3 de novembro de 2015

Dois

 Não podemos simplesmente ignorar. — Eu me viro para encarar Damen, sabendo ao mesmo tempo que tenho razão e que ele não concorda.
— Claro que podemos. Na verdade, já estou ignorando. — Suas palavras saem muito mais bruscas do que ele pretendia, incitando o pedido de desculpas que logo brota em sua mão: uma tulipa vermelha com caule verde e curvado.
Ele me oferece a flor e eu a aceito prontamente, levo-a ao nariz e deixo as pétalas macias roçarem meus lábios enquanto sinto o perfume quase imperceptível que ele colocou ali para mim. Observo-o caminhar pelo amplo espaço entre a cama e a janela, os pés descalços atravessando o piso de pedra e pisando no tapete felpudo, voltando ao piso de pedra e depois ao tapete. Estou ciente de seu conflito interno e sei que preciso apresentar meus argumentos logo, antes que ele consiga formular os dele.
— Você não pode simplesmente dar as costas a uma coisa por ela ser estranha, diferente, ou, neste caso, muitíssimo desagradável. Damen, é sério, acredite que estou tão assustada quanto você em relação a ela. E, ainda assim, me recuso a acreditar que o fato de ela nos encontrar repetidamente seja irrelevante, mera coincidência. Coincidências não existem e você sabe bem disso. Ela está tentando me dizer algo há semanas. Cantando essa música, apontando o dedo e ... — Meu corpo estremece e se contorce em um movimento involuntário que eu preferia que Damen não visse, então afundo nos cobertores e esfrego as mãos nos braços, numa tentativa de impedir os arrepios. — De qualquer modo, ficou claro que ela está tentando nos dizer algo ou dar algum tipo de pista. E, bem, acho que deveríamos pelo menos tentar descobrir o que pode ser. Você não concorda? – Faço uma pausa e lhe dou a chance de responder, mas só vejo a teimosia de um erguer de ombros e a inflexibilidade de um inclinar de cabeça, gestos que se seguem por um silêncio prolongado enquanto Damen olha pela janela, de costas para mim. Isso praticamente me impele a continuar: — Quer dizer, que mal pode haver em tentarmos? Se no fim das contas ela for tão velha, louca e senil como você pensa, então tudo bem. Que seja. Não faz mal. Por que se preocupar com alguns dias perdidos quando temos a eternidade pela frente? E se ela não for louca, bem...
Antes que eu possa terminar, ele se vira com uma expressão tão obscura e atormentada que não consigo deixar de me retrair.
— Que mal pode haver? — Sua boca se contorce em um movimento severo e ele encara fixamente meus olhos. — Depois de tudo pelo que passamos, você ainda faz essa pergunta?
Chuto o tapete com o dedão, muito mais séria que ele pensa, muito mais séria que estou preparada para deixar transparecer. Lá no fundo, um instinto me diz que a cena que acabamos de testemunhar significa muito mais que ele quer admitir. O universo não é aleatório. Há uma razão para tudo. E não tenho dúvidas em meu coração, em minha alma, de que aquela senhora aparentemente louca e cega está dando uma pista de algo que necessito muito saber.
Mas não faço ideia de como convencer Damen disso.
— É assim que quer passar as férias de inverno? Investigando o enigma de uma velha louca? Tentando descobrir um sentido mais profundo que, em minha modesta opinião, não existe?
Melhor que as outras opções, penso, com essas palavras apenas em minha cabeça, lembrando-me do rosto de Sabine na madrugada em que finalmente voltei para casa — logo após ter mandado minha ex-melhor amiga para Shadowland e ter improvisado um funeral em Summerland. O modo como ela olhou para mim, apertando o roupão na cintura, a boca séria e pálida. Mas os olhos foram o pior: as íris, normalmente azul-claras, estavam escurecidas pelas olheiras fundas. Ela me encarou com uma terrível combinação de raiva e medo, voz áspera, palavras calculadas, bem-ensaiadas, quando me deu a opção de procurar a ajuda que acha que eu preciso ou encontrar outro lugar para morar. Sabine tinha certeza de que foi apenas por rebeldia que fiz que sim com a cabeça, virei as costas e saí.
