2 de novembro de 2015

Dez

Quando percebo, estou andando nos campos de tulipas vermelhas, atraída pela energia de Damen até a porta da frente do pavilhão.
Paro diante dela, sem saber se devo entrar. Primeiro acho estranho que ele tenha vindo até aqui sem mim, depois imagino que deva ter sido o jeito que encontrou de estar perto de mim quando estou ocupada com outra coisa. Dou uma espiada e vejo apenas o topo de sua cabeça aparecendo no encosto do sofá. Estou prestes a chamá-lo, avisar que estou aqui e dizer o que descobri sobre a camisa, quando vejo.
A tela.
E a cena horrível que está projetada nela.
É minha vida sulista.
Minha vida como escrava.
Quando eu era indefesa e sofria maus—tratos, mas ainda assim mantinha a esperança.
E naquele dia em particular parecia haver uma abundância de esperança — pelo menos considerando a situação. Porque, mesmo levando algum tempo para entender o que realmente estava acontecendo, uma coisa é clara: estou sendo vendida. Retirada de meu terrível dono violento para trabalhar para um homem muito mais novo, com cabelo escuro e ondulado, alto e esguio, de cílios bem compridos, que reconheço imediatamente.
Damen.
Ele me comprou. Me resgatou. Assim como tinha dito!
Apesar disso, se foi assim, por que pareço triste? Por que me lábio inferior treme, meus olhos escuros choram, no dia em que meu verdadeiro amor, minha alma gêmea, meu cavaleiro de armadura brilhante veio me salvar de uma vida de trabalhos forçados?
Por que pareço tão infeliz, com braços e pernas trêmulos e um olhar cheio de tristeza — olhando sem parar para trás e arrastando os pés, claramente relutante em me juntar a ele?
Mesmo sabendo que espionar é errado, que eu deveria falar algo e alertar Damen de que estou aqui, não o faço. Não digo uma palavra. Apenas permaneço onde estou. Quieta e parada. Respirando baixinho, sabendo do que se trata: o grande acontecimento que ele escondeu esse tempo todo — o assunto que Roman e Jude insinuaram e que Haven usou para me provocar. E se quero chegar ao inicio dessa historia, ver a cena tão real e bruta como no dia em que aconteceu, não posso avisá-lo de minha presença. Apenas de sua incapacidade de sentir que estou aqui provar quando está concentrado.
Não demora muito para que eu veja o motivo por trás de toda a tristeza. A razão para eu ter reagido daquela forma.
Estou sendo afastada de minha família. De todos que sempre amei. De meu único amparo. Esse homem branco, gentil e rico pode pensar que está me salvando, fazendo algum tipo de boa ação ou ato nobre, mas basta olhar meu rosto para ver que o custo disso é minha única fonte de felicidade.
Minha mãe chora ao fundo enquanto meu pai fica parado em silêncio atrás dela. Seu olhar é de tristeza e luto, perturbação, embora nos incentive a permanecer fortes. Mesmo se agarrando a eles, prendo-me a tudo o que tenho, determinada a gravar a sensação do cheiro, do toque, da existência de minha família, não demora para eu seja afastada daquilo tudo.
Damen agarra meu braço e me puxa em sua direção, para longe de minha mãe... Minha mãe grávida, que abraça ansiosamente a barriga grande e dilatada que abriga minha irmã que ainda não nasceu. Ele me afasta de meu pai, de minha família... Do menino atrás deles, que tenta me alcançar, mal me tocando com as pontas dos deles, se recusa a deixá-lo, meus olhos continuam fixos, absorvendo-o até ter sua imagem impressa em meu cérebro — o garoto negro e magricela de olhos castanhos penetrantes que instantaneamente revelam quem ele é.
Meu amigo, meu confidente, meu pretendente, aquele que conheço nesta vida como Jude.
— Quieta, agora — Damen sussurra com os lábios em meus ouvidos, enquanto minha família recebe ordens para virar as costas e voltar ao trabalho. — Acalme-se, por favor. Tudo vai ficar bem. Prometo mantê-la em segurança. Enquanto estiver comigo, ninguém mais poderá machucá-la novamente. Mas primeiro precisa confiar em mim, certo?
