2 de novembro de 2015

Dezoito

Dirijo por Laguna pelo que parece uma eternidade, sem saber bem o que fazer comigo mesma nem para onde ir. Parte de mim — uma grande parte de mim — quer ir direto para a casa de Damen, correr para seus braços, dizer que está tudo perdoado e tentar recomeçar de onde paramos. Mas desisto rapidamente.
Sinto-me sozinha e confusa e realmente preciso de um lugar cálido em que ficar. E, por mais conflitantes que meus pensamentos sobre ele possam estar, recuso-me a usá-lo como muleta.
Ambos merecemos mais que isso.
Então, continuo a dirigir, indo e voltando pela Coast Highway algumas vezes e depois aventurando-me em ruas menores, mais estreitas, sinuosas e curvas. Vago sem ter um destino em mente, até que me vejo diante da casa de Roman — ou de Haven, uma vez que, segundo Miles, ela se alojou lá.
Abandono o carro junto ao meio-fio, longe o bastante para que ela não o veja, caminho lentamente pela rua, ouvindo a musica bem antes de chegar à entrada que leva até a porta. Os alto-falantes vociferam uma canção de uma daquelas bandas de garagem que ela tanto aprecia — do tipo que Roman odiava e que eu nunca ouvira falar.
Sigo para a grande janela da frente, uma janela de sacada do térreo, cercada de plantas pelo lado de fora, com um banco desocupado do lado de dentro. Encolho-me atrás dos arbustos, sem intenção alguma de entrar ou de ser vista. Estou mais interessada em observar, descobrir o que ela pretende fazer e como passa seu tempo livre. Quanto mais souber a respeito de seus hábitos, melhor poderei planejar meus atos. E, mesmo que não planeje, pelo menos saberei como reagir quando chegar a hora.
Ela está sentada diante de uma lareira acesa, o cabelo longo e ondulado, a maquiagem tão dramática quanto da ultima vez em que a vi. O vestido longo e solto que usou no primeiro dia de aula foi substituído por um míni azul-índigo bem justo, e os pés, em vez de terem os saltos que ela normalmente usa, estão descalços. Mas o emaranhado de colares ainda está lá, menos o amuleto, é claro, e quanto mais observo o jeito como ela fala, como se movimenta pela sala, mais me preocupo.
Há algo tão maníaco, tão agitado, tão intimamente tendo nela, que é como se mal conseguisse conter a própria energia, mal pudesse lidar consigo mesma.
Ela desloca o peso de uma perna para outra em uma agitação incessante, toma vários goles de sua taça, sem deixa-la ficar vazia por um segundo sequer, reabastecendo-se no suprimento de elixir de Roman para enchê-la novamente.
O mesmo elixir que ela diz ser muito mais poderoso que o preparado por Damen. E, considerando sua aparência e minha experiência no banheiro da escola, não tenho dúvida de que seja verdade.
Mesmo que suas palavras estejam completamente abafadas pela musica e pela percussão barulhenta que faz as paredes vibrarem, não preciso ouvir para saber o que está realmente acontecendo aqui.
Ela está pior que eu pensava.
Está perdendo o controle de si mesma.
Ao mesmo tempo que consegue influenciar seu extasiado grupo de ouvintes, mantendo-os hipnotizados, em transe, e felizes em focar apenas nela, parece sobremodo inquieta, frenética demais e agitada em excesso para continuar assim por muito tempo.
Ela pega a taça novamente, joga a cabeça para trás e toma um longo e profundo gole. Passa a língua nos lábios, desesperada por sorver cada gota. Seus olhos praticamente brilham enquanto ela repete a sequência mais uma vez, bebendo e enchendo a taça, enchendo a taça e bebendo, sem me deixar qualquer dúvida de está viciada.
Por já ter passado por aquele estado sombrio, conheço todos os sinais. Sei exatamente como é.
Mas não estou nem um pouco surpresa. Isso é mais ou menos o que esperava desde o momento em que ela se virou contra mim e resolveu seguir o próprio caminho. O que me surpreende é que seu novo grupo de amigos seja formado praticamente de todos os alunos da Bay View rejeitados por Stacia, Craig, ou qualquer outro membro da turma dos populares — enquanto os próprios populares, o grupo a que ela estava tentando agradar no primeiro dia de aula, estão claramente ausentes.
