2 de novembro de 2015

Dezenove

Se eu fosse fazer uma suposição com base unicamente na aparência do estacionamento e na sensação que ele traz, bem, provavelmente consideraria que tudo está tão bem e normal quanto sempre foi.
Também julgaria que a sessão de treinamento/exercício desta manhã — a que deixou todos os meus músculos tremendo — foi uma total perda de tempo e que eu deveria simplesmente ter ficado dormindo.
Mas, depois de tudo o que Miles me contou, preciso me aventurar além do estacionamento lotado, que parece mais uma concessionária de veículos de luxo do que uma área reservada a carros de alunos.
Preciso passar pelos portões de ferro e entrar no coração da escola, onde, segundo ele, a história de verdade acontece.
E, ainda assim, ele diz que provavelmente a mudança é chocante apenas para os que estão dentro dela, já que os professores e administradores continuam alheios à nova ordem social.
— E, Ever — ele diz, virando-se para mim enquanto sigo para a vaga em que pretendo estacionar, a mais bem-localizada, a que Damen costumava guardar para mim e que agora, por alguma estranha razão, foi tomada por Haven. — Isso não é tudo. Tem mais uma coisinha, algo de que precisa saber.
— Desembuche. — Sorrio, o pulso acelerado enquanto me concentro no lustroso Aston Martin vermelho de Roman, que agora é usado por Haven.
— Nem tudo é o que parece à primeira vista. — Ele me analisa atenta e cuidadosamente, certificando-se de que estou ouvindo, e depois continua: — Então... Tente manter isso em mente, certo? Não julgue apressadamente. Não tire nenhuma conclusão precipitada caso você... Ou talvez seja melhor dizer quando você... Cruzar com algo assim. Certo?
Estreito os olhos, afasto o cabelo do rosto e digo:
— Fale logo, Miles. Sério, o que quer que seja que o esteja fazendo dar tantas voltas, apenas conte de uma vez. Porque, sinceramente, você não tem ideia de em que está se metendo. — Estreito o olhar e leio sua energia, sua aura trêmula e agitada, um sinal claro de que algo está acontecendo, mas paro por ali, sem nem considerar invadir seus pensamentos mais íntimos, mantendo a promessa de respeitar sua privacidade.
Mas ele não sabe disso. Tudo o que vê é meu olhar profundo e penetrante, e isso o deixa rapidamente em pânico.
— Ei, pare com isso! — ele grita. — Prometeu que não faria mais isso sem minha permissão, lembra?
— Relaxe. — desfaço suas suspeitas acenando com a mão. — Eu não estava lendo sua mente.
Não estava nem perto. Poxa, que saco! O que preciso fazer para que confie um pouco em mim?
Praticamente resmunguei a ultima parte para mim mesma, mas por alguma razão ele se sente estimulado a dizer:
— Confiança é uma via de mão dupla, Ever. Lembre-se disso, certo? Era isso o que estava tentando dizer.
Dou de ombros, intencionalmente ignorando o alerta evasivo e enigmático de Miles, rumo à minha verdadeira missão. Fecho os olhos por um tempo suficiente para fazer o necessário para provar a uma certa pessoa quem é que manda aqui. Vejo Aston Martin vermelho ser empurrado para um canto distante, piso no acelerador e rapidamente me aposso do espaço agora vazio.
Miles fica ofegante, vira para mim e diz:
— Uau, tinha me esquecido de como gosto de pegar carona com você. — Ele balança a cabeça e ri. — Na verdade, estava sentindo falta. Bem, não me entenda mal, estou louco para que meu carro saia da oficina e eu tenha minha liberdade de volta e tudo mais, mas, mesmo assim... Não há nada igual ao modo como você faz os semáforos ficarem verdes quando quer passar e vermelhos quando não quer, o jeito como convence todos os outros motoristas a passarem para a outra faixa e saírem de sua frente, e como você simplesmente pega qualquer vaga em que ponha os olhos, esteja ela ocupada ou não. Como agora, por exemplo. — Ele balança a cabeça e suspira. — Tenho que admitir, Ever, esse tipo de coisa nunca acontece quando saio sozinho.
Mesmo em tom de brincadeira, há algo nas palavras dele que realmente me abala. Tudo o que ele acabou de mencionar, todas essas manobras ardilosas, foram ensinada pelo próprio mestre da condução furtiva: Damen. E não consigo deixa de pensar qual o papel dele em tudo isso.
— Miles... — Faço uma pausa, a voz muito mais baixa do que eu pretendia. Tiro as mãos do volante, aperto-as sobre o colo e digo: — Exatamente onde Damen tem estado nestes dias? — Eu me viro, notando a preocupação que rapidamente obscurece seu olhar. — Por que ele está deixando Haven fazer isso, estacionar aqui e o que mais ela estiver tramando? Porque ele não está reagindo de algum forma?
Miles desvia o olhar, tirando um momento para se recompor, recuperar as palavras, e depois me encara novamente. Ele coloca a mão em meu braço, apertando-o levemente, e diz:
— Acredite, ele está reagindo. Ao seu modo de cidadão preocupado, pensando no carma bom... Era disso que eu estava falando quando falei que não deveria tirar conclusões precipitadas. Nem tudo é tão preto no branco quanto parece à primeira vista.
Analiso-o atentamente, esperando por mais, mas ele cerra os lábios e simula fechar um zíper sobre eles. Não acredito que vai encerrar o assunto desse jeito, que vai me deixar sem saber o que aconteceu.
— É isso? — Olho para ele e balanço a cabeça. — Vai me deixar desse jeito? Vai ser vago e evasivo, e deixar que eu me vire e descubra sozinha, sem nenhum aviso?
