2 de novembro de 2015

Dois

Aterrissamos no meio do campo de tulipas, cercado por centenas de milhares de lindas flores vermelhas. As pétalas rubras e macias reluzem no brilho nebuloso e constante, os longos caules verdes balançando com a brisa que Damen acabou de materializar.
Deitamos de costas, olhando para o céu, e reunimos um grupo de nuvens sobre nossa cabeça, moldando-as em forma de animais e de objetos simplesmente ao imaginá-los. Depois desfazemos tudo, entramos e nos jogamos no sofá grande e branco como um marshmallow.
Meu corpo afunda nas almofadas enquanto Damen pega o controle remoto e se aninha a meu lado.
— E então? Por onde começamos? — Ele pergunta, as sobrancelhas erguidas de um modo que diz que está tão ansioso para começar quanto eu.
Encolho os pés sob meu corpo e apoio a cabeça na palma da mão, olhando de forma provocadora enquanto digo:
— Hum... essa pergunta é difícil de responder. Pode dizer novamente quais são as minhas opções? — Meus dedos entram debaixo da barra de sua camisa, e sei que daqui a pouco, bem pouco, poderei tocá-lo de verdade.
— Bem, tem a sua vida parisiense, para a qual, por acaso, você já está vestida. — Ele faz um gesto afirmativo com a cabeça, olhando para o decote pronunciado de meu vestido, passa os olhos pelas linhas profundas do modelo, e por fim, encontra meus olhos novamente. — Então, é claro, tem a vida de puritana, que para ser sincero, não foi uma de minhas preferidas...
— E isso é por causa das roupas? Das cores escuras, monótonas, e dos vestidos abotoados até o pescoço? — pergunto, lembrando-me do vestido feio que usava naquela época, de como era desconfortável, de como o tecido arranhava minha pele, e considero que definitivamente também não era uma de minhas vidas preferidas.
— Porque se for esse o caso, então você deve ter realmente gostado de mim na versão londrina, como a filha mimada de um rico proprietário de terras. O guarda-roupa era incrível, cheios de vestidos brilhantes e decotados e pilhas e pilhas de sapatos maravilhosos — digo, ciente de que essa é, de fato, uma de minhas favoritas, se não por outros motivos, pela simplicidade do meu cotidiano naquela época, em que a maioria dos dramas que eu enfrentava era causada por mim mesma.
Ele olha para mim, passando os olhos por meu rosto enquanto sua mão alisa minha maçã do rosto. Aquele insistente véu de energia vibra teimosamente entre nós, mas só até escolhermos um cenário.
— Bem, se quer saber, devo admitir que tenho uma queda por Amsterdã. Quando eu era o artista e você, minha musa, e...
—... E eu passava a maior parte do tempo seminua, coberta apenas por meus longos cabelos ruivos e uma fina tira de seda. — Balanço a cabeça e rio, nem um pouco surpresa com sua escolha. — Mas seu que esse não é o motivo real, não é? É apenas coincidência, certo? Bem, certamente você estava mais interessado nos aspectos artísticos do que em qualquer outra questão...
Inclino-me em sua direção, distraindo-o com um beijo rápido no rosto enquanto roubo o controle remoto de sua mão. Vejo sua expressão mudar, demonstrando uma falsa indignação, e começo a me divertir com a brincadeira improvisada.
— O que você esta fazendo? — ele pergunta, tentando, de forma mais séria, tomar o controle de mim e demonstrando preocupação.
Mas não vou desistir. Nem ceder. Mesmo porque todas as vezes que estamos aqui ele se apodera do controle remoto e, pelo menos uma vez, quero ser eu a surpreendê-lo.
Eu seguro o controle no alto, acima da altura de minha cabeça, jogando-o de uma das mãos para a outra, determinada a mantê-lo fora de seu alcance.
Um pouco ofegante pelo esforço, olho para ele e digo:
— Bem, tendo em vista que é impossível entrarmos em um acordo quanto às nossas preferências, acho que posso simplesmente apertar um botão qualquer e ver para onde vamos...
Ele olha para mim, o rosto subitamente pálido e os olhos austeros. Toda a sua expressão, droga, toda a sua atitude se transforma de modo tão impressionante, tão sério... E, para ser sincera, tão exagerado para a situação, que chego muito perto de ceder. Mas de repente mudo de ideia e aperto um botão.
