2 de novembro de 2015

Doze

Chego rápido ao balcão. Tão rápido que Miles não tem como evitar. Não tem ideia do que está prestes a acontecer até que já seja tarde demais. Bato seus pulsos contra o vidro, com mais força do que pretendia, e mantenho minhas mãos sobre as suas de forma que as palmas ficam esticadas sobre o balcão, deixando-o completamente indefeso. Noto vagamente que ele resiste, contorcendo-se e debatendo-se, na tentativa de se libertar.
Mas de nada adianta.
Mal me dou conta de força bruta. Não há como competir comigo.
E quando ele finalmente entende isso, solta um profundo suspiro e se entrega, abrindo a mente e se rendendo ao que sabe que estou prestes a fazer.
Entro em sua mente, com fluidez, com tranquilidade, parando um instante para dar uma olhada rápida em volta e conhece-la antes de descartar todos os pensamentos irrelevantes e ir direto para a cena exata que vim ver aqui.
Observo Miles entrando no carro de Damen, primeiro relaxado e alegre, esperando por um agradável almoço fora do campus; depois, agarrando-se ao assento como se fosse morrer.
Seus olhos ficam arregalados e o rosto parece uma máscara de erro enquanto Damen acelera para fora do estacionamento da escola em direção à rua.
Para ser sincera, não sei o que me surpreende mais: o que Damen está prestes a fazer ou que ainda mantenha sua promessa de ir à escola e assistir a todas as aulas, apesar de eu claramente ter quebrado a minha.
— Não se preocupe — diz Damen, olhando para Miles enquanto esboça um sorriso. — Você está completamente a salvo. Tenho quase certeza.
— Quase? — Miles empurra as costas com mais força, encolhendo os ombros e estreitando os olhos enquanto Damen desvia de uma série de carros que estão em velocidade bem menor que a sua, que está além do permitido. Cuidadosamente, ele dá uma espiada em Damen e diz: — Bem, pelo menos sei de onde veio isso. Você dirige feito louco, como todo mundo na Itália! - Ele balança a cabeça e recua novamente.
E isso faz com que Damen ria ainda mais.
Só com o som de sua risada faz meu coração ficar tão apertado que mal consigo me conter.
Sinto saudades dele.
Não há como negar.
Vê-lo assim, com o sol refletindo em seu cabelo escuro e sedoso, suas mãos fortes e habilidosas ao volante... Bem, tudo isso só deixa claro quanto minha vida fica vazia sem ele.
Mas então logo paro, lembrando-me das razões de minhas atitudes. Ainda há muito a descobrir sobre nossas vidas passadas juntos, detalhes que preciso saber antes de mais nada.
Afasto esse pensamento, determinada a superar tudo isso enquanto continuo a observar.
Vejo Damen parar no Shake Shack, onde compra para Miles um shake de café misturado com pedaços de biscoito Oreo, e depois o acompanha até um daqueles bancos pintados de azul, exatamente o mesmo no qual eu e ele nos sentamos uma vez. Ele para e olha para uma praia linda, cheia de guarda-sóis coloridos que parecem poás estampados na areia, para os surfistas que esperam pela próxima onda, para as gaivotas que desenham círculos no céu, antes de voltar a atenção a Miles, que toma seu shake em silêncio e espera que Damen comece a falar.
— Sou imortal — ele revela, olhando diretamente nos olhos de Miles.
Faz o primeiro arremesso sem aquecimento, sem que o rebatedor esteja posicionado.
Apenas joga a bola direto, paciente, calmo, dando bastante tempo para que Miles assuma sua posição e tente rebater.
Miles engasga, cospe o canudo e limpa a boca com a manga da camisa, depois olha perplexo para Damen e diz:
— Scusa?
Damen ri, e não tenho certeza se é por Miles querer falar italiano ou por tentar dramaticamente abstrair tudo e fingir que não ouviu o que claramente ouviu. Ainda assim, Damen mantém o olhar fixo e diz:
— Seus ouvidos não o enganaram. É exatamente o que eu disse. Sou imortal. Venho andando por este planeta há pouco mais de seiscentos anos e, até recentemente, Drina e Roman também.
