5 de novembro de 2015

Capítulo quatro - Breve introdução à história dos vampiros

Haus der Nacht, Frankfur, Alemanha, 1085 d.C. A décima dentre as dez runas
incorpora o sinal do animal familiar dentro da mão de um vampiro. Além de
representar uma companhia muito querida, a runa também é usada como
representação daquilo que é conhecido, íntimo e reconhecido.

Os vampiros sempre existiram. Nós começamos a caminhar sobre a terra desde que nela começou a crescer grama, desde que o sol começou a brilhar e a lua entrou em sua órbita elíptica. Apesar de nossa história escrita ser mais bem preservada e mais antiga que a dos humanos, só passamos a viver em sociedade depois do século IX a.C. Foi então que uma peculiar Grande Sacerdotisa Vampira, chamada Lilith, surgiu da fértil região conhecida como Mesopotâmia. Lilith foi agraciada por Nyx com dádivas consideráveis, afinidade com o espírito, além do dom de profetizar o desenlace da vida eu qualquer vampiro. Lançando mão de seus dons concedidos pela divindade, Lilith reuniu as Grandes Sacerdotisas dos principais covens de vampiros, bem como seus consortes e guerreiros. Ela persuadiu suas irmãs e irmãos a formarem o que chamou de Conselho Supremo dos Vampiros – um corpo governante que seria o centro de todos os povos vampiros. Neste centro, como as sete líderes dos covens de vampiros mais civilizados, ela se dedicou a estabelecer os padrões de nossa bela e peculiar sociedade na qual as mulheres são consideradas sagradas. Também determinou o culto á deusa, e aos homens que são apreciados e respeitados.

Artista desconhecido. Aquarela, 18x14. c. 1880-1890. A interpretação
de uma pele decorada de búfalo inclui o símbolo de Nyx e a lua crescente. EUA

Lilith e seu novo Conselho Supremo dos Vampiros debateram longamente sobre onde deveriam estabelecer o lar do corpo governante. Eles sabiam que tinha de ser um espaço defensável de invasores e da exploração humana, mas também deveria estar perto de alguma rota marítima importante, para facilitar viagens e abastecimento. E, naturalmente, tinha de ser um lugar de beleza espetacular – um lugar calmo que satisfizesse nosso amor nato pela terra e pela magia da natureza.
Enfim, no século VIII a.C., após muita procura, Lilith e o Conselho Supremo resolveram se estabelecer na azulada ilha de Capri, ao largo da costa da Itália. Sem demora, os vampiros de proliferaram por toda a costa amalfitana; fundaram e patrocinaram as lindas cidades de Pompeia e Herculano, que se irmanavam em luz, magia e arte. As palavras da própria Lilith descreveram melhor nosso antigo lar:
A costa amalfitana é um labirinto tomado por flores cujas belas entradas são Pompeia e Herculano, cidades-irmãs chamando a todos para entrar no labirinto com seu charme e beleza. Capri é o tesouro que em seu âmago cintila.
Até 24 de agosto de 79 d.C., Capri, Pompeia e Herculano estavam unidas de corpo e alma. Nesse dia, a tragédia se abateu tanto sobre os vampiros quanto sobre os humanos. A enorme e taciturna montanha conhecida como Vesúvio entrou em erupção, consumindo Pompeia e Herculano, e matando tantos consortes humanos que um inestimável número de vampiros também perdeu suas vidas tentando salvá-los da morte que jorrava do céu.


A tragédia de Pompeia
Observação: ”A Tragédia de Pompeia” foi inicialmente relatada de modo oral e transmitida de geração em geração. A história foi afinal escrita em algum momento do século XVII, e recentemente traduzida para esta edição do Manual do Novato.
Novatos, nós sinceramente esperamos que vocês não apenas sobrevivam, mas vicejem em todas as House of Night, descobrindo forças internas das quais talvez jamais tenham se dado conta. Mesmo hoje em dia ainda há muitos mistérios acerca dos poderes de nossa raça de vampiros, nossos limites ainda são desconhecidos. Esta história não é tão antiga quanto nossa raça, mas ilustra os muitos dons que recebemos de Nyx, tratando-se especialmente de uma lenda sobre a desvirtuação desses dons.
Em 58 d.C., Theodora e Antonia eram filhas de uma escrava Pompeia. Seu dono era um experiente mercador de escravos. Brutus se considerava um connoisseur de mulheres, e havia amelheado uma fortuna com sua destreza. Era famoso por sua perspicácia, e não hesitava em se valer dela para se aproveitar dos menos favorecidos.
Brutus gostava de viajar para Roma, Nápoles, Florença e cidades costeiras da região atrás das últimas tendências em entretenimento. Treinava os escravos para encontrar os regalos populares, fossem gladiadores, chefs, massagistas ou especialistas em prazer. Sempre sensível à demanda, Brutus fazia questão de prover sua clientela com tudo do bom e do melhor que se pudesse imaginar – para quem pudesse pagar o preço. Ele havia se mudado para Pompeia, famosa por seu amor à luxúria, visando o lucro entre os mais decadentes cidadãos locais.
Em meio a esses locais havia militares da reserva e na selva, e muitos aceitaram uma nova religião, o mitraísmo, culto ao touro Mitra. Brutus enxergou oportunidades no local e se inscreveu como novo iniciado (afinal, esses homens eram famosos por suas indulgências lascivas e pelo dinheiro que as governava). Nos livros humanos de história da arte, aos quais esse culto reservado é retratado, aparece um touro branco sendo sangrado, o que é interpretado como sacrifício. Essa concepção é equivocada.
Pergaminhos de vampiros de Capri indicam que esse touro despertava uma força ancestral e sombria. Os membros usavam um punhal cuidadosamente entalhado para ferir o touro e beber seu sangue, ligando-se à sua força como se fosse uma espécie de Imprint malévolo.
Pouco depois de se juntar ao culto, um homem se tornou um lutador temível na guerra, voltando para casa com grandes honras, mas, com o passar do tempo, essa energia cruel só lhe trouxe tragédia e destruição. Brutus ouvira dizer que esses membros dessa seita misteriosa se tornavam “melhores” em qualquer coisa que já fossem: hostis, agressivos, carnais; mas ele ignorou estes alertas.
Esses homens eram fregueses perfeitos para um mercenário como Brutus. Ele entendia sua ânsia por estímulos constantes, porque tinha também a mesma fome insaciável por tudo que era exótico e proibido. Usava um punhal com prazer pelo puro potencial de marketing: o cabo do punhal talhado em formato de touro, ficava bem à vista sobre o cinto da calça. Ele viu um enorme potencial em Theodora e Antonia. Se já era raro gêmeas sobreviverem ao parto, era fenomenal que estas tivessem crescido e se transformado em duas belas moças. Pares iguais de olhos negros como fuligem, cercados pela radiante pele cor de oliva e, debaixo deles narizes delicados, lábios fartos e dentes brancos como pérolas. Corretamente instruídas, poderiam um dia faturar uma enorme quantia de dinheiro.
Como nos tempos antigos não havia infância, o treinamento começou cedo. As meninas, com sua graciosidade natural, já eram bem versadas nas artes antes de seus corpos começarem a amadurecer. A beleza delas despertou em Brutus a ideia de um plano: vendê-las para os mitraístas por causa de seu sangue vigem e depois continuar a alugá-las para outros fregueses, que ficassem intrigados com a ideia de desfrutar de uma jovem previamente usada pelos temíveis guerreiros.
No contexto histórico, abusar de escravos era prática condenada, mas não impedida. As mulheres, principalmente, podiam ser emprestadas, alugadas, trocadas ou vendidas. Brutus pretendia lucrar de todas as maneiras possíveis. A medida que Theodora e Antonia cresciam e se transformavam em jovens mulheres, ele começou a entrevistar prováveis fregueses entre os membros do culto a Mitra.
Durante os primeiros anos, Brutus manteve cautelosa distância das meninas; era bobagem entregar-se à sedução com futuras mercadorias tão puras. Mas foi ficando cada vez mais difícil ignorar a beleza das gêmeas, que aflorava mais e mais. A ideia de ficar ele mesmo com as lindas gêmeas começou a se formar em sua mente.