Segui para a casa de Damen, onde estou desde então.
Afasto o pensamento, escondendo-o em um lugar onde possa revê-lo depois. Sei que em algum momento terei de encarar nossos problemas, mas por enquanto a questão sobre o lado sombrio de Summerland é prioridade máxima.
Não posso me permitir distrações, não quando ainda tenho uma carta na manga. Algo que, no momento que noto a onda de inquietação que invade o rosto de Damen, percebo que ele torcia para que eu não mencionasse.
— Ela sabia seu nome — digo, consternada pelo modo como ele sacode os ombros e tenta ignorar a questão.
— Ela anda por Summerland, um lugar onde há muito conhecimento. Tudo está facilmente disponível. — Ele franze a testa e entorta a boca para o lado. — Certamente está tudo lá, nos Grandes Salões do Conhecimento, para qualquer um descobrir.
— Não é bem para qualquer um — afirmo. — Apenas os merecedores — digo, lembrando que há pouco tempo passei por uma experiência oposta. Estava entre os não merecedores, e os Grandes Salões do Conhecimento me impediram de entrar até que eu me restabelecesse e recuperasse minha sorte, como diria Jude. Uma época terrível pela qual espero nunca mais passar.
Damen olha para mim e, embora esteja claro que ele não planeja ceder de imediato, também percebo que pretende chegar a um acordo. Agir de forma defensiva e evasiva não nos leva a lugar algum. Precisamos de ação. Precisamos de um plano.
— Ela sabia que você se chamava Esposito. — Observo-o com cuidado, imaginando como vai tentar sair dessa. — O nome da época em que ficou órfão — acrescento, referindo-me ao sobrenome que lhe impuseram quando ainda era mortal, logo depois que seus pais foram assassinados e ele, sem família, ficou sob a tutela da Igreja.
Mas ele é rápido na resposta:
— Novamente, mais informação disponível a qualquer um que procure. Não é nada além de uma lembrança infeliz de um passado distante com o qual prefiro não perder tempo. — Ele termina com um suspiro, sinal claro de que sua vontade de persistir na briga está se esvaindo junto com o ar.
— Ela também o chamou por outro nome. Notte? — Olho para Damen, deixando bem claro que, ainda que ele prefira mudar de assunto, eu ainda não encerrei este. Preciso de respostas. Respostas sólidas e verdadeiras. Um erguer de ombros e um franzir de testa não bastam.
Ele se vira, mas apenas por um instante, e logo volta a me encarar. O modo como curva os ombros, o modo como enterra as mãos nos bolsos, o modo como o maxilar relaxa, cedendo silenciosamente... bem, isso faz com que eu sinta mal por pressioná-lo tanto assim. Mas a sensação não dura muito e logo é vencida pela curiosidade, e eu cruzo os braços à espera de uma reposta.
— Notte — ele diz, confirmando com a cabeça, dando à palavra um lindo sotaque italiano que eu jamais conseguiria imitar. — Um de meus nomes. Um dos muitos, muitos sobrenomes que tive.
Olho para ele sem me permitir piscar, sem querer perder nada.
Observo a linha de seu corpo longo e esguio enquanto ele engole em seco, esfrega o queixo, cruza os pés e se apoia no peitoril da janela. Ele para e mexe nas persianas, olha para a piscina, para a luz da lua refletida no mar. Então fecha tudo e se volta para mim.
— Ela também me chamou de Augustus, que era meu segundo nome, o do meio. Minha mãe insistiu que eu tivesse um, embora não fossem tão comuns naquela época. E, como você e eu nos conhecemos em agosto, em oito de agosto, para ser mais exato, bem, passei a usar Auguste como sobrenome, com essa ligeira mudança no final, imaginando algum significado mais profundo por trás de tudo isso. Achando que de algum modo isso me ligava a você.