Miles fica boquiaberto, esquecendo seu shake, e desvia o olhar para Damen, tentando ver sentido naquilo, tentando assimilar tudo.
— Perdoe-me por ser tão direto... E acredite: não contei desse jeito com a intenção de chocá-lo ou de me divertir às suas custas é só porque acabei aprendendo que notícias desse tipo, inesperadas, devem ser contadas rapidamente e de uma vez. Já paguei o preço por demorar a contar. — ele faz uma pausa e seu olhar repentinamente fica triste, distante.
Sei que ele se refere a mim, ao tempo que demorou para me contar a verdade por trás de minha existência, e como voltou a cometer o mesmo erro ao guardar segredos sobre nossa historia juntos.
— E devo admitir, parte de mim presumia que você já tivesse descoberto isso. Considerando que Roman fez questão de que você encontrasse os retratos e tudo mais. Achei que tivesse tirado alguma conclusão a respeito deles.
Miles balança a cabeça, pisca diversas vezes e larga o shake na mesa. Olha para Damen com uma expressão muito mais que confusa e diz:
— Mas... — Sua voz sai tão rouca que ele limpa a garganta e começa de novo.
— Quer dizer, eu acho que... Bem, acho que não entendi. — Ele estreita os olhos, na tentativa de assimilar tudo aquilo lentamente. — Para começar, você não é todo branquelo e esquisito. Na verdade, é exatamente o oposto: desde que o conheço está sempre bronzeado. Sem mencionar que, caso não tenha percebido, está um dia claro. Tipo, um sol de trinta e cindo graus. Então, desculpe-me por dizer, mas, diante disso tudo, o que acabou de me contar não faz o menor sentido.
Damen inclina a cabeça e fica com a expressão bem mais confusa que a de Miles. Para um instante para juntar todas as peças e depois joga a cabeça para trás, deixando uma grande gargalhada transbordar, até que se acalma o suficiente para balançar a cabeça e dizer:
— Não sou um imortal mítico, Miles, sou um imortal de verdade. Do tipo que não tem que carregar o fardo de caninos pontudos, evitar o sol ou aquela nojeira de sugar sangue. — Ele balança a cabeça novamente, refletindo em silêncio sobre essa ideia, lembrando-se de como eu um dia também fiz essa suposição. — Basicamente, somos só eu e minha fiel garrafa de elixir aqui... — Ele levanta sua bebida, balançando-a para a frente e para trás enquanto Miles observa, paralisado. Vendo como aquela substancia pela qual a humanidade tem buscado desde sempre, a razão do assassinato dos pais de Damen, brilha e cintila ao sol da tarde. — Acredite, isso é tudo de que preciso para me manter por, bem, uma eternidade.
Eles ficam sentados, em silêncio. Miles examina Damen, em busca de sinais, tiques nervosos, egocentrismo, furos em sua história ou qualquer outro indício que revele que alguém esteja mentindo, enquanto Damen apenas espera. Ele dá a Miles todo o tempo necessário para se acostumar com a ideia, assimilá-la, aceitar uma nova possibilidade sobre a qual nunca havia pensado.
E quando a boca de Miles começa a abrir, prestes a perguntar como, Damen apenas balança a cabeça e responde à pergunta que não foi feita ao dizer:
— Meu pai era alquimista em uma época na qual não era tão incomum que se fizessem experiências assim.
— E que época foi essa, exatamente? — Miles pergunta, depois de reencontrar sua voz, obviamente sem acreditar que poderia ser mesmo há tanto tempo quanto disse Damen.
— Seiscentos e poucos anos atrás... Mais ou menos. — Damen encolhe os ombros, cuspindo as palavras, como se o inicio da história significasse muito pouco para ele.
Mas sei que não significa.
Sei quanto ele dá valor ao tempo que passou com a família, às lembranças que tem de tudo o que compartilhou com eles antes de perde-los de forma tão cruel.
Também sei como é doloroso para ele admitir isso. Como prefere dar de ombros, fingir que mal consegue se lembrar daquela época.
— Foi durante a Renascença Italiana — continua, sem perder tempo.