Mitras e o Sangue do Touro. Artista desconhecido. Constituição em
grafite de uma famosa estátua de mármore esculpida entre 300-400 d.C. Roma, Itália

Ao contrário de Brutus, a amável comunidade adotou as meninas, e muitos acreditavam que elas eram duas metades de um só ser. Elas nunca se distanciavam uma da outra, o que levava alguns a dizer que só uma alma havia se partido no ventre da mãe. Theodora era cheia de fogo, sempre procurando e questionando, enraivecia-se com rapidez, mas caia na gargalhada mais rápido ainda. Ela era a rainha dos alojamentos de escravos com seu talento para contar histórias e interpretar personagens antes de dormir. Nia, olhe só isso aqui!, ela gritava, e todos viravam o pescoço para ver  sua nova façanha. Suas paixões eram contagiosas. Ela era capaz de envolver a mais mal-humorada e irascível das pessoas em jogos de infância há muitos esquecidos.
Antonia era seu oposto: calma, tranquila e gentil, sua natureza era cuidar e apoiar. Sua voz suave e melodiosa prestava dolorosa doçura a qualquer canção. Ela não se escondia atrás de Theodora; fazia o contraponto e a reverberava. Às vezes até entrava nas brincadeiras ou saía gritando: esperem por mim!, tentando alcançar a irmã com passos trôpegos.
Alguém com uma personalidade assim parece fácil de usar, mas Antonia não era boba. O pessoal da cozinha costumava mandá-la ao mercado pechinchar e escolher as melhores frutas, legumes e carnes. O açougueiro, notório pão-duro, ansiava por suas visitas, mesmo que invariavelmente ela levasse a melhor. Talvez fosse pelo seu costumeiro jeito de cumprimentá-lo: com respeito, gratidão e reconhecimento por sua experiência. Ele voltava para casa sozinho toda noite, aquecido pelas palavras delas até a hora de dormir.
Juntas, as duas se complementavam, em vez de competir. Sorrisos acompanhavam as meninas quando elas iam cumprir suas tarefas nos alojamentos; seus cachos escuros e brilhantes quicavam enquanto elas trocavam segredos e davam risadas. Mais olhares de aprovação se voltavam para elas, à medida que amadureciam e viravam mulheres.


Putti servindo vinho. Século I d.C. Restauração de pintura a fresco. Segundo Estilo,
Pompeia, Itália. Acredita-se que seja um antigo retrato das gêmeas escravas, encontrado na
Morada dos Querubins. Ao contrário da maioria, têm cabelos pretos e estão totalmente
vestidas, uma regra importa por Brutus para manter a aura de mistério em torno das meninas.
Da Coleção de Pompeia, Hall da História, Veneza, Itália.

Brutus começou a receber ofertas pelas gêmeas, mas rejeitou-as prontamente. Pela primeira vez em sua carreira de mercador, viu-se sem resposta, apenas sentindo uma desconcertante e crescente obsessão pelas duas, já que era um homem como qualquer outro. Até mesmo seus irmãos mitraístas, cujo o interesse e amizade havia clivado, estavam questionando. Ele se pegou evitando responder.
Até que, em uma fatídica manhã, Brutus acordou com um grito vindo do alojamento dos escravos. Antonia estava debruçada sobre a irmã, e a normalmente agitada Theodora estava caída no chão, brilhando de tanto suar, pálida e inerte. A outra menina, tomada pela dor, disse a Brutus que acordara e se deparara com um homem jovem com uma lua crescente cor de safira na testa debruçado sobre Theodora, colocando a ponta do dedo na sua testa.
Pouco antes do amanhecer, Theodora fora Marcada.
Furioso, Brutus deixou o alojamento. Suas opções haviam se alterado súbita e drasticamente; agora ele não tinha mais uma combinação perfeita de jovens prontas para casar. Ele estava prestes a perder uma delas transformada em vampira, ou morta no decorrer do processo. Pior ainda, sua fantasia secreta estava arruinada. Brutus bufou de ódio ao se dar conta disso.
Mas ele pensou mais além. Talvez pudesse tirar alguma vantagem disso. Ele fora paciente por todos aqueles anos. Quem sabe pudesse usar a irmã Antonia para manipular Theodora, depois que ela fosse para o Palácio dos Vampiros. Com a promoção adequada, ela poderia conseguir o dobro de clientes para Antonia... Ou exigir que a irmã tomasse parte na coisa...
Horas depois, Brutus voltou a encontrar seus servos sentados ao lado de Antonia. Ela tinha uma expressão vidrada e encarava o nada. Ele se aproximou para despertá-la de seu transe, mas, para sua perplexidade, um escravo mais velho teve a ousadia de levantar a mão e exigir: Deixe-a. Por hora. Deixe-a.
E, mais perplexo ainda com a apropria reação, ele obedeceu.
A separação das garotas gerou muitos comentários. Alguns se perguntaram quando Antonia iria se transformar. Outros sugeriram que Theodora havia, na verdade, escapado ou tinha sido vendida a piratas em segredo, ou que tudo não passava de uma farsa de Brutus para aumentar o valor das gêmeas.
Antonia simplesmente continuou deitada em seu quarto como se estivesse morta. Em determinado momento, a cozinheira foi conferir a pulsação.