— Esse foi seu aviso — ele diz, claramente decidido a deixar as coisas como estão.
Suspiro e fecho os olhos, mas não me chateio, não leio sua mente, não pressiono mais. No fundo, ele quer meu bem. Estou convencida de que ele está tentando me poupar. Então decido não insistir. Sei de algo que ele não sabe: que, seja qual for a surpresa, posso enfrentá-la.
Nada mais pode me atingir.
Ele vira o para-sol e se olha no espelho, ajeita com os dedos os cabelos longos e brilhantes — o novo visual descolado com o qual ainda estou me acostumando — e verifica os dentes, as narinas, o perfil (ambos os lados), antes de considerar-se pronto para encarar o público.
— Estamos prontos? — Pego o bolsa e abro a porta. Sua expressão me incita a perguntas: — Só para ficar claro, do lado de quem você está?
Ele joga a mochila nos ombros e me lança um olhar. O brilho em seus olhos combina perfeitamente com o sorriso quando ele diz:
— Do meu. Estou do meu lado.
Bem, ele certamente não estava brincando. Nem exagerando. Por um lado, tudo está completamente diferente — é visível que houve uma mudança radical. Mas, por outro, para os menos observadores (também conhecidos como professores e administradores), tudo parece exatamente igual.
As “mesas dos veteranos” ainda são povoadas por veteranos, só que agora estão sentados ali aqueles que eram proibidos até mesmo de passar por elas.
E, no lugar de uma fashionista loura e arrogante sendo bajulada, há uma fascista morena e arrogante.
Uma fascista morena e arrogante de cujo olhar sou alvo assim que Miles e eu passamos pelo portão.
Ela desvia os olhos de seu grupo de adoradores por tempo suficiente para estreitá-los e trincar os dentes enquanto nos observa. O olhar dura apenas um segundo e ela logo volta para eles, mas já é o bastante para dar a Miles o que pensar.
— Ótimo — ele murmura, balançando a cabeça. — Parece que eu acabei de, extraoficialmente, escolher um lado. — Ele estremece. — Ou, pelo menos, é isso o que ela está achando.
— Não se preocupe — sussurro, perscrutando a área, à procura de Damen, mesmo tentando fingir que estou apenas me reefamiliarizando com a escola. — Prometo que não...
Eu o vejo.
Damen.
— ... prometo que não a deixarei...
Engulo em seco e o devoro com os olhos.
Reclinado em um banco, com as longas pernas esticadas para a frente, apoiando a cabeça nas mãos enquanto vira o lindo rosto para o sol...
— ... prometo que não a deixarei machucar...
Luto para terminar a frase, mas não adianta. Sei no instante em que vejo que era sobre isso que Miles estava tentando discretamente me alertar.
Ele não queria dizer diretamente, mas estava certo ao presumir que eu iria surtar, mais ou menos como está acontecendo. Não queria que eu simplesmente esbarrasse nisso e fosse surpreendida da pior maneira possível.
Miles fez o que pôde — isso eu devo admitir. Ele fez o melhor para me poupar desse tipo de dor. Mas, ainda assim, mesmo tentando me preparar, não há como ignorar uma visão como essa.
Quando eu disse que nada poderia me atingir, estava enganada.
Redondamente enganada.
Mas também nunca imaginei que o encontraria assim.
Ele fala baixinho com ela, sua expressão parece tranquila e gentil, distraindo-a dos comentários cruéis e dos olhares que vem de praticamente todos que passam. Mas enquanto Damen estiver lá, nada de pior pode acontecer. Ninguém ousará se aproximar. Sua presença por si só os mantém longe, E a mantém segura.
Enquanto ele estiver ali, ela será poupada da fúria de todos.
E entender o motivo de Damen estar fazendo isso também não torna mais fácil de ver. A cada segundo ali parada, parte de mim seca.
Parte de mim morre.
Miles me segura pelo cotovelo, determinado a me tirar dali, mas não adianta. Sou mais forte que ele e me recuso a ser controlada.
Ser que é apenas uma questão de instantes até que ele sinta minha presença, minha energia. E, mesmo com o estômago revirando, o coração partido e as mãos trêmulas, mesmo com muito medo do que posso perceber em seu olhar quando ele me localizar — ainda preciso que isso aconteça.
Preciso saber o que isso significa
Preciso saber se ela agora ocupar o espaço que eu tinha na vida dele.
Quando ele me vê, quando seus olhos se arregalam e os lábios se abrem de um modo que o transforma completamente, minha respiração fica presa na garganta.
O momento parece eterno, como se estivesse de alguma forma suspenso no tempo. E não demora muito até que ela também me veja, seguindo o olhar dele até mim, e rapidamente vir para o outro lado. Seu excesso de confiança agora se reduz permanentemente.
— Ever... Por favor — Miles implora em meu ouvido. — Lembre-se do que lhe disse. Nada é o que parece. Tudo está virado de cabeça para baixo. A ex-turma dos rejeitados se transformou na dos populares e a antiga turma dos populares, bem, praticamente se desfez. A maioria está se escondendo, alguns até mesmo saíram. Nada é como antes.
Mesmo escutando o que ele diz, as palavras entram por um ouvido e saem pelo outro.
Não me importo com nada disso. Só me importo com Damen e com o modo como seu olhar me espreita.
Embora fique esperando por uma tulipa — real ou imaginária — ou algum tipo de sinal, nada acontece.
Não há nada além de um silêncio infinito entre nós.
Então me apoio em Miles e deixo que ele me leve.
Para longe deles.
Direto para minha dor.

