2 de novembro de 2015

Cinco

Acho que fiquei tão focada em Haven que nem sequer pensei em minhas outras adversárias:
Conhecidas como Stacia Miller e sua fiel escudeira, Honor.
Mas quando entro na sexta aula, de física, no instante em que toca o sinal e a porta se fecha atrás de mim, o som de suas risadas abafadas basta para me lembrar delas.
Vou direto para o meio, sorrindo por dentro ao ver o rosto surpreso de Stacia quando escolho o lugar vazio mais próximo delas para me sentar. Afinal, para que forçá-las a esticar o pescoço quando posso simplesmente me sentar a uma mesa que forneça uma vista muito melhor, muito mais explícita e totalmente desimpedida do objeto de tormento favorito delas: eu.
Mas Stacia é a única que parece surpresa com minha escolha. Honor leva numa boa. Senta-se um pouco mais ereta enquanto levanta as sobrancelhas e me observa, com um olhar tão cuidadoso e confuso que é quase indecifrável.
Quase.
Mas eu estou muito menos focada em sua expressão que nos pensamentos que passam por sua cabeça. Pensamentos que direciona a mim de propósito, presumindo corretamente que estou ouvindo quando ela pensa:
Sei que você pode me ouvir. Sei tudo sobre você. E seu que você sabe o que pretendo fazer com Stacia. Que planejo fazê-la pagar por todas as maldades que fez a mim a às pessoas que tiveram a infelicidade de cruzar o caminho dela. O que eu não sei é se você pretende me ajudar ou me impedir. Caso esteja pensando em me impedir, precisa repensar sua escolha. Primeiro, porque ela tem sido uma megera com você desde sempre, e segundo, bem, mesmo que tente me impedir, você não conseguirá. Nem você, nem Jude, nem, sobretudo, Stacia. Então é melhor nem cogitar...
E mesmo que ela esteja olhando diretamente para mim, ansiosa por algum tipo de confirmação de que recebi sua mensagem, não pretendo lhe dar essa satisfação. Não tenho a menor intenção de ouvir nada além do que já ouvi.
Em meio ao manifesto patético de Honor regido pela vingança, aos pensamentos maldosos que Stacia sempre tem, ao lamento silencioso do Sr. Borden sobre como, novamente, mais um ano de sua vida será desperdiçado com uma nova leva de alunos ingratos e desinteressados — um conjunto constrangedor de cortes de cabelo horríveis e roupas piores ainda, impossíveis de diferenciar daqueles que foram e vieram antes —, em meio a tudo isso e ao drama pessoal e à angustia de cada uma das outras pessoas, o ruído é alto demais.
Muito deprimente.
E completamente exaustivo.
Então eu me desligo de todos eles para conversar com Damen telepaticamente através do campus.
Sexta aula, física, e até agora tudo bem, e você?
 Penso, preparando-me para levantar a mão quando meu nome for chamado, acostumada a ser uma das primeiras da lista alfabética ordenada por sobrenomes, já que o meu é Bloom.
Artes. Ótima forma de fechar o dia — me dá algo pelo que esperar. Gostaria que o dia todo pudesse ser uma longa aula de artes. Ah, e a Sra. Machado está empolgada por eu ser aluno dela de novo. Ela mesma me disse. Nunca viu tanto talento, um dom natural em alguém tão jovem. Quer até marcar uma hora para conversarmos sobre meu futuro e sobre as escolas de arte em que pretendo me inscrever.
E eu? Ela fez algum elogio à aluna menos talentosa e sem dons que já viu? Ou me apagou de propósito da memória?
Não seja tão dura consigo mesma. Sua réplica de Van Gogh ficou incrivelmente singular.
Se com singular você quis dizer terrível, então, sim, é verdade! Apenas lembre-se de dizer a ela que não voltarei para o segundo round. Preciso manter a autoconfiança elevada, ficar forte tanto mental quanto fisicamente, o que significa que não posso me arriscar ao estrago que outro semestre de bonecos de palito totalmente ridículos poderia causar à minha psique. E então, qual o seu primeiro trabalho? Outro Picasso, sua própria versão de Van Gogh?
Ele zomba. O impressionismo está tão ultrapassado. Pensei em ser bastante audacioso e talvez pintar algum tipo de mural. Uma nova Capela Sistina. Sabe? Cobrir as paredes e o teto e dar uma boa ajeitada na sala de aula. O que você acha?
Acho que é ideal para manter a discrição de que sempre fala! Rio sem perceber que gargalhei em voz alta até Stacia Miller olha pra mim, revira os olhos e diz baixinho:
— O-táááá-ria!
Imediatamente interrompo a comunicação com Damen. Se o olhar carrancudo do Sr. Borden serve de parâmetro, sem querer acabei de entrar para sua lista negra. Nos cinco minutos iniciais do primeiro dia de aula, já sou considerada uma das mais ingratas criadoras de caso.
