2 de novembro de 2015

Dezoito

Eu ando até não ter ideia de quão longe eu fui, ando até ter certeza de que Damen não pode mais me ver. Determinada a me afastar de meus problemas, mas sem conseguir ir muito longe deles, finalmente eu entendo aquele velho ditado que eu li numa xícara de café que uma professora de inglês da minha escola costumava ter: Onde quer que você vá, aí você está.
Você não pode caminhar pra superar seus problemas, não pode correr rápido o bastante pra esquecê-los completamente. Essa é a minha jornada e não tem jeito de escapar.
E apesar de Summerland prover um glorioso e doce escape o seu efeito é apenas temporário no máximo. Não importa o quanto eu dê um jeito de permanecer aqui, eu tenho certeza que as coisas vão voltar a ser como antes no segundo que eu voltar ao plano terrestre.
Eu vago para mais longe tentando decidir entre passar pelo cinema e ver um filme antigo ou talvez até ir para Paris pra fazer uma caminhada relaxante pelo Rio Sena, ou até mesmo uma rápida escalada pelas ruínas de Machu Picchu, ou uma corrida até o Coliseu Romano, quando eu me deparo com uma vila de chalés que me faz parar abruptamente.
Por fora é simples e modesto, composto por telhas de madeira, janelas pequenas e pontiagudas triangulares e telhados, mas apesar de não ter nada aparentemente especial sobre nenhum deles, tem um em particular que chama minha atenção brilhando de uma forma que me atrai por um caminho estreito e sujo até eu ficar parada em frente a uma porta, sem ter nenhuma ideia porque eu estou aqui ainda debatendo comigo mesma se devo entrar ou não.
— Não tenho visto elas por perto, nas últimas semanas.
Eu viro para encontrar um homem velho parado na ponta do caminho, vestido conservadoramente em uma camisa branca, suéter preto e calças pretas com alguns fios de cabelo branco penteados de lado em sua cabeça careca brilhante, apoiado em uma bengala elaborada que parece ser prova de sua dedicação como marceneiro mais do que sua deficiência física.
Eu aceno incerta do que dizer, eu nem mesmo sei por que estou aqui, muito menos a quem ele se refere.
— As duas meninas de cabelos escuros, as gêmeas, eu mal podia distingui-las, apesar da minha senhora dizer que a boazinha gostava muito de chocolate. — Ele diz sorrindo com a memória. — E a outra, a teimosa quieta, preferia pipoca, não parava de comer, ela não gostava das pipocas manifestadas. — Ele acena olhando pra mim, realmente me olhando, sem estar nem um pouco chocado pelas minhas roupas modernas nessas partes. — A minha senhora fazia a vontade delas, ela sentia pena delas, se preocupava um bocado com elas, ai depois de tudo isso e de todos esses anos, elas simplesmente se levantaram e foram embora sem dizer uma palavra. — Ele chacoalha a cabeça de novo só que dessa vez ele não sorri, apenas me dá um olhar perplexo esperando que eu possa ajudá-lo a achar um sentido nisso.
Eu engulo com dificuldade, meu olhar variando entre a porta da frente e ele, com o pulso acelerando, coração batendo, sabendo dentro de mim que esse é o lugar que elas ficavam, esse é o lugar onde Romy e Rayne viveram nos últimos trezentos e poucos anos.
Mas, ainda sim eu necessito de uma confirmação verbal apenas para ter certeza.
 — Você disse... disse as gêmeas?— Minha mente se enrolando enquanto eu encaro a casinha simples e familiar que eu vi na visão que eu tive no primeiro dia que eu encontrei as duas agachadas na casa da Ava quando eu agarrei o braço de Romy e assisti toda sua vida se desdobrar em uma confusão de imagens, essa casa, a tia delas, o julgamento das bruxas de Salem que ela estava determinada a proteger as meninas, tudo que as levou pra isso.
— Romy e Rayne.— Ele acena me olhando com bochechas tão vermelhas, um nariz tão bulboso, e olhos tão gentis que ele parece uma manifestação falsa, uma réplica realista de um alegre senhor inglês no caminho de sua casa vindo de um Pub, mas como ele não treme e nem some, como ele permanece bem ali na minha frente com aquele sorriso amigável em seu rosto, eu sei que ele é real. Talvez vivo, talvez morto, não tenho certeza sobre isso, mas definitivamente e positivamente ele é de verdade. — Elas mesmas, aquelas que você procura, certo?
Eu chacoalho a cabeça apesar de não estar certa. Eu estava procurando por elas? É por isso que eu estava aqui? Eu olho de relance pra ele estremecendo quando ele me dá um olhar tão estranho que eu não posso evitar soltar uma risada nervosa. Limpo minha garganta em uma tentativa de me recompor, quando eu acrescento. — Eu só lamento saber que elas não estão mais por perto, eu estava esperando pegá-las.
Ele acena com a cabeça como se ele me entendesse completamente e se simpatizasse com a minha situação, inclinando suas duas mãos na bengala quando ele diz: — Minha senhora e eu nos afeiçoamos muito a elas, uma vez que nós chegamos aqui na mesma época, o que não conseguimos decidir é se cruzamos a ponte e terminamos isso ou se fazemos a viagem de volta, o que você acha?
