5 de novembro de 2015

Capítulo 9

― Não há necessidade de você parecer tão aterrorizada. Uma garota que luta me parece emocionante, não uma doente.
Ele olhou para os estábulos enquanto falava com ela, embora ele não caminhasse pelo corredor que dividia as duas fileiras de barracas.
― Os cavalos novamente. Está se tornando um tema recorrente para você. Talvez depois de se tornar minha amante, se você for muito boa, comprarei um para você.
Ele virou-se para o interior escuro do prédio, para os sons abafados de cavalos sonolentos e caminhou até uma das duas tochas que estavam acesas ao lado da entrada do edifício. Suas chamas queimavam de forma constante, embora liberassem uma grande quantidade de fumaça cinza espessa.
Lenobia o viu se aproximar uma das tochas. Ele olhou fixamente para a chama com um olhar que era abertamente amoroso. Levantou sua mão e seus dedos se moviam através da chama carinhosamente, fazendo com que a fumaça se agitasse vagamente ao seu redor.
― Isso foi o que primeiro me atraiu para você, a fumaça de seus olhos ― ele se virou para olhar para ela, a chama marcando-o. ― Mas você já sabia disso. As mulheres gostam de atrair os homens de propósito, assim como chama atrai as mariposas. Você me atraiu do mesmo modo que a aquele escravo no navio.
― Eu não o atraí ― Lenobia falou, se recusando a falar com ele de Martin.
― Ah, mas é óbvio que você o fez, porque aqui estou ― ele abriu os braços. ― E há algo que devo deixar claro para você. Eu não compartilho o que é meu. Você é minha. Eu não vou compartilhá-la. Então, pequena chama, não atraia outras mariposas para você, ou  posso ter que mata-las, ou a você.
Lenobia balançou a cabeça e disse que a única coisa que ela poderia pensar:
― Você está absolutamente louco. Eu não sou sua. Eu nunca vou ser sua.
O padre franziu a testa.
― Bem, então, eu te prometo que você não pertence a ninguém, não nesta vida.
Ele deu um passo ameaçador na direção dela, mas uma forma negra girou em torno dele e pereceu que uma figura materializou-se da fumaça, da sombra ou da noite. O capuz do manto caiu para trás, e Lenobia ofegou quando o rosto da bonita vampira apareceu. Ela sorriu, levantou a mão, apontou um dedo longo para Lenobia, e disse:
― Lenobia Whitehall! A Noite escolheu a ti, tua morte será teu nascimento. A Noite a chama; ouve a Sua voz doce. Seu destino espera por você na House of Night.
A dor explodiu na testa de Lenobia e ela apertou as duas mãos ao rosto. Ela queria deitar ali e acreditar que toda a noite tinha sido um sonho, um longo e interminável pesadelo, mas as próximas palavras da vampira a fizeram levantar a cabeça e piscar os pontos brilhantes livres de sua visão.
― Deixe-a, padre. Você não tem nenhum controle sobre essa filha da Noite. Ela agora pertence à Mãe de todos nós, a Deusa Nyx.
O rosto do padre estava vermelho como chamas, a pesada cruz balançando em torno de seu pescoço.
― Você arruinou tudo ― gritou, soprando saliva na vampira.
― Vá, Escuridão! ― a vampira não levantou a voz, mas ela estava cheia com o poder de seu comando. ― Eu reconheço você. Não pense que pode se esconder de quem a vê com mais do que os olhos humanos. Vá!
Quando ela repetiu o comando, as chamas das tochas oscilaram e quase extinguiram completamente.
O rosto vermelho do padre empalideceu e com um último e longo olhar em direção a Lenobia, ele desistiu dos estábulos e fugiu para a noite.
Lenobia soltou o fôlego que ela estava segurando em um suspiro.
― Será que ele se foi? De verdade?
A vampira sorriu para ela.
― De verdade. Nem ele, nem qualquer ser humano, tem autoridade sobre você agora que Nyx a marcou como ela própria.
A mão de Lenobia ser ergueu para o centro de sua testa, que sentiu dores e machucados.
― Eu sou uma vampira?
A rastreadora riu.
― Ainda não, filha. Hoje você é uma novata. Esperemos que um dia, em breve, você seja uma vampira.
Houve som de passos nos corredores, e ambos giraram defensivamente, mas ao invés do padre, foi Martin quem entrou no corredor.
― Chérie! Eu segui as meninas, mas fiquei para trás para que não me vissem. Não sabia que você as deixou. Você está doente? Você...
Ele parou quando o que estava vendo pereceu registrar-se em sua mente. Ele olhou de Lenobia para a vampira, e então rapidamente de volta para Lenobia, o seu olhar dirigido para o esboço do crescente recém-formado no meio da testa.
― Sacre bleu! Vampira!
Por um momento, Lenobia sentiu como se seu coração fosse se quebrar, e ela esperou que Martin a rejeitasse. Ele respirou fundo e deixou o ar sair com evidente alívio. Seu sorriso começou quando ele se virou para a vampira e se inclinou com um floreio, dizendo:
― Eu sou Martin. Se o que acredito é verdade, eu sou o companheiro de Lenobia.
