2 de novembro de 2015

Dezenove

Eu nem penso nisso. Nem paro para pensar duas vezes. Apenas materializo o portal, aterrisso de volta no plano terreno e corro para a casa de Damen.
Mas, então, quando estou chegando ao portão, penso melhor.
As gêmeas estarão lá.
As gêmeas sempre estão lá.
E esse assunto, definitivamente, não deve ser discutido na presença delas.
Como os portões já estão em movimento, e Sheila está alegremente fazendo sinal para que eu entre, passo e sigo para o parque. Estaciono o carro e vou direto para os balanços, sento-me em um deles e me impulsiono para frente com tanta força que me pergunto se não darei uma volta completa antes de descer. Mas isso não acontece, só balanço para frente e para trás, sentindo o vento no rosto enquanto voo cada vez mais alto e um leve frio na barriga quando volto depressa para baixo. Fecho os olhos e chamo Damen até mim, usando os poderes que ainda restaram antes que o monstro acorde e dê início a seu passatempo favorito: me sabotar. Começo a contar os segundos, mas não chego nem ao dez e o vejo parado à minha frente.
O ar mudou, inflamado por sua presença, seu olhar enviando um formigamento delicioso e quente por toda a minha pele. E quando abro os olhos para olhar nos dele, é como a primeira vez em que nos encontramos, no estacionamento da escola: hipnotizante, mágico, um momento de rendição total e completa. O sol atrás dele o envolve em um resplendor laranja, dourado e vermelho tão brilhante que é como se os raios estivessem emanando de seu corpo. Fico presa ao momento, seguro-o o máximo que posso, ciente de que é apenas uma questão de tempo até que eu fique entorpecida e insensível a ele novamente.
Ele se senta no balanço ao meu lado, embalando bem alto e instantaneamente pegando meu ritmo. Nós dois atingimos alturas tão delirantes e maravilhosas, apenas para mergulhar novamente para baixo — uma analogia a nosso relacionamento nos últimos quatrocentos anos.
E quando ele olha para mim com expectativa no rosto, sei que estou prestes a decepcioná-lo. Não estou aqui pelo motivo que ele pensa.
Respiro fundo, engolindo o nó preso na garganta e digo:
— Damen — eu me viro para ele —, eu sei que as coisas estão meio... tensas... — Faço uma pausa, sabendo que essa palavra mais consegue descrever o que estamos passando, mas continuo: — Mas, bem, depois que você foi embora, dei de cara com algo tão extraordinário que corri até aqui para contar. E se pudermos deixar essas outras questões de lado, pelo menos por enquanto, acho que você vai gostar de ouvir isso.
Ele inclina a cabeça e me absorve com os sentidos. Seu olhar é tão profundo, escuro e intenso que as palavras param bem no meio de minha garganta. Forçando-me a olhar para baixo, fazendo uma série de pequenos círculos na terra com o pé, empurro as palavras e digo:
— Sei que deve parecer maluquice, tanto que acho que você nem vai acreditar, mas estou dizendo, não importa o quanto possa parecer absurdo, é completamente real, eu vi com meus próprios olhos. — Faço uma pausa, dando uma espiada e vendo-o com a cabeça daquele seu jeito encorajador e paciente. Então limpo a garganta e recomeço, perguntando-me por que estou tão nervosa quando ele provavelmente é a única pessoa que sei que entenderia de fato. — Sabe, você sempre diz que os olhos são as janelas da alma, o espelho do passado e tudo mais. E que é possível reconhecer alguém de suas vidas passadas simplesmente olhando nos olhos dessa pessoa.
Ele faz um gesto afirmativo, lento, reservado, como se tivesse todos o tempo do mundo para ver aonde isso vai levar.
