2 de novembro de 2015

Catorze

Assim que paro o carro no estacionamento, eu o vejo.
Ele espera por mim em seu jipe, tamborilando os polegares no volante no ritmo da música que toca em seu iPod, parecendo tão tranquilo, tão satisfeito por estar ali sentado sozinho daquele jeito, que me sinto tentada a pegar um retorno e voltar com o carro para onde eu estava.
Mas não faço isso.
É importante demais para deixar para lá.
Haven não pretende desistir de suas ameaças e, até onde eu sei, essa pode ser minha única chance de convencê-lo da importância disso tudo.
Estaciono a seu lado e aceno. Vejo-o remover os fones de ouvido, jogá-los de lado e descer do carro, apoiar-se na porta com os braços cruzados e observar enquanto me aproximo.
— Ei! — ele faz um gesto de confirmação com a cabeça, analisando-me com cuidado enquanto jogo a mochila no ombro e endireito a camisa de malha que visto por cima de regata. — Você está bem? — Ele inclina a cabeça e semicerra os olhos, claramente confuso, sem saber por que o chamei aqui.
Faço que sim com a cabeça e sorrio, pensando que eu deveria fazer essa pergunta a ele, e não o contrário.
— Estou. — Paro perto dele, sem saber como continuar. Só porque pedi que me encontrasse não quer dizer que tive tempo de decorar a longa lista de tópicos para a conversa. — Hum, e você? Você está bem?
Passo os olhos sobre ele, notando que certamente parece melhor que da última vez em que o vi. A cor voltou a seu rosto, o olhar não está nem um pouco vazio ou desolado, e só de ver sua aura verde e brilhante não tenho dúvida de que ele está melhorando.
Ele confirma e dá de ombros, obviamente esperando que eu tome a iniciativa e diga do que se trata este encontro. Mas, quando não digo nada, quando continuo ali parada diante dele, ele respira fundo e diz:
— É sério... Estou... Estou me acostumando com a ideia de que ela se foi. Quer dizer... não posso mudar isso, então preciso me adaptar, certo?
Resmungo uma resposta padrão qualquer para concordar, algo facilmente esquecível. Então, ciente de que já enrolei demais, que é hora de ir direto ao ponto, revelar o motivo de estarmos aqui, respiro fundo e digo:
— E Haven? Você a viu ou teve noticias dela ultimamente?
Ele desvia os olhos, passando os dedos nos pelinhos de barba que começam a nascer no queixo, e diz com a voz cansada, resignada:
— Não. Não soube de nada. O que, pensando bem, não deve ser bom sinal. Mas não tenho muito em comum com ela, então quem sabe? — Ele me olha por um instante, passando os olhos sobre meu rosto e vagando novamente.
— Mas e se eu lhe dissesse que tem? — Faço uma pausa longa o suficiente para que ele volte a olhar para mim. — E se você tivesse muito em comum com ela?
Ele resmunga, murmura baixinho algo completamente indecifrável, depois balança a cabeça e diz:
— Você está brincando, não é?
Eu me seguro, mantendo a expressão séria no rosto.
— Acredite, não é brincadeira. Na verdade...
Mas, antes que eu possa terminar, antes que possa tocar no assunto, ele me interrompe, já tirando as próprias conclusões sobre o que eu tinha para falar e ávido por me impedir.
— Ouça, Ever... — Ele suspira, chutando o ar enquanto enfia as mãos nos bolsos da frente da calça jeans. — Embora aprecie sua preocupação com minha segurança, quero deixar claro que não tenho intenção alguma de tomar o elixir e me tornar imortal como você.
Arregalo os olhos e luto para evitar que meu queixo caia até os joelhos. Não acredito que ele realmente tenha pensado que eu estivesse lhe fazendo uma oferta dessas.
— Bem, sei que disso isso antes, e não quero julgá-la nem nada disso, mas ter uma vida anormalmente longa... Bem, não tenho interesse nesse tipo de coisa.
É a segunda pessoa a me dizer isso nos dois últimos dias, penso, incapaz de não ficar espantada.
Depois de ir a Summerland e de ver Lina, bem, acho que teria que ser muito maluco para querer ficar aqui. Para escolher uma estada extra longa em um mundo tão imperfeito, cheio de ódio quando há algo muito melhor esperando depois da curva, por assim dizer.
