3 de novembro de 2015

Dezesseis

— Suba.
Olho para ele. Franzo a testa e digo:
— Subir aí? Com você?
— A menos que prefira andar. — Ele dá de ombros, como se estivesse preparado para me deixar ir a pé.
— Por que você não vai andando e eu vou a cavalo? — Coloco as mãos na cintura, jurando contar a Alrik sobre isso mais tarde.
— Não. De jeito nenhum. — Ele balança a cabeça. — Primeiro, porque está escuro. Segundo, porque está frio. E terceiro... — Ele prolonga a pausa, fazendo-me esperar, como se eu realmente me importasse. — Não sou muito bom em agir de maneira nobre ou gentil. Sobretudo quando não espero ganhar nada em troca. No entanto, se eu ganhasse algo em troca, poderia reconsiderar.
Fito aqueles olhos azuis brilhantes, o arco esnobe das sobrancelhas douradas, o luzir de seus dentes brancos no céu enegrecido da noite. É uma imagem que deixa a maioria das meninas tontas, com as pernas bambas, prontas para sucumbir a todos os seus caprichos e necessidades — mas, em meu caso, apenas causa ânsia de vômito.
— É assim que você flerta com Esme? — pergunto. Sei que não deveria cair na provocação, mas isso não me impede. — Se for, não consigo imaginar por que ela o rejeitou e escolheu seu irmão. Diga-me, Rhys, ela já viu esse seu lado tão galanteador?
Aguardo uma resposta, esperando que fique bravo, diga algo cruel sobre minha aparência, o baixo status de minha família e nossa falta de dinheiro, mas ele apenas ri. Seu sorriso fica maior quando diz:
— Não. Com Esme é só pompa e circunstância, nada além da mais profunda cortesia e respeito. É preciso saber como lidar com ela. Esme é gananciosa, superficial e vaidosa. A única coisa que vê em meu irmão é o que logo será meu: o poder da posição dele e, mais importante, a coroa. Somos  muito parecidos, Esme e eu. Fomos feitos um para o outro. Pertencemos um ao outro. Ela e eu somos almas gêmeas, e algum dia ela perceberá isso também.
Continuo olhando para ele, tentando pensar em uma resposta sarcástica, mas as que me ocorrem morrem em meus lábios. O que ele disse é a mais pura verdade. Eles são gananciosos, superficiais e extremamente vaidosos. E o fato de Rhys ser capaz de notar isso revela uma autoconsciência e uma percepção surpreendentes, que eu nunca poderia imaginar.
— Quanto tempo você pretende ficar aí parada? — ele pergunta, entediado, tamborilando no cepilho da sela.
— Por que não trouxe uma carruagem? — pergunto, ainda sem vontade de cavalgar junto com ele, embora minhas opções sejam limitadas.
Vejo-o dar um grande suspiro e saltar da montaria. Então, põe-se diante de mim, a apenas alguns centímetros de distância.
— Porque uma carruagem chama muita atenção a esta hora — diz. — Lembre-se, devemos manter tudo em segredo. Por isso pensei que você não quisesse que seus pais descobrissem que está fugindo para se casar, mesmo que seja com um membro da realeza. Mas receio que, se insistir em ficar negociando desse jeito, bem, não haverá necessidade de segredo, porque a vila inteira logo virá a seu encontro. Então, Adelina, o que me diz? Vai continuar me confrontando ou está pronta para seguir o caminho mais fácil? Seja uma boa menina e suba no cavalo. Alrik está esperando.
Engulo em seco, reprimo meu orgulho e concordo. Enrijeço o corpo quando Rhys põe as mãos em minha cintura. Ele me levanta, me coloca na sela e monta em seguida, alertando-me para que segure firme a fim de não cair. É uma ideia que parece agradá-lo um pouco demais — e na qual faço o possível para não pensar.
Cavalgamos quilômetros. Tanto que a certo ponto permito-me cochilar. Desperto com o som da voz de Rhys em meu ouvido, suave e extraordinariamente gentil, dizendo:
— Ei, Adelina. Pode acordar agora. Já chegamos.
Levanto a cabeça de seu ombro, esfrego os olhos, ajeito o cabelo e olho em volta. Tento identificar o lugar onde estamos, mas não o reconheço.
— É uma cabana de caça — diz, os lábios roçando em minha orelha. — É nossa cabana de caça. De Alrik e minha. Embora não seja nem um pouco grandiosa como o palácio, diria que também não é ruim. Imagino que você achará surpreendentemente confortável. Sei que muitas, muitas, muitas de minhas conquistas gostaram bastante daqui.
Sim, ele voltou a ser Rhys.
— Onde está Alrik? — pergunto, afastando-me dele.
Mal termino de falar e uma voz sussurrada diz:
— Estou aqui.
Ele vem em minha direção, estende os braços e me pega com cuidado, ajudando-me a descer do cavalo. Seu corpo é tão quente, tão reconfortante, que por um momento me esqueço de seu terrível irmão, até que Alrik me solta e diz:
— Obrigado, irmão. Fico lhe devendo esse favor.
Mas ele apenas ri, dá meia-volta com o cavalo e diz, olhando para trás:
— Esqueça. Sua noiva pelo reino... — Ele balança a cabeça. — Odeio dizer, meu irmão, mas receio que eu fique devendo a você quando sua pequena lua de mel terminar e você se der conta da tolice que fez. Só espero que não seja insensato a ponto de querer me cobrar isso assim que tiver sujado a cama. Embora lhes deseje muitas felicidades, alegrias e tudo mais, acho que preciso voltar. Minha doce e pequena Sophie certamente está mantendo minha cama aquecida a uma hora dessas.
— Ainda levando camareiras para a cama? — pergunta Alrik.
— É a leiteira, meu irmão, a leiteira. Tente acompanhar as novidades!
O cavalo sai galopando, levando junto Rhys, enquanto Alrik me conduz em direção à cabana, roçando os lábios em meu rosto ao dizer:
— Peço desculpas por meu irmão. Esperava que ele lhe poupasse desse tipo de grosseria, mas talvez tenha sido tolice de minha parte. Ainda assim, o que importa é que a trouxe até mim. Fez o que pedi, e você chegou em segurança. — Ele olha para mim com o rosto tão cheio de amor e devoção que engulo tudo o que estava prestes a dizer sobre Rhys ser rude, pois não quero que minhas palavras estraguem sua expressão.
— Na verdade, dormi a maior parte do caminho, principalmente para ignorá-lo — digo, encontrando um meio-termo que faz Alrik rir.
— Então não está cansada? Não está com saudade da cama? — Ele olha em meus olhos.
Alterno o olhar entre ele, o céu noturno ainda escuro e a porta que ele mantém aberta e que leva a um cômodo rústico, porém suntuoso.
— Ah, estou me sentindo bem descansada. — Sorrio. — Mas não rejeitaria uma cama.

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