Antonia e Theodora. Século I d.C. restauração de afresco, Segundo Estilo. Pompeia,
Itália. Para promover as gêmeas, Brutus mandou furar uma orelha de cada – a
esquerda de Theodora e a direita de Antonia – não só pelo exotismo da coisa,
mas também para identificá-las. Da Coleção de Pompeia, Hall da História, Veneza, Itália.

No Palácio de Capri, os vampiros também estavam com problemas. Theodora, já reanimada pelos feromônios, exigiu que sua irmã gêmea ficasse com ela na ilha. Mas fazia séculos que era proibida a entrada de humanos no palácio, e por motivos pertinentes. Os vampiros costumavam ser vistos como uma ameaça por seres humanos ignorantes e fanáticos do passado, que manipularam as massas para conseguir a destruição das House of Night. Além disso, em tempos ancestrais, houve novatos que não se controlaram e Imprints trágicos ocorreram. De modo que havia uma regra para os novatos, e Theodora não era exceção. Isto a deixou terrivelmente deprimida; tanto que ela nem reparou os novos rostos ao seu redor que a fitavam com compaixão. Se tivesse parado para observar algum deles, teria notado um rosto em particular que a encarava com a concentração que só um vampiro pode ter. Ele não conseguia tirar os olhos de Theodora.
Esse jovem vampiro,que havia ingressado recentemente aos filhos de Erebus, fora soldado romano antes de sua transformação. Era conhecido por sua destreza na guerra. Uma batalha era particularmente relembrada e comemorada: ele derrotara um líder celta, parece que um druida poderoso. Originalmente um escravo sem nome, seu general permitira que ele adotasse o nome de seu inimigo executado. Drusus.
Drusus entrara em Capri como novato, mas não era um adolescente típico. Seus anos como escravo, e depois com guerreiro, esculpiram seu corpo, transformando-o em arte. Após a transformação, seu físico tornou-se como de um deus. Os braços e pernas musculosos brotavam de um tronco impecável, e os ombros largos reforçavam a estrutura coroada por um caloroso sorriso; as sobrancelhas arqueadas emolduravam os olhos cor de mar. Agora, Drusus estava passando por outra transformação, uma novidade para ele, mas que todos nós conhecemos desde de sempre. Chamava-se amor à primeira vista.
Ele se retirou da cena dolorosa quando Theodora desmoronou em desespero diante de Héstia, a Grande Sacerdotisa de Capri. Mas o jovem guerreiro tinha um plano. Naquela noite, um barco partiu de Capri e um acordo comercial feito com Brutus (provavelmente por meio de algum tipo de persuasão poderosa que talvez seja melhor deixar desconhecida) Antonia se mudou para uma residência pequena, mas opulenta, em Pompeia, um apartamento que só podia ser de gente muito rica. Lá,Drusus se sentou e segurou a mão da gêmea de Theodora. Ele se pegou olhando fixo nos olhos de Antonia – lindos e emoldurados por grossos cílios enquanto lágrimas de gratidão se transformavam em gotas escorrendo por seu rosto. Apesar de ela não lhe despertar desejo (como Theodora despertava), Drusus sabia que tinha que proteger aquela humana a qualquer custo; ela era a outra metade de alguém que ele amava e era necessária para que Theodora se sentisse completa.
Drusus fez uma promessa: ser o mensageiro oficial entre as duas até Theodora fazer sua transformação, acreditando no fundo do seu coração que isso ocorreria. Ele retornou ao palácio com a primeira mensagem de Antonia para Theodora.
Sua promessa ajudou as gêmeas a aguentar a separação. A possibilidade do reencontro entre as duas, mesmo que demorasse anos, fazia Theodora manter a esperança. Ela se destacou nas aulas e incorporou rituais. Antonia aceitou ajuda financeira de Drusus e abriu uma padaria na rua de um açougueiro particularmente ébrio. Drusus, um homem de palavra, era visto com frequência indo e vindo com presentes, pergaminhos e desenhos que uma irmã mandava para a outra, alguns dos quais sobreviveram à passagem dos séculos. Ele continuou mantendo distância respeitosa de Theodora, mas sua dedicação a ela era dolorosamente visível a todos, menos à própria Theodora. Até sua gêmea percebera a ansiedade nos seus olhos quando ele apresentava uma carta de Capri e a segurava um pouquinho mais do que o necessário, só para tocar em algo dela. A única sombra durante seus anos de espera era a ameaça que Brutus representava.
Circulavam rumores sobre como a súbita perda de Theodora e Antonia inflamara seu notório gênio ruim, mas as experiências com rituais Mitra o exacerbaram de modo caótico. Seus acessos de fúria aconteciam do nada, seus empregados sofriam constantemente com a escalada da sua crueldade. As pessoas o ouviam várias vezes murmurando, falando consigo mesmo e com as gêmeas ausentes. Os escravos ficavam apavorados ao notar que aquilo era o indicativo de uma loucura galopante. Brutus coagiu uma de suas escravas a tingir o cabelo, fazer as sobrancelhas e vestir as túnicas deixadas pelas gêmeas. Ele caminhava a noite carregando as mantas que elas haviam deixado, abraçando-as, cheirando-as. E, com a passagem do tempo, ele passou a tirar seu punhal da cintura e poli-lo com as mesmas mantas.
Brutus podia ser obcecado, mas não era idiota. Ele descobriu o paradeiro de Antonia e passou a espionar. Via Drusus chegar e voltar para casa antes do amanhecer; e outras vezes o vampiro ficava no apartamento até o dia seguinte. Brutus concluiu erroneamente que ele roubara Antonia para si, e ficou louco só de pensar naquilo. Então resolveu que ia dar um jeito de retomar seus preciosos bens. Daria um jeito de se vingar do guerreiro vampiro que as tomara dele.
Enquanto isso, Theodora surpreendia os veteranos de Capri com a rapidez com que aprendia e ainda melhorava o que lhe ensinavam. A maior surpresa, entretanto, ocorreu na primeira vez em que ela traçou um círculo mágico.
Enquanto conduzia a cerimônia, Héstia sentiu um surto de energia vindo de Nyx e olhou para os lados, tentando identificar de onde vinha. Seus olhos pararam na jovem donzela que estava de pé, com os olhos fechados, os braços tremendo ao sabor das ondas de energia que emanavam das pontas dos dedos. Theodora lentamente se dirigiu ao meio do círculo, flutuante como se fosse um fantasma – o tecido de sua túnica formava vagalhões extraordinariamente vagarosos, as pesadas tranças se desfizeram, formando uma nuvem que lhe emoldurou o rosto. Os cílios grossos e negros repousaram nas maçãs do rosto quando ela levantou o queixo e as mãos com a palma para cima, recebendo um dom invisível. Tudo no círculo ficou mais lento; alguns presentes escreveram mais tarde que um pesado pente de ouro saiu de seu cabelo e caiu lentamente no chão. ”Abençoada seja”, disse Theodora, dando voz à eterna promessa de Nyx.
Um elemento a reivindicara. Theodora fora escolhida para dar corpo ao elemento espírito.
O círculo foi encerrado, deixando Theodora acordada com a percepção renovada. A energia que ela usara para explorar o mundo passou a se direcionar internamente, diminuindo-a, dando profundidade aos pensamentos. El estava vendo o ambiente ao seu redor como muitos pintores tentam retratar em suas telas, ou seja, quando os olhos conseguem enxergar três dimensões: além da aparência superficial, a  percepção do que cerca aquilo que vemos e a capacidade de transpassar o objeto ou o sujeito, conhecendo-o por completo, conhecendo-o intimamente. Ela sabia... se concentrar. Observou suas mãos, levantou-as em frente ao rosto e depois, ao olhar entre elas, deparou-se com um olhar firme de...
Drusus.