Suas palavras me atingem com a mesma força das de Miles, mas não choro. Já coloquei um ponto final nisso. Seja como for, sou o que sou, e não vou convencer os outros a se juntarem a mim.
— Não é tão ruim assim, é? — digo, esperando atenuar o tom.
Ele se limita a dar de ombros e diz com a voz completamente séria:
— Não, acho que você está certa. Nem tudo é ódio e adversidade. De vez em quando, se a gente tiver sorte, pode trombar com uma bolha de felicidade.
— Nossa, isso é um pouco negativo, não acha? — Forço uma risada, mas suas palavras me deixaram mais abalada que eu gostaria de admitir.
Mas ele apenas dá de ombros, pronto para mudar de assunto, sair do estacionamento e chegar à verdadeira razão de estarmos aqui.
— Então... — Ele olha para mim. — Era isso? Estamos entendidos?
— Claro, estamos entendidos. Mas estamos longe de terminar. — Faço um sinal para que ele me acompanhe até o portão. Fecho os olhos e vejo a fechadura se abrir em minha mente antes de virar para trás e dizer: — Acredite, ainda nem começamos.
Abro o portão e entro, presumindo que ele esteja me seguindo. Então me surpreendo quando viro e vejo que ele ainda está parado do outro lado.
— Ever, do que se trata tudo isso? Por que iria querer vir até aqui? Achei que tivesse abandonado a escola.
Balanço a cabeça e olho para o grupo de prédios de que consegui me livrar durante toda a semana e do qual não senti a menor falta.
— Acontece que não abandonei. Além disso, não consegui pensar em outro lugar que pudesse nos oferecer o espaço e a privacidade de que necessitamos.
Ele franze o cenho claramente intrigado.
Apenas reviro os olhos e sigo para o ginásio, pois sei que desta vez ele está bem atrás de mim.
— A porta está trancada também?
Ele percorre meus braços, pernas e nuca com o olhar, praticamente todas as partes em que minha pele está exposta.
Confirmo com a cabeça, concentrando-me na porta, ouvindo a trava se soltar antes de abri-la e dizer:
— Você primeiro.
Ele entra, arrastando os chinelos de borracha no chão de madeira polida enquanto segue para o meio da quadra, onde para, abre os braços, joga a cabeça para trás, respira fundo e diz:
— É, definitivamente tem aquele fedor de ginásio de escola de que me lembro tão bem.
Sorrio, mas apenas um pouco, a antes de voltar ao ponto.
Não vim aqui para brincar, nem para jogar conversa fora. Vim aqui para salvá-lo. Ou, mais precisamente, para ensinar a ele tudo o que precisa saber para salvar a sim mesmo caso eu não esteja por perto para ajuda-lo.
Não importa quanto eu possa estar brava com ele, não importo quantas dúvidas tenha a seu respeito, ainda acho que é meu dever protege-lo de Haven.
— Então acho que devemos ir direto ao ponto. Não adianta perder mais tempo do que já perdemos.
Ele olha para mim com um leve brilho de suor no rosto, que não sei se tem a ver com o ar quente e abafado ou com a apreensão de imaginar no que foi se meter, o que será que vai acontecer com ele.
Tiro um momento para me acostumar ao local: jogo a mochila no canto, amarro os sapatos e tiro a camisa, revelando a regata que uso por baixo. Ajeito-a no corpo e acerto o elástico do short enquanto me aproximo dele e digo:
— É claro que você conhece os chacras. — Fico diante dele, analisando-o atentamente, mas sem lhe dar tempo para reagir ao acrescentar: — Quer dizer... Já que foi tão bem-sucedido ao matar Roman assim...
— Ever, eu... — ele começa a falar, mas eu não permito, não deixo que dê mil desculpas. Já ouvi tudo isso e não estou nem um pouco convencida. Além do mais, não posso arriscar ser persuadida de um argumento que pode me fazer mudar de ideia a seu respeito... A respeito disso...
— Não fale. — Coloco a mão levantada entre nós. — Esse é outro assunto, para outro dia. Por enquanto, só o que vamos discutir é o fato de Haven ter poderes que você nem imagina... - Que nem eu posso imaginar.