— Bem, o que estou querendo dizer é... — Respiro fundo, esperando que ele não ache que sou ainda mais louca do que já acha, e revelo: — Ava-é-a-tia-de-Romy-e-de-Rayne! — A frase escapa tão rapidamente que parece apenas uma palavra muito longa, e ele apenas fica ali sentado, olhando, calmo e sossegado. — Lembra quando eu disse que havia tido aquela visão em que a vida das duas se revelou e eu vi a tia delas? Então, por mais estranho que pareça, essa tia hoje é a Ava. Ela morreu durante os Julgamentos das Bruxas de Salem e voltou nesta vida como Ava. — Encolho os ombros, sem saber ao certo o que dizer depois de uma afirmação dessas.
Seus lábios se curvam de leve, os olhos iluminam, e ele empurra o balanço lentamente para frente e para trás enquanto diz:
— Eu sei.
Estreito meus olhos, sem saber se ouvi direito.
Ele se movimenta, mudando de direção e chegando tão perto que nossos joelhos quase se tocam. Depois, olha para mim e diz:
— Ava me contou.
Pulo do balanço tão rápido que as correntes se chocam e se enrolam uma na outra, indo até em cima, e depois se desenrolam novamente, girando varias vezes em um movimento furioso que emite um som metálico terrível. Meus joelhos vacilaram, instáveis, enquanto aperto os olhos e tento entendê-lo lentamente, imaginando como esse cara que diz ser o amor de minhas vidas pôde ficar amigo dela, colocar as gêmeas em perigo e me trair desse jeito.
Mas ele apenas olha para mim sem um pingo de preocupação.
— Ever, por favor. — Ele balança a cabeça. — Não é o que você está pensando.
Aperto os lábios e desvio o olhar, pensando em onde ouvi isso antes. Ah, certo, Ava. É praticamente sua frase favorita, a que ela mais repete, e não acredito que ele tenha caído nessa.
— Ela viu em uma visita aos registros akáshicos. E hoje, quando eu não conseguia encontrar nenhum jeito de ajudar você, confirmei. Ela está arrumando a casa, tentando encontrar o melhor momento para contas a elas, e, bem, embora tenha acredito nela, não estava muito certo se seria realmente o melhor para as meninas. Então, hoje quando pedi orientação sobre qual seria o melhor caminho para elas, a história se revelou. Na verdade, elas estão com Ava agora mesmo.
— Então é isso. — Olho para ele. —Ava não é mais má, fica com as gêmeas, e nós retomamos nossa vida. —Tento rir, mas não sai bem do jeito de que eu gostaria.
— É? Retomamos a nossa vida? — Ele inclina a cabeça e olha para mim.
Eu suspiro, sei que não tenho escolha a não ser explicar. É o mínimo que posso fazer.
Sento-me no balanço, segurando as grossas correntes de metal, enquanto olho para ele e digo:
— Hoje... em Summerland... apesar do que pareceu, não era nada daquilo. E eu ia explicar... Explicar tudo o que está acontecendo... mas quando você desapareceu tão rápido, eu... —Aperto os lábios e desvio olhar.
— E então por que não explica agora? — ele pergunta, olhando-me de perto. —Estou bem aqui. Tem toda minha atenção. —Sua voz está tão dura e formal que meu coração se parte, esfarela-se em milhões de pedacinhos enquanto ele continua sentado ao meu lado, tão lindo, tão forte, tão bem intencionado, querendo apenas fazer o certo, não importa o quanto lhe custe.
E eu quero tanto abraçá-lo com força, encontrar um jeito de explicar tudo.
Mas não consigo, as palavras são prisioneiras do monstro dentro de mim. Então, apenas dou de ombros e me ouço dizer:
— Foi... Foi completamente inocente. É serio. Fiz aquilo por nós, apesar do que possa parecer.
Damen me olha com tanta paciência e amor que só consigo me sentir culpada.
—Então me diga, encontrou o que procurava? — Ele questiona. A pergunta é tão carregada que apenas imagino a verdadeira intenção por trás dela.
Faço uma pausa, tentando não recuar diante de seu olhar misterioso e inquisitivo. Com as palmas das mãos de suor, digo:
— Você sabe como eu estava me sentindo mal por ter atacado Jude... então pensei que se o levasse para Summerland talvez ele pudesse ser curado e...
