3 de novembro de 2015

Dez

Você vai entrar?
Damen fica a meu lado, bem a meu lado. Seu corpo está tão próximo ao meu que posso sentir a onda de formigamento e calor, seu hálito quente contornando meu rosto.
— Não — sussurro. — Eu... eu não posso. — Engulo em seco, passando os braços ao redor do corpo enquanto continuo a espiar lá dentro. Sinto-me uma bisbilhoteira da pior espécie por ficar do lado de fora no escuro, espionando Sabine e Muñoz, em vez de abrir a porta e entrar para me juntar a eles, como uma pessoa normal.
Mas não sou normal.
Nem um pouco.
E é isso que me faz ficar encolhida aqui fora no escuro, do lado errado da janela.
Se não vai entrar, pode pelo menos me dizer o que estamos fazendo aqui fora?
As palavras são pensadas, não ditas. Ele não quer correr o risco de ser ouvido.
Estou me despedindo, suspiro. Estou me preparando para um futuro sem ela. Embora não esteja de frente para ver sua expressão, posso sentir o modo como a energia de Damen muda, o jeito como se amplia e expande até nos envolver, fornecendo uma espécie de abraço caloroso que se prolonga muito além do momento em que seus braços me alcançam e fazem o mesmo.
— Ever — ele sussurra, mãos agarradas em minha cintura, lábios atravessando minha cortina de cabelos e chegando até o rosto. Mesmo dando a impressão de que vai dizer mais, ele opta por ficar calado, deixando o beijo fazer o que as palavras não conseguem.
Nós nos abraçamos, vendo o casal feliz terminar o jantar. Um insistindo para que o outro fique com o último pedaço de pizza até que Sabine a dispensa e pega sua taça de vinho e Muñoz ri e começa a comer.
Mas, apesar da atitude divertida dos dois, não é difícil localizar um quê de remorso no olhar de Sabine, um lampejo de derrota por ter arriscado, dado um ultimato, falhado na única coisa que realmente tinha algum significado para ela.
Um olhar que quase basta para me tirar de meu posto na janela, me jogar lá dentro e mostrar que está tudo bem, tudo perdoado.
Quase, mas não basta.
Em vez disso, permaneço no mesmo lugar, observando. Ela ainda está de terninho, o que, somado à pizza, indica que trabalhou até tarde. Muñoz está vestido de modo mais informal, usando jeans desbotados e camisa branca com as mangas dobradas quase até o cotovelo, desfrutando uma folguinha da escola e usando as férias de inverno para trabalhar em seu livro.
O livro do qual estava prestes a desistir.
O livro que eu lhe disse que um dia seria publicado.
Pelo menos um benefício veio de minhas habilidades. Elas podem ter afastado Sabine, mas pelo menos consegui convencer Muñoz a não desistir de seu sonho.
Estou tão perdida nesse pensamento e Damen está tão concentrado em me consolar que nenhum de nós está preparado quando Muñoz sai pela porta lateral carregando um saco de lixo.
— Ever? — Ele fica parado diante de nós, saco balançando do lado, estreitando os olhos como se não acreditasse no que está vendo.
Mostro a palma da mão, os olhos pedindo que ele fique quieto e mantenha o fato em segredo, que continue seu caminho até a lixeira como se não nos tivesse visto agachados abaixo do peitoril da janela.
Mas é pedir muito a alguém que está à sua procura. Embora siga até a lata de lixo para jogar o saco, volta rapidamente para onde Damen e eu estamos.
— Onde diabo você esteve? — Suas palavras me pegam de surpresa, principalmente por não terem saído tão irritadas quanto deveriam. Pareceram mais um grande suspiro de alívio.
— Estou na casa de Damen — digo, como se, de algum modo, aquilo explicasse toda a extensão de minha ausência. — E Sabine sabe muito bem, já que Damen telefonou a ela para contar. — Olho para Damen e percebo a onda de choque em seu rosto. Ele não se dera conta de que eu sabia.
— Sabine está muitíssimo preocupada. Precisa entrar para que ela veja que você está bem. — Ele alterna o olhar entre nós, ainda tentando atualizar o cérebro sobre o que está vendo diante de si.
— Sabe que não posso fazer isso — digo em voz baixa. — E sabe o porquê. Na verdade sabe muito mais que deveria, muito mais que eu gostaria. — Suspiro e balanço a cabeça, lembrando-me do dia em que, há apenas algumas semanas, em uma correria frenética em direção a um desastre que eu não previ, materializei um buquê de narcisos e um BMW preto bem diante de seus olhos. Basicamente mostrando a ele que minha esquisitice — meus poderes — vai muito além da telepatia que ele já conhecia. Ele me viu correr como o vento, fazer objetos aparecerem onde antes havia apenas ar, e tenho quase certeza de que depois de superar o choque de tudo isso deve ter começado a imaginar do que mais sou capaz. Pelo menos é isso o que eu teria feito no lugar dele.
— Você também faz parte disso? — pergunta Muñoz, voltando o foco para Damen, como se procurasse um lugar conveniente onde despejar toda a culpa.