— Poderes que estão deixando-a embriagada, imprudente e perigosa, alguém de quem você precisa ficar longe a todo custo. Mas, se por acaso der de cara com ela por algum motivo, ou, pior, se ela decidir vir atrás de você, o que, lamento dizer, é o mais provável que aconteça, bem, você precisa estar preparado. Então, pensando nisso e eu tudo o que sabe sobre ela, que chacra você escolheria para destruí-la?
Ele olha para mim, os lábios retorcidos, e fica claro que não está me levando nem um pouco a sério. Um grave erro de sua parte.
— Quanto mais cedo responder, mais cedo terminaremos com isso... — digo, com as mãos nos quadris, tamborilando impacientemente.
— O terceiro — ele afirma, balançando a cabeça e colocando a pala sob o peito para enfatizar. — O plexo solar, também conhecido como o centro da vingança, lar de questões relativas à raiva entranhada a esse tipo de coisa. Então, está tudo certo? Eu passei? Posso pegar minha estrelinha dourada e ir para casa agora? — Ele ergue a sobrancelha.
— Certo, agora quero que finja que eu sou a Haven — digo, ignorando completamente sua pergunta, juntamente com o apelo óbvio em seu olhar. — E quero que venha até mim e me atinja do mesmo modo que a atingiria.
— Ever, por favor — ele implora. — Isso é ridículo! Eu não posso fazer isso. É sério. Mesmo apreciando sua preocupação e tudo o mais. Acredite, significa muito para mim, mas esse tipo de encenação forçada... — Ele balança a cabeça, os dreadlocks se agitando de um lado para o outro. — É... É um pouco constrangedor. Para dizer o mínimo.
— Constrangedor? — Meus olhos praticamente saltam do rosto. Não dá para acreditar no tamanho do ego masculino. — Vou fingir que você não disse isso. Ela tem poderes para feri-lo de todas as formas possíveis antes de finalmente dar o golpe de misericórdia e acabar com sua vida, e você está preocupado em ser constrangido? Por mim? — Balanço a cabeça e o ignoro.
— Ouça, se está preocupado em me machucar, esqueça. Não vai conseguir, nem poderia. É completamente impossível. Não importa quanto tente, simplesmente não pode me atingir. Pode tirar isso da cabeça.
— Bem, isso é reconfortante. Sem contar que está me chamando de frouxo. — Ele balança a cabeça e encolhe os ombros.
— Não estou tentando insultar você. — Eu ignoro o que ele disse. — Estou apenas verbalizando os fatos, só isso. Sou mais forte. Bem, acho que já teve provas suficientes disso. E odeio ter que lhe dizer, mas Haven também é mais forte. E, mesmo que você nada possa fazer para mudar isso, precisa saber que ela não tem uma coisa que eu tenho.
Ele olha para mim, apenas ligeiramente curioso.
— Ela parou de usar o amuleto. Não tem nada que a proteja agora. Considerando que nunca tiro o meu... — Faço uma pausa, lembrando todas as vezes que o tirei e corrigindo minha fala ao acrescentar: — Pelo menos agora não o tiro mais. Além disso, o plexo solar não é o meu chacra fraco, não que eu vá revelar qual é, mas não importa. Mesmo que tenha decidido que está tão desesperado para sair daqui e prosseguir com sua noite a ponto de achar que valeria a pena me eliminar, bem, então deve saber que não conseguiria ir muito longe, porque eu o impediria. — Ele revira os olhos e suspira, levantando as mãos, em um gesto de rendição. Sabe que não terá escolha a não ser ceder.
— Certo. Tudo bem — diz ele. — Que seja! Só me diga o que quer que eu faça. Devo ataca-la , ou algo assim?
— Sim, por que não? — Dou de ombros, imaginando que é uma boa maneira de começar.
— Porque o negócio é o seguinte: essa situação é totalmente irreal. Eu nunca atacaria Haven ou qualquer outra pessoa sem razão, não sem antes ser provocado, e provavelmente nem assim. Simplesmente não faria isso. Sou pacifista. Você sabe disso. Não é meu estilo. Sinto muito dizer, mas, se realmente quer que eu participe, terá que inventar algo melhor que isso.