—E...? — ele pergunta, coma paciência de seiscentos anos na voz, e eu fico imaginando se ele nunca se cansa disso... De ser tão tolerante, tão resignado... especialmente quando se trata de lidar comigo.
—E... — tento dizer, tento contar a ele o que está acontecendo comigo, mas não consigo. A fera está acordada, a magia negra começa a assumir o controle, e eu mal consigo suportar. Balanço a cabeça. Nervosa, fico mexendo com os botões de imitação de casco de tartaruga em meu suéter e digo:
— E... Nada. É sério. É isso. Só achei que Summerland curaria Jude, e aparentemente curou.
Damen me analisa, o rosto contido, relaxado, como se me entendesse completamente. E, na verdade, ele entende. Ele entende muito além de minhas palavras desajeitadas. Entende muito bem.
—Então, como já estávamos lá, pensei em mostrar o lugar, e assim que viu os Salões, bem ele correu lá para dentro... E o restante... Como dizem... É história. — Nossos olhares se encontram, a ironia da palavra não passou despercebida por nenhum de nós dois.
— E você entrou com ele... nos Salões?
  Seus olhos quase se fecharam, olhando para mim como se ele já soubesse... Soubesse que não sou mais bem vinda lá... Mas quisesse ouvir isso de mim. Quisesse a confissão completa de como me tornei sombria e perversa...
Respiro fundo e tiro os cabelos dos olhos.
—Não, eu... Hesito, pensando se devo ou não contar sobre o meu passeio a cavalo até a terra de ninguém, mas rapidamente decido não dizer nada, imaginando que o que eu testemunhei seja mais um reflexo de mim, de meu estado interior, do que um lugar de verdade. — Eu, hum, eu fiquei no lado de fora, à toa, esperando. — Dou de ombros. — Bem, fiquei um pouco entediada e pensei em ir embora, mas também queria garantir que ele encontrasse o caminho de volta para casa, então, eu... Hum... Fiquei esperando. — Confirmo, de modo um pouco exagerado, nem perto de ser convincente.
Trocamos um olhar longo e doloroso; ambos sabemos que estou mentindo... Que acabei de desempenhar, provavelmente, minha pior atuação de todos os tempos. E por algum motivo estranho e desconhecido ele dá de ombros no final, tão indiferente que chego a ficar decepcionada. A pequena centelha de sanidade que me resta deseja que ele encontre um modo de tirar isso de mim, para podermos colocar um fim nisso tudo. Mas ele apenas continua me olhando, até que viro e digo.
— É bom saber que você ainda visita Summerland sozinho, mesmo se recusando a ir comigo. — Sei que ele não merece essa observação, mas falo mesmo assim.
Ele agarra meu balanço e me puxa para perto dele, trincando o maxilar, os dedos esmagando as correntes, deixando as palavras saírem por entre os dentes cerrados:
—Ever, eu não fui até lá por mim... Fui até lá por você.
Engulo em seco e, por mais que queira desviar ao olhos, não consigo. Meu olhar está preso ao dele.
—Tentei encontrar um jeito de chegar até você... De ajudar. Você tem estado tão distante... Nem um pouco parecida com o que é, e há dias não passamos tempo algum juntos. Está bem claro que está fazendo o melhor que pode para me evitar, nunca mais quis ficar comigo, pelo menos não no plano terreno.
—Isso não é verdade! — As palavras saem agudas e trêmulas demais para soarem críveis, mas eu continuo mesmo assim. —Bem, talvez você não tenha notado, mas tenho trabalhado muito ultimamente. Até agora, passei o verão todo arrumando livros em prateleiras, cuidando do caixa e fazendo leituras mediúnicas como Avalon. Então, sim, talvez eu queira passar meu tempo livre me dando de presente umas escapadas... Isso é tão ruim assim? —Aperto os lábios e olho diretamente nos olhos dele, sabendo que a maior parte do que eu disse é verdade imaginando se ele vai me fazer alguma pergunta sobre as partes que não são.
