7 de novembro de 2015

Capítulo 9 - Muito mais tarde, durante os éons ela teve que repetir em sua mente os eventos que levaram ao coração partido e a tragédia, Nyx frequentemente se culpou...


O encontro com o touro branco agitou Kalona em seu centro. A criatura era repugnante, e o que ela tinha proposto era impossível, mas as palavras do touro tinham uma verdade desprezível que o imortal alado não podia negar. Aquela verdade começou a rodar e rodar na mente de Kalona, um interminável lembrete de seu próprio medo – sua própria vulnerabilidade.
Ele não podia compartilhar Nyx com Erebus. Não seria capaz de controlar sua raiva se Erebus se tornasse amante de Nyx, porque não seria capaz de suportar o desespero que sua infidelidade faria com ele.
Miserável, Kalona voou para a cachoeira de Nyx, esperando encontrar sua Deusa lá. As águas estavam vazias em tudo, menos a sombra de sua beleza.
Ele foi para o lago azul e se sentou ao lado do barco que esculpira para ela, esperando que ela aparecesse. Nyx não apareceu.
Kalona até mesmo procurou pela pequena deidade maluca, L’ota, mas mesmo que ele tenha pensado ter vislumbres capturados de seu esconderijo dentro das sombras, ela se recusou a responder ao seu chamado.
Ele odiava não ser capaz de chamar sua Deusa. Não queria controlá-la; não era nada disso. Ele simplesmente precisava falar com ela, tocá-la, estar em sua presença. Apenas Nyx podia acalmar o desespero armando-se dentro dele. Apenas Nyx podia tranquilizá-lo e curar o que as palavras conhecedoras do touro tinha quebrado.
Kalona estava totalmente sem esperança sem Nyx, e seu desespero crescia em frustração.
Onde ela estava? Por que o estava deixando sozinho? Será que ela já não o amava? Ela já não o desejava mais? Será que ela não precisava dele como ele precisava dela?
Estava Nyx com Erebus em vez dele?
Em desespero, incapaz de se concentrar em terminar o teste final em que ele deveria passar antes de ser permitido a entrar para o reino de Nyx, Kalona foi para o céu, buscando pelo mundo não por Nyx, mas pelo seu irmão, o dourado filho do sol.

* * *

— Então! Está finalmente pronto? Esqueci alguma coisa? — Nyx passou a mão sobre o monte de cobertas de pele e olhou em volta da espaçosa câmara que ela tinha escolhido para Kalona.
Esqueceu do dourado.
— Erebus? Não seja boba, L’ota. Eu preparei a câmara dele antes. Fica lá, do lado do palácio que se abre para a luz solar da manhã.
Não ao lado de sua câmara.
— Não, só há uma sala que fica ao lado da minha câmara e... — a Deusa interrompeu sua explicação com um aceno de cabeça. — L’ota, há algo errado com você? Não parece você mesma recentemente. Está gastando muito tempo na terra? Espero não tê-la cansado em excesso, pedindo para verificar Kalona para mim e me ajudar a preparar estes quartos.
A Deusa fez uma pausa para sorrir para deidade.
— É só que eu dependo de você ainda mais do que dependo de suas irmãs. Você tem tomado conta de mim por um longo tempo, e muito bem, L’ota. Gostaria de se juntar às dríades enquanto elas brincam no reino mortal abaixo? Eles devem desfrutar. Eles nunca parecem se cansar.
Eu não brinco. L’ota se remexia enquanto sussurrava sua reposta para Nyx. A Deusa pensou que ela parecia estranhamente nervosa.
— Bem, é verdade que as skeeaed são mais sérias do que dríades, mas você pode achar que brincar um pouco é divertido.
Você ordena isso então?
— Claro que não! Eu não ordeno que você, ou qualquer outra deidade, se divirta. simplesmente queria dizer que você parece cansada e que sinto muito seu eu tiver cansado você. L’ota, hoje eu quero que você descanse. Não fique preocupada com Kalona, Erebus ou comigo. Esta noite, pequena, é apenas para você.
A Deusa sorriu para a deidade e acariciou o tufo suave de seu cabelo.
L’ota abaixou a cabeça e disse: Você comanda, eu obedeço. Então ela deslizou para dentro das sombras e desapareceu da câmara, deixando a Deusa balançando a cabeça e suspirando.
— Apesar de terem estado comigo por eras, as deidades permanecem criaturas estranhas. Às vezes acredito que elas entendem muito; às vezes acredito que muito pouco. Bem, um descanso dos seus deveres deve repor sua energia, tendo ela pedido ou não — Nyx olhou ao redor da câmara novamente e sorriu. — E eu tenho estado bastante ocupada preparando o palácio para a presença de Kalona e Erebus. Kalona... — Nyx repetiu seu nome, amando o som dele. Oh, como ela tinha saudades dele!
Tinha propositalmente evitado visitá-lo para que ele não se distraísse e para que estivesse bem para o teste final. E Kalona estava, obviamente, de acordo com ela; ele não a chamara nenhuma vez por ela, embora L’ota tenha visitado-o diariamente e esperasse pacientemente para trazer seu chamado de volta para Nyx. Assim, Nyx acreditava que seu maior desejo era o mesmo que o dela – de completar o teste final o mais rápido possível, de modo que ele poderia se juntar a ela no Outromundo por toda a eternidade!
Agora o palácio estava pronto, embora vazio demais. E Kalona estava tão perto! Talvez ela pudesse visitá-lo uma vez, por apenas uma parte da noite. Ela iria mostrar-lhe como estava ansiosa para tê-lo ao seu lado, e em seguida, o deixaria para suas preparações.
O alado chama por você. Como se Kalona tivesse lido a sua mente, L’ota de repente estava lá, sussurrando as palavras que a Deusa secretamente ansiava o dia para ouvir. Ele está no gêiser. L’ota franziu o nariz em lembrança ao cheiro do lugar.
Nyx riu alegremente.
— Que gentil da parte dele por optar para me encontrar no Leal Antigo! Isto mostra que ele realmente se livrou de seu ciúme de Erebus. Oh, L’ota! Ele poderia ser mais perfeito?
A Deusa abraçou a deidade, pegando a pequena criatura e dançando alegremente em torno da câmara lindamente decorada que aguardava seu amante.
Nyx ainda estava rindo quando deixou a skeeaed e correu para escolher algo lindo e puro para usar, distraída demais para ouvir as últimas palavras sibilantes que a criatura falava para ela: Siiiiiiiiiim, L’ota assiste, L’ota diz. L’ota mostra a você!