Eu pressiono meus lábios juntos e dou de ombros sem querer dizer que eu já sei a resposta pra isso, e fico aliviada quando ele não me pressiona pela resposta, apenas acena e dá de ombros.
— A senhora jura que elas cruzaram a ponte e diz que as pequeninas ficaram cansadas de esperar quem quer que seja que elas estavam esperando. Mas eu digo que é diferente Rayne pode ter ido, mas ela jamais conseguiria convencer aquela irmã dela, a Romy, ela é uma teimosa com certeza.
Eu cerro os olhos, certa de que eu entendi errado, sacudindo a cabeça quando eu digo. — Perai, você quer dizer que Rayne é a teimosa e Romy e a mais gentil, certo?— Eu aceno esperando que ele acene também, mas ele só me dá aquele olhar estranho e cava mais fundo com a sua bengala. — Eu quis dizer o que eu disse, bem, bom dia pra senhorita.
Eu fico parada lá, assistindo ele ir embora, cabeça erguida, espinha reta, dificilmente acreditando que ele tenha escolhido ir embora assim, aquela hesitação da minha pergunta deve ter ofendido a ele de alguma forma.
Tipo ele é meio velho, e as gêmeas se parecem exatamente, ou pelo menos elas se pareciam quando elas viviam por aqui e usavam aquele uniforme de escola particular todos os dias, e eu só posso imaginar como elas se vestiam antes da Riley pegá-las, mas algo na forma como ele disse, com tanta certeza e confiança eu não posso evitar imaginar que talvez eu tenha entendido tudo errado ou que talvez aquele lado petulante e ressentido da Rayne seja reservado somente pra mim.
Esperando que ele possa me ouvir antes que ele vá para longe eu o chamo. — Senhor, com licença, mas o senhor acha que há algum problema se eu entrar e der uma olhada? Eu prometo que não vou incomodar em nada.
Ele se vira balançando sua bengala alegremente enquanto ele diz. — Fique a vontade, não tem problema, não há nada lá dentro que não possa ser substituído.
Ele se vira e continua seu caminho enquanto eu empurro a porta e entro, e encontro um tapete vermelho simples que suaviza o barulho do meu peso contra o velho chão de madeira, pausando tempo suficiente para meus olhos se ajustarem para a luz fraca enquanto eu olho para uma grande sala quadrada com uns móveis de madeira que parecem desconfortáveis. Cadeiras retas pretas, uma mesa de tamanho médio, uma cadeira de balanço grande ao lado de uma lareira de pedra cheia de cinzas de um fogo recentemente queimado, eu sei que acabei de entrar em uma réplica do mundo onde Romy e Rayne escaparam em 1962, apenas para recriar aqui, tirando a hipocrisia, mentiras e crueldade, é claro.
Eu caminho pela sala observando o forro de madeira, pesadas vigas do teto, meus dedos trilham as planícies das paredes ásperas, as mesas cheias com pilhas altas de livros de capa de couro junto com uma variedade de velas e lamparinas a óleo usadas para fornecer uma luz para leitura, eu sou incapaz de sacudir esse sentimento de culpa, eu sinto que estou me metendo em algo, para descobrir uma vida privada que eu não tenho certeza que eu deveria saber.
Mas ao mesmo tempo, eu sei que não estou aqui por acidente, eu devia ter descoberto isso, disso eu não tenho dúvidas, porque de uma coisa eu sei, se eu conheço bem Summerland para saber que os eventos aqui não são aleatórios, tem algo aqui nessas paredes, algo que eu devia ver, e eu vago para um quarto pequeno e simples e reconheço imediatamente que é uma réplica do quarto onde a tia delas, aquela que incentivou elas a se esconderem aqui em Summerland para que elas fossem poupadas do julgamento das bruxas de Salem, a cruel fonte do próprio desaparecimento delas. A cama é estreita e parece desconfortável, tem uma mesa pequena e quadrada em cima da mesa tem um livro com capa de couro, flores secas e ervas, outro tapete trançado e um pequeno guarda-roupa no canto com as portas entreabertas revelam um vestido de algodão marrom pendurado lá dentro e o resto do quarto é vazio.
E eu não posso deixar de imaginar se Romy e Rayne manifestaram a existência de sua tia, como eu fiz uma vez com Damen, não posso evitar imaginar quanto tempo elas lutaram para se segurar na vida que elas conheciam até finalmente desistirem e se conformarem com isso, uma imitação do que era.
Eu fecho a porta atrás de mim e vou à direção a pequena escada que vai para o loft, desviando a minha cabeça contra o teto dramaticamente inclinado e faço uma careta enquanto a madeira faz um barulho alto debaixo dos meus pés, vou para uma área onde o teto é mais alto me endireito e observo duas camas gêmeas e estreitas e uma mesa de madeira pequena entre elas com uma pilha de livros e uma velha lamparina a óleo, praticamente é a mesma configuração da tia delas, exceto para as paredes que estão cheias de referências da cultura pop do novo milênio, que só poderia ser resultado da influência da Riley. Cada centímetro do espaço coberto com uma colagem dos favoritos de Riley, pois conhecendo ela as gêmeas não tiveram opção senão comprometer sua fidelidade a ela.