— Sou a razão, sim — diz Damen ser hesitar, sem fazer qualquer pausa.
Fico perplexa, surpresa com aquelas palavras, com a forma como ecoam o que Lótus disse antes. Fico imaginando se foi isso que ele quis dizer ou se o fato de suas palavras refletirem as dela é mera coincidência.
Muñoz pensa, tenta entender. Estava indo em uma direção quando Damen foi em outra, e agora ele é obrigado a alcançá-lo, ou pelo menos chegar mais perto.
— Sempre achei que havia algo muito estranho a seu respeito — Muñoz finalmente diz com a voz baixa, quase pensativa.
Damen confirma com um aceno de cabeça, e eu não tenho ideia de como encarou isso. Sua voz, assim como sua expressão, nada revela.
— É quase como se você não fosse desta época — acrescenta Muñoz, como se falasse sozinho.
— Eu não sou desta época. — Damen olha diretamente para ele. Sua resposta é tão simples, tão direta, tão inesperada que me faz perder o fôlego.
Muñoz faz um gesto afirmativo com a cabeça, aceitando logo a resposta, agindo como se acreditasse de verdade nele ao perguntar:
— E de que época é, então?
— Uma de suas favoritas. — Damen esboça um sorriso. — A Renascença italiana.
Muñoz engole em seco, concorda e olha em volta como se esperasse encontrar mais explicações plantadas no jardim, boiando na piscina ou mesmo coladas na churrasqueira. Ele processa a declaração com mais calma que eu jamais esperaria, agindo como se não parecesse completamente surpreso por estar tendo uma conversa tão séria sobre um assunto tão peculiar.
— Então a alquimia é real? — ele arrisca perguntar, atingindo o alvo, diferentemente da maioria das pessoas.
Bem, quando era eu tentando decifrar a estranheza de Damen, pensei logo em vampiros. Miles também. Mas, aparentemente, Muñoz não é tão influenciado pelo atual fenômeno da cultura pop, então acertou em cheio a verdade.
— A alquimia sempre foi real — admite Damen com expressão controlada, voz firme, sem dar qualquer pista de quanto aquilo está lhe custando, embora eu possa imaginar.
Durante seiscentos anos, ele lutou para manter em segredo a verdade sobre sua existência, e bastou me encontrar nesta vida para então ver tudo se desfiar como um suéter roído por traças.
— Real, sim... mas nem sempre bem-sucedida. — Muñoz fita Damen nos olhos, enxergando-o sob uma perspectiva totalmente nova.
Damen confirma com a cabeça.
— E você, Ever? — Muñoz olha para mim, tentando me ver de um modo novo também. Mas, apesar de minha total estranheza, sou claramente um produto do mundo moderno, não há como negar.
Faço que não com a cabeça, ergo os ombros e paro por aí.
— Nossa! Há tanto para conversarmos. Quero fazer tantas perguntas...
Olho inquieta para Damen, esperando que Muñoz não comece a fazer muitas perguntas que Damen, pelo motivo que seja, sinta-se compelido a responder.
Mas, por sorte (algo que não tenho tido ultimamente, mas fico feliz em aceitá-la da forma em que vier), Sabine me salva ao gritar:
— Paul? Está tudo bem aí fora?
Ele perde o fôlego e alterna o olhar entre nós dois. Como não posso correr o risco de falar, de que ela ouça minha voz pela janela, apenas faço um sinal negativo com a cabeça e o encaro com uma expressão intensa de súplica.
Fico aliviada quando ele diz:
— Sim, está... tudo bem. Só estou olhando a noite, observando um pouco as estrelas, procurando a Cassiopeia. Você sabe que gosto de fazer isso. Entro em um segundo.
— Quer que eu lhe faça companhia? — pergunta ela com a voz mais rouca, sedutora, indicando algo que não quero mesmo testemunhar.
— Ah, não, está muito frio aqui. Um segundo e eu já encontro você aí dentro — responde ele, para meu alívio.
Ele nos lança um olhar questionador. Seus lábios se abrem como se fosse dizer algo mais, mas faço que não com a cabeça, fecho os olhos, materializo rapidamente um buquê de narcisos e lhe peço que o entregue a Sabine.
— O que eu digo a ela? O que devo dizer? — ele sussurra, olhando com cuidado na direção da janela.
— Prefiro que não diga nada, não mencione nada — peço a ele. — Mas, se achar que deve, apenas diga que eu a amo. Diga que sinto muito pelos problemas que causei e que ela não precisa ficar se culpando por nada que possa ter dito em momentos de frustração ou de raiva. Sei que isso pode parecer frieza e, de seu ponto de vista, provavelmente até horrível, mas, por favor, tente confiar em mim quando digo que assim será melhor. Não podemos mais nos ver. É impossível, ela não vai aceitar e não há como explicar.
Antes que Muñoz possa reagir, antes que possa tomar uma posição, fazer alguma promessa, Damen aperta minha mão, puxando-me para o caminho de pedras em direção ao portão lateral.
Misturamo-nos à noite até que Muñoz não possa mais nos ver.
Ambos sem olhar para trás, sabendo que é melhor olhar para a frente, para o futuro, que lamentar um passado que se foi para sempre.

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