26 de novembro de 2015

Capítulo 9

Quando Elena abriu a boca para falar, sentiu-se erguida como se estivesse em um furacão. Por um momento ela agarrou-se ao menino que estava sendo arrancado de suas mãos, só teve tempo de gritar, — Eu voltarei, — e de ouvir a sua resposta, antes de ser puxada para o mundo comum de banhos e manipulações e quartos de hotel.
— Eu vou manter o nosso segredo! — Isso foi o que o menino chorou para ela no último instante.
E o que isso poderia significar já que ele iria manter os seus encontros em segredo do real (ou — comum — ) Damon?
Um momento depois Elena estava em um quarto de motel sombrio, e Damon estava segurando seus braços. Quando ele a liberou, Elena pôde sentir o sal. Lágrimas estavam fluindo livremente por suas bochechas.
Não parecia fazer diferença alguma para seu agressor. Damon parecia ser a misericórdia do desespero vivo. Ele estava tremendo como um menino que beija pela primeira vez seu primeiro amor. Isso é o que estava tirando o controle, Elena pensou confusamente.
Quanto a ela, sentiu como se fosse desmaiar.
Não! Ela tinha que ficar consciente.
Elena empurrou e girou, se machucando deliberadamente contra o laço aparentemente inquebrável que a segurava.
Ele segurou.
O possessor? Shinichi novamente, oculto na mente de Damon para obrigá-lo fazer coisas...?
Elena lutou mais, forçando tanto que poderia realmente gritar de dor. Ela choramingou uma vez...
O laço se quebrou.
De alguma forma Elena sabia que Shinichi não estava envolvido nisso. A verdadeira alma de Damon era um garotinho preso em correntes por Deus sabe quantos séculos, que nunca tinha conhecido o calor e a proximidade, mas ainda tinha uma lágrima de apreço por elas. A criança que estava acorrentada em volta de uma rocha era um dos segredos mais profundos de Damon.
E agora Elena tremia tanto que não tinha certeza se poderia ficar de pé, e estava se perguntando sobre a criança. Estava com frio? Estava chorando como Elena? Como ela poderia saber?
Ela e Damon se soltaram olhando um para o outro, ambos respirando com dificuldade. O cabelo lustroso de Damon estava desalinhado, fazendo-o parecer devasso como um corsário. Seu rosto, sempre tão pálido e controlado, estava vermelho de sangue. Seus olhos caíram para ver Elena automaticamente massageando os pulsos. Ela podia sentir alfinetes e agulhas agora: estava recuperando a circulação sanguínea. Assim que ele desviou o olhar, não conseguiu olhar nos olhos dela novamente.
Contato ocular. Tudo bem. Elena reconheceu uma arma, tateando em busca de uma cadeira e encontrando a cama inesperadamente perto atrás dela.
Ela não tinha muitas armas agora; e precisava usar todas que tinha.
Sentou-se, cedendo à fraqueza em seu corpo, mas manteve seus os olhos no rosto de Damon. Sua boca inchada. E isso era injusto. O beicinho de Damon era parte da sua mais básica artilharia. Ele tinha a boca mais bonita que ela já tinha visto em alguém, homem ou mulher. A boca, o cabelo, as pálpebras semi-fechadas, os cílios pesados, a delicadeza de seu queixo... injustiça, mesmo para alguém como Elena, que há muito tempo tinha se interessado em uma pessoa apenas por causa de alguma beleza acidental.
Mas ela nunca tinha visto aquela boca inchada, o perfeito cabelo desordenado, os cílios tremendo porque ele estava olhando por toda parte, exceto para ela e tentando não demonstrar isso.
— Era isso o que você estava pensando enquanto estava se recusando a falar comigo? — perguntou ela, e sua voz era quase constante.
A súbita quietude de Damon era a perfeição assim como todas as outras perfeições. Sem a respiração, é claro. Ele olhava fixo para um ponto no carpete bege que agora deveria estar ardendo chamas.
Então, finalmente, ele levantou aqueles olhos escuros enormes para ela.
