3 de novembro de 2015

Dezessete

Depois de uma ou duas horas de risadinhas, carícias e sussurros — fazendo grandes planos para nossa nova vida juntos, uma vida que começa amanhã à tarde —, Alrik e eu pegamos no sono. Ele ainda totalmente vestido (menos as botas, é claro), eu despida do traje em que cheguei, usando o mesmo penhoar com que seu irmão me encontrou.
O braço de Alrik está jogado em volta de minha cintura, ancorando-me junto a ele. Nossos corpos se ajustam, aconchegados a ponto de eu conseguir sentir as batidas de seu coração em minhas costas, o sopro da sua respiração em meu ouvido. Estou determinada a mergulhar nessa sensação, deixar de lado qualquer resquício de preocupação, qualquer temor persistente, em nome deste momento juntos. Ansiosa pelo dia de amanhã, quando nossa troca de votos permitirá que nos amemos livre e abertamente — não mais relegados a baias de cavalo vazias ou a pontos isolados na floresta que cerca a casa de meus pais. Não mais obrigados a nos refrear logo quando a coisa esquenta.
É uma mudança pela qual espero com ansiedade.
Mas esse é o tipo de pensamento com que minha mente se alegra, razão pela qual é difícil evitá-lo, e assim que durmo baixo a guarda, e uma longa lista de inquietações se apresenta, manifestando-se na estranha língua dos sonhos e jogando-me em um cenário desconhecido e lúgubre, onde Alrik não está por perto e um ser encapuzado me persegue.
Corro em meio a moitas e arbustos. Corro para salvar minha vida. Sofro enquanto espinhos afiados entram em minha pele e rasgam minhas roupas — deixando-me esfarrapada, machucada e exaurida. Mas, ainda assim, continuo correndo.
Mesmo correndo muito, não sou rápida o bastante.
Parece que não conseguirei escapar.
Não conseguirei escapar do ser encapuzado e sombrio que vem atrás de mim.
Investindo contra mim.
Reclamando-me para si.
Acabando comigo...
Levanto-me de repente, um grito horrível corta meu sono. Não me dou conta de que aquele som veio de mim até que Alrik se levanta ao meu lado e me abraça forte.
— Adelina! Meu amor, minha querida, você está bem? O que aconteceu? Entrou alguém aqui? Fale comigo, por favor. — Ele envolve meu rosto com as mãos, fazendo-me encará-lo enquanto fita meus olhos arregalados de susto.
— Eu... — Pisco rapidamente e levo um instante para me distanciar e olhar em volta enquanto tento me orientar, lembrar onde estou, quem sou, mas ainda assombrada pelas terríveis visões que tive, como se o sonho continuasse.
Alrik salta da cama, pega a tocha e ilumina todos os cantos do quarto. Finalmente assegurando-se de que não há ninguém ali, volta para meu lado e diz:
— Minha querida Adelina, relaxe. Foi apenas um sonho.
Ele sussurra palavras doces em meu ouvido — promessas, declarações de amor, garantias de que o sonho não significou nada... De que estou em segurança... De que nada me fará mal.
Mas eu sei mais que ele.
Sei que não é apenas um sonho.
Meus sonhos não são como os das outras pessoas.
Meus sonhos têm a misteriosa capacidade de se realizar.
Proféticos, é assim que minha mãe os chama. Ela me aconselhou desde pequena, quando comecei a tê-los, a nunca falar deles — a fazer o possível para bloqueá-los, temendo que alguém descobrisse. Isso arruinará sua vida, ela dizia. Esse tipo de coisa nunca é bem-visto.
Mas nesta noite não tenho escolha a não ser contar a Alrik, alertá-lo do terrível acontecimento que está por vir. Já tive esse sonho antes, muitas vezes, desde criança. Mas é a primeira vez que entendo seu significado.
Entendo que chegou a hora.
Do abrigo caloroso e seguro de seus braços, permito que meus olhos percorram seu rosto com tristeza. Com a voz baixa, quase um sussurro, digo:
— Nunca nos casaremos. — Olho para ele, certificando-me de que ele compreenda que a suavidade do tom da minha voz não diminui a intensidade das palavras. — Não estarei viva até a cerimônia.
Alrik hesita, balança a cabeça, procura um modo de me consolar.