Resmungo algo sobre sua necessidade tipicamente masculina de dominar o controle remoto, enquanto a tela se ilumina com uma imagem de...
Bem... De algo que eu nunca vira.
— Ever! — Ele respira fundo. Sua voz é grave, firme, mas não esconde a urgência. — Ever, por favor apenas me dê o controle... Eu...
Ele tenta pegá-lo novamente, mas é tarde demais, eu já o enfiei embaixo da almofada.
Já o escondi dele.
Já vi as imagens que passam diante de mim.
É... é o sul dos Estados Unidos antes da guerra civil. E, embora não saiba exatamente onde, posso dizer, pelas casas, pela forma como são construídas, que acredito ser o que chama de “estilo colonial”, e pela diferença na paisagem — o céu parece quente, brilhante e incrivelmente úmido como nunca vi ou senti antes em nenhuma de minhas outras vidas — que se trata do extremo sul. Como um plano geral em um filme, uma imagem que sinaliza em que lugar da historia você está.
Então, num instante, estamos dentro de uma daquelas casas. A imagem é o close de uma menina parada diante da janela que deveria estar limpando, mas, em vez disso, está olhando para fora com uma expressão suave e sonhadora.
Ela é alta para a idade, magra, tem ombros estreitos. Sua pele é escura e brilhante, e as pernas finas e compridas, parecem ter quilômetros antes de terminarem nos tornozelos magrelos, e surgem sob a barra de seu vestido simples de algodão. A roupa está tão gasta que obviamente foi remendada várias vezes. Mas está passada e assim como o restante dela, limpa. Mesmo que só consiga vê-la de perfil, já que está de lado, noto que seus longos cabelos escuros formam espirais na cabeça, em uma complicada série de nós e tranças.
Mas é apenas quando ela se vira, pondo-se de um modo em que posso ver seu rosto nitidamente, que olho naqueles profundos olhos castanhos e percebo que... Estou olhando para mim!
Eu suspiro; o som de minha respiração ecoa pelas paredes de mármore branco polido enquanto olho para um rosto tão jovem e tão belo, porém ao mesmo tempo marcado por uma expressão entristecida demais para sua/minha idade. E no momento seguinte, quando um homem branco muito mais velho aparece, tudo faz sentido.
Ele é o senhor. Eu sou sua escrava. E não há tempo para ficar sonhando acordada aqui.
— Ever, por favor — Damen implora. — Devolva-me o controle agora, antes que você veja algo de que se arrependa, algo que nunca conseguirá apagar da mente.
Mas eu não devolvo.
Ainda não posso fazer isso.
Sinto-me compelida a assistir àquele homem estranho, que não reconheço de nenhuma de minhas vidas, sentir prazer em bater nela — em mim — pelo simples pecado de sonhar com uma vida melhor.
Não estou ali para ter esperança, para sonhar nem nada do tipo. Não estou ali para imaginar lugares distantes ou um amor que irá me salvar.
Não há salvação para mim.
Não há um lugar melhor.
Nenhum amor virá.
É assim que vivo, assim que morrerei.
Liberdade não é para pessoas como eu.
E, quanto antes eu me acostumar a isso, melhor, ele me diz, e repete a cada chicotada.
— Por que você nunca me contou? — sussurro com a voz grave, quase inaudível. Totalmente abalada com as imagens diante de mim, assisto enquanto resisto ao tipo de surra que eu nem imaginava existir. Absorvo cada um dos golpes com um mero tremor, determinada a manter um voto de silêncio e dignidade.
— Como pode ver, não é uma das vidas românticas — diz Damen, a voz rouca de arrependimento. — Algumas partes, com a que está vendo agora, são extremamente desagradáveis, e não tive tempo de editar ou de assistir. Foi o único motivo pelo qual eu escondi de você. Mas, assim que tiver tempo, prometo deixá-la assistir. Acredite se quiser, houve momentos felizes. Não foi assim o tempo todo. Mas, Ever, faça um favor a si mesmo e desligue isso antes que fique pior.
— Que fique pior? — Eu me viro, os olhos cheios de lágrimas pela menina indefesa diante de mim. A menina que eu fui.