Seu olhar se mantém fixo no de Miles e, embora não demonstre, não dê nenhum sinal visível, seja qual for, eu sei que falar nisso machuca Damen.
Seu segredo mais bem guardado, aquele que conseguiu ocultar por seis séculos seguidos, agora vazava como água por um cano furado.
Miles assente, concordando sem hesitar. Perde seu Milk-shake para uma gaivota curiosa, espantando-a enquanto diz:
— Nem sei muito bem o que dizer agora, exceto, talvez... Obrigado.
Eles olham nos olhos um do outro.
— Obrigado por não mentir. Por não tentar encobrir a verdade e fingir que aqueles retratos eram de algum parente distante ou só uma estranha coincidência. Obrigado por dizer a verdade. Por mais inacreditável e estranha que possa parecer...
— Você sabia?
Solto sua mão com tanta rapidez que leva alguns segundos até que ele perceba.
Miles recua e se afasta, flexiona os dedos enquanto torce o pulso para a frente e para trás, esforçando-se para que o sangue volte a fluir normalmente.
— Nossa, Ever, por que não bisbilhota mais um pouco?
Ele balança a cabeça e caminha pela loja. Passa raivosamente em ziguezague pelos mostruários de anjos, estantes de livros e prateleiras de Cds. Depois recomeça o percurso.
Precisa de um tempo para me perdoar, para deixar a poeira baixar um pouco, até estar pronto para inclusive olhar para mim de novo. Batendo os dedos nas lombadas de uma longa fileira de livros, ele finalmente suspira e diz:
— Quer dizer... Uma coisa é saber que você é capaz de ler mentes, mas outra bem diferente é você de fato entrar na minha e investigar tudo sem meu consentimento. — As palavras são seguidas por uma sequência de outras que murmura para si próprio.
— Sinto muito — digo, ciente de que devo a ele muito mais que isso, mas, ainda assim, é um começo. — De verdade. Eu... Prometi que nunca faria isso. E na maior parte do tempo eu cumpro. Mas às vezes... Bem, às vezes a situação é tão urgente que não pode ser ignorada.
— Então já fez isso antes? É isso o que está dizendo? — Ele se vira, com os olhos semicerrados, a expressão carrancuda, mexendo nervosamente os dedos.
Provavelmente está supondo o pior, que fiquei à vontade para vasculhar sua mente mais vezes do que possa imaginar. E, apesar de não ter acontecido nada tão ruim quanto ele possa estar pensando e de eu não querer admitir o que fiz, também sei que, se quero ter alguma chance de recuperar sua confiança, preciso começar agora.
Respiro fundo, mantendo os olhos nos dele.
— Sim. Algumas vezes, no passado, entrei completamente sem aviso e sem seu consentimento. Sinto muito, de verdade, por isso. Sei como deve parecer uma invasão para você.
Ele revira os olhos e me dá as costas, resmungando na intenção de me deixar constrangida. E funciona.
Não que eu o culpe, nem um pouco. Invadi sua privacidade, não há dúvidas a esse respeito. Só espero que ele consiga me perdoar.
— Então, basicamente, o que está me dizendo é que eu não tenho segredos. — Ele me encara novamente, olhando-me de cima a baixo. — Não tenho pensamentos privados, nada em que você não tenha dado uma espiada superexclusiva. — Ele me olha com raiva. — E há quanto tempo isso vem acontecendo, Ever? Desde que nos conhecemos, presumo.
Balanço a cabeça, determinada a fazê-lo acreditar em mim.
— Não. Para ser sincera, nada disso é verdade. Ou melhor, sim, eu li sua mente antes, admito. Mas só algumas vezes e, ainda assim, só quando pensei que você pudesse saber de algo que...
Respiro fundo, vendo seus olhos semicerrados, sua carranca, um sinal claro de que as coisas não vão sair tão bem quanto eu esperava. Mesmo assim, ele merece uma explicação, não importa quanto o enfureça, então limpo a garganta e sigo em frente:
— É sério, as únicas vezes em que olhei dentro de sua mente foram para ver se você sabia a verdade sobre mim e Damen... É isso. Juro. Nunca me preocupei com mais nada. Não sou tão antiética quanto pensa. Além disso, só para que você saiba, antes eu ouvia os pensamentos de todo o mundo... Centenas... Às vezes milhares de pensamentos indo e vindo a meu redor. Era ensurdecedor, um desespero, e eu odiava cada segundo disso. É por isso que usava moletom com capuz e iPod o tempo todo. Não era só um péssimo gosto para a moda, sabe?