As sobrancelhas da vampira se arquearam e seus lábios cheios inclinaram-se para cima na insinuação de um sorriso. Ela colocou sua mão direita sobre o coração e disse:
― Eu sou Medusa, rastreadora da House of Night de Savannah. E apesar de ver que suas intenções são honestas, você não pode ser oficialmente o companheiro dela até que ela seja uma vampira totalmente Mudada.
Martin curvou a cabeça em reconhecimento.
― Então, eu esperarei.
Quando ele virou o rosto para Lenobia, o brilho de seu sorriso era a chave para a compreensão, e a verdade dentro dela foi libertada.
― Martin e eu podemos ficar juntos! Nós podemos casar? ― Lenobia olhou para Medusa.
A vampira sorriu.
― Na House of Night, é um direito da mulher de escolher companheiro ou companheira, negro ou branco, o que importa é a escolha ― a vampira incluiu Martin em seu sorriso. ― E vejo que você já a fez. Embora, talvez, como não há uma House of Night, em Nova Orleans, seria melhor que Martin acompanhasse-a a Savannah.
― É possível? Sério? ― Lenobia perguntou, esticando as mãos para alcançar Martin enquanto ele se mudava para o lado dela.
― É ― Medusa assegurou-lhe. ― E agora que eu vejo que você tem um protetor de verdade, vou dar-lhes um tempo sozinhos. Mas não demorem muito tempo. Retornem rapidamente para a doca e encontrem o navio com o dragão como mastro. Eu espero por você lá, e nós navegaremos com a maré.
A vampira deve tê-los deixado, mas Lenobia viu apenas Martin e sentiu apenas a sua presença.
Ele levou as mãos nas suas.
― O que se passa com você e os cavalos, chérie? Te encontro com eles novamente.
Ela não conseguia parar de sorrir.
― Pelo menos você sempre saberá onde me achar.
― É bom saber, chérie ― ele respondeu.
Ela deslizou as mãos pelo seu peito musculoso até que repousava sobre os ombros largos.
― Tente não me perder ― ela falou, imitando o seu sotaque.
― Nunca ― prometeu.
Então Martin se curvou e beijou-a, e seu mundo inteiro se reduziu a apenas ele. Seu gosto estava impresso em seus sentidos, misturado de forma indelével com seu cheiro e a sensação maravilhosa de que ele era completamente masculino, e exclusivamente Martin. Ele fez um som pequeno, satisfeito no fundo de sua garganta enquanto seus braços se apertaram em torno dele. Ele aprofundou o beijo, e Lenobia perdeu-se nele, mal sabendo onde terminou a sua felicidade e sua começou.
― Putain!
A alegria de Lenobia foi interrompida pelo som de uma maldição. Martin reagiu instantaneamente. Ele girou, empurrando-a para trás.
O padre tinha retornado. Ele estava de pé na entrada dos estábulos entre as duas tochas. Seus braços estavam abertos e a cruz cor de rubi em seu peito estava piscando. As chamas cresciam mais e mais alto a cada instante.
― Vá agora! ― Martin disse. ― Essa menina ela não escolheu você. Ela está sob minha proteção – jurado por voto e selado com sangue.
― Não, você não vê. Seus olhos a fazem minha. Seu cabelo faz com que ela seja minha. Mas acima de tudo, o poder faz com que ela seja minha!
O padre levou suas mãos para ambas as tochas. As chamas saltaram enquanto a fumaça subia, engrossando até que lambeu suas mãos. Então, rindo horrores, ele segurou o fogo e jogou-o nos fardos soltos e secos ao redor deles.
Com um whoosh! o fogo pegou, se alimentando, consumido. Lenobia teve um momento terrível de calor e dor. Ela cheirou a queima do próprio cabelo. Ela abriu a boca para gritar, mas o calor e a fumaça encheram seus pulmões.
Então ela sentiu braços em volta dela enquanto Martin a protegia das chamas com o seu próprio corpo. Ele levantou-a e levou-a com firmeza através do incêndio.
O ar quente e úmido da rua era frio contra a pele queimada de Lenobia quando Martin cambaleou e perdeu o controle, e ela caiu para a rua. Ela olhou para ele. Seu corpo foi queimado tanto que tudo o que era reconhecível de eram os seus olhos oliva e âmbar.
― Oh, não! Martin! Não!
― Tarde demais, chérie. Este mundo terminou para nós. Eu te verei de novo, no entanto. Meu amor por você não acaba 'aqui. Meu amor por você, nunca termina.
Ela tentou se levantar para chegar a ele, mas seu corpo estava estranhamente fraco, e o movimento enviou uma pontada pelas suas costas.
― Morra agora, e deixe ma petite de bas!
Por trás de Martin, a silhueta do padre, começou a se mover em direção a eles.
O olhar de Martin encontrou o dela.
― Eu não ficarei aqui agora, embora eu gostaria. Eu não irei perdê-la, também. Encontrarei você novamente, chérie. Eu juro.
― Por favor, Martin. Eu não quero viver sem você ― ela soluçava.
― Você deve. Encontrarei você, novamente, chérie ― ele repetiu. ― Antes de eu ir, uma coisa  posso corrigir nesse tempo, no entanto. A bientôt, cher. Eu vou te amar sempre.
Martin virou-se para atender o padre, que zombava dele.
― Ainda está vivo? ! Não por muito tempo.
Martin se manteve cambaleando em direção ao sacerdote, falando devagar e com clareza:

