3 de novembro de 2015

Dezenove

Estou com frio.
Ferida.
Minha única fonte de calor vem de um filete que escorre por meu rosto, fazendo meus olhos queimarem e arderem e deixando um gosto de cobre na língua.
Sangue.
Meu sangue.
Deve ser. Esme não chegou a perder nenhum do seu.
Foi muito rápida. Concentrada. Segura. E eu infelizmente não estava preparada para enfrentá-la.
Apesar de ter sido alertada pelo sonho, nunca tive chance.
Nunca imaginei que ela seria responsável por minha morte.
E agora, depois de arrumar tudo para que parecesse um acidente, ela se foi.
Deixando-me cair cada vez mais fundo em um lago infinito de escuridão.
Ouço a voz dele fluindo a quilômetros de distância.
O som confuso, distorcido, como se viesse dos confins de um mar muito profundo, como se lutasse para chegar à superfície, lutasse por mim.
Mesmo querendo mais que tudo acenar com a cabeça, balançar os braços, gritar bem alto dizendo que o escutei, que recebi a mensagem e que sei que ele está por perto, não consigo fazer nada disso.
Não consigo ver. Não consigo me mexer. Não consigo falar.
É como se já estivesse fechada no caixão, enterrada viva, ciente do que acontece à minha volta, mas incapaz de participar.
Luto com todas as minhas forças me apegar a suas palavras, sua presença, para encontrar um modo de chegar a ele antes de partir para sempre.
Ele está desesperado, ferido, triste e fora de si quando grita:
— Quem fez isso? Eu mato! — E então despeja uma enxurrada de ameaças, parando de vez em quando para alternar entre súplicas à ajuda de Deus e exigências de saber por que aquele mesmo Deus lhe fizera esse mal, roubando-lhe sua única chance de amor verdadeiro.
— Parece ter sido um acidente — diz uma voz que logo reconheço como de Rhys.
Não consigo deixar de ficar horrorizada, e espero que a mão que sinto na testa não seja dele.
— Saia de perto dela! Não toque nela! — grita Alrik. — Isso é culpa sua. Você e sua boca grande. Maldito seja, irmão! Veja o que fez!
— Eu? — Rhys dá uma risada profundamente sarcástica. — Como posso ter causado isso se acabei de chegar?
Esforço-me para ouvir, imaginando se Alrik suspeita da verdade, se suspeita de que foi Esme, sua prometida, que me deixou deste jeito.
Minhas esperanças se esvaem quando ele diz:
— Se não tivesse contado a nosso pai, eu não me haveria atrasado. Estaria aqui para salvá-la dessa... Dessa... Queda. — Ele está trêmulo, a respiração parece um gemido. — Não fosse por você, isso nunca teria acontecido.
— Meu irmão, por favor. Controle-se. Por que eu faria isso se tenho tanto a perder quanto você? — A voz de Rhys continua estável, firme, contrastando de forma cruel com a aflição sem fim e o profundo pesar do irmão.
— Você não perdeu nada — diz Alrik, sua voz praticamente um murmúrio. — Pode ficar com a coroa. Eu não quero. Está livre também para se casar com Esme. Não suportaria olhar para ela agora. Fui eu que perdi. Perdi tudo, perdi a única coisa que me importava... Adelina — ele sussurra, passando os dedos em minha testa, em meu rosto, descendo pelo pescoço, onde param e permanecem. Sua voz é de súplica quando continua:
— Adelina, por quê? Por que isso aconteceu? Por que está me deixando? Por causa do sonho, tento dizer, mas as palavras não saem. Então me concentro em pensar em vez de falar. Eu tentei alertá-lo, tentei prepará-lo, mas você não deu importância.
— Ah, Adelina... Você previu isso, não foi? Tentou me avisar ontem à noite quando acordou do pesadelo, mas eu só queria acalmá-la, recusei-me a escutar...
Por um instante sentia-me à deriva, perdendo o controle, mas, quando ele falou isso, ecoando minhas próprias palavras, algo acordou dentro de mim.
Ele... Seria possível que ele tivesse-me ouvido? Sentido os pensamentos que lhe enviei?
