respiração de excitação quando ele abre para revelar um requintado colar de safiras com diamantes encrustados que ele cola em torno do meu pescoço.
Dirijo-me, espiando entre uma longa fila uma de espelhos que estão fixados em cada lado do salão, contemplando nós dois juntos, ele de calça, blazer e bota, eu na minha elegância opulenta, cabelos trançados enrolados da maneira mais complicada de se fazer no mundo – e eu sei exatamente o que ele está fazendo – ele está me dando o feliz para sempre que Drina roubou de mim.
Eu olho ao redor do salão do baile meio temerosa, mal acreditando que eu poderia ter tido isso, que poderia ter sido parte desse mundo, seu mundo. Se meu final de Cinderela não tivesse sido rasgado diante de mim, tirando a minha chance de experimentar meu sapatinho de cristal.
Se eu tivesse tido a chance de viver, ele poderia ter me dado o elixir e imediatamente me transformado de uma humilde serva francesa chamada Evangeline – neste ser radiante que está me olhando atrás do espelho. E cento e alguns anos mais tarde, nós poderíamos ter dançado juntos aqui, partilhando esta noite bonita, vestidos com nossas melhores roupas e joias, bem ao lado de Maria Antonieta e Luís XVI. Mais isso não ocorreu. Em vez disso, Drina me matou, forçando a mim e a Damen a continuar nossa busca um pelo outro, novamente e novamente.
Eu olho para ele, limpando as lágrimas, colocando minha mão em seu ombro e ele seu braço confortavelmente em torno da minha cintura, me rodando em toda a pista de dança, nossos pés se movendo habilmente, minha saia rodando em um enlaçamento estonteante de azul. Assim, envolvidos pela beleza que ele mesmo criou, replicada apenas para mim, eu pressiono firmemente contra ele, meus lábios em seu ouvido e pergunto se há mais quartos para ver.
E antes que eu perceba sou levada a um confuso labirinto de salas, para o mais fino, mais grandioso quarto que já vi.
— Agora, está concedido— ele sorri parando na porta enquanto eu tento não ficar de boca aberta em ter tudo isso em... — este não é o quarto do Royal chambre – Maria Antonieta e eu nunca estivemos tão perto. Embora esse seja o quarto que eu fiquei em minhas numerosas visitas – então, o que você acha?
Eu faço o meu caminho através de grande tapete de tecido, passado por cadeiras revestidas de seda, a abundância das velas, o uso abundante de cristal e ouro, tornando tudo tão excessivamente luxuoso, a cama dossel ricamente coberta, e eu acariciando o espaço ao meu lado como se eu tivesse nenhum outro desejo no mundo.
Porque eu não tenho.
Eu estou em Summerland agora.
Roman não pode me alcançar.
— Então o que você acha?— ele se inclina sobre mim, seu olhar varrendo o rosto.
Eu me aproximo, com os dedos traçando suas elevadas maçãs do rosto, a acentuada linha do queixo, quando eu digo, — O que eu acho?— eu balancei a cabeça e ri, a iluminação do som, alegre, do jeito que costumava ser — Eu acho que você é o namorado mais incrível do mundo inteiro. Não. Deixe-me voltar atrás no que eu disse...
Ele olha pra mim, fingindo apreensão em seu olhar.
— Eu acho que você é o namorado mais maravilhoso do planeta, do universo!— eu sorrio. — Sério. Quem não gostaria de uma época como essa?
— Tem certeza que você gosta?— ele pergunta, com uma real preocupação se movendo dentro dele.
Eu levanto os meus braços, o cerco em torno de seu pescoço enquanto eu o puxo para mim. Ciente do véu de energia que paira entre seus lábios e os meus — me permitindo a começar a pensar em como estamos parados aqui, quase nos beijando. Mas ainda sim feliz por me apegar até onde posso chegar.
— Esses foram tempos tão inebriantes— diz ele afastando-se e apoiando a cabeça sobre a mão dele para me ver melhor — Eu apenas queria que você experimentasse, sentir o gostinho de como era. Eu senti muito sua falta, Ever, nós deveríamos ter tido tal divertimento. Você teria sido a bela da vez, a mais bonita— ele aperta os olhos — não, um segundo pensamento, Maria talvez não tivesse gostado disso.— Ele sacode a cabeça e ri.
