2 de novembro de 2015

Dezesseis

Na segunda-feira, falto novamente à aula para ir ao funeral de Lina.
Mas é apenas uma desculpa. Eu teria faltado de qualquer maneira.
Apesar de Muñoz alegar que um diploma me ajudaria a garantir um futuro melhor e mais brilhante, bem, eu tenho que discordar dele.
Talvez ajude pessoas normais a serem levadas mais a sério nas seleções para a faculdade e em entrevistas de emprego. Só que essas coisas nada significam para mim. Mesmo que há uma semana fosse importantes para mim também, agora que finalmente vejo como estava perdida, como tenho evitado o óbvio: não adianta seguir o rumo natural das coisas quando tenho uma vida (e um futuro) muito diferente disso.
É hora de parar de fingir que não é assim.
E, sim, para ser totalmente honesta, devo admitir que Damen teve seu papel nessa decisão — se é que não foi dele o maior papel. O fato é que não estou pronta para revê-lo. Ainda não.
Talvez um dia, talvez mesmo até em breve, mas no momento esse dia parece bem distante. Apesar de tudo, ele parece estar totalmente de acordo. Está me dando bastante tempo e espaço para que eu tire minhas próprias conclusões. A ocasional materialização de uma tulipa vermelha ou outra é sua única interferência, servindo como um lembrete gentil do amor que tivemos.
Ainda temos.
Eu acho.
Giro a tampa de minha garrafa de água e percorro a sala com os olhos, em busca de ao menos um rosto familiar no meio da multidão. De acordo com Jude, Lina tinha muitos amigos, e pelo que posso ver, é verdade. Ele só se esqueceu de mencionar a diversidade. Quer dizer, por mais que eu adore morar aqui, multiculturalidade não é o ponto forte de Laguna Beach. E, ainda assim, há todas as etnias imagináveis no funeral. E, pela mistura de sotaques no ar, fica claro que muitos vieram de longe para ter a oportunidade de se despedir dela.
Continuo ali parada, balançando sem jeito a garrafa de água ao meu lado enquanto avalio minhas opções: tentar encontrar Jude para dizer que estou indo embora ou ficar mais para manter as aparências , quando Ava acena para mim do outro lado da sala e eu calculo rapidamente há quanto tempo não nos falamos, enquanto ela caminha em minha direção. Fico imaginando se ela também faz parte do pequeno grupo de pessoas que se sente abandonado por mim.
— Ever. — Ela sorri, inclinando-se para um abraço breve e caloroso. Seus dedos cheios de anéis ainda apertam meus braços, seus enormes olhos castanhos me analisam cuidadosamente, enquanto ela se afasta e diz: — Você parece estar bem. — Ela ri com leveza e graça, acrescentando: — Mas você sempre parece bem, não é?
Olho para baixo, para o longo vestido roxo que desenhei e materializei especialmente para a ocasião, já que Jude proibiu estritamente o uso de roupas pretas, alegando que Lina odiaria olhar para uma multidão de pessoas usando a mesma cor deprimente. Ela não queria que as pessoas ficassem de luto por sua vida. Queria que a celebrassem. E, como roxo era sua cor favorita, ele pediu que usássemos variações dele.
— Então... Ela está aqui? — pergunto, vendo Ava estreitar os olhos e colocar os cabelos ondulados e castanho-avermelhados atrás da orelha, mudando de expressão ao presumir o pior: que estou me referindo a Haven.
— Lina — digo, antes mesmo que ela possa prosseguir. Haven é o ultimo assunto sobre o qual quero falar aqui. — Eu quis dizer Lina. Você a viu? — Passo os olhos sobre o pingente de citrino que ela sempre usa, a túnica roxa de algodão bordado, a calça jeans skinny branca e as lindas sandálias douradas em seus pés e depois olho novamente em seus olhos. — Você sabe que não posso ver aqueles que cruzaram a ponte, só os que permanecem aqui.
— Já tentou falar com eles, convencê-los a seguir em frente? — Ela ajeita a bolsa roxa no ombro.
Olho para ela como se estivesse louca. Nunca pensei nisso. Demorei tanto para aprender a ignorá-los, para me desligar completamente deles, que nem consigo imaginar me envolver de novo. Além do mais, já tenho problemas demais para resolver. A última coisa de que preciso é me relacionar com um bando de fantasmas desorientados.
Mas Ava apenas ri, passando os olhos pela sala e diz:
