2 de novembro de 2015

Dezessete

— Obrigado por toda a ajuda. — Jude joga um pano de prato molhado no ombro e se recosta na geladeira pré-histórica, que não parece nada com as de Damen e Sabine. Não é de aço inoxidável, não é do tamanho de um armário, é apenas velha e verde, com uma tendência a fazer barulhos estranhos, como se gargarejasse. Seus polegares estão enfiados nos passadores da calça, os pés casualmente cruzados, e ele observa enquanto coloco os últimos copos e xícaras no lava-louça, fecho a porta e aperto o botão ligar.
Levo as mãos até o cabelo e tiro o elástico que o prende, deixando que os fios caiam pelas costas, até quase a cintura, enquanto tento ignorar o olhar intenso de Jude. O jeito como seus olhos se estreitam e me devoram, seguindo, sedentos, o caminho que minhas mãos fazem enquanto eu as passo suavemente pela frente de meu vestido e levanto uma alça que estava caída. Seu olhar fica fixo por tanto tempo que sei que preciso interrompê-lo, encontrar um modo de distraí-lo.
— Foi um funeral muito bonito. — Encaro-o brevemente e desvio o olhar. Ocupo-me de limpar o balcão azulejado, a pia de louça branca. — Acho que ela teria gostado.
Ele sorri, faz um montinho com a toalha e a larga no balcão, então vai para a saleta e se afunda no velho sofá marrom, presumindo que eu vá atrás, o que, depois  um instante, eu faço.
— Na verdade, ela gostou. — Ele chuta os chinelos para longe e coloca os pés nas almofadas.
— Então, você a viu? — Sento-me na cadeira do outro lado e depois apoio os pés descalços na porta velha de madeira que ele usa como mesa de centro.
Ele se vira e me olha de cima a baixo bem devagar, com uma sobrancelha erguida em sinal de surpresa.
— É, eu a vi. Por quê? Você também?
Balanço a cabeça, rapidamente negando. Brinco com os cristais que uso no pescoço, preferindo pegar as pedras mais ásperas às mais polidas.
— Ava a viu. — Dou de ombros, soltando o amuleto e deixando que as pedras aqueçam minha pele. — Ainda não sou capaz de ver aqueles que são como Lina.
— Ainda está tentando? — Ele estreita os olhos, senta-se ereto por um momento e agarra um pequeno travesseiro perto de seus pés, que coloca sob a cabeça. Depois se recosta novamente.
— Não. — Suspiro, com a voz melancólica e o olhar distante. — Não mais. Desisti disso faz algum tempo.
Ele concorda com a cabeça, ainda olhando para mim, só que de um jeito mais pensativo, menos intenso.
— Bem, se faz com que se sinta melhor, eu também não a vi. Riley, quero dizer. É sobre ela que estamos falando, certo?
Eu me recosto e fecho os olhos. Lembro-me de minha irmãzinha adoravelmente mal-humorada e pestinha, que gostava de usar perucas e fantasias malucas... E espero que, onde quer que esteja se divirta muito mesmo.
Sou arrancada de meus pensamentos e volto a prestar atenção em Jude quando ele diz:
— Ever, eu estava pensando... — Ele olha para cima, para o teto com vigas de madeira. — Agora que as coisas estão começando a se ajeitar por aqui, bem, talvez seja uma boa hora para você começar a pensar em voltar para a escola.
Eu enrijeço e prendo um pouco a respiração.
— Lina deixou tudo para mim... A casa, a loja... Tudo. E, como a papelada parece estar em ordem, acho que posso deixar que o advogado cuide de tudo a partir de agora, o que me deixa livre para voltar para a loja. Sem contar que Ava já se ofereceu para me substituir quando eu precisar.
Engulo em seco, mas não digo uma palavra sequer. Sua expressão revela que ele já cuidou de tudo, está tudo arranjado e planejado.
— Por mais que aprecie sua ajuda, e eu aprecio... — Ele olha rapidamente para mim e depois volta os olhos para o teto novamente. — Acho que provavelmente seja melhor que você...
Mas eu nem o deixo terminar e digo:
— Mas, é sério, não é... — Problema algum. Começo a dizer que realmente não é problema.
Tento explicar a conclusão a que cheguei recentemente sobre a escola, o caminho de vida anormal que se espera que todos sigam, minha vida e como essas coisas não se misturam mais, não fazem mais o menor sentido.
No entanto, não avanço muito antes que ele balance as mãos e fale:
— Ever, se apenas por um momento acha que isso é fácil para mim, bem, pense novamente. — Ele suspira e fecha os olhos. — Acredite, há uma parte grande, barulhenta e incontrolável de mim que me diz para ficar quieto... Desistir e parar de falar enquanto a tenho bem aqui em minha casa, bem ao meu alcance, e mais que disposta a passar seu tempo livre comigo. — Ele para, apertando as mãos, mexendo os dedos sem parar, um sinal da batalha interna que trava. — Mas também há outra parte, bem mais racional, que me diz para fazer exatamente o oposto. E, embora eu provavelmente seja louco por dizer isso, sinto que preciso fazê-lo, então, eu... — Ele faz uma pausa, engolindo em seco antes de retomar: — Acho que é melhor que você...
Prendo a respiração, certa de não querer ouvi-lo e, ainda assim, resignada com o fato de não ter escolha.
— Acho que você meio que devia... Só... Afastar-se por um tempo, é isso.
Ele abre os olhos e olha diretamente para mim, deixando que a frase paire entre nós como uma barreira que não pode ser ultrapassada.
— Porque, por mais que eu adore ter você por perto, e acho que agora já sabe que eu adoro, se temos alguma esperança de seguir em frente, se você tem alguma esperança de que vai tomar uma decisão sobre seu futuro em breve... Ou sobre nosso futuro... Qualquer que seja o caso, bem, então você realmente precisa voltar lá para fora. Tem que parar... — Ele respira fundo e se mexe com desconforto, obviamente forçando as palavras a sair. — Precisa parar de se esconder na loja e encarar sua vida.
Permaneço ali sentada, sem palavras, atordoada e um pouco confusa sobre como devo entender aquilo... Ainda mais sobre como reagir.
Esconder?
É isso o que ele acha que eu estive fazendo a semana toda?
E, pior ainda, há alguma chance de isso ser verdade? De que ele esteja ciente de algo do qual estou totalmente por fora e trabalhei muitíssimo duro para ignorar?
Balanço a cabeça, tiro os pés da mesa e os apoio no chão. Enfio-os de volta em minhas sandálias de plataforma e digo:
— Acho que não tinha percebido... Eu...
Mas, antes que eu possa continuar, Jude endireita-se no sofá bruscamente, balança a cabeça e diz:
— Por favor, não quis dizer nada com isso, só quero que pense a respeito, tudo bem? Porque, Ever... — Ele afasta os dreadlocks do rosto para me ver melhor. — Eu só não sei por quanto tempo mais vou conseguir ficar sentado esperando desse jeito.
Ele coloca as mãos no colo, mantendo-as abertas, relaxadas, como se oferecesse algo.
Sustento meu olhar por tanto tempo que meu coração começa a bater mais rápido, o estômago a revirar, e sinto a cabeça tão leve que é como se todo o ar tivesse sido sugado para fora da sala.
A energia entre nós se forma e cresce até que se torna tão palpável, tão tangível, que é como se conseguisse de fato vê-la emanando de seu corpo em direção ao meu. Uma onda de desejo espessa e pulsante que se expande e se contrai, incitando-nos a ficar mais perto um do outro, a nos fundir em um só ser.
E não estou certa de quem é responsável por isso — se ele ou eu, ou talvez algum tipo de força cósmica. Tudo o que sei é que a atração é tão incontrolável, tão ampla e arrebatadora, que pulo de minha cadeira, penduro e bolsa no ombro e digo:
— Preciso ir.
Já estou na porta, com os dedos girando a maçaneta, quando ele me chama:
— Ever... Está tudo bem entre nós, certo?
Mas eu apenas continuo de saída, perguntando-me se ele viu o que eu vi, sentiu o que eu senti, ou se foi apenas algo estúpido que imaginei.
Saio e respiro com calma, profundamente, enchendo os pulmões de ar quente e salgado enquanto olho para o céu noturno cheio de estrelas, com uma em particular que é especialmente brilhante.
Uma única estrela que consegue ofuscar todas as outras, como se estivesse implorando para que eu fizesse um pedido a ela.
Então eu faço.
Olhando para minha própria estrela da noite, pedindo orientação, uma direção, algum tipo de ajuda em se não for possível, para que pelo menos dê algum tipo de empurrão que me conduza no rumo certo.

2 comentários:

  1. ai ai ate o Jude sabe que a Ever tem que ficar com o Damen e ela fica fazendo esse drama todo.

    Ass:Claudia

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  2. Odeio a indecisão dela, ela sente um carinho especial por Jude SIM, mas e carinho de amigo ela ta confundido tudo por causa das vidas passadas, para mim eles só se encontram para ela colocar um ponto final da relação deles dois e deixar ele seguir em frente e ela finalmente ficar com Damen para sempre.

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