Mas ele apenas faz um gesto com a cabeça, tira o controle de sob a almofada e desliga a tela imediatamente. Nós dois ficamos ali sentados, quietos, abatidos pelo horror do que vimos.
Determinada a quebrar o longo silêncio, digo:
— E as minhas outras vidas, todas aquelas cenas que gostamos de relembrar... Elas foram editadas também?
Ele olha para mim com as sobrancelhas unidas de preocupação.
— Foram. Achei que eu tivesse explicado na primeira vez que viemos aqui. Nunca quis que você visse algo tão perturbador quanto aquilo. Não adianta nada reviver o trauma de fatos que não podemos mudar.
Balanço a cabeça e fecho os olhos, mas isso não impede que as imagens brutais continuem passando em minha mente.
— Acho que não me dei conta de que era você quem editava, talvez eu tenha pensado que o próprio lugar, de algum modo, fizesse isso... Como se Summerland não permitisse nada de ruim...ou...algo assim...
Mudo de assunto, preferindo deixá-lo pendente. Lembro-me daquela parte escura, chuvosa e assustadora com que deparei uma vez e me dou conta de que, como o yin-yang, toda escuridão tem sua luz, incluindo Summerland, ao que parece.
— Eu construí este lugar, Ever. Construí especialmente para você. Para nós. O que significa que sou eu que edito as cenas — ele liga a tela novamente, tomando o cuidado de escolher uma visão mais agradável; nós dois saindo escondidos no meio de um baile. Um momento feliz da frívola vida londrina da qual não sou tão fã... Uma tentativa óbvia de deixar o clima mais leve, de banir a cena sombria que acabamos de ver. Mas não é tão eficaz. Uma vez vistas, aquelas imagens terríveis não são fáceis de esquecer.
— Há muitos motivos para não nos lembrarmos de nossas vidas passadas quando reencarnamos, e o que você acabou de vivenciar é um deles. Às vezes são memórias dolorosas demais para lidarmos com elas, duras demais para superá-las. Lembranças assombram. Eu sei disso. Venho sendo assombrado por varias das minhas. Há seiscentos anos.
Ele tenta ir na direção da tela, na direção de uma versão bem mais feliz de mim, mas não adianta. Não há cura imediata para o que eu sei agora.
Ate aquele momento, estava certa de que minha vida como humilde empregada parisiense era o pior que tinha acontecido. Mas uma escrava de verdade? Eu balanço a cabeça. Nunca nem me imaginei uma coisa assim. E, para ser sincera, a brutalidade do fato me deixou sem fôlego.
-o propósito da reencarnação é vivenciar o máximo possível de vidas diferentes — diz Damen, sintonizando meus pensamentos. — É assim que aprendemos as lições mais importantes sobre amor e compaixão, ao nos colocarmos literalmente no lugar do outro, que, no final, se torna o nosso lugar.
— Achei que tivesse dito que o propósito fosse equilibrar nosso carma. — Franzo a testa, esforçando-me para entender tudo.
Ele balança a cabeça concordando. Seu olhar é paciente e gentil.
— Nós desenvolvemos nosso carma pelas escolhas que fazemos, pela rapidez ou pela lentidão com que aprendemos as lições que realmente importam no mundo, pela velocidade com que nos entregamos à verdadeira finalidade de estarmos aqui.
— E qual é? — pergunto, com a mente ainda vagando. — Qual é a verdadeira finalidade?
— Amarmos uns aos outros. — Ele dá de ombros. — nem mais, nem menos. Parece bastante simples, fácil de fazer. Mas basta olhar nossa história, incluindo a cena que acabamos de ver, e acho que parece claro que é uma lição difícil para muitas pessoas.
— Então você estava tentando me proteger disso? — pergunto, começando a fica curiosa. Parte de mim queria ver mais, descobrir como ela/eu passou por isso. E parte de mim sabe que alguém que aprendeu a suportar surras daquele tipo em silêncio e com tanta dignidade já recebeu muitas delas.
— Apesar do que você viu, quero que saiba que certamente existiram momentos bons. Você era tão linda, tão radiante, e assim que consegui afastá-la de tudo aquilo...