— Acredite, Ever, todos conseguem encontrar o caminho para o próprio funeral. Ainda estou para ver espírito que consiga resistir! É tentador demais: a chance de ver quem compareceu, quem disse o quê, que roupa estavam usando, quem estava realmente de luto e quem estava apenas fingindo.
— Você está realmente de luto? — pergunto, sem querer dizer que parecia que ela estivesse fingindo ou algo assim. Digo, estou aqui principalmente para apoiar Jude e homenagear alguém que foi bom o bastante para me ajudar em um momento de necessidade. Mas, mesmo sabendo que Lina era a chefe de Ava, não tenho ideia da profundidade do relacionamento entre elas, se eram amigas de verdade.
— Se está me perguntando se estou de luto pela perda de uma alma generosa, compassiva e elevada... — Ela me olha sem ao menos piscar — ...Então a resposta é sim, claro, por que não estaria? Mas se está perguntando se meu luto é maior por ela do que por mim, então receio ter que dizer que não. A maior parte de minha tristeza é puramente egoísta.
— Foi exatamente o que Jude disse — murmuro com a voz melancólica enquanto olho pela sala à procura dele.
Ava confirma com a cabeça, jogando os cachos sobre os ombros.
— E quando você perdeu sua família, por quem sofreu mais?
Olho para ela, surpresa pela pergunta. E mesmo querendo dizer que fiquei totalmente de luto por meus pais e Buttercup e o sonho não realizado de Riley, de fazer treze anos e virar adolescente, não consigo. Simplesmente não é verdade. Mesmo sentindo a perda deles de um modo terrível, visceral e profundo, devo admitir que a maior parte de minha tristeza se deveu ao fato de eu ter sido deixada para trás enquanto todos seguiram em frente, para longe de mim.
Ava dá de ombros.
— De qualquer modo, para voltar à pergunta inicial, sim, eu a vi. Foi rápido, apenas por um segundo, mas foi lindo. — Ela sorri, seu rosto se ilumina, as bochechas ficam coradas e os olhos brilham com a lembrança.
Estou prestes a pedir um pouco mais de detalhes quando ela diz:
— Foi bem na hora em que Jude se levantou para falar. Lembra como ele gaguejou e começou a se emocionar? A voz falhou e ele teve que parar um momento para conseguir recomeçar.
Confirmo. Lembro-me muito bem. Lembro-me de como meu coração sofreu com ele naquele momento.
— Bem, foi quando ela apareceu bem ao lado dele. Pairando levemente, ela colocou a mão no ombro dele, fechou os olhos, e cercou-o com uma linda bolha de amor e luz. Menos de um segundo depois, ele se recompôs, conseguiu concluir o discurso sem problema, e ela desapareceu.
Suspiro, tentando imaginar como deve ter sido e desejando que pudesse ter visto com meus próprios olhos. Olho para Ava e digo:
— Você acha que ele realmente sentiu... A presença dela? Bem, é claro que sentiu, já que isso o ajudou a continuar, mas, tipo, você acha que ele estava ciente? Acha que ele soube que foi ela que o ajudou a continuar?
Ava dá de ombros, passando pelas portas de vidro e seguindo na direção do gramado onde ele está parado, conversando com um pequeno grupo de amigos de Lina. Os longos cabelos dele se espalham pelas costas e sobre as mangas da blusa roxa estampada com a imagem de alguma divindade hindu multicolorida que me é vagamente familiar.
— Por que não pergunta a ele? — ela diz. — Fiquei sabendo que vocês têm andado bastante próximos ultimamente.
Eu hesito. Olho imediatamente para ela. Fico imaginando se Ava quis dizer exatamente o que entendi, e quem poderia ter contado isso a ela.
— Bem, você tem faltado às aulas para ficar na loja, mesmo depois de eu ter deixado bem claro e repetido várias vezes que poderia substituí-la. Sem falar no fato que Damen parece bastante desaminado ultimamente. Pelo menos foi o que senti nas poucas vezes em que o vi, embora as gêmeas tenham confirmado meu pressentimento. Elas o veem muito mais do que eu, sabe? Ele sempre passa e as pega para ir ao cinema, correr de kart, fazer comprar no Fashion Island, visitar os parques aquáticos da Disneylândia... Eles visitaram praticamente todas as atrações de Orange County... Pelo menos duas vezes cada uma. E, por mais que elas gostem muito e por mais que seja gentil e generoso da parte dele, realmente não é preciso se aprofundar muito para perceber o que realmente está por trás dessa onda repentina de altruísmo. — Ela faz uma pausa, olhando diretamente para mim. — É óbvio que ele está em busca de uma distração. Tentando desesperadamente manter-se ocupado para não ficar obcecado por você e pelo fato de não poder mais contar com você como antes.