Alrik! Alrik, pode me ouvir? Por favor, saiba que amo você. Concentro-me nas palavras, concentro-me com toda a força, com tudo o que restou. Fico imaginando, torcendo para que ele sinta essas palavras também. Sempre amei você. Sempre amarei você. Nada pode nos separar, nem mesmo minha morte.
— Eu amo você, Adelina — ele sussurra, uma das mãos pousada em minha fronte e a outra entrelaçada à minha, empurrando impacientemente em meu dedo um aro de metal frio que só pode ser minha aliança de casamento. — Sempre amei você, sempre amarei. Estará sempre em meu coração... será sempre minha noiva... — Sua voz falha e uma enxurrada de lágrimas cai sobre meu rosto.
Que coisa, hem?, penso, desejando sorrir embora não consiga. Estou imóvel, paralisada, e ainda assim temos isso — os pensamentos que fluem entre nós.
Estou prestes a fazer mais uma tentativa, ansiosa para que ele saiba que não está tudo perdido, que ainda não parti e que um vestígio de mim ainda existe, quando ouço passos pesados seguidos da voz de Heath anunciando:
— O médico chegou.
Os minutos seguintes são gastos apalpando, apertando e avaliando um pulso tão fraco que o médico quase não sente. Sua voz é grave, o prognóstico é amargo, e seu pronunciamento final, a última coisa que Alrik quer ouvir.
Não tenho mais muito tempo neste mundo.
Mas Alrik não aceita.
— Há outras saídas. — Ele insiste. — Eu tenho dinheiro. Muito dinheiro. Pode ficar com toda a minha fortuna, com tudo o que quiser. Apenas traga-a de volta para mim. Ouvi boatos, sei sobre os elixires, tônicos e poções secretas. Sobre a mistura especial que cura todas as doenças, estendendo a vida infinitamente...
— Nada sei a respeito disso — insiste o médico com voz áspera, resoluta. — E lhe asseguro que, mesmo que soubesse, não seria algo com que se deveria brincar. Sinto muito por sua perda. Sinto mesmo. Mas é a ordem natural das coisas, e você deve encontrar um modo de aceitar isso.
— Não! — grita Alrik.
E, se eu pudesse vê-lo, certamente encontraria uma expressão dura e fria acompanhando a voz que acabou de ressoar.
— Onde há vida, há esperança, e você sabe muito bem disso! Que tipo de médico é você se não acredita na verdade dessas palavras? Nunca aceitarei soluções levianas quando ainda há opções a tentar. Tenho dinheiro, não será feita nenhuma economia. Está me ouvindo? Não pode dizer não para mim! Não sabe quem eu sou?
E continua assim, Alrik fazendo inúmeras ameaças que certamente não pretende colocar em prática. São os devaneios de um homem enlouquecido de dor, e, felizmente, o médico reconhece isso.
Suas palavras são compassivas, misericordiosas, porém firmes, quando diz:
— Alrik, milorde, ao mesmo tempo que estou profundamente triste por sua perda, fiz tudo o que estava a meu alcance. Agora imploro que a deixe partir, que se despeça e a deixe ir em tranquilidade, sem dor, sem outras explosões de sua parte. Por favor, Alrik. Se a ama tanto quanto diz, deixe-a seguir em paz.
— Fora! fora! — é a única resposta de Alrik, seguida pela pressão de seus lábios em meu rosto e uma onda de palavras sussurradas em minha pele. A palma de nossas mãos está unida enquanto ele faz orações, súplicas, perguntas, recriminações e ameaças, retornando depois às orações e começando tudo de novo.
A verborragia é interrompida apenas pela voz baixa de Heath:
— Senhor, milorde, conheço alguém que pode dar esse tipo de assistência que procura.
Alrik para, acalma-se e pergunta:
— Quem?
— Uma mulher que mora perto da vila. Ouvi boatos. Não posso afirmar que sejam verdadeiros, mas talvez valha a pena tentar...
— Traga-a — diz Alrik, enterrando o rosto em meu pescoço. — Vá. Encontre-a. Traga-a até aqui.

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