Drusus. Século I d.C. Afresco, Quarto Estilo. Palácio de Capri,
Itália. Pintura de desconhecido artista vampiro de Capri. Coleção
de Pompeia, Hall da História, Veneza, Itália.

Héstia escreveu sobre a profunda ligação entre eles, após o ato de reconhecimento de Theodora em relação a ele naquela noite. Ignorando perguntas e comentários sobre sua demonstração de energia durante o círculo, os olhos de Theodora se voltaram para Drusus quando ela entendeu enfim, o anseio no rosto dele e se rendeu a sua força magnética. Eles se afastaram discretamente do povo e correram para a praia da ilha. À medida que a água foi conduzindo os sons, muitos esticaram o pescoço para espiar e sorrirem ao ouvir acidentalmente os momentos apaixonados que vieram a seguir. A partir desse momento, eles quase nunca se separavam a não ser quando Drusus viajava a Pompeia por causa da troca de mensagens entre as irmãs gêmeas.
Meses se transformaram em anos, e chegou o dia em que foi lançado um círculo mágico de comemoração para pedir que Nyx abençoasse a vampira recém-transformada. Na reunião, Theodora mergulhou no transe que produziu sua excepcional força no espírito. Desta vez, devido à finalização de seu processo, o evento causou uma impressão muito mais forte. Todos ficaram de pé, mesmerizados quando as velas flamejantes ficaram imóveis, enquanto partículas de pó flutuavam pelo ar. Mariposas com asas congeladas em pleno voo projetaram sombras contra as paredes, e a fumaça suspensa interrompeu sua languida ascensão flutuante, firmando uma teia transparente como gaze sobre todos. Qualquer coisa que ela fitasse ficava imóvel.

O Transe de Theodora. Século I d.C. Afresco, Quarto Estilo. Palácio de Capri, Itália. Os
escritos de Héstia fazem menção a esse afresco pintado por um vampiro de Capri que testemunhou
o primeiro círculo de Theodora. Coleção de Pompeia, Hall da História, Veneza, Itália.