Eu deixo os ombros caírem, deixo toda a minha postura desmoronar, penso em como a antiga “eu” estaria brava a essa altura e já teria soltado algum argumento ridículo para me defender ou pelo menos interromper Ava antes que tivesse a chance de dizer tudo isso.
Mas não sou mais aquela pessoa. Sem contar que não há como negar que tudo o que ela acabou de dizer é verdade.
Eu deixei Damen triste.
E sozinho.
Precisando de distrações.
Não há como negar.
Mas não é tão simples assim. Há muito mais que isso, e duvido que ela tenha a mais remota noção do fato.
Além do mais, como ela disse, eu realmente me aproximei de Jude. Mas não no sentido romântico que ela supôs.
Ao mesmo tempo, sem dúvida existe um tipo de atração inegável que parece nos unir eternamente. Por mais irônico que pareça, desta vez é Jude quem está pisando no freio. Deixando claro que não tem interesse algum em ficar comigo só por um tempo.
Ele me quer para valer.
Ele me quer para sempre.
Quer ter certeza de que terminei mesmo com Damen e coloquei um ponto final em tudo o que tínhamos.
Quer que eu tenha certeza, que vá até ele sem olhar para trás, para o que eu tinha antes.
Diz que não pode correr o risco de se magoar mais uma vez.
Que só porque aconteceu várias vezes nos últimos séculos, não significa que desta vez será mais fácil.
E, como ainda não posso lhe oferecer isso tudo — apesar do que me contou sobre nossa vida passada no Sul, confirmando minha terrível suspeita de que Damen me comprou, me tirou da minha família e lhe deu as costas para sempre, para que eu fosse dele —, ainda não estou pronta para encarar.
Mesmo depois que revelou o restante da história: que logo depois que Damen me levou, ele e todos de minha família morreram em um terrível incêndio, no qual nunca estariam se Damen tivesse se preocupado em salvá-los. O resultado de seus atos foi uma sequência de mortes trágicas para as quais racionalmente não há desculpas.
E quando levo em conta sua imensa riqueza e poder, um ato como esse, tão frio, tão calculista e tão insensível a ponto de resultar em tamanha tragédia, é completamente imperdoável.
Apesar disso, ainda não estou pronta para desistir dele.
Mas também não estou pronta para vê-lo.
E, mesmo sem querer compartilhar nada disso com Ava, balanço a cabeça e digo:
— Essa história vai muito além disso. — Olho em seus olhos intencionalmente.
Ela concorda e me estende a mão, apertando a minha levemente.
— Não tenho dúvida disso, Ever. Não tenho dúvida alguma. — Ela faz uma pausa, certificando-se de que tem minha total atenção, e continua: — Apenas tome cuidado para não se precipitar. Dê a si mesma um tempo para se aprofundar, para refletir. E quando tiver dúvidas, bem, conhece meu remédio favorito...
— Meditação — murmuro, rindo e revirando os olhos, grata pela onda de luz que ela sempre me oferece, mesmo nos momentos mais difíceis. Puxo-a para perto de mim quando ela começa a se afastar. Não estou pronta para deixa-la ir ainda. Meu olhar praticamente implora quando digo: — Ava, você sabe de alguma coisa? — Agarro seu braço com força, vendo-me de repente desesperada por sua orientação, por alguma luz. — Sabe algo a esse respeito? Sobre mim, Damen e Jude? Sobre quem devo escolher?
Ela olha para mim com uma expressão branda, carinhosa, mas apenas nega lentamente com a cabeça. Um cacho de cabelos castanho-avermelhados cai sobre a testa e cobre seus olhos brevemente, antes que ela o afaste e diga:
— Receio que essa seja sua jornada, Ever. Sua, e apenas sua. Só você pode descobrir qual caminho tomar. Estou aqui apenas como sua amiga.

Um comentário:

  1. Ja ta ficando chato isso...Fica logo com o Damen menina!
    Jude é legal mais ele vai encontrar alguem


    Ass:Claudia

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!