Era muito difícil dizer alguma coisa sobre os olhos de Damon porque a íris era quase da mesma cor da pupila, mas Elena tinha um pressentimento de que se encontravam neste momento tão dilatadas que era tudo pupila. Como podia olhos tão negros como uma armadilha de meia-noite manter a luz? Ela parecia ver neles um universo de estrelas.
Damon disse, baixinho, — Corra.
Elena sentiu as pernas tensas. Shinichi?
— Não. Você deve correr agora.
Elena sentiu os músculos da coxa relaxar ligeiramente e ficou grata por não ter que tentar provar que ela era capaz de correr - ou mesmo se arrastar - neste exato instante. Mas seus punhos se fecharam.
— Você quer dizer que isso é apenas você se tornando um bastardo? — Ela disse. — Você decidiu me odiar outra vez? Você gostou...?
Damon virou novamente, a quietude no movimento mais rápido do que os olhos dela poderiam acompanhar. Ele bateu na moldura da janela, uma vez, puxando o punho quase completamente no último instante. Houve um estrondo e depois milhares de pequenos ecos de vidro choveram como diamantes contra a escuridão lá fora.
— Isso pode... trazer alguém para ajudá-la. — Damon não estava tentando fazer as palavras parecem mais do que um pensamento. Agora que ele estava afastado-se dela, ele não parecia se preocupar em manter as aparências. Pequenos tremores percorriam seu corpo.
— Está tarde, nessa tempestade, tão longe do escritório, eu duvido. — O corpo de Elena estava suspenso em um jorro de adrenalina que a permitiu lutar de sua maneira contra o laço de Damon. Ela estava formigando toda e tinha que trabalhar para manter-se sobre controle e não começar a tremer.
E eles estavam de volta à estaca zero, com Damon olhando para a noite e ela olhando fixamente para suas costas. Ou, pelo menos, era assim que ele queria que estivessem.
— Você poderia ter perguntado, — disse ela. Ela não sabia se isso era possível para um vampiro entender. Ela ainda não tinha ensinado Stefan. Ele ficou sem coisas que queria porque não entendia como perguntar. Com toda a inocência e com todas as boas intenções, Stefan deixava as coisas até que ela, Elena, era forçada a perguntar a ele.
Damon, pensou ela, não tinha esse problema normalmente. Ele tomava tudo o que queria tão casualmente como se escolhesse itens de uma prateleira da mercearia. E bem agora ele estava rindo silenciosamente, o que significava que estava realmente impressionado.
— Vou tomar isso como um pedido de desculpas, — Elena disse suavemente.
Agora Damon estava rindo alto, e Elena sentiu um calafrio. Aqui estava ela, tentando ajudá-lo, e...
— Você pensa, — ele interrompeu em seus pensamentos, — que isso era tudo que eu queria?
Elena sentiu-se congelar novamente enquanto refletia sobre tudo isso. Damon podia facilmente ter tomado seu sangue enquanto a segurava imóvel.
Mas - é claro - isso não era tudo que ele queria dela. Sua aura... ela sabia provocava os vampiros. Damon a havia protegido o tempo todo de outros vampiros que pudessem vê-la.
A diferença, a honestidade nata de Elena disse a ela, era que ela não dava a mínima para qualquer um dos outros. Mas Damon era diferente. Quando ele a beijava ela podia sentir a diferença dentro de si. Alguma coisa ela nunca tinha sentido antes... até Stefan.
Oh, Deus - era realmente ela, Elena Gilbert, traindo Stefan pelo simples ato de não fugir desta situação? Damon estava se portando como uma pessoa melhor do ela estava; ele estava dizendo-a para levar a tentação de sua aura para longe dele. Para que ela pudesse começar a tortura de novo amanhã.
Elena tinha estado em muitas circunstâncias onde julgou que era melhor para ela sair antes das coisas ficarem quentes demais. O problema aqui era que não havia lugar nenhum onde pudesse ir sem aumentar o calor - colocando-se em grande perigo. E, aliás, perdendo sua chance de encontrar Stefan.