— Porque?— meus dedos jogados nos babados cobrindo a frente da sua camisa, no meio do caminho entre os botões para imensidão do peito quente por baixo — Ela tinha planos para você, como eles diziam? E isso foi antes ou depois do Conde Fersen dividir a cena?
Ele ri.
 — Antes, durante e depois. Foi definitivamente o lugar para se estar, ou pelo menos por algum tempo de qualquer maneira. — ele sacode a cabeça — E não, para sua informação, nós éramos apenas bons amigos, não tinha nenhum plano para mim, ou nenhum que eu notei, pelo menos. Eu estava pensando mais nos termos de que algumas mulheres bonitas nem sempre estão contentes quando outra entra em cena.
Eu olhei para ele, visualizando a elegância do seu rosto, a madeixa do seu cabelo escuro e brilhante que cai sobre seus olhos, pesando em como ele tem um olhar galante, quão nobre é, como esse olhar realmente lhe convém, diz quem realmente ele é muito mais do que o jeans desbotado e as botas de motoqueiro já disseram.
— Então, o que Maria Antonieta pensou de Drina?— eu pergunto, me lembrando dela e de como sua pele era cremosa, seus olhos de esmeralda, gloriosamente ruiva – uma beleza tão grande que me roubou a respiração. Percebendo, logo em seguida, que eu estou realmente tendo uma conversa sobre Damen e sua malvada ex-mulher e não senti ainda a menor pontinha do meu ciúme habitual. E não é só por causa da magia de Summerland, mas porque eu realmente estou em paz com isso agora.
Apesar de, infelizmente, Damen não ter tomado conhecimento da minha nova perspectiva, o que provavelmente explica porque sua testa ficou enrugada e sua boca sombria. Querendo saber se eu realmente iria começar com isso de novo, depois de tudo que ele enfrentou por mim.
Mas eu só sorrio, convidando-o a olhar para dentro da minha mente e ver por si mesmo. Perguntei só porque eu estou curiosa, nada mais. Não há uma pitada de inveja para ser encontrada.
— Drina e Maria não chegaram a conhecer uma a outra— disse ele, visivelmente aliviado com a mudança do meu coração — Eu, inúmeras vezes, vim por mim mesmo.
Eu olhei para ele, imaginando todas as belas mulheres solteiras, que possivelmente desmaiaram no segundo em que ele entrou naquela sala sem uma acompanhante ao seu lado e, novamente, como antes, eu não sinto nada.
Todos têm um passado. Ao que parece pra mim, é que a única coisa que realmente importa é que ele me ama, sempre me amou. Passou os últimos 400 anos procurando por mim. Eu acho que finalmente consegui tratar isso como um grande acordo, o que realmente isso é.
— Vamos ficar aqui para sempre— eu sussurro, puxando-o para mim e cobrindo seu rosto com meu beijo — Vamos passar a morar nesse lugar maravilhoso, e quando ficarmos cansados – se nós ficarmos cansados disso, nós precisaremos apenas manifestar algum outro lugar para viver.
— Nós podemos fazer isso em casa, você sabe. — Ele olhou para mim, com um olhar terno e profundo, enterrando sua mão no fundo do meu cabelo, alisando os fios — Nós podemos viver em qualquer lugar que quisermos, ter qualquer coisa que queiramos, ir onde nós quisemos, tão logo nós graduemos no ensino médio e nos afastarmos de Sabine — Ele ri.
E mesmo que eu sorria junto com ele, eu sei melhor que ele.
Eu realmente não posso ter isso em casa.
Não depois do feitiço que eu lancei.
E até que eu possa achar uma maneira de quebrá-lo, esse é o único lugar que eu posso gostar disso, sentir isso.
A magia vai se dissolver assim que eu faça o meu caminho de volta através do portal.
— Mas, entretanto, não há nenhuma razão para apressar a volta – existe?— Ele sorri, inclinando seu queixo até encontrar meus lábios junto aos dele.
Ele me aperta contra ele novamente, seu corpo cobrindo o meu, posso quase sentir suas mãos na minha pele me enchendo com formigamento e calor. Nós dois nos rendendo ao momento, entregando-se aos limites que não temos escolhas a não ser aceitar. Meus lábios em seu ouvido enquanto murmuro — Nenhum motivo no qual eu possa pensar. Nenhuma razão.

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