— Certo, certo. — Confirmo com a cabeça, determinada a não deixa-lo se esquivar desta vez. — Esteja certo de que também não tenho planos de atacar Haven. Não pretendo começar nada nem ir atrás dela em hipótese alguma. Ainda assim, acho que nenhum de nós dois deve ignorar o fato de que ela jurou nos destruir, e deixou isso bem claro. E não se engane, ela pode, Jude. Principalmente você, já que está tão despreparado. Ela pode derrubá-lo facilmente, sem derramar uma gota sequer de suor! Então, com isso me mente, precisamos estar preparados. Você deixou bem evidente que não tem interesse em ser imortal, mas aposto que também não está ansioso para morrer nas mãos de Haven. Dessa forma, o que me diz de eu ataca-lo primeiro? Isso faria com que se sentisse melhor? Porque provavelmente é assim que as coisas vão acontecer.
Ele dá de ombros. Dá de ombros faz um gesto insolente com as mãos. Um simples ato que me irrita tanto que corro até ele com força total, sem qualquer aviso.
Movimento-me com tanta rapidez que, em um segundo, ele está parado no centro do ginásio, todo casual e descolado, e no outro já o arremessei para o outro lado, onde o aperto com força contra a parede acolchoada, do mesmo jeito que Haven fez comigo naquele dia no banheiro. E também como Haven, não me sinto nem um pouquinho cansada pelo esforço.
— É assim que vai ser — digo, agarrando sua camisa, puxando o tecido com tanta força que parte se rasga em minha mão. Estou ciente de sua respiração fria e curta atingindo meu rosto, a poucos centímetros do seu, enquanto olho para aqueles olhos verde-água surpresos. — É com essa rapidez que vai acontecer. Você não terá tempo de reagir.
Ele me encara, seu olhar fica sério, a respiração acelera enquanto uma linha de suor escorre pela testa e o coração bate mais forte.
Mas não é por medo, nem mesmo pela surpresa — não, é algo totalmente diferente.
Algo que reconheço de imediato.
É o mesmo olhar que me lançou na noite em que quase nos beijamos na banheira de hidromassagem.
O mesmo olhar que me lançou na noite em que disse que me amava, que sempre me amou, em todas as nossas vidas, e que não desistiria tão cedo.
E, mesmo querendo, mesmo que meu lado racional diga para largar sua camisa, virar as costas e me afastar dele o máximo possível, eu não consigo.
Em vez disso, puxo-o ainda mais, aproximo meu corpo do dele, tranquilizada pela onda de calma que emana de sua pele enquanto mergulho de cabeça naqueles olhos profundos da cor do oceano.
Uma vozinha em minha cabeça me faz lembrar todos os motivos que tenho para correr — minha longa lista de suspeitas, todas as perguntas não respondidas — mas, meu corpo ignora tudo, optando por reagir a ele, assim como a menina em minha vida de escrava.
Levo a mão a seu rosto com os dedos tremendo, doendo, desejando apenas me fundir a ele.
Desaparecer em sua pele.
Meu nome escapa de seus lábios e o som é como um lamento. Como se fosse doloroso me sentir tão perto.
Mas eu não o deixo continuar, não o deixo falar. Apenas pressiono os dedos contras os lábios, descobrindo seu calor, o modo como reage a meu toque, e imaginando como seria beijar sua boca.
Sinto seu coração bater forte contra o meu, ganhando intensidade. E, mesmo tentando lutar, mesmo tendo muitos argumentos contrários, há algo que preciso descobrir. Algo que preciso saber, de uma vez por todas, para poder finalmente eliminar a dúvida que me corrói. E espero que seu beijo revele essa resposta, do mesmo modo que o de Damen fez anteriormente.
Será que existe uma ligação entre nós?
Será que nós dois deveríamos ficar juntos e Damen entrou intencionalmente em nosso caminho?
Sabendo que só há um modo de descobrir, respiro fundo, fecho os olhos e espero pela pressão de seus lábios contra os meus.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. ... Fude*.
      ... Danou se tudo.
      ELA SE FERROU
      DE NOVO
      PARABENS,ESSA MERCE O OSCAR DE BURRA.
      TEM O BOY DA PARADA E QUER UM LIXO
      B
      I
      X
      A

      B
      U
      R
      R
      A
      .

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  2. Não existe a pessoa mais trouxa do Ever na moral :[

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