3 de novembro de 2015

Cinco

Sento-me perto de Damen, meu joelho esquerdo bem colado ao direito dele sob o grosso tampo de madeira da mesa, poupando Jude de ver essa cena. Não há necessidade de esfregar no nariz dele. Fazê-lo se sentir pior que já está.
Mas não demora muito para que ele se levante do lugar à nossa frente, murmurando sobre outra tática que gostaria de experimentar, algo que acabou de lhe vir à mente. Apesar da desculpa, fica bem claro que ele está procurando uma fuga, está ansioso para ir a outro lugar, onde não precise ficar tão perto de Damen e de mim.
Olho para a grande bola de cristal que flutua diante de Damen e tento entender as imagens que ela revela. Mas desse ângulo só vejo um borrão colorido. Para ver de verdade, é preciso sentar-se bem de frente para a bola. Ainda assim, posso deduzir, pelo modo como Damen a observa, ombros caídos, cabeça pendendo ligeiramente para a frente, respiração estável e lenta, que o que quer que ele esteja vendo não é de nosso interesse, não é nada que nos leve até a informação de que precisamos. Na verdade, a única coisa que parecia estar fazendo é niná-lo.
Franzindo a testa diante do tablet que se encontra em minha frente e que fornece tanta esperança quanto a bola de cristal diante de Damen, afasto-o com indignação e olho ao redor. Estou desesperada pela ajuda de alguém ou de algo — não sou exigente, ficaria satisfeita com o que conseguisse a esta altura, mas nenhuma ajuda aparece. Todos continuam imersos em seus assuntos, em sua própria jornada pessoal, sem notar minha presença. Apesar de fechar os olhos, apesar da onda de perguntas que flui de minha mente, apesar de meu pedido por assistência óbvio, alto e claro, os Grandes Salões não fazem tentativa alguma de me atender, de me conduzir à sala certa, como já ocorreu tantas vezes.
Tirando o fato de me terem deixado entrar, os Grandes Salões do Conhecimento parecem estar me ignorando hoje.
Tento ficar parada e me concentrar, meditar, transportar minha mente para um lugar de calma e beleza — mas estou inquieta demais, agitada demais, não consigo manter o foco. Minha cabeça foi invadida pelo tipo de pensamento que torna impossível encontrar alguma paz. Quer dizer, como eu poderia relaxar e me concentrar em cada respiração quando estou bem ciente do tique-taque do relógio em minha cabeça, lembrando-me sem parar de que meu prazo de uma semana está encolhendo rapidamente, chegando cada vez mais perto do fim?
Dou mais uma espiada na bola que gira diante de Damen, e não consigo deixar de me sentir por baixo, derrotada, e acabo permitindo que minha mente viaje para um local que eu preferiria não visitar.
Um lugar de dúvidas.
Suposições.
Extrema limitação.
A parte que deseja acreditar é rapidamente dominada pela dúvida do que seria pior: estar certa a respeito de minha intuição... ou totalmente errada?
Seria melhor ser a única responsável pelo surgimento da parte lamacenta de Summerland — ser a esperança da velha louca, assim como alvo de seu desprezo?
Ou seria melhor estar redondamente enganada a respeito de tudo, totalmente errada em todos os sentidos? O que, principalmente, aliviaria minha carga e me livraria do fardo, da enorme responsabilidade que tudo isso trouxe.
E se a velha senhora for realmente uma louca intrometida de Summerland, como alega Damen?
E se o sonho que eu estava certa de ter sido enviado por Riley não tiver outro significado além daquele de que Damen está convencido: um grito patético de meu subconsciente por mais atenção dele?
E se eu estiver apenas perdendo nosso tempo? Fazendo mau uso de uma semana que poderia ser muito mais bem-aproveitada?
Pior ainda: e se eu estiver sendo apenas egoísta o suficiente para arrastar Jude para essa história também, quando é tão dolorosamente óbvio o modo como ele se sente desconfortável perto de Damen e de mim?
Engulo em seco e olho para Damen, sabendo que é hora de me dar por vencida, de materializar uma mochila cheia de tudo o que é essencial durante as férias, para que possamos dar o fora daqui e partir para o destino que ele desejar. Só porque temos uma eternidade juntos, isso não significa que eu queira desperdiçá-la, nem mesmo alguns dias apenas. Mas primeiro há uma última tentativa que quero fazer, e para isso precisarei ir até o pavilhão.
Ele olha para mim, aqueles olhos amendoados, escuros e de cílios longos me encarando, os lábios se abrindo de um modo que me incentiva a me recostar nele e colocar a mão em seu braço quando digo:
— Damen, tenho uma ideia.
Sua bola de cristal para, desaparece, e, pelo olhar em seu rosto, vejo que ficou aliviado por ter se livrado dela.
— Por que não encontra Jude e diz que ele pode parar de procurar, que mudei de ideia e não quero que ele perca mais tempo? Enquanto isso, vou ao pavilhão. Espero você lá.
— O pavilhão? — Ele sorri, seus olhos brilhando de esperança.
Confirmo com a cabeça, aproveitando para beijar sua testa, o nariz, os lábios, e depois me afasto e digo:
— Depressa!

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