Engulo em seco, um tanto surpreendida por uma emoção pela qual não esperava, e fico mexendo no bracelete com ferraduras de cristal que ele me deu naquele dia na pista de corrida de cavalos.
— Mas você precisa entender, Ever, que vagueio pelo mundo há muito tempo. Não tive escolha a não ser mudar de identidade várias vezes. Não podia correr o risco de que alguém se desse conta de meu tempo de vida absurdamente longo, nem da verdade sobre... o que eu sou.
Concordo com a cabeça. Tudo o que ele disse até agora faz muito sentido, porém há mais, muito mais, e ele sabe disso.
— E de quando é o nome Notte, então? — pergunto.
Ele fecha os olhos e esfrega as pálpebras, mantendo-os fechados enquanto diz:
— De sempre. Do começo. É o nome de minha família. Meu sobrenome verdadeiro.
Controlo a respiração, determinada a não reagir de forma exagerada. Minha mente está inundada de perguntas, sendo que a mais importante é: Como diabo a velha pode saber disso? Seguida de: Como diabo a velha pode saber disso se nem eu sabia?
— Não havia motivo para contar — ele responde ao pensamento em minha mente. — O passado é apenas isso: passado. Já foi. Não há por que voltar a ele. Prefiro me concentrar no presente, no agora, neste momento. — Seu rosto se eleva um pouco e os olhos escuros se iluminam fitando os meus. Brilhando com a expectativa de uma ideia que parece ter acabado de lhe passar pela cabeça, ele vem em minha direção na esperança de que eu concorde com seus planos.
Seu progresso logo é interrompido quando digo:
— Você não parece se importar em voltar ao passado quando vamos ao pavilhão. — E, quando vejo o modo como ele vacila, repreendo-me por não estar sendo justa.
O pavilhão, o lindo presente que ele materializou em meu aniversário de dezessete anos, é o único lugar onde podemos ficar realmente juntos... Bem, dentro dos limites dos acontecimentos da época em que estivermos. Mas, ainda assim, é o único local onde podemos ter contato de pele com pele sem temer pela morte de Damen, livres de qualquer medo de desencadear a maldição do DNA que nos mantém separados aqui, no plano terreno. Apenas escolhemos uma cena de nossas vidas passadas, entramos nela e nos deixamos levar pelo romantismo e a exuberância do momento. Admito que amo cada segundo disso tanto quanto ele.
— Desculpe — começo a dizer. — Eu não pretendia...
Mas ele apenas ignora. Volta a seu lugar no peitoril da janela e diz:
— Então, o que quer que eu faça, Ever? — Seu olhar compensa a ternura que parece faltar nas palavras. — Como quer que eu prossiga daqui em diante? Estou disposto a contar o que quiser saber sobre meu passado. Ficarei feliz em traçar uma linha do tempo contendo cada nome que tive, incluindo as razões de tê-los escolhido. Não precisamos de nenhuma velha doida para isso. Não tenho intenção de esconder nada de você, nem de enganá-la. Só não falamos disso até agora porque me pareceu desnecessário. Prefiro olhar para a frente a olhar para trás.
No silêncio que se segue, ele esfrega os olhos e leva a mão à boca para conter um bocejo. Uma rápida olhada no relógio ao lado da cama revela o porquê: estamos no meio da noite. Não o deixei dormir.
Estico o braço e ofereço-lhe minha mão. Puxo-o para perto de mim, na direção da cama. Sorrio ao ver que seus olhos se animam pela primeira vez no dia, já que ele acordou com meus tapas e chutes enquanto eu tentava escapar de um terrível pesadelo. Logo sou tomada por sua ternura, pelo formigamento e o calor que só ele provoca. Seus braços deslizam por meu corpo e ele me empurra para trás, de volta aos cobertores, aos travesseiros e lençóis embolados, os lábios passeando por minha clavícula até chegarem ao pescoço.
Minha boca está em sua orelha, mordiscando, puxando. Minha voz não passa de um sussurro quando digo:
— Você está certo. Isso pode esperar até amanhã. Por enquanto, só quero estar aqui.

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