8 comentários:

  1. Eu só leio essa serie pq sou uma viciada em séries, não fico feliz até saber como acaba, mas fala sério essa é a unica mocinha de todos os livros q eu li, egoista, burra, chata, grossa, ignorante entre outros... Tudo bem a Havem é doida, do contrario eu torceria até pela Havem mas não torceria pela Ever....Garota idiota!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo plenamente...
      Ela é ridícula demais!

      Excluir
  2. Bem feito, fica fazendo joguinho, deveria ser mesmo trocada.
    Ela pode sumir da vida dela e ficar quase se atracando com Jude e ele não pode conversar com o que parece ser Stacia, por esta estar esclusa,porque pelo o que Miles disse, Damem so esta conversando com ela(se for ela mesmo) porque esta sendo excluida por todos.

    ResponderExcluir
  3. Concordo totalmente! A Ever já passou dos limites. Poxa, cansei desse jeito dela de não entender as coisas. Miles já não disse que não é o que parece!

    ResponderExcluir
  4. Bem feito! A Ever merece!
    P.S. Mais ainda torço que eles fiquem juntos.

    ResponderExcluir
  5. Bem eu encaro esse livro como se fosse uma liçao de moral , a Ever faz tudoooo errado mas ela faz com amor como quando ela deu o sangue dela pro Damen. por exemplo se vc fizer tudo com amor no final tudo dará certo alguem penssa como eu??

    ResponderExcluir
  6. Concordo com vocês...a Ever nunca confia no Damen

    ResponderExcluir
  7. Pqprl, se eu fosse ever ia lá e matava ela(stacia) e batia em damen ou melhor ainda me matava e quando eu morresse ele ficaria com o peso da minha morte.

    QUE ODEIO DE DAMEN, NEM LIGO SE NÃO É OQ PARECE, MAS SERAR QUE CUSTA ELE AVISAR ANTES, PRA ELA OUVIR DA BOCA DELE, PQ É MELHOR CONTAR POR SI PRÓPRIO DO QUE DEIXA OUTRA PESSOA CONTAR.

    AINDA NÃO ACREDITO NISSO PQPRL

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!