Mas ele apenas balança a cabeça, recusando-se a ser influenciado.
— E agora que Jude está melhor... Agora que o curou com uma viagem a Summerland... Não consigo deixar de imaginar qual vai ser a próxima desculpa.
Suspiro e desvio o olhar, surpresa por ouvi-lo responder dessa forma, e a verdade é que não tenho ideia de como responder, não tenho ideia do que fazer em seguida. Chuto uma pedrinha com o bico do sapato, incapaz de contar a ele, cansada e arrasada demais para inventar qualquer outra historia.
— Sabe, você costumava ser tão brilhante aqui no plano terreno quanto em Summerland. — Engulo em seco e abaixo a cabeça, mal acreditando em meus ouvidos quando ele continua: — Eu sei sobre a magia, Ever. — Sua voz é grave, quase um sussurro, embora as palavras reverberem como um grito. — Sei que você não pode fazer nada. E gostaria que me deixasse ajudar.
Fico tensa. Todo o meu corpo endurece e meu coração bate violentamente.
— Conheço os sintomas: a ansiedade, as mentiras, a perda de peso, a... aparência debilitada. Você está viciada, Ever. Está viciada no lado negro da magia. Jude nunca deveria ter colocado você nessa. — Ele balança a cabeça, sem deixar por um segundo de olhar em meus olhos. — Quanto antes admitir, mais rápido poderei ajudar você a se sentir melhor.
— Não foi... — Esforço-me para falar, mas as palavras não saem. O monstro está no controle, decidido a nos separar. — Não foi esse o motivo de você ter ido aos Grandes Salões do Conhecimento? Para me ajudar? — Olho para ele, vendo como sua expressão muda e ele fica magoado e surpreso. Mas não é o suficiente para conter a fera, não, nem chega perto. Esse trem acabou de sair da estação e tem um logo caminho a percorrer. — Então, me diga, o que você viu? O que os poderosos registros akáshicos compartilharam com você?
— Nada — ele diz com a voz cansada, derrotada. — Não descobri nada. Aparentemente, quando o problema é causado pela própria pessoa, o acesso é vedado a outras. Estou impedido de interferir de qualquer modo. — Ele dá de ombros. — Acho que tudo faz parte da jornada. Mas ainda assim uma coisa ficou clara, Ever: na ultima quinta-feira à noite, Roman mencionou um feitiço, e desde que Jude deu aquele livro a você, tudo mudou... Com você... Entre nós... Nada está como antes. —Ele olha para mim, esperando por uma confirmação, mas ela não vem, não pode vir. —Vocês dois compartilham uma historia complicada, e é obvio que ele ainda não esqueceu você. E não consigo evitar a sensação de que ele está no caminho... De que aquela magia está no caminho. E, Ever, ela vai destruir você se não tomar cuidado... Já vi isso acontecer.
Meus olhos procuram seu rosto, ciente de que ele está tentando me enviar uma imagem, algum tipo de mensagem, mas o pulso estranho e exótico está a todo vapor, a chama negra está queimando, enfraquecendo meus poderes de modo que não consigo mais acessar os pensamentos de Damen, a energia, o formigamento e o calor — nada.
Ele vem em minha direção, pega em meu ombro antes que eu consiga piscar e me encara com determinação e intenção, totalmente decidido a lidar com isso de uma vez por todas. No entanto, por mais que eu queira, não posso contar a ele, não posso deixá-lo me ver assim. A repulsa que Damen verá em meus olhos não está vindo de mim, vem da fera, mas ele não saberá reconhecer a diferença.
Mesmo odiando ter de agir assim, mesmo que isso apenas prove que ele está certo, que sou imprudente e estou perigosamente fora de controle, balanço a cabeça e ando até o meio-fio, onde meu carro está estacionado.
Olhando para trás digo:
— Desculpe Damen, mas você está enganado. Redondamente enganado. Estou apenas trabalhando demais, cansada demais, como acabei de dizer. E se um dia quiser dar o braço a torcer... Bem, sabe onde me encontrar.

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