— Qual é a graça, Srta...— Ele abaixa a cabeça para olhar no mapa de assentos que está terminando de fazer — ... Bloom? Algo que queira compartilhar com o restante da turma?
Respiro fundo e balanço a cabeça negativamente, evitando o olhar perverso de Stacia, o movimento de Honor demonstrando diversão e os suspiros de tédio dos demais colegas de turma, já acostumados à vitrine de constrangimentos que eu sou.
Abro o livro e tento alcançar a mochila para pegar papel e caneta, mas a encontro cheia de tulipas vermelhas. Como uma carta de amor de Damen, aquelas pétalas vermelhas e acetinadas servem de lembrete para que eu aguente firme, uma promessa de que, aconteça o que acontecer, nosso amor eterno é o que vale — é só o que importa em meio a todo o restante.
Passo o dedo pelo caule, reservando um momento para enviar a ele um obrigada silencioso antes de materializar os objetos de que preciso. Fecho a mochila com a certeza de que ninguém viu, ate que percebo Honor me analisando cuidadosamente e atentamente, como naquele dia na praia.
Um tipo de olhar sagaz que me faz imaginar quanto ela sabe sobre mim.
Estou prestes a me aprofundar, a espreitar sua mente e solucionar o mistério, quando ela se vira, o Sr. Borden me chama para ler e eu acabo parecendo àquela aluna ambiciosa, tentando me destacar já no primeiro dia de aula.
— Ei, Ever, espere!
A voz bem de trás de mim, mas eu continuo andando, seguindo meu primeiro instinto de ignorá-la.
Mas quando ela grita novamente, decido parar e me virar. Não fico nem um pouco surpresa ao ver Honor correndo, tentado me alcançar, embora sempre seja estranho vê-la sozinha, sem Stacia. Como se de repente estivesse sem um braço, uma perna ou alguma outra parte essencial de si mesma.
— Ela está no banheiro — diz, respondendo à pergunta que vê em meu olhar, ao esquadrinhar meu rosto com seus olhos castanhos. — Está retocando a maquiagem, ou botando para fora o smoothie de frutas que tomou na hora do almoço, ou pensando em novas formas de chantagear as lideres de torcida. Ou, quem sabe, talvez esteja fazendo as três coisas. — Ela dá de ombros, apoiando nos braços uma pilha de livros e me olhando calmamente, dos longos cabelos louros às unhas dos pés pintadas de cor-de-rosa.
— O que me faz imaginar por que você se importa tanto — digo, fazendo o mesmo que ela: olho seus longos cabelos escuros com as recentes mechas vermelhas, a calça de sarja preta, as botas sem salto na altura do joelho e o cardigã simples por cima de uma camiseta regata. — Se você a odeia tanto, por que se dá o trabalho de fazer tantos planos? Por que não a deixa de lado e segue sua vida?
— Então você pode ler minha mente. — Ela sorri, mantendo a voz em tom suave e baixo, quase como se estivesse falando consigo mesma, e não comigo. — Talvez um dia possa me ensinar a fazer isso.
— Improvável. — Suspiro, prestes a espiar sua mente para ver do que de fato se trata tudo isso, mas depois lembro que é errado, que preciso ser paciente e deixar as coisas se revelarem sozinhas.
— Talvez Jude me ensine. — Ela ergue a sobrancelha, olhando para mim como se fosse um teste ou algum tipo de ameaça ligeiramente disfarçada.
Aperto os lábios e olho para meu armário, ávida por largar todos os livros que já “li” e encontrar Damen, que está à minha espera no carro.
— Não conte com isso — digo, preferindo não pensar em Jude de nenhum modo ou forma.
Além de uma ou outra mensagem de texto para verificar se ele está bem, vivo, e se Haven ainda não chegou até ele, não nos falamos desde a noite em que ele matou Roman.
Desde a noite em que fui colocada na desagradável posição de não ter escolha a não ser proteger a pessoa com quem estou tão brava, tenho vontade matá-lo com minhas próprias mãos.
— Que eu saiba, esse não é um dos dons dele — acrescento, mudando a mochila de ombro e lançando a ela um olhar que diz: Não sei bem aonde você quer chegar com isso, mas, se tem mesmo algo em mente, então diga logo!
Ela dá de ombros e desvia o olhar, sem se concentrar em nada especifico, apenas passando os olhos pelo corredor enquanto diz:
— Não quer nem vê-la pagar por toda a sujeira que fez a você? — Ela se vira, olhando-me com seriedade. — Considerando tudo o que ela fez você passar, a suspensão, o vídeo no YouTube... Damen... — Ela faz uma pausa dramática, esperando algum tipo de reação, mas pode fazer quantas pausas quiser que eu não pretendo reagir. — De qualquer modo — Ela continua, falando rápido, percebendo em minha expressão que estou prestes a sair —, apenas fiquei surpresa por não se juntar a mim. Pensei que seria a primeira da fila... Bem, a segunda, quer dizer, logo atrás de mim.