Quando o círculo foi encerrado, poucos repararam no rosto atormentado de Héstia, que depois escreveu sobre sua preocupação ao ver uma pessoa tão inexperiente recebendo tanto poder. Naquela noite de agosto, a Ilha de Capri comemorou a iniciação de Theodora e, com grande alegria, ela se preparou para se reunir, enfim, com a irmã. No vigésimo terceiro dia eles partiram para encontrar Antonia.
Drusus se preparara para aquele momento. Ao amanhecer, quando o sol aqueceu o céu, ele se ajoelhou diante de Theodora para se oferecer em Juramento Solene de Guerreiro. Dizem os relatos que sua eloquência e sinceridade foram tão belas quanto a cena em si. Com um grito de alegria, Theodora aceitou o juramento, e o Filho de Erebus tomou a jovem sacerdotisa em seus braços sob a aclamação dos presentes.
O barco se aproximou do porto quando o sol ocidental lançou seu brilho dourado sobre a imagem de Antonia. Ignorando o decoro, Theodora se jogou entre as velas do barco e pulou o vão entre o barco e o deque, para se jogar sobre a sorridente irmã. As palavras escaparam tão rápidas e desajeitadas quanto as lágrimas de alegria que caíram dos olhos delas. As gêmeas se abraçaram, e as duas metades voltaram a se unir.
Naquela noite aconteceu a Vulcanália, Festival de Vulcano, o deus romano do fogo, e por todo país as pessoas fizeram muitos planos. O povo amava a opulência e luxo; houve muitas festas, a mais notável delas promovidas por Drusus em homenagem a Theodora e Antonia. Agora ele achava bem mais fácil distingui-las. Vivendo à luz do dia,Antonia mudara: suas feições haviam se delineado e seu corpo tinha uma fartura que não se via em jovens vampiras. Mesmo assim, ela era linda, o reflexo mortal das feições quase atemporais de Theodora. Seus muitos amigos brindaram a elas várias vezes. Se Drusus tivesse se entregado mais ao vinho que fluía à larga, não teria reparado na sombra que pairava sobre os portões do saguão.
Brutus estava à espreita do outro lado dos muros, ouvindo as risadas e as histórias. Passaram-se horas, sua tensão aumentou – tinha que se controlar para não derrubar o portão de ferro e retomar seus bens. Como ele poderia destruir Drusus e recapturar suas escravas?
Imerso em sua sede de sangue, Brutus foi pego desprevenido quando alguém bateu com sua mão em sem ombro. Trincando os dentes, Drusus voltou a usar seu poder de persuasão com o mercador, que sumiu, furioso, por entre as sombras, segurando seu amado punhal e murmurando Mas elas são minhas, MINHAS...
O sol matinal sangrou através da estranha névoa por toda a cidade. A maioria dos moradores atribuiu aquilo a todas as festas e fogos da noite passada. A despedida das gêmeas à beira mar foi tão difícil quanto antes: Theodora e Antonia derramaram lágrimas, mas também sorriram e trocaram promessas. Seus dedos esguios emolduraram ternamente o rosto uma da outra e suas testas se tocaram; cachos grossos e brilhantes se entremearam quando murmuraram entre si mais um segredo, como se tivessem voltado a infância. Um último adeus e Theodora embarcou com Drusus acenando para Antonia até não conseguir mais ver o véu vermelho com que a irmã acenava, despedindo-se também. Eles entraram em seus alojamentos para dormir durante o retorno a Capri.
Horas depois, o mar ficou subitamente turbulento. Uma onda enorme içou o barco e o arremessou, a embarcação bateu na água soltando um gemido. O céu começou a ficar matizado desde a praia. Podia-se ouvir os gritos de uma frota próxima. Vieram, então outros vampiros partindo freneticamente em navios pelas águas turbulentas em direção a Pompeia e Herculano. Héstia foi para o porto e explicou a visão que tivera na noite anterior – perigo, calor, um cobertor de vapor e pó envolvendo a costa. Então ela parou e apontou para o leste. Todos se viraram para ver a cena aterrorizante: o Vesúvio entrara em erupção, um cogumelo negro de fumaça havia brotado e o fogo marcava o céu por várias milhas.
Muitos vampiros dormiram nas cidades vizinhas, os humanos já tinham começado seu dia. Todos estavam correndo perigo. Theodora estava fora de si, querendo fazer a volta com o barco e tentando se unir aos outros na missão de resgate. Enquanto todos corriam contra o tempo e as ondas batiam furiosamente no barco, ela se agarrou aos corrimãos, com os cabelos e a túnica voando ao vento. Drusus pegou remos extras e começou a remar com toda a força, acompanhado pelos demais remadores. Quanto mais perto chegavam de Pompeia, mais pesada ficava a poeira e a quentura; barcos passavam por eles, repletos de famílias humanas em fuga. Havia gente ferida, e os gritos de dor ecoavam pelas águas. Outros tentavam fazer perguntas e engasgavam, os pulmões ardiam por causa dos gases.
Os vampiros foram informados sobre o que se passara: a terra tremeu e se contorceu naquela cinzenta e estranha massa, rachando ânforas de vinho pelos pisos ladrilhados, que partiram braseiros acesos e rapidamente geraram incêndios. O terror e a confusão generalizados – onde estão as crianças, cavalos relinchando, o que fazer agora, não consigo respirar, não enxergo nada – resultaram em pânico, o que libertou o lado primitivo do ser humano em luta pela sobrevivência. Os portões da cidade se entupiram de carroças de animais e corpos, e começou a cair uma chuvarada ardida de pequenos pedaços de pedras-pomes em brasa, o que gerou uma onda de pânico ainda maior entre a multidão. Alguns se jogaram tropegamente nos barcos, outros morreram ao tropeçar e cais na fuga ou foram pisoteados pela turba indiferente pelo desespero. Saqueadores se esconderam nas casas abandonadas. Um mesquinho proprietário de escravos aproveitou a situação para fazer dinheiro, vendendo todos os escravos que tinha para guardar as propriedades dos ricos. Os novos donos dos escravos fugiram, deixando-os para trás.
Theodora sabia que só podia ser uma pessoa.

A Ira de Vesúvio. Século I d.C. Afresco. Pompeia, Itália. A partir das lembranças
de um vampiro sobrevivente. Coleção de Pompeia, Hall da História, Veneza, Itália.