Ela deveria ter ido com Matt? Mas Damon tinha dito que não poderiam entrar na Dimensão Sombria, não dois humanos sozinhos. Disse que precisavam dele. E Elena ainda tinha algumas dúvidas quanto a Damon, se ele teria se metido nessa encrenca dirigindo até o Arizona, muito menos procurado por Stefan, se ela não estivesse com ele a cada passo do Caminho.
Além do mais, como Matt poderia protegê-la na estrada perigosa que ela e Damon tinham tomado? Elena sabia que Matt morreria por ela - e era isso que teria acontecido, também, se eles fossem para cima de vampiros ou lobisomens. Morrido. Deixando Elena frente a frente com seus inimigos sozinha.
Ah, sim, Elena sabia o que Damon fazia todas as noites enquanto ela dormia no carro. Colocava algum tipo de feitiço escuro ao redor dela, assinando-o com seu nome, vedando-o com o seu selo, e isso mantinha as criaturas da noite longe do carro até de manhã.
Mas seus maiores inimigos, os gêmeos kitsune, Shinichi e Misao, haviam vindo com eles.
Elena pensou em tudo isso antes de levantar a cabeça para olhar nos olhos de Damon. Olhos que, naquele momento, lembravam-lhe os da criança esfarrapada acorrentada à rocha.
— Você não vai sair, não é? — ele sussurrou.
Elena balançou a cabeça.
— Você realmente não está com medo de mim?
— Oh, estou com medo.  Novamente Elena sentiu estremecer por dentro. Mas agora ela estava voando para algum lugar, tinha escolhido a direção, e não havia maneiras de conseguir parar isso. Especialmente não quando ele olhava para ela daquele jeito. Isso a recordou da alegria feroz, o orgulho relutante que ele sempre mostrou quando derrotaram um inimigo juntos.
— Não vou me transformar em sua Princesa das Trevas, — disse a ele. — E você sabe que eu nunca poderia desistir de Stefan.
O fantasma de seu velho sorriso zombeteiro tocou-lhe os lábios. — Há muito tempo para convencê-la sobre a minha maneira de pensar sobre isso.
Não há necessidade, Elena pensou. Ela sabia que Stefan iria entender.
Mas mesmo agora, quando parecia que o mundo inteiro estava girando em torno dela, alguma coisa fez Elena confrontar Damon. — Você diz que não é Shinichi. Acredito em você. Mas tudo isso é por causa  do que Caroline disse? — Ela podia ouvir a dureza súbita em sua própria voz.
— Caroline?  Damon piscou como se fosse arrancado de sua tranquilidade.
— Ela disse que antes de conhecer Stefan eu era apenas uma... — Elena descobriu que era impossível dizer a última palavra. — Que eu era... imoral.
A mandíbula de Damon endureceu e seu rosto corou rapidamente - como se tivesse sido atingido rapidamente de uma direção inesperada. — Aquela garota, — ele murmurou. — Ela já fixou seu destino e se fosse qualquer outra pessoa eu poderia ter alguma piedade. Mas ela foi... além... ela foi... além... de qualquer propriedade... — Ele falou suas palavras devagar, e um olhar de espanto encobriu seu rosto. Estava olhando para Elena, e ela sabia que ele podia ver as lágrimas de paradas em seus olhos, porque se aproximou para tirá-las com os dedos. Quando ele fez isso, no entanto, ele parou em um lento movimento, e, com seu rosto de repente perplexo, levou uma de suas mãos até os lábios, saboreando as lágrimas.
Seja lá qual gosto tinha para ele, ele não parecia acreditar. Levou a outra mão aos lábios também. Elena estava abertamente encarando-o agora; ele deveria ter posto para fora seu semblante, mas não o fez. Em vez disso, um milhão de expressões passou por seu rosto, rápido demais para que seus os olhos humanos pegassem todos. Mas ela viu espanto, incredulidade, a amargura, mais espanto e, finalmente, uma espécie de choque alegre e um olhar como se houvesse lágrimas em seus próprios olhos.
E então Damon riu. Foi uma risada rápida e auto-jocosa, mas era verdadeira, eufórica, mesmo assim.
— Damon— Elena disse, ainda piscando para conter as lágrimas - tudo tinha acontecido muito rápido, — o que há de errado com você?