* * *

Muito mais tarde, durante os éons ela teve que repetir em sua mente os eventos que levaram ao coração partido e a tragédia, Nyx frequentemente se culpou.
Se ela não tivesse sido tão menina, tão tonta, tão diferente de uma Deusa, ela poderia ter parado para questionar os porquês e comos das coisas e impedido o horror do que estava por vir. Mas ela não tinha. Nyx não tinha nenhuma vez perguntado verdadeiramente porque L’ota havia se tornado tão distante e defensiva.
Ela não questionou por que ela não sentiu a presença de Kalona quando se materializou no gêiser. Não tinha sido sábia o suficiente até mesmo para considerar se a escuridão que ela tinha sentido, que embora incapaz de alcançar a ela, tivesse o poder de influenciar os outros.
Não, Nyx faltara em sabedoria e experiência, e por causa dessa falta, ela e muitos outros pagaram um preço caro demais para um simples perdão.
Naquela noite, Nyx não sabia nada sobre dor futura e arrependimento. Naquela noite, tudo o que ela sabia era que ela tinha a intenção de gastá-la nos braços de seu amado.
Que era o motivo de a Deusa estar completamente desconcertada quando se materializou no cume com vista para o gêiser e foi saudada pela exclamação de Erebus.
— Minha Deusa! Que adorável surpresa vê-la! Admito que eu estava pensando em você e desejando sua opinião sobre a minha descoberta. Assim, você aparecer aqui é, na verdade, fortuito.
— Merry meet, Erebus — Nyx recuperou rapidamente a compostura. Tinha L’ota na realidade dito qual alado havia lhe chamado?
— Que descoberta é esta?
— Venha comigo — sorrindo, ele estendeu sua mão para ela. — Eu os encontrei em uma cova feita dentro das raízes de uma árvore velha, ali mesmo.
Ele apontou para a linha de árvore acima deles, ajudando Nyx a subir ao longo dos afloramentos rochosos.
— Cuidado — disse ele, levantando-a sobre um aglomerado de silvas.
Ele liderou Nyx até uma árvore de cedro perfumada. Pressionando o dedo contra seus lábios, ele cuidadosamente puxou para trás o ramo de uma samambaia para revelar uma pequena abertura situada dentro da árvore de raízes enormes. Ali dentro