Faço uma pausa e olho para ele, e noto que suas costas e seus ombros ficam mais firmes.
— Foi o único jeito que encontrei de bloquear tudo aquilo. Quer dizer, pode ter parecido ridículo para você, mas era útil. Só quando Ava me ensinou a me proteger e a desligar tudo aquilo é que consegui mudar. Então, sim, de certa forma, você está certo. Desde o momento em que nos conhecemos, pude ouvir tudo o que passou pela cabeça de todo mundo. Só que não foi porque eu quis ouvir, mas porque não tive escolha. Mas, quanto ao restante, assunto seu é assunto seu, Miles. É sério, evitei completamente ouvir seus segredos. Tem que acreditar em mim.
Meu olhar o segue, e vejo enquanto ele continua a rodar pela loja, de costas para mim, com o rosto virado de um jeito que não consigo vê-lo. Apesar disso, sua aura está ficando brilhante, iluminando-se, um sinal óbvio de que ele está mudando de ideia.
— Desculpe — ele diz, finalmente virando-se para mim.
Estreito os olhos, tentando imaginar por que diabo ele se desculpou depois disso tudo.
Mas ele apenas balança a cabeça e diz:
— As ideias que eu tinha sobre você... Bem, não exatamente você, era mais sobre o tipo de roupa que usava... Mas, ainda assim. — Ele se afasta. — Não acredito que compartilhava esses pensamentos.
Dou de ombros, mais do que disposta a esquecer aquilo. Para mim, é apenas passado.
— Quer dizer, depois de tudo aquilo, você ainda estava disposta a andar comigo, ainda estava disposta a me levar ao colégio todo dia, ainda estava disposta a ser minha amiga... — Ele encolhe os ombros e suspira.
— Aquilo não importa. — Sorrio, cheia de esperança. — Tudo o quero saber é: ainda está disposto a ser meu amigo?
Ele concorda com a cabeça. Concorda, aproxima-se de mim, com as mãos esticadas sobre o balcão e diz:
— Caso esteja se perguntando, na verdade foi Haven quem me contou primeiro.
Suspiro, pois já esperava por isso.
— Bem, não, volta um pouco, porque ela só meio que me contou. — Ele para e aponta para um anel na parte inferior do vidro, que eu rapidamente pego para ele experimentar. — Basicamente, ela me chamou para ir à casa dela... — Faz uma pausa com as sobrancelhas arqueadas enquanto levanta a mão para admirar o anel, antes de tirá-lo e apontar para outro. — Sabe que ela se mudou, né?
Faço que sim com a cabeça. Na verdade, não sabia, mas, de novo, acho que devia ter adivinhado.
— Está morando na casa de Roman agora. Não tenho certeza de quanto tempo vai durar, mas ela tem falado sobre emancipar-se, então acho que é bem sério. De qualquer maneira, resumindo, ela basicamente me convidou, serviu uma taça cheia de elixir e tentou me fazer tomar um gole sem me dizer o que era.
Balanço a cabeça. Não posso acreditar em como esse comportamento é irresponsável. Bem, vindo de Haven, posso, mas, ainda assim, não é bom.
— E, quando eu recusei, ela fez drama, olhou para mim e disse... — Ele limpa a garganta, preparando-se para imitar o tom de voz áspero de Haven, e acerta em cheio quando diz: — Miles, se alguém lhe oferecesse beleza eterna, força eterna, incríveis poderes mentais e físicos... Você aceitaria? — Ele revira os olhos. — Então ela olhou para mim, com aquela safira azul que de algum jeito incrustou na testa, praticamente me cegando, e me encarava com muita indignação, eu respondi: “ Hã, não, obrigado.”