Os barcos finalmente ancoraram. Os vampiros rasgaram roupas de cama e as molharam no mar. Depois, enrolaram-se nos panos para se proteger e abriram caminho com dificuldade em meio à multidão que deixava a cidade.
Tudo estava coberto de poeira e bolinhas de chumbo do tamanho de grãos de arroz; o calor era intenso. Os mais sábios haviam escapado, ao passo que outros espiavam pelas frestas das portas, com medo de serem queimados pelas pedras-pomes em brasa. Uma criança berrava por perto em meio à densa fumaça; ouvia-se soluços do interior de outra loja. Os vampiros se espalharam em busca de amigos e vítimas. Theodora chamou Drusus para acompanhá-la até a padaria de Antonia. Logo se depararam com o imóvel ainda de pé. Havia um corpo caído – o açougueiro, apunhalado com uma arma branca totalmente cravada nas costas. Theodora ajoelhou-se e reconheceu o touro entalhado no cabo.
Brutus. Um pressentimento ruim lhe pesou os braços e pernas quando juntou as peças e se deu conta do que havia acontecido. Ela disse a Drusus: Brutus deve ter vindo pegar Antonia e este homem morreu tentando protegê-la... Brutus conseguiu o que queria, mas onde eles estão? O punhal, a gruta onde eles fazem suas adorações fica na Morada dos Mistérios. Ele está com ela... ela está lá. Minha irmã está presa em uma gruta com um louco. E ele jamais a deixará partir.
Theodora saiu da padaria em meio aos gritos de socorro de um bordel próximo. Outros vampiros faziam de tudo para empurrar os humanos para o portão da cidade, quando o chão se elevou sob seus pés. O vulcão expeliu uma nuvem ainda mais densa, que se espalhou pelas ruas. Outro imóvel emitiu um ruído semelhante a um mugido, quando o teto desabou com aquele peso letal.
A gruta ficava a alguns quarteirões de distância. Eles jamais conseguiriam chegar lá; Antonia estava condenada.
Vampiros sobreviventes ajudaram a registrar os eventos seguintes no diário de Héstia. Disseram que Theodora fechou os olhos e parou, de cabeça baixa, no meio da rua, indiferente aos gritos de cuidado e à própria pele chamuscando ao ser atingida pelos pedacinhos de chumbo. Ondas de poder começaram a emanar dela quando abriu os braços vagarosamente, com as palmas viradas para o Vesúvio. Seus olhos se abriram, sua concentração foi se voltando para o ar à sua frente, seguindo então pelas ruas acima, atravessando a cidade, passando pelas montanhas e penetrando o coração do monstruoso vulcão.
Tudo o que havia no rastro de sua visão parou, imóvel, como estava, empacado na curva, ou caído, ou tremendo. Ela empinou o queixo ligeiramente, os olhos vidrados, e a imobilidade se espalhou por toda a cidade. Ela fechou os olhos e enrijeceu o corpo como as estátuas que marcavam as ruas. Em meio ao silêncio, Drusus a ouviu sussurrar: Rápido.
Os vampiros atrás de Theodora pararam, perplexos, enquanto a onda que emanava dela avançava pela cidade inteira, seus braços começaram a tremer devido ao esforço, e eles entenderam o que ela estava oferecendo. Numa velocidade inumana, suas formas abriram buracos no ar carregado de cinzas, por trás dos quais surgiram túneis ocos. Ninguém jamais tinha visto algo parecido antes, mas se adaptaram imediatamente à estranha sensação e, à medida que apartavam a atmosfera, viram que se formava uma trilha de fuga perfeita.
Drusus saiu pelas ruas arrasadas pulando corpos caídos, carroças quebradas e montes de tesouros, até chegar ao seu destino. Forçando a porta, ele chamou Antonia, e uma voz frágil respondeu. Ele atravessou o cenário desolado, achou uma porta escondida e desceu a escadaria sinuosa. Ao ver a cena no subolo, levou um choque: Antonia, amarrada a um altar, com uma enorme estátua de um touro caída sobre ela. Mas ainda estava viva.
Fazendo uma prece à deusa, Drusus puxou e empurrou a estátua, gentilmente tomando nos braços o corpo ferido da gêmea de sua amada, e saiu cambaleando da caverna, saltando pelas ruas sombrias até onde Theodora ficara.
Em frente à padaria, Theodora continuava de olhos fechados, olhando para dentro de si para comandar as poderosas ondas e harmonizar os movimentos. Foi lá que Brutus a encontrou, exatamente como esperava. Ela mordera a isca. Esta era a chance dele de recuperar a outra metade do par. O açougueiro quase conseguira arruinar seu plano. Mas... agora! Tirando o punhal de junto do corpo, Brutus sorriu. Theodora, você também é minha.
A corda pairou sobre sua cabeça e seus antebraços. Ele tentou puxar com força, mas, para sua perplexidade, estava tão rígida quanto as colunas de mármore da cidade. Sem se deixar abalar, Brutus passou sua mão por trás da cabeleira negra dela e levantou seu punhal. Minha. Minha...
Com um gesto hábil, abriu um buraco em seu pescoço e encaixou os lábios nele, enquanto Drusus surgia de uma passagem empoeirada com Antonia.
Despertando de seu transe, Theodora abriu os olhos e se viu nos braços de Brutus, que a fitava com olhos lascivos. Agora vocês duas serão minhas. Para sempre.
Chocada, Theodora viu que Drusus tinha nos braços o corpo ferido da irmã. Dentro dela algo se rompeu, algo que ela não sabia que podia separá-la de seu ser. Em vez de lidar com Brutus e voltar a se concentrar no espírito para proteger o povo em fuga, Theodora abandonou tudo. Jovem e inexperiente no uso de seu dom, deixou-se consumir por uma onda de raiva que lhe turvou a vista. Theodora juntou apressadamente todos os poderes antes direcionados ao vulcão. Trincando os dentes, rugiu para Brutus: Nia, olhe para mim AGORA!. e atirou sua força vital com ódio e horror no homem que ousou ferir sua irmã. Lenta e deliberadamente, Brutus foi levantado do chão e começou a girar cada vez mais rápido. Depois, foi empurrado pela força invisível e voou para trás, sua cabeça se espatifou contra uma enorme estátua de mármore, emitido um ruído de carne sendo esmagada. Seu corpo foi escorregando em espasmos, deixando um rastro macabro até a base do monumento, onde caiu sentado junto à parede mais abaixo. As cinzas voltaram a cair sobre Pompeia, imperativas, cobrindo Brutus imediatamente. E lá ele permaneceu pela eternidade: pernas arreganhadas, boca aberta. O Vesúvio tomou a forma dele para si.  
Theodora desmaiou na rua. A cratera sinistra explodiu lançando seu conteúdo para o céu. Tetos caíram, paredes tombaram – o inferno começara.
Com o que restava de sua força de guerreiro, Drusus jogou o corpo dela sobre seu outro ombro. Ele seguiu em direção ao portão da cidade, sentindo o calor dos pedaços de pedras-pomes que caíam implacavelmente. Enfim apareceram mãos para ajudar, e eles alcançaram o barco. Os remadores trabalhavam freneticamente para fugir da praia da morte, lutando por suas vidas, e os sobreviventes exauridos seguiram para Capri.
Os vampiros no barco fizeram o melhor que podiam pelos três – os corpos foram lavados, e seus olhos e bocas foram limpos. Ao tirar gentilmente a sujeira do rosto de Theodora, Héstia levou um susto, depois piscou os olhos várias vezes. As tatuagens cor de safira de Theodora tinham desaparecido de sua testa. Não havia explicação; até os mais experientes vampiros curandeiros desconheciam o que aquilo queria dizer.
Entretando, os curandeiros reconheceram uma coisa:o caso de Antonia ultrapassava suas possibiidades. Costas e costelas quebradas, quadris esmagados, e mais, as cinzas lhe tomaram os pulmões, enfraquecendo seu corpo a cada minuto. Cada  suspiro que dava evidenciava sua agonia; ela gemia, inconsciente. Drusus perdeu a cabeça. Na esperança de revivificá-la, rasgou os próprios pulsos para forçá-la a beber seu sangue. Ela despertou, mas o alívio foi breve.
Caída perto de Theodora, Antonia virou a cabeça e, com os olhos pesados, procurou a gêmia. Ela gemeu, mas mesmo assim esticou o braço para entrelaçar seus dedos aos da irmã, e então voltou a cerrar os olhos. Antonia sussurou: Espere... por mim.
 Então, ficou imóvel.
Tomado pela dor e pelo medo, Drusus caiu de joelhos perante Héstia. Não! Isso não pode acontecer, não posso perder Theodora também, não posso aguentar isso! Em Pompeia, ela desferiu seu poder contra o mercador de escravos. Agora não está nem morta, nem viva! Como pode ser? Meu amor não deixou marcas nela, e mesmo assim ela partiu; para onde?
Héstia sabia que Nyx tinha um enorme poder que era alimentado pelo mundo espiritual. Entretanto, o mundo físico tinha suas próprias regras, e nem mesmo uma deusa podia ser capaz de comandá-las. A transformação torna os vampiros quase atemporáis, mais nem por isso invisíveis.
Uma lição dolorosa.
Héstia pensou um pouco e depois balançou a cabeça, assentindo. Drusus, há um jeito, mas é algo encoberto em mistério... inprevisível. Posso apenas tentar.
Os vampiros de Capri se reuniram ao redor de uma ampla mesa. De dentro de uma sacola muito bem bordada, Héstia tirou dez pedras de mármore tão brancas que cintilavam. Cada uma delas tinha uma runa talhada. Ela disse: Estas peças são antigas, e ninguém conhece ou entende o que querem dizer. Reconhece-se que são de uma deusa, mas não são; elas vêm de uma profetisa que existiu muito tempo antes de nossa hitória começar a ser registrada.
De olhos fechados, ela entrou em transe, levanou os braços, e seu corpo começou a balançar para a frente e para trás. Ela falou numa lígua há muito esquecida, pedindo o reforço de forças sem nome.
E elas responderam. Uma voz de outro mundo brotou de seus lábios:  Drusus, filho de Erebus, guerreiro de Theodora, você deve abrir mão de si mesmo para encontrá-la. Precisa destruir a si mesmo para salvá-la. Você precisa se entregar para que ela volte.
Héstia abriu os olhos e traçou um círculo na mesa em frente a Drusus, e depôs uma estrela dentro dele. Pegou as pedras, levantando cada uma delas, permitindo que os fios prateados refletissem a luz das velas, antes de retorná-las para dentro da sacola. E depois a segurou aberta para ele.
Drusus, permita que as pedras dentro da sacola encontrem sua mão enquanto você as tira. Coloque cada pedra no meio de um dos arcos do círculo.
Ele seguiu as instruções, tirando uma por uma, deixando cinco pedras na sacola.
Agora, deixa que as pedras remanescentes o escolham também, e as coloque sobre a primeira série de pedras, uma em cada ponta.

