3 de novembro de 2015

Dezoito

— Minha querida — Alrik sussurra, virando de lado e olhando para mim, me enxergando com a ajuda dos raios de luz que entram pela janela e por baixo da porta. — Você dormiu?
Murmuro algo sem importância, pois não quero que ele saiba que não. Que eu não podia correr o risco de estragar minha noite perfeita, o amor que fizemos, com outro sonho anunciando a triste realidade que precisarei enfrentar.
— Como se sente? Está arrependida? — Ele me lança um olhar preocupado.
— Arrependida? — Faço que não com a cabeça e sorrio, pressionando os lábios no meio de sua testa. Pego um cacho solto e o afasto de seu rosto para vê-lo melhor. — Do que haveria de me arrepender? Está se referindo à segunda vez? Ou à terceira, quem sabe?
Ele sorri e, mais uma vez, cobre meu corpo com o seu.
— Estava pensando na quarta.
— Quarta? — Estreito os olhos, como se tentasse lembrar. — Não me recordo da quarta. Será que eu estava dormindo? — Pisco, flertando, ciente de que suas mãos já estão em ação, já estão me aquecendo. Levo os braços a seu pescoço e puxo-o mais para perto de mim, dizendo com voz suave e provocadora: — Talvez você devesse refrescar minha memória.
Quando terminamos, ele mostra onde posso me lavar e me vestir, exibe o guarda-roupa cheio de vestidos novos que trouxe só para mim e diz que posso escolher o que quiser para a cerimônia secreta de hoje — e que são todos trabalhados, lindos, apropriados para a mulher que um dia será sua rainha. Ele então monta em seu cavalo e sai galopando. Diz que enviará uma criada para me auxiliar com a vestimenta, algo em que se esqueceu de pensar antes — e promete voltar assim que os arranjos de última hora estiverem resolvidos.
Eu me lavo com calma, impressionada por tudo parecer igual por fora quando por dentro mudou definitivamente. O que quer que aconteça a partir de agora, pelo menos já sei o que é ser amada de maneira tão completa, tão profunda, tão absoluta e incondicional. É como se a força de nosso amor também tivesse-me fortalecido. Isso, junto com o calor reconfortante de um bom banho e de um novo dia ensolarado, faz com que me sinta uma pouco tola por dar tanto crédito ao sonho da noite anterior.
Alrik estava certo. Dei muita importância ao que provavelmente não passa de preocupação reprimida manifestando-se em meus sonhos.
Ainda assim, não me arrependo de ter dormido com Alrik. Nem um pouco. Na verdade, estou ansiosa para reviver essa experiência como sua esposa, imaginando se será diferente.
Prolongo o banho, esperando que a criada chegue, mas, quando já lavei tudo o que podia, quando meus dedos ficam enrugados como uma ameixa-passa, decido me secar e aproveitar bem a variedade de cremes e talcos que Alrik deixou para mim. Depois volto a vestir o penhoar e tento escolher o que usar na cerimônia. Espero que a criada chegue logo para me ajudar. Com todas as camadas, laços e coisas que devem ser apertadas no corpo, é impossível alguém se vestir sem alguma assistência.
Estou arrumando os cabelos, desembaraçando e pensando no que fazer com eles. Sei que Alrik gosta de vê-los longos e soltos, as ondas macias e douradas caindo por meus ombros até a cintura. Mas, como se trata de um casamento, talvez seja mais apropriado trançá-los ou prendê-los de um modo mais elaborado. Ouço baterem à porta e rapidamente me viro para atender, esperando que seja a criada e que ela entenda de penteados.
Mal consigo sair da frente da penteadeira quando ela mesma abre a porta e entra. E, longe de ser a criada que eu esperava, é minha prima Esme quem vejo.
— Ora, ora... — Seus olhos verdes e brilhantes ardem, fixando-se nos meus. Seu olhar é tão flamejante, tão cheio de raiva, que demoro a me recompor, a recobrar o senso de orientação. — Parece que os boatos são verdadeiros. Veja só você aí, quase nua. — Ela estala a língua em reprovação. — Pretende mesmo fugir com ele, não é?
— Como soube? — indago, sem ver motivos para negar. Ela sabe o que sabe. Viu o que viu. A história está clara.
— E isso importa? — Esme ergue a sobrancelha e anda pelo quarto, analisando o local e tudo dentro dele, como se lhe pertencessem. Para e aprecia um quadro, endireitando sua moldura, antes de se concentrar na beira da cama desarrumada, desfeita, onde seus olhos continuam a arder. Ela retorce com raiva a pequena boca rosada.