Sorrio, tentando imaginar a cena:
— Com isso, é claro, ela presumiu que eu não tinha entendido direito aonde ela queria chegar e tentou explicar de novo, dessa vez com mais detalhes. Mas eu insisti que não. Então ela começou a ficar irritada de verdade e contou praticamente tudo o que Damen contou... Sobre o elixir, como ele transformou você, como você a transformou. Em seguida ela contou umas coisas que Damen não me contou, sobre como você acabou matando Drina Roman...
— Eu não matei... — Roman. Começo a dizer que não matei Roman, que Jude é o responsável por isso. Mas quase tão rápido quanto comecei, desisto. Miles já sabe mais do que deveria.
Não cabe a mim revelar mais nada.
— Seja como for — ele dá de ombros, como se estivesse falando sobre assuntos puramente normais e racionais —, quando ela de novo tentou fazer com que eu bebesse, eu disse que não mais uma vez. E então, quando ela começou a ficar nervosa, e quero dizer realmente possessa, tipo uma criança de dois anos surtando, eu disse:
Alô-ou, aí é que está: se esse negócio realmente funcionasse, Drina e Roman ainda estariam aqui, certo? E, já que eles não estão, bom, acho que significa que não era assim tão imortais afinal, eram?” — Ele para e olha para mim com seu olha penetrante. — Então ela disse que, logo que terminasse com você, esse pequeno problema estaria resolvido de vez. Que eu só precisava confiar nela, que elixir dela era bem melhor que o seu e que tudo o que eu precisava fazer era tomar alguns goles e teria saúde eterna, bem-estar eterno, beleza eterna e vida eterna por, bem, por toda a eternidade.
Engulo em seco, meu olhar fixo em sua aura, que agora irradia um tom brilhante de amarelo.
A única garantia que tenho de que ele não mordeu a isca... Pelo menos não até agora.
— E, preciso dizer, ela estava tão convincente com aquele tom de voz de vendedora que eu disse que precisava pensar. — Ele dá de ombros. — Disse a ela que iria fazer uma pesquisa por conta própria e que responderia em mais ou menos uma semana.
Então, eu paro, pois são tantas palavras de uma vez só que não tenho ideia de por onde começar.
Mas ele solta uma gargalhada sonora, daquelas de doer a barriga, e balança a cabeça olhando para mim.
— Relaxe, estou brincando. Quer dizer, nossa, o que você pensa que eu sou... Algum tipo de idiota vaidoso e superficial? — Ele revira os olhos e então se contém e diz: — Desculpe, não quis ofender. Mas o que importa é que eu disse não. Um claro e inconfundível não. E ela me falou que a oferta estaria de pé, que, se a qualquer momento eu mudasse de ideia, a fonte da juventude seria minha.
Olho para ele, vendo-o por uma ótica totalmente diferente. Surpresa por ele ter recusado de verdade uma oferta como aquela. Quer dizer, Jude sempre diz que não escolheria a imortalidade, mas, na prática, nunca lhe ofereceram a bebida, então quem pode dizer o que ele escolheria se realmente tivesse essa opção? E Ava, bem, Ava chegou bem, bem perto de dar esse passo, mas, no fim das contas, desistiu. No entanto, ainda assim, não consigo pensar em muitas outras pessoas além de Miles e Ava que recusariam uma oferta desse tipo.
Ele olha para mim, ergue as sobrancelhas, fingindo estar ofendido e diz:
— O que foi? Por que está tão surpresa? É porque imaginava que alguém como eu... Alguém que é ao mesmo tempo gay e ator com certeza não deixaria uma chance dessa passar? — Ele estreita os olhos e balança a cabeça. — Isso é usar estereótipos, Ever. Deveria envergonhar-se por pensar assim.
Ele me lança um olhar de completo desprezo que faz com que eu me sinta tão mal que me apresse em me defender. Mas, antes que eu comece, Miles faz um sinal para eu não me preocupar. E ri de forma triunfante ao dizer:
— Há! E isso é o que se chama de atuar! — Ele gargalha, todo o seu rosto se ilumina, os olhos brilham de alegria. — Ou pelo menos no finalzinho eu atuei... A parte sobre estereótipos. Todo o restante foi totalmente verdadeiro. Viu como minha habilidade está melhorando?