Mas eu não confio nele. Não posso confiar. Se ele realmente se preocupa comigo, se realmente é tão rico e poderoso como diz, por que não compra todos nós? Por que não nos mantém juntos?
Por que leva apenas a mim?
Mas, antes que possa ver mais, Damen corta a cena. Apenas a exclui. Apaga-a de uma vez, como se nunca tivesse existido.
E neste momento entendo o que ele quer dizer com editar.
Não apenas me poupa de ver cenas desconfortáveis, como minhas mortes pavorosas...
Protege a si próprio, a imagem que trabalho tanto para criar. Não quer permitir que eu testemunhe seus atos maus vergonhosos.
Como o que acabei de ver.
Aquele que, apesar de ele haver apagado, estará para sempre em minha memória.
E não percebo que respirei fundo, não percebo que emiti qualquer ruído até que ele pula do sofá com olhos arregalados e expressão de desespero quando me encontra parada bem ali, atrás dele.
— Ever! — ele grita com a voz abafada pelo pânico. — Há quanto tempo está aí?
Mas eu não respondo. Minha expressão já diz o suficiente.
Seu olhar oscila entre mim e a tela, enquanto ele passa os dedos pelo cabelo escuro e brilhoso. As palavras saem arranhadas, vacilantes, quando ele solta os braços na lateral do corpo e diz:
— Não é o que está pensando. Eu juro. Não é nada do que pareceu.
— Então por que apagou? — Meu olhar é duro, rancoroso, relutante em ceder um pouquinho que seja. — Por que editaria se não fosse para esconder de mim?
— Aconteceram mais coisas... Muito, muito mais, e eu...
— Você não confia em mim? — Eu o interrompo, nem um pouco disposta a ouvir suas desculpas. Não quando ambos acabamos de assistir à mesma cena terrível. — Depois de tudo que passamos juntos, depois de tudo o que partilhei com você, ainda esconde coisas de mim?— Luto para controlar a respiração e pressiono a mão contra o estômago, sentindo-me enjoada. — Então me diga, Damen, até onde isso vai? Essa sua edição? O que mais você está escondendo de mim?
Lembro o que Haven insinuou no banheiro hoje e faço um alerta a mim mesma para não cair em sua armadilha, para não deixar que ela nos separe e atinja seus objetivos. Depois, desisto daquele pensamento. Vi o que vi. A prova passou diante de meus olhos e é clara como o dia.
— Primeiro espera até o último minuto para me contar a verdade sobre mim, você e Jude. E agora... Agora isso? — Balanço a cabeça, ainda recuperando-me da visão de quem fui e de quem ele ainda pode ser. — Isso é algum tipo de joguinho doentio? É assim que você se diverte? Diga-me, Damen, quantas vezes, e em quantas vidas você me afastou de minha família e amigos?
Ele me olha com o rosto pálido, mas estou descontrolada e nada pode me refrear.
— Bem, tem a época que acabamos de ver, e tem esta vida, a de agora... — Faço uma pausa, sabendo que estou sendo um pouco injusta. Foi por vontade própria que fiquei andando pelo campo. Estava tão hipnotizada pela magia de Summerland que optei por ficar para trás enquanto o restante de minha família seguiu adiante. Mas, ainda assim, se ele não tivesse me dado o elixir, talvez eu pudesse tê-los encontrado, talvez estivéssemos todos juntos agora. Estou tão perturbada por meus pensamentos, pelas imagens que se recusam a parar de passar em minha cabeça, que não consigo decidir o que teria sido melhor: morrer e me juntar à minha família ou sobreviver e lidar com tudo isso.
Eu me viro, pernas trêmulas, coração estraçalhado, preciso sair, tomar ar.
Não consigo mais respirar nesta sala.
Ouço a voz de Damen me chamando, implorando para que eu pare, vá mais devagar, alegando que há explicação para tudo.
Mas eu me recuso a parar.
Recuso-me a ir mais devagar.
Apenas continuo correndo.
Apenas continuo seguindo em frente até encontrar o caminho de casa.

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