Meus olhos correram pelo quarto cercado de rostos felizes e brilhantes de antigos astros da Disney que viraram sensações adolescentes, o lineup do American Idol e apenas todo mundo que saiu na capa da revista Teen Beat. E quando eu vejo um pedaço de papel de caderno preso na porta eu não consigo evitar o riso sabendo que esse horário de aulas, essa lista de eventos da escola
particular manifestada delas, só podia ser invenção da minha irmãzinha fantasmagórica.
1º Tempo: Moda Para Iniciantes: Certo & Errado & Jamais de forma nenhuma.
2º Tempo: Técnicas Básicas de Arrumação de Cabelo (Pré-requisito para Cabelos 102).
Tempo livre de 10 minutos (Deve ser utilizado para fofocas e arrumação).
3º Tempo: Celebridades Básico: Quem é legal, quem não é e quem não é nada como eles querem que você pense que eles são.
4º Tempo: Popularidade: Um curso compreensivo de como alcançar e manter sem se perder no processo.
Almoço (Para ser utilizado com fofocas, arrumação e comer se você precisar).
5º Tempo: Beijando e Fazendo a Maquiagem: Tudo o que você sempre quis saber sobre lip gloss, mas estava com medo de perguntar.
6º Tempo: Beijando 101: O que é nojento, o que é doentio e o que faz ele se ligar.
Uma lista completa das obsessões normais de Riley, a última é uma das quais eu tenho certeza que ela nunca teve a chance de experimentar.
E assim que eu estou prestes a ir embora certa de que não tem mais nada pra eu ver eu vejo um lindo porta retrato redondo cheio de joias empoleirado em cima do armário, eu fico na ponta dos pés pra conseguir alcançar, sabendo que não podia pertencer a Romy e Rayne, porque a fotografia não havia sido inventada até bem depois de elas terem deixado Salem e eu me engasgo quando eu vejo uma foto nossa.
Eu, Riley e nossa doce cadelinha Labrador Buttercup.
A simples visão da foto desencadeia uma memória tão clara, tão palpável que bate como um soco no estômago. Forçando-me a ficar de joelhos no chão sem prestar atenção na madeira áspera arranhando minha pele, sem notar as lágrimas que caem sobre meu rosto sobre o vidro deixando embaçado. Mas eu não estou mais olhando a foto, estou assistindo o evento na minha cabeça, repassando o momento em Riley e eu nos inclinamos uma sobre a outra, sorrindo e gargalhando enquanto Buttercup latia e corria em círculos ao nosso redor. Tudo isso momentos antes do acidente, nossa última foto.
Uma foto que eu me esqueci desde que Riley morreu antes que ela tivesse a chance de fazer o download dela.
Eu olho em volta do quarto com a visão embaçada pelas lágrimas, minha tentativa de voz estridente, ao chamar — Riley?— Você está vendo isso?— imaginado se ela está aqui e se ela armou essa coisa toda, se ela está em um canto em algum lugar me observando.
Eu uso a barra do meu suéter pra limpar as lágrimas do meu rosto e o vidro, sabendo que apesar dela falhar em me responder, apesar de eu não ter mais acesso a ela isso é obra dela. Ela recriou essa foto, ela queria que eu tivesse outro lembrete do que um dia compartilhamos e o que eu já fui uma vez, apenas um ano atrás. É uma coisa de Summerland que nunca sobreviverá se eu tentar levar pra casa além disso, por alguma razão estranha eu gosto de saber que está aqui.
Eu desço a escada de volta pra sala certa de que eu vi tudo que tinha pra ser visto e me preparo pra ir embora, quase na porta da frente eu noto uma pintura que eu não vi quando entrei, a moldura é simples, preta, feita de algumas tiras de madeira simplesmente trabalhada, mas o assunto me deixa interessada. Um retrato de uma mulher finamente afiado e ainda de alguma forma simples, pelo menos para os dias de hoje. A pele pálida, lábios finos, cabelos castanhos escuros presos longe de seu rosto em um coque apertado. Mas não importa a pose séria e a expressão séria, tem algo muito claro brilhando em seus olhos, ela está meramente encenando o papel de uma mulher subjugada e adequada do seu tempo, posando dessa forma para ser apropriada enquanto por dentro se esconde uma chama que poucas pessoas poderiam adivinhar.
E eu paro de encarar aqueles olhos quanto eu tenho mais certeza, apesar de me dizer o contrário, me dizer que não é possível, sem a menor possibilidade remota, a dica subliminar está me levando a persistir por diversas semanas agora tem uma prova manifestada de uma forma tão clara que eu não consigo ignorar.
Dou um suspiro sussurrado que ecoa pela sala, mas só eu consigo ouvir, então eu vôo pela porta para o plano terrestre. Ansiosa pra me afastar do rosto que aparece diante de mim, longe de um passado que apenas seguiu seu curso por inteiro, de forma notável, novamente.

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