Ele passa os dedos pelos cabelos, apoia os cotovelos no balcão e se inclina em minha direção.
— É o seguinte... A única coisa que quero no mundo, o único sonho que tenho, é ser ator. — Ele me olha fixamente. — Um ator dramático de verdade, dedicado à arte. É meu único objetivo. Minha ambição. Não tenho interesse em me tornar um grande, falso e maquiado astro de cinema. Nem capa viva da People. Não estou nessa área pelas festas, ou os escândalos, ou as idas e vindas de clínicas de reabilitação... Estou pela arte. Quero transformar histórias em realidade, encarnar personagens variados. Não sei explicar como me sinto ao me entregar a um papel, é... É incrível. E é algo que quero sentir muitas vezes. Mas quero interpretar todos os tipos de papel... Não apenas personagens jovens e bonitos. E, para que eu aprenda e cresça e me aperfeiçoe, preciso viver. Preciso ter uma vida plena, em todos os seus estágios... Juventude, meia-idade, velhice... Quero tudo. Não dá para interpretar a vida se não se permite vive-la. — ele faz uma pausa breve, deixando seus olhos percorrerem meu rosto. — Esse medo da morte do qual conseguiu se livrar, eu o quero. Droga, eu preciso dele! É uma das forças mais básicas e primitivas que temos de nos guiar... Então, por que eu deveria considerar me livrar disso? As experiências que me permito ter, no fim das contas, só vão alimentar minha arte... Mas só se eu ainda for mortal. Não se propositalmente me transformar em um imbecil congelado no tempo, ultraglamouroso, que nunca muda não importa quantos séculos passem.
Meu olhar encontra o dele, e não sei se me sinto aliviada ou ofendida, mas, no contexto geral, escolho aliviada.
— Desculpe. — Ele dá de ombros. — É sério, sem ofensa. Só estou tentando explicar meu lado. Sem mencionar o fato de que, por acaso, gosto de comer. Na verdade, gosto tanto que nem consigo pensar em fazer uma dieta permanente só de líquidos. E também gosto de ver as mudanças que cada ano que passa traz, as impressões que ele deixa para trás. E, acredite se quiser, também não quero que minha cicatrizes desapareçam. Gosto delas. São parte de mim... Parte de minha história. E algum dia, se tiver sorte o bastante para chegar a ser velho... E provavelmente impotente, senil, gordo e careca, ficarei contente com minhas lembranças.
Quero dizer, considerando que elas não serão todas perdidas em função de Alzheimer ou de algo parecido. Mas é sério, antes que comece a se defender...
Ele tira a mão de cima do balcão e a ergue, percebendo que estou prestes a interrompê-lo.
— Antes que comece a me dizer como Damen acumulou mais memórias que todos nós juntos e como é perfeitamente equilibrado e alegre, o que eu quero dizer de verdade é: desejo, mais que tudo, chegar ao fim da vida com uma imagem definida de antes e depois para poder relembrar. Para mostrar que fiz realmente o melhor que pude com o que tive e que minha vida foi bem vivida.
Olho para ele, tentando recuperar minha voz e murmurar algum tipo de resposta, mas não consigo. Minha garganta está quente e apertada, completamente fechada. E, antes que consiga me segurar, antes que consiga desviar meu olhar para algo que não seja ele... As lágrimas chegam.
Elas escorrem livremente pelo meu rosto, e sua intensidade aumenta a ponto de eu não conseguir mais parar, não conseguir mais conter o choro e os tremores nem o profundo abismo de desespero que faz minhas entranhas se contorcer.
Miles corre para meu lado do balcão e me acolhe nos braços, alisando meu cabelo e fazendo o possível para me acalmar, sussurrando palavras doces em meus ouvidos.
Mas eu não acredito.
Sei que os sentimentos não são nem um pouco verdadeiros.
Que na verdade não vou ficar bem.
Pelo menos não do jeito que ele diz que vou.
Posso ter beleza e juventude eternas, posso ter a dádiva de viver para sempre, mas nunca terei de volta a vida agradável e maravilhosamente normal que Miles acabou de descrever.

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