Mapa de Runas de Héstia. Século I d.C. palácio de Capri, Itália. Cortesia
do Museu de Literatura Vampírica, Londres, Inglaterra.

Depois que as pedras foram correlacionadas, Héstia as observou com cuidado e respirou fundo.
Drusus, só posso esperar que consigamos entender as respostas às perguntas que fizemos às forças superiores.
Ela apontou para uma runa de pedra que tinha o desenho de uma árvore seca, que ficava logo acima de outra com uma espiral que se tornava mais grossa em direção ao centro.
A alma de Theodora foi fraturada, ramificada. Suas energias mantêm sua vida acima do chão, assim como a árvore, mas elas também fluem para onde não enxergamos, levando-a para as raízes de sua alma. Ela está próxima do reino de Nyx, o Outro Mundo, mas não está inteira. Apenas se fizer uma jornada em espírito será possível encontrar seus fragmentos e juntá-los.
Ela apontou outro par de pedras. E aqui está a ponte, para onde convergem as jornadas. Todos os cruzamentos são desafios; por alguns só se passa uma vez, não há retorno. Aqui, estão combinados com o espírito; eis onde a decisão será tomada. Héstia viu os perigos indicados nas outras três combinações e seu posicionamento no círculo, mas parou nesse ponto.
Drusus era guerreiro de Theodora; então aquela era a tarefa dele.
Héstia encolheu os ombros. Drusus, este caminho você só pode seguir liberto das restrições do seu corpo. O perigo é grande. Deixar seu corpo para viajar na energia de seu espírito é algo que ameaça ambos os aspectos da vida: o visível e o invisível.
Ele balançou a cabeça. Tenho que ir. Vamos, mostre-me que caminho; a cada momento ela se afasta mais de mim.
Lágrimas brotaram nos olhos de Héstia ao ver o desespero no rosto dele. Ela segurou sua mão e disse: eu tenho um veneno. O excesso dele mata um vampiro, mas em doses pequenas e constantes, ele manterá seu corpo em suspenso e libertará sua mente. É um risco terrível; eu terei de administrar cada dose. Mas farei isso. Drusus, sinto que é um erro, mas farei isso.
Trouxeram-lhe a ampola e o corpo de Atonia foi carinhosamente carregado. Drusus a pôs em seu lugar, ao lado de seu amor, segurando a mão de Theodora. Héstia desarrolhou a garrafa. Com o máximo de cuidado, deixou uma gota diminuta escapar e cair entre os lábios dele.
De início, foi como se uma nova força estivesse explorando suas formas, ajustando-se a seus cantos e fendas, testando a força e a flexibilidade de cada grupo muscular, enquanto o guerreiro tremia e se retorcia. De repente, seu corpo ficou rígido, travado por um espasmo, enquanto seus lábios começaram a florescer em cor de vasos de sangue, que estouraram e se espalharam por seu rosto. Os vampiros, confusos, olharam para Héstia em busca de orientação. Ela pôs a mão sobre o coração dele e disse: Ele está viajando. Vamos esperar.
Ela ficou ao lado dele, recusando ajuda para manter as doses de veneno. Às vezes os músculos de Drusus começavam a tremer de repente, ou então ele gemia e murmurava frases ininteligíveis. Com a passagem dos dias, seu rosto foi se transformando em uma careta de dor, com o maxilar trincado e os lábios repuxados de agonia.
Após cinco dias, Héstia não aguentou mais. Mesmo exausta, reuniu os vampiros e traçou um círculo ao redor dele, na esperança de conseguir transmitir a força que lhe restava para o guerreiro. Por um momento, pareceu dar certo. Suas feições ficaram mais tranquilas; o cenho franzido pareceu mais relaxado. Depois, Drusus abriu os olhos e começou a apalpar o próprio corpo a esmo, procurando sem ver.
Não, Theodora, não faça a passagem! Não vá com ela! Eu estou aqui, você não me ouve? Theodora!
Um grito primitivo irrompeu de dentro dele, fazendo-o levantar-se de uma vez só, como se um enorme gancho o tivesse puxado pelo osso externo. Ele virou o rosto e se deu conta de onde estava. Estendendo a mão para ela, ele disse: Héstia, me ajude...
Ela balançou a cabeça. Não posso fazer mais nada. Ela levantou a ampola: Seu corpo não tolera mais nem uma dose disto.
E, para horror de Héstia, ele arrancou a ampola de sua mão. Antes que ela pudesse reagir, Drusus virou a garrafa na boca. Sua cabeça caiu pra trás, os braços penderam do corpo e, com o sangue brotando de sua pele, ele engasgou, dizendo: Theodora...
Então a força invisível o deixou, e os vampiros correram para perto. Héstia pôs a mão no peito dele e teve certeza.
Drusus partira também.
Héstia virou-se para onde Theodora estava deitada e ofegou. Ela não estava mais apenas pálida, estava quase transparente. À medida que a força vital se exauria de cada célula, o corpo dela liberou os últimos traços de espírito que ainda estavam unidos a seu corpo nos últimos dias. A alma despedaçada de sua jovem sacerdotisa havia partido para sempre.
O par jazia com as pontas dos dedos encostadas, como pinturas de mármore sobre um túmulo – igualmente belos, igualmente frios. Os vampiros passaram os dedos carinhosamente na testa de cada um, tocando o ponto onde antes brilhava uma lua crescente, depois, sobre os lábios calados para sempre e descendo enfim até o meio do peito de cada um, onde antes batia um coração. De olhos fechados, os vampiros levaram ao peito os punhos cerrados e disseram em uníssono “Merry meet outra vez”, rogando que o casal voltasse a se encontrar.
O Ritual do Adeus dos vampiros, ainda que raro, é uma cerimônia de tocante beleza, imbuída da dor brutal de uma perda. Qualquer um pode imaginar o que sentiram os vampiros de Capri durante a lua cheia daquele mês. A dor que carregavam em si aumentou; as sombras prevaleceram e ninguém podia ignorar o fato. Héstia arrancou as roupas e os cabelos de desespero, em público, fazendo a famosa declaração:
Como um vilão bêbado e obsceno, Vesúvio vomitou destruição sobre nossas amadas Pompeia e Herculano. A beleza peculiar, a graça e o espírito dessas duas cidades mágicas jamais serão reproduzidas. Não podemos ficar aqui em Capri, pois não aguentamos ficar perto de seus cadáveres profanados. O Conselho Supremo dos Vampiros determina oficialmente que, a partir de agora, nosso lar será em outra parte.