— Nada de errado, tudo está certo, — disse ele, ao levantar um dedo erudito. — Nunca tente enganar um vampiro, Elena. Vampiros têm muitos sentidos que humanos não tem, alguns que nós se quer conhecemos até precisarmos deles. Levou um longo tempo para eu perceber o que sei sobre você. Porque, claro, todo mundo estava me dizendo uma coisa, e minha mente me dizendo que era outra coisa. Mas eu percebi isso, no passado. Sei o que você realmente é, Elena.
Por meio minuto Elena ficou em um chocante silencio. — Se você sabe, então eu poderia muito bem dizer-lhe agora que ninguém vai acreditar em você.
— Talvez não, — disse Damon, — especialmente se eles forem humanos. Mas os vampiros são programados para reconhecer a aura de uma donzela. E você é uma isca para Unicórnios, Elena. Não sei e não me importo com como você conseguiu sua reputação. Estive enganado por um longo tempo, mas eu finalmente encontrei a verdade. — De repente ele estava inclinado sobre ela de forma que ela não pudesse ver nada além dele, seu cabelo fino caindo sob a testa, os lábios perto dos dela, seus olhos escuros, insondáveis, capturando seu olhar. — Elena — sussurrou. — Este é o seu segredo. Não sei como você conseguiu isso, mas... você é uma virgem.
Ele inclinou-se para ela, seus lábios apenas roçando os dela, partilhando sua respiração com ela. Eles permaneceram assim por um longo, longo tempo, Damon parecia fascinado por ser capaz de dar a Elena algo de seu próprio corpo: o oxigênio que ambos precisavam, mas que adquiriram de maneiras diferentes. Para muitos humanos, a quietude de seus corpos, o silêncio e o contato visual fixo - para aqueles que não tinham fechado os olhos - teria sido de mais. Eles podiam sentir como se tivessem mergulhado dentro da personalidade de seu parceiro tão profundamente, que estavam perdendo definição e se tornando uma parte etérea do outro antes mesmo que beijo tivesse se completado.
Mas Elena estava flutuando no ar: no ar que Damon lhe dava - literalmente. Se as mãos fortes, longas e finas de Damon não estivessem segurando seus ombros, ela teria se soltado de seus braços completamente.
Elena sabia que havia outra maneira para que ele pudesse mantê-la no chão. Ele poderia influenciá-la para que a gravidade fizesse isso com ela. Mas, até agora, ela não tinha sentido o menor toque de sua Influência tentadora.
Era como se ele estivesse esperando para dar-lhe a honra da escolha. Ele não iria seduzi-la com qualquer um dos seus muitos métodos de costume, os truques de dominação que aprendeu durante meio milênio de noites.
Apenas a respiração, que vinha mais e mais rápida, enquanto Elena sentiu seus sentidos começarem a nadar e seu coração começar a martelar. Ela tinha certeza absoluta de que Stefan não iria se importar com isso? Mas Stefan tinha dado a ela a maior honra possível, confiando em seu amor e julgamento. E ela estava começando a sentir verdadeiro Damon, sua esmagadora necessita por ela; sua vulnerabilidade por que essa necessidade estava se tornando como uma obsessão.
Sem tentar influenciá-la, ele estava espalhando grandes, macias e escuras asas ao redor dela para que não houvesse lugar para correr, para onde escapar.
Elena sentiu-se começando a desmaiar com a intensidade da paixão que havia de formado entre eles. Como um gesto final, não de repúdio, mas de convite, ela inclinou sua cabeça para trás, expondo sua garganta nua para ele, e deixando-o sentir a sua saudade.
E, como se grandes sinos de cristal estivessem tocando ao longe, ela sentia a alegria dele em sua entrega voluntária à escuridão de veludo que estava tocando-a.
Ela nunca sentiu os dentes que perfuraram sua pele e reivindicaram seu sangue. Antes disso, ela estava vendo estrelas. E então o universo foi engolido pelos escuros olhos de Damon.

Um comentário:

  1. Stefan desaparece por algum tempo e já é chifrado? Fala sério Elena, grande amor que você sente por ele!!!

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