— Espere aí... Você me salvou? — Encaro-o com os olhos arregalados, como se estivesse olhando para meu próprio príncipe encantando. — Você me libertou?
— Digamos que sim... — Ele confirma com a cabeça, mas seu olhar hesita, a voz falha, e torna— se claro que ele está mais do que pronto para mudar de assunto.
— E nós éramos... Felizes? — pergunto, precisando ouvir de sua boca. — Realmente, verdadeiramente felizes?
Ele faz que sim, abaixando um pouco a cabeça e depois levantando, mas só isso.
— Até Drina me matar — digo, completando a parte que ele não quer compartilhar. Era sempre ela que apressava minha morte, então por que seria diferente com a vida de uma escrava? Noto que a expressão dele se torna séria e as mãos começam a se agitar, mas ainda assim decido pressioná-lo e continuo: — Então, conte-me o que ela fez dessa vez. Ela me empurrou na frente de uma carruagem, me jogou de um penhasco, me afogou em um lago? Ou tentou algo completamente novo e diferente?
Ela olha em meus olhos, obviamente preferindo não responder. Mas presume corretamente que eu não desistiria até ouvir dele próprio, então diz:
— Tudo de que você precisa saber é que ela nunca se repetia. — Ele suspira, com uma expressão solene e grave no rosto. — Provavelmente porque gostava muito de fazer isso, gostava muito de ser original, de usar novos métodos. — Ele se retrai. — E imagino que não quisesse que eu desconfiasse. Me ouça, Ever, mesmo que isso que você viu seja incrivelmente trágico, no final eu amei você e você me amou, e foi maravilhoso enquanto durou.
Desvio o olhar, determinada a absorver tudo aquilo. Mas é demais.
É demais para o momento, com certeza.
— E algum dia você me mostrará? — Eu o encaro novamente.
Vejo a promessa em seu olhar quando ele olha para mim e diz:
— Sim, mas primeiro me dê algum tempo para editar, certo?
Faço que sim e vejo a forma como seus ombros caem e seu maxilar relaxa. Foi praticamente tão difícil para ele quanto para mim.
— Mas, por enquanto, o que acha de não termos mais surpresas? Por que não vamos a algum lugar mais feliz, melhor, mais divertido, que tal?
Fico sentada por um instante, sentindo-me extremamente sozinha com meus pensamentos, como se ele não estivesse ali.
Logo sou despertada pelo som de sua voz em meu ouvido, dizendo:
— Ei, veja, eles estão chegando à parte boa. O que acha de nos transformarmos neles?
Olho para a tela, onde uma versão muito diferente de mim sorri, radiante.
Meus cabelos escuros cintilam com uma série de grampos e jóias encomendados especialmente para combinar com meu lindo vestido verde-esmeralda feito à mão. Vejo como me comporto com confiança, tão certa de minha beleza, meus privilégios, meu direito de sonhar com o que quiser, de ter tudo o que desejar, de reivindicar quem eu escolher, incluindo esse estranho moreno e lindo que acabei de conhecer.
Aquele que faz os muitos pretendentes que deixei dentro do salão parecerem terrivelmente desinteressantes quando comparados a ele.
É uma versão de mim tão oposta àquela que acabei de ver que não faz sentido. E, mesmo que eu esteja determinada a rever aquele outra versão de mim em breve, por enquanto posso esperar.
Viemos até aqui para desfrutar os últimos momentos de diversão do verão, e farei de tudo para aproveitarmos.
De mãos dadas, nós nos levantamos do sofá e seguimos para a tela, sem parar até nos fundirmos com a cena.
Meu vestido parisiense é instantaneamente substituído por um verde-esmeralda feito especialmente para mim. Meus lábios mordiscam o canto do queixo de Damen, flertando, brincando com a ponta da língua antes que eu gire sobre meus saltos, segure a barra das saias e leve-o cada vez mais longe, para a parte mais escura do jardim, para um lugar onde ninguém possa nos encontrar. Nem meu pai, nem os empregados, nem meus pretendentes, nem amigos...
Não quero nada além de beijar esse lindo e moreno desconhecido, que sempre surge do nada, que sempre parece saber o que estou pensando, que, desde o primeiro olhar, me atraiu com o formigamento e o calor que causa.
A primeira vez em que olhou dentro de minha alma.

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