Respiro fundo, desejando ardentemente sair dali e seguir para a melhor parte de meu dia, mas ainda paro e digo:
— Bem, o negócio é o seguinte, Honor: se optar por ver as coisas desse modo, então precisa admitir que você também foi bem maldosa comigo.
Ela se vira sem jeito, com um movimento sutil, porem suficiente para me convencer a continuar.
— Na verdade, você foi a principal responsável por minha suspensão, como bem sabe, e não podemos esquecer que estava bem ao lado dela na Victoria’s Secret no dia em que ela fez aquele vídeo que parar na internet. E, mesmo que não tenha sido ideia sua, mesmo que você tenha só ficado ali observando, bem, no final das contas, o resultado é praticamente o mesmo. Você não é menos culpada. Pelo contrário, é cúmplice. Porque se não tenta impedir uma valentona e escolhe andar com uma, você é colaboradora em tudo o que ela faz em sua presença. E mesmo assim eu não perturbo você, nem tento me vingar, não é? E sabe por quê? — Faço uma pausa, sentindo que seu interesse está mais para esvanecer do que para me atacar, mas, mesmo assim sigo em frente. — Porque não vale a pena. Não vale meu tempo, nem meu esforço. É para isso que serve o carma... Para equilibrar tudo no fim. É sério, você precisa repensar seu plano. Está totalmente equivocado e é perda de tempo. Porque a verdade é que você também não é tão inocente, e essas coisa dão um jeito de voltar de formas que você nem imagina. — Faço um gesto afirmativo com a cabeça, sem querer acrescentar que sei disso por experiência própria e recente.
Ela olha para mim, os olhos parcialmente cobertos pela franja, e balança a cabeça lentamente.
— Carma? — Ela ri e revira os olhos. — Bem, odeio ter que lhe dizer isso, Ever, mas agora você está começando a parecer muito com Jude, com toda aquela conversinha de sorte e azar. Mas, é sério, talvez deva fazer uma pergunta a si mesma: quando foi a ultima vez que o carma se importou com Stacia? — Ela ergue uma sobrancelha. — Caso não tenha percebido, ela vive fazendo o que quer com quem quer. Você pode achar que tido bem e pode se sentir confortável em fazer papel de vitima das drogas sem—fim que ela apronta, mas eu não aguento mais. Estou cansada dela. Sabia que ela tentou ficar com Craig só para me magoar? Para me mostrar quem é a rainha e quem é a eterna número dois.
Olho para ela sem dizer nada. O corredor ao nosso redor está esvaziando, todo mundo indo embora. Todo mundo menos nós.
No entanto, Honor continua, sem prestar atenção na hora ou no fato de que deveríamos sair também. Sua voz é grave quando ela diz:
— Infelizmente para ela, não deu certo. Mas, ainda sim, que tipo de amiga faz algo assim?
— Foi por isso que vocês terminaram o namoro? — Pergunto, sem me importar muito. Já sei a verdade sobre Craig, sobre suas verdadeiras preferências, e me pergunto se ela saberia.
— Não, nós terminamos porque ele é gay. — Ela dá de ombros. — Não havia futuro naquela relação. Mas não conte a ninguém... — Ela olha para mim em pânico, querendo protegê-lo e manter o segredo dele, mas eu me limito a dar um aceno desinteressado. Não quero fazer fofoca sobre isso. — Bem, o negócio é o seguinte, embora sinta muito por ter sido... Cúmplice, ou seja lá o nome que você tenha dito, isso tudo é passado. Não pretendo me meter em seu caminho, Ever. Contanto que fique longe do meu.
Estreito em os olhos, imaginando se aquilo é algum tipo de ameaça velada. Estou prestes a informá-la de que tenho assuntos muito mais importantes com que me preocupar do que ser juiz de sua disputa de popularidade com Stacia... Quando vejo Haven.
Parada no fim do corredor, cruzando seu olhar com o meu até que tudo fica turvo, menos o calafrio de sua energia, a agudez penetrante de seu ódio sem limite e o movimento de seu dedo me chamando.
Quando percebo, estou fora de mim. A voz de Honor foi reduzida a um zumbido vago e distante enquanto sigo a cauda do vestido azul-celeste de Haven. Flutuando, chamando, ao mesmo tempo que ela desaparece no corredor e eu corro para alcançá-la.

Um comentário:

  1. Eiita! Sabia que a Ever não podia ficar acreditando que é mais poderosa!

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