3 de novembro de 2015

Catorze

Cavalgamos em silêncio. Ou melhor, eu cavalgo; Heath anda a meu lado, segurando as rédeas frouxas, ambos perdidos em nossos próprios pensamentos. Embora tenha várias oportunidades de se dirigir a mim, ele só fala quando já estamos quase chegando.
— Você o ama? — ele pergunta de modo simples, direto, como se viéssemos debatendo um assunto que naturalmente nos levasse a esse ponto. Embora se esforce para mascarar a dor por trás da pergunta, não consegue. Posso sentir seu desespero.
Aperto os lábios e desvio o olhar, desejando poder lhe recusar uma resposta. A maioria das mulheres faria isso. Alegaria que é uma ofensa ter os sentimentos questionados, a privacidade invadida, que o assunto não é da conta dele, e daí em diante.
Mas não sou como a maioria das mulheres. Detesto esse tipo de falsidade, esse tipo de jogo.
Além disso, Heath é gentil e decente. Ele merece algo melhor, no mínimo uma resposta honesta. Não importa quanto doa.
Afinal de contas, já nos beijamos.
Quer dizer, já nos beijamos várias vezes — uma sequência de beijos, se assim preferir.
Beijos esses que, pelo visto, significaram muito mais para ele que para mim.
Eu estava apenas experimentando. Tentando descobrir se minha cabeça poderia influenciar meu coração. Queria saber se todos os beijos eram como os de Alrik. Como fora o primeiro, eu não tinha parâmetros para julgar. Embora fosse bom beijar Heath, embora me proporcionasse uma sensação uma sensação suave, calma e serena — como flutuar em uma jangada suntuosa em um belo e tranquilo mar azul —, ainda não era páreo para o ardor de Alrik. Com sua onda de formigamento e calor.
Infelizmente, só quando minha experimentação deu errado, notei que as intenções de Heath eram totalmente diferentes. Ele não estava testando nada. Estava expressando seu interesse por mim.
E, embora minha vida certamente seria mais fácil se eu pudesse retribuir sua afeição, simplesmente não posso, e seria cruel fingir o contrário.
Respiro fundo. Deixo que me ajude a descer do cavalo, colocando-me gentilmente à sua frente. Seu rosto está a apenas alguns centímetros do meu, as mãos ainda seguram minha cintura, e a sensação do contato resulta no fluxo de energia calma e serena ao qual passei a associá-lo.
— Sim — digo, tentando suavizar a palavra. Mas não importa o modo como é pronunciada, imagino que seja como uma adaga em seu peito. — Sim, eu o amo. — Suspiro, e sentindo necessidade de esclarecer acrescento: — Não posso evitar. É... inexplicável. É uma dessas coisas que...
— Não precisa dizer mais nada. É sério. Não me deve satisfação. — Ele me encara. Seu olhar contradiz as palavras. Está desesperado para entender, desesperado para encontrar algum sentido, desesperado para saber por que escolhi Alrik, e não ele.
Tento sorrir, mas o sorriso sai pela metade. Minha voz está fraca e instável quando digo:
— Não estou tão certa disso. Sinto que lhe devo uma explicação, ou... alguma coisa.
Suas mãos ficam mais quentes, o olhar mais profundo, e, antes que algo mais aconteça, ele se afasta. O movimento é tão repentino que levo um instante para me adaptar.
— Adelina — diz ele com a voz baixa e doce, cheia de uma reverência que reserva somente a mim. — Você está ciente de meus sentimentos por você, então não vou perturbá-la com isso. Mas, por favor, deixe-me falar como amigo quando digo que tenho muitos motivos para me preocupar com o plano de vocês.
plano não é meu, é de Alrik. Não tive participação alguma. Ainda assim, não o recusei, não disse não. Mas também não me lembro de ter dito sim. Mal pude fazer qualquer pergunta antes que Heath chegasse e colocasse fim em nossa discussão. Mas opto por não dizer isso a ele.
— Em primeiro lugar, o mais óbvio: o rei ficará furioso. A união de Alrik e Esme foi planejada há muito tempo. Ninguém nunca se iludiu achando que seria por amor, exceto, talvez, Esme... — Ele faz uma pausa para refletir, retomando o assunto quando diz: — Há muito a ser levado em conta, muito dinheiro em jogo. A família de Alrik precisa desesperadamente do dinheiro de Esme se quiser continuar no poder. E, se já não bastasse, há também que se considerar Esme e sua família. Eles entregarão de bom grado um grande dote se isso significar que sua filha um dia poderá usar a coroa. E, embora eu não conheça Esme muito bem, já que a encontrei apenas algumas vezes, acho que é certo afirmar que ela ficará furiosa quando souber o que vocês dois fizeram. E tenho a impressão de que sua ira pode ser ainda pior que a do rei. Há algo naquela garota. Algo indomado, algo que não conhece limites, fronteiras de nenhum tipo. — Ele balança a cabeça e sacode as mãos ao lado do corpo. — E ainda, é claro, temos Rhys, que, bem, certamente será o único, além de você e Alrik, a ficar eufórico com a notícia. É uma ideia assustadora por si só, não? — Sua voz ganha força com a pergunta, mas o rosto continua o mesmo, imóvel, fixo, sem um pingo de alegria. — Ao mesmo tempo que ficará livre para procurar Esme, isso só irritaria a irmã dela. Como deve saber, Fiona está interessada em Rhys há muito tempo.
Pisco, esforçando-me para absorver tudo. Mesmo sabendo muito bem do ângulo de inveja e atração em que estou envolvida, surpreendo-me ao ver tudo exposto de forma tão clara.
— O amor é mesmo uma confusão — sussurro, quase como se falasse para mim mesma. Então, fitando os olhos de Heath, pergunto: — O que propõe que eu faça? O que me sugeriria?
— Sugeriria que me escolhesse. — Ele suspira. As palavras são desoladas quanto seu olhar. — Sei que nunca me amará como ama Alrik e aceito isso. Também me esforçarei para fazê-la feliz. Eu prometo, Adelina, que dedicarei toda a minha vida a garantir que esteja bem-cuidada e contente.
— Heath... — Balanço a cabeça, desejando que ele não tivesse dito aquilo.
— Sinto muito se a deixei em uma posição desconfortável, mas nunca me perdoaria se pelo menos não expressasse minhas preocupações e tentasse lhe oferecer uma saída para o que temo terminar em transtorno, ou até mesmo em desgosto, para quase todos os envolvidos.
Confirmo com a cabeça. Suas palavras se prolongam, girando em minha mente, e o pior é que não há nada que eu possa refutar. Suas preocupações ecoam as minhas.
Ainda assim, olho para ele e digo:
— E agora que você expressou suas preocupações, o que acontece?
— Agora, despeço-me e lhe desejo muitas felicidades. — Ele se curva diante de mim.
Antes que ele se levante, eu o deixo. Dou um beijo rápido no topo de sua cabeça, sobre os grossos fios de cabelo castanho-dourados, antes de seguir em direção à porta. Penso comigo mesma que, seja como for, a partir de amanhã nunca mais olharei para minha casa, para minha vida ou para Heath do mesmo modo. Estarei profundamente transformada.
Sinto o peso do olhar de Heath acompanhando-me, sua energia calma e serena ainda flui, prolonga-se, enquanto sigo até a entrada e o interior da casa.

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