O palácio foi vendido.
A peregrinação teve início.
Você pode achar que, na situação de Theodora, teria tido força ou poder para fazer melhores escolhas. Nenhum de nós sabe, novato, como seremos... até virmos a ser. Algumas coisas dependerão de vocês, outras emanarão do amor da deusa, e o resto estará sujeito aos desdobramentos do tempo, de acordo com as circunstâncias.
Mas saiba o seguinte: você foi escolhido, e tudo acontece por uma razão.
Quanto à jornada, os vampiros remanescentes de Capri se juntaram ao Conselho Supremo na busca por um lar. Instalaram-se em Florença, iniciando uma efervescência artística que muitos ainda consideram sem par em qualquer outro momento da história humana.

Capri: do Teto do Palácio. Século I d.C. Afresco. Um estudo de despedida
pintado por Héstia antes do êxodo dos vampiros.

Mas, com o passar dos anos, o poder de Roma foi crescendo e se tornando mais intrusivo, e nossos ancestrais começarem a procurar lugares mais remotos e aceitáveis.
Em abril de 421 d.C., a Grande Sacerdotisa TorcEllia viajava de Florença para o norte da Itália, quando descobriu um assentamento curioso que fora construído por humanos na tentativa de escapar das invasões bárbaras. Esse assentamento estava sendo construído sobre um sistema de ilhas feitas pelo homem e cercadas por lagos. Torcellia sentiu uma familiaridade imediata com os humanos, bem como com a ideia de construir um mundo protegido de forasteiros por uma fortaleza, e empregou a força e a fortuna, o talento e a ingenuidade da sociedade vampírica na empreitada.
Os esforçados humanos aceitaram sua ajuda, tanto que, em 639 d.C., o último gesto da longa vida de Torcellia foi entregar o Palazzo Ducale, hoje conhecido como Palácio do Doge, à nobreza humana que lhe oferecera tanta gentileza e aceitação.

Ducado de ouro, Século XIV. Moeda comemorativa em reconhecimento à
filantropia do Conselho Supremo dos Vampiros para com A cidade de Veneza.

Bem de frente para o sombrio Mediterrâneo, situado de modo que Torcellia pudesse se sentar e olhar de cima a cidade que viria a se chamar de Veneza, a Grande Sacerdotisa construiu uma fabulosa ilha própria, onde decretou que o Conselho Supremo dos Vampiros havia finalmente encontrado seu lar fixo, após séculos de inquietude e ânsia de ver o mar. Ela deu à ilha o nome de Clemente, em homenagem ao guerreiro que se ligara a ela quatro séculos antes, logo depois que ela se transformou.
Hoje em dia, novato, nós temos o lar da Grande Sacerdotisa Vampira e nosso Conselho dirigente na ilha de São Clemente, que adorna o Mediterrâneo como uma linda pérola logo após a costa de Veneza.
Existe mais, muito mais sobre nossa cultura nos corredores do Museu de História dos Vampiros de São Clemente, que fica debaixo das salas do nosso Conselho Supremo. O mais sagrado de nossos processos rituais, além de interpretações da evolução dos vampiros, encontram-se no santuário de Nyx, outro ramo de estudo que você verá na House of Night.
À medida que o calouro estudar ao longo dos anos na House of Night, mais ficará sabendo sobre nosso Conselho Supremo. No momento, é importante apenas entender que somos governados por nossa benevolente Grande Sacerdotisa, que assumiu o poder com a força do voto de toda a sociedade vampírica. Nossa Grande Sacerdotisa se reporta apenas ao Conselho Supremo dos Vampiros, que consiste em sete Sacerdotisas, que foram escolhidas por sete distritos nacionais de vampiros e reverenciadas por sua sabedoria e devoção a nossa deusa.

Abençoada Seja. 2010. Um exemplo comum na ilha de São Clemente
é caminhar na névoa ao anoitecer. Fotografia gentilmente cedida pelo
Conselho Supremo dos Vampiros. Veneza, Itália.

Essas oitos vampiras magnificentes são eternamente protegidas por nossos guerreiros, os Filhos de Erebrus. Portanto, fique sossegado, novato, nossa Grande Sacerdotisa está instalada em nosso Conselho, e tudo vai bem no mundo.

O Portal. 2010. Quando uma porta se fecha outra se abre; novatos
encontrarão iluminação e poder em suas vidas por meio da orientação de Nyx.
Fotografia gentilmente cedida pelo Conselho Supremo dos Vampiros. Veneza, Itália.

E eu começo...
Novato, este livro deve ser sua referência durante o seu primeiro ano na House of Night. Nós o incentivamos a documentar seu crescimento físico, emocional e espiritual.
Esta página foi reservada para que você registre como vê o mundo neste momento. Agora é o seu começo na senda de terceiranista.











Esta página lhe foi reservada para que registre como vê o sentido no deixar para trás o labirinto e entrar no segundo ano na House of Night. As Asas de Eros o aguardam.

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