— Importa — respondo. — Na verdade, acho que importará muito para Alrik. Ele certamente gostará de saber o nome de quem o traiu.
Ela continua a olhar para a cama antes de se virar para mim e dizer:
— Bem, nesse caso, foi Fiona. — Ela ergue os ombros, entregando facilmente a irmã, minha prima. — Você sabe que ela está de olho no Sr. Rhys há algum tempo, então cuidou em fazer amizade com a última conquista dele. Uma leiteira idiota qualquer, pelo que soube. Foi muito engenhoso da parte de Fiona, devo admitir, e ela conseguiu ficar sabendo de tudo. — Ela dá um sorrisinho torto, como se achasse aquilo muito divertido, mas preferisse não se alongar no assunto. — Bem, acontece que nosso querido Rhys gosta de falar enquanto... Dorme... Por assim dizer, pelo menos de acordo com sua companheira de cama mais recente. E então Fiona, como irmã dedicada, mal pôde esperar para me dar a boa-nova. É claro que não acreditei a princípio. Perdoe-me, Adelina, mas a ideia de você e Alrik juntos é simplesmente ridícula, não é?
Ela me encara, e seus olhos brilham como se estivesse na expectativa de que eu concordasse. Quando não o faço, quando continuo parada diante dela, séria, com os olhos semicerrados e os braços cruzados, Esme suspira e diz:
— Mas ela insistiu tanto e, bem, decidi ver com meus próprios olhos. Mas só o que vejo é uma cama bagunçada e uma garota triste, patética e incrivelmente ingênua que parece ter caído no truque mais antigo do mundo. — Ela balança a cabeça e emite um som de reprovação com a língua estalando no céu da boca. — É sério, Adelina, você é mesmo muito patética, não? Abrindo mão de sua honra de bom grado, pela falsa promessa de uma aliança no dedo. Aliança que, sem dúvida, Alrik nunca teve a intenção de lhe dar. — Ela me examina de soslaio. — Não foi uma atitude muito esperta, prima. Não foi nem um pouco esperta. Não percebe que arruinou voluntária e estupidamente sua vida para sempre? Foi corrompida. Usada. Ninguém vai querer se casar com você quando a notícia se espalhar. Bem, será muita sorte até se o bobo apaixonado do Heath quiser alguma coisa com você. Ninguém gosta de coisas de segunda mão, prima, se é que você me entende.
— Você precisa ir embora. — Endireito a postura e jogo os ombros para trás, cansada de ouvir insultos, não quero que Alrik volte e nos encontre assim. Nem imagino o que ele poderia fazer.
Mas Esme não se importa. Não pretende ir a lugar algum. Continua ali parada, com um sorriso cínico nos lábios que combina perfeitamente com seu olhar.
— Precisa ir embora agora, antes que a criada chegue e Alrik volte — digo, esperando que seja o suficiente para convencê-la.
Mas ela zomba:
— Ah, não precisa se preocupar com isso. — Ela verifica as unhas, passa a mão na touca de cabelos ruivos. — A criada não vai chegar tão cedo, se é que vai chegar. Fique sabendo que ela teve um pequeno contratempo. E quanto a Alrik...
Engulo em seco. Prendo a respiração. Espero. Sou tomada por uma sensação horrível. Antes mesmo que ela diga, sei que fez algo ruim, encontrou um modo de frustrar nossos planos.
Suas palavras confirmam minhas piores suspeitas:
— Suponho que o rei esteja tendo uma conversa dura com ele agora. Lamento informar, Adelina, mas parece que seu segredinho foi descoberto. E, quanto ao casamento, parece que terminou antes mesmo de começar.
Eu me viro. Luto para respirar. Não tenho ideia de como reagir a nada do que ela disse. Eu deveria saber. Deveria saber que era bom demais para ser verdade. Deveria saber que Esme encontraria um jeito de atrapalhar, de se intrometer. É o que ela faz de melhor.
— A única dúvida que resta é o que acontecerá a você. — Ela se movimenta até seus olhos encontrarem os meus. Seu olhar contradiz suas palavras. Ela não hesita, não pondera. Sabe exatamente por que veio, o que pretende fazer, e não tem intenção de partir até concretizar seus planos.
Seus olhos brilham e se estreitam enquanto ela leva os braços atrás da cabeça e puxa o capuz para a frente.
É uma capa preta de veludo idêntica à que vi em meus sonhos.
Aquilo que eu confundi com um símbolo representando a morte.
Nunca imaginei que deveria interpretá-lo literalmente.
Nunca imaginei que seria a última coisa que eu veria antes de o mundo desaparecer sob meus pés.

Um comentário:

  1. Fernanda Boaventura3 de dezembro de 2015 20:04

    Ai está! a primeira vez que Drina matou Ever.

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