— Isso é absurdo! — diz. — Foi só um pesadelo. Nada mais. Não significa nada, absolutamente nada... Pelo menos nada além de uma demonstração do normal de nervosismo pré-nupcial. Nossa vida está prestes a mudar radicalmente, estamos a um passo de ter a vida de nossos sonhos. Sei que você está empolgada, mas suspeito que também esteja com um pouco de medo, e é assim que ele se manifesta. Mas, minha querida, minha doce Adelina, por favor, saiba que não há com que se preocupar. Não deixarei nada de ruim acontecer a você. Nem agora, nem nunca. Está me ouvindo? Sempre estará segura a meu lado.
Balanço a cabeça, concordando. Engulo em seco. Mais que tudo, quero acreditar nele, acreditar que suas palavras sejam verdade.
Mas bem no fundo sei que não são.
Ele está enganado.
Completamente enganado.
Ele não viu o que eu vi.
Não sabe o que eu sei.
Não sentiu as mãos frias da morte pegando-me e recusando-se a me soltar.
— Beije-me — digo, e vejo o modo como sua expressão suaviza, acreditando erroneamente que já está tudo bem.— Beije-me e me faça esquecer. Faça tudo sumir — insisto, sabendo que é minha única chance de experimentar nosso amor em sua forma mais absoluta, verdadeira, profunda. Se não puder convencê-lo agora, bem, nunca conhecerei esse amor.
— Beije-me como se já tivéssemos feito os votos. Beije-me como se eu já fosse sua esposa.
Desato os laços do penhoar e permito que o tecido escorregue por meu corpo enquanto sustento o olhar de Alrik. Noto sua respiração ofegante, o maxilar tenso e os olhos bem abertos. Ele me encara surpreso, observando-me como se nunca tivesse visto nada parecido.
Mas sei que não é isso. Já ouvi muitas histórias e sei que não sou a primeira dele. Embora não seja tão libertino quanto Rhys, ele é conhecido por ter desfrutado de seu quinhão de mulheres.
No entanto, isso não me incomoda. Até acho reconfortante. De todas as garotas com quem esteve, de todas as garotas com quem poderia estar, ele escolheu a mim, e apenas a mim, pelo tempo que nosso coração bater.
Não importa o que acontecer comigo, não importa o que o futuro me reserve, não tenho dúvidas de que, no coração de Alrik, sempre serei aquela que ele escolheu para ser sua rainha.
— Adelina, tem certeza? — ele pergunta com a respiração mais acelerada, enquanto meus dedos sobem por sua camisa com a única intenção de tirá-la.
Ele está tentando escapar, poupar-me de fazer algo de que possa me arrepender. É uma tentativa de fazer a coisa certa, ser nobre, cavalheiro, mas as palavras não carregam esse significado, ele está tão ansioso quanto eu.
Pressiono o dedo contra sua boca, mas logo o tiro e substituo por meus lábios.
— Você se casou comigo no dia em que o empurrei no lago, e eu me casei com você no dia em que mandou flores em resposta. Tulipas vermelhas. Quem diria? — Sorrio, fazendo uma pausa longa o suficiente para que meus lábios explorem sua orelha, o pescoço, enquanto minhas mãos percorrem seu glorioso peito agora despido.
Seu lindo rosto paira diante de mim enquanto ele me guia de volta para os travesseiros, de volta para nossa cama, passando os lábios por meu corpo, beijando cada centímetro de pele nua, em lugares que eu nunca imaginei. Os dedos se movem rapidamente, com destreza, retirando o que restou de roupa em nós. Assim que consegue, diz:
— Adelina?
Faço um sinal afirmativo com a cabeça, mais certa que nunca.
E então um beijo.
Um suspiro.
E agora não tem mais volta.
Está feito.
Estamos fazendo.
Nossos corpos se movimentam juntos — misturados, fundidos, conectados como um só.
E cada segundo é tão maravilhoso quanto sonhei que seria, se não mais.

2 comentários:

  1. Finalmente, eu sei que e´em outra vida, mas isso realmente foi lindo. Estou chorando!
    Ass: Bina.

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  2. Meu Deus que emoção. Finalmente aconteceu! Depois de tantos livros, meio decepcionante.. mas enfim né

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