Estou começando a perceber, começando a entender o que ela pretende, quando ouço:
— Ever?
Desvio os olhos e vejo Honor parada a caminho da porta.
— O que está fazendo aqui? — Ela estreita os olhos, observando-me atentamente.
Alterno o olhar entre ela e a casa, sabendo que meu esconderijo perto dos arbustos e minha surpresa por ter sido pega revelam tudo o que eu não gostaria.
O silêncio que paira entre nós é tão longo que estou prestes a quebra-lo quando ela diz:
— Não a tenho visto na escola ultimamente. Estava começando a achar que largou os estudos.
— Faz uma semana. — Dou de ombros, sabendo que é um péssimo argumento de defesa.
Ainda assim, eu poderia estar doente, poderia estar de cama com mononucleose ou uma gripe forte, então por todo mundo simplesmente presume que eu larguei a escola?
Eles me acham tão esquisita/otária assim?
Ela inclina o quadril para o lado e tamborila os dedos sobre ele, fazendo uma pausa para me examinar e dizer:
— É sério? Uma semana... Só isso? — Ela balança a cabeça para a frente e para trás, como se pesasse lentamente minhas palavras. — Hum, parece que faz bem mais tempo. Deve ter sido a revolução social mais rápida da historia.
Estreito os olhos, sem gostar do modo como aquilo soa, mas estou determinada a não dizer nada... Pelo menos não agora. Espero que meu silêncio a deixe estimulada e empolgada, muito ansiosa para me impressionar com o que quer tenha feito, a ponto de revelar bem mais que pretendia.
— Você não sabe? — Ela joga o cabelo sobre o ombro e começa a andar em minha direção. — Achei que fosse por isso que estava aqui, espionando Haven e tal... Mas não importa. Tudo de que precisa saber é que funcionou. Stacia já era e Haven tomou o lugar dela. — Seus olhos brilham, e ela comprime um pouquinho os lábios, certamente muito satisfeita consigo mesma.
— As coisas estão muito, muito diferentes em Bay View ultimamente. Mas não precisa acreditar em mim. Por que não passa lá e vê com os próprios olhos?
Respiro fundo, resistindo ao ímpeto de reagir, de dar importância a seu tom zombeteiro, seu sentimento de superioridade. É exatamente isso o que ela quer, e não pretendo colaborar.
Além disso, rebaixo-a um pouco ao dizer:
— Desculpe, mas você acabou de dizer que Haven tomou o lugar de Stacia?
Honor confirma com a cabeça, ainda rindo, ainda se sentindo cheia de si e triunfante.
— Entãããão... — Estreito os olhos, arrastando a palavra enquanto a observo lentamente. Noto a sapatilha de marca, a legging preta e a blusa justa de manga longa e que cobre seus quadris.
Volto a olhar em seus olhos, e digo:
— Isso faz com que se sinta como?
Ela olha pela janela, vendo que Haven continua a entreter seu séquito, e depois se volta para mim. Sua confiança começa a titubear, desaparecer, assim como sua aura, imaginando aonde quero chegar.
— Bem, não foi exatamente esse o golpe que você planejou, não é?
Ela suspirou alto, profundamente, olhando para a rua, para a entrada, para todos os lugares, menos para mim.
— Porque, se me lembro bem, seu problema era que estava cansada de ser a número 2. E agora, bem, pelo que me contou, você meio que perdeu a revolução, já que é ainda a número 2. Pense um pouco, Honor, pelo que acabou de me dizer, a única mudança é que você agora está à sombra de Haven, e não de Stacia. Pelo menos, foi o que pareceu.
Ela cruza os braços na frente do corpo, tão rápida e violentamente que a bolsa em seu ombro escorrega até o cotovelo e bate com força na coxa. Mas ela não dá atenção, apenas olha em meus olhos com firmeza e diz:
— Eu estava cansada de aturar as besteiras de Stacia. E agora, graças a uma ajudinha de Haven, não preciso mais. Ninguém mais precisa aturá-la. Stacia não passa de uma maria-ninguém derrotada. Ninguém mais presta atenção nela, não importa mais, e você não deveria sentir pena alguma. — Ela ergue as sobrancelhas e faz careta.
Mas ela pode fazer a cara que quiser e refutar à vontade. O fato é que meu trabalho está feito. Falei com ela, lembrei-a de seu grande objetivo — tomar o lugar de Stacia — e apontei como, apesar de tudo o que disse, foi um fracasso total.
Ao perceber que já é hora de voltar para casa, acrescento:
— O fato é que... — Ergo e abaixo meus ombros casualmente, como se tivesse todo o tempo do mundo para me explicar a ela. — A verdade sobre Haven, ou pelo menos essa versão nova e melhorada de Haven, é que ela não é tão diferente de sua antiga amiga Stacia. Não há diferença alguma. A não ser por um detalhe essencial...
Honor verifica as unhas, fazendo o melhor que pode para parecer entediada, desinteressada, mas não adianta. Sua aura está bem inflamada e brilhante, sua energia flui em minha direção como se implorasse para as palavras saírem mais rápido. Como um medidor de humor que ela nem sabe que tem, e mesmo que soubesse não poderia esconder.
— Haven é muito mais perigosa que Stacia jamais poderá ser. — Eu a encaro, vendo-a suspirar e revirar os olhos.
Ela se dirige a mim com uma grande dose de pena e diz:
— Ah, por favor. Isso pode ser verdade para você, mas dificilmente será para mim.
— É? E como pode ter tanta certeza assim? — Inclino a cabeça, como se realmente precisasse ouvir de sua boca, como se não pudesse olhar direto em sua mente.
— Porque somos amigas. — Ela dá de ombros. — Temos um interesse em comum. Uma... inimiga em comum.
— É, bem, você certamente lembra que há pouco tempo Haven e eu éramos amigas também. — Olho novamente pela janela, vendo que Haven continua a beber e falar, falar e beber, sem sinais de que diminuirá o ritmo, sem sinais de que irá parar. — E agora ela esta determinada a me matar. — Eu me viro de frente para Honor, com a voz tão baixa que e quase como se estivesse falando comigo mesma.
Mas ela escutou. O modo como funga, parece inquieta e tenta agir como se eu não tivesse dito o que disse, tudo me garante isso.
Ela fica tensa e sua determinação aumenta enquanto segue para a porta e diz:
— Ouça, Ever, apesar do que possa pensar, minha única inimiga em comum com Haven é Stacia. Realmente não quero ter problemas com você. O que está acontecendo entre vocês, seja o que for, continua entre vocês. O que significa que não vou contar que a encontrei aqui fora espiando, certo? Este será nosso segredo.
Tiro uma folha presa em meu vestido, sem acreditar em nem uma palavra sequer do que ela disse. Sei muito bem que será incapaz de resistir, que contará tudo assim que entrar por aquela porta.
Mas talvez isso não seja tão ruim assim. Talvez seja hora de Haven receber a mensagem tardia de que sua diversão chegou ao fim, que a partir de amanhã voltarei com força total. Ela não pode continuar a aterrorizar as pessoas. Mesmo em se tratando de Stacia. Pelo menos não enquanto eu estiver por aqui.
— Sabe o que dizer sobre segredos, não sabe? — Olho fixamente em seus olhos.
Ela sacode os ombros, tenta agir de modo casual, desinteressado, mas não adianta. Seu rosto está marcado pelo medo e confusão.
— Que duas pessoas só conseguem manter um segredo se uma delas estiver morta.
Ela balança a cabeça, tenta afugentar minhas palavras, mas está perturbada. Isso fica claro.
Chega à porta e olho por cima do ombro quando eu digo:
— Então, se decidir contar a ela que estive aqui, aproveite para dizer que estou ansiosa para colocar a conversa em dia amanhã, na escola.

Um comentário:

  1. Só eu vi um pouco de Pretty Little Liars nisso ? ''Que duas pessoas só conseguem manter um segredo se uma delas estiver morta '' *-*

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