“Ela pertence a mim e dela eu sou
De lealdade e verdade,
Este sangue é a minha autenticidade!
Tudo o que fez foi em vão.
Que volte a você com dez vezes a dor!”

Quando chegou até o padre, os seus movimentos se alteraram. Por apenas um instante ele era rápido e forte como antes, mas um instante era tudo o que Martin precisava. Seus braços se travaram em torno de Charles de Beaumont e, estranhamente espelhando o abraço que tinha salvo a vida Lenobia, Martin levantou o padre gritando, lutando e levou-o para o inferno de fogo, que havia sido os estábulos.
― Martin!
O grito de agonia que foi arrancado de Lenobia foi abafado pelos sons terríveis de pânico, cavalos assustados e as pessoas correndo de casas vizinhas, gritando por água, por ajuda.
Através de todos os sons e loucuras, Lenobia ficou encolhida no meio da rua, soluçando. Com a propagação das chamas e o mundo ao seu redor queimando, ela baixou a cabeça e esperou o fim.
― Lenobia! Lenobia Whitehall!
Ela não levantou a cabeça ao som de seu nome. Era apenas o som dos cascos de um cavalo nervoso sobre os paralelepípedos nas proximidades que a fizeram reagir. Medusa deslizou para fora da égua e se ajoelhou ao lado dela.
― Você pode montar? Temos pouco tempo. A cidade está em chamas.
― Deixe-me. Eu quero queimar com ele. Eu quero queimar com ele.
Os olhos de Medusa se encheram de lágrimas.
― Martin está morto?
― E assim eu estou ― disse Lenobia. ― Sua morte me matou também.
Enquanto ela falava, Lenobia sentiu a profundidade da perda de Martin através dela. Foi demais, a dor era demais para conter dentro de seu corpo, e com um soluço que era choro de uma viúva, ela caiu para a frente. O tecido ao longo da costura de trás do seu vestido estourou e a dor dividiu sua pele queimada.
― Filha! ― Medusa se ajoelhou ao seu lado, estendendo a mão para ela, tentando consolá-la.  ― Suas costas, devo levá-la ao navio.
― Deixe-me aqui ― Lenobia falou novamente. ― Eu jurei nunca amar outro homem, e eu não vou.
― Mantenha o seu voto, a filha, mas viva. Viva a vida que ele não poderá.
Lenobia começou a recusar, mas depois o focinho macio da égua abaixou até ela, tocou seu cabelo chamuscado e esfregou seu rosto.
E através de sua dor e desespero, Lenobia sentiu a preocupação da égua, bem como o medo de que o fogo se espalhasse.
― Eu posso sentir o que ela sente ― Lenobia levantou uma mão fraca, trêmula até o cavalo para acaricia-lo ― ela está preocupada e com medo.
― É o seu dom, a sua afinidade. Raramente se manifestam tão rápido. Ouça-me, Lenobia. Nossa Deusa, Nyx, lhe deu este grande presente. Não rejeite-o, se console, talvez, a felicidade possa chegar para você.
Cavalos e felicidade...
O segundo piso da casa ao lado dos estábulos entrou em colapso, e as faíscas caíram em cascata ao redor delas, ateando fogo às cortinas de seda na casa do outro lado da rua.
O medo da égua disparou e foi o terror do animal que tomou a decisão por Lenobia.
― Eu posso andar ― ela falou, permitindo que Medusa a ajudasse ficar de pé e então levantasse-a para a sela.
Medusa ficou boquiaberta.
― Suas costas! Está ruim. Isso vai ser doloroso, mas uma vez que estejamos a bordo do navio, eu posso ajudá-la a se curar, porém você vai ter sempre as cicatrizes desta noite.
A vampira montou a égua, apontou-a para as docas, e incitou-a. À medida que galopava para a segurança e o mistério de uma nova vida, Lenobia fechou os olhos e repetiu para si mesma: Eu vou te amar até o dia em que eu morrer – só você, Martin. Sempre você, eu prometo.

2 comentários:

  1. 😢😢😢😢😢😢Eu amo livros, mais porque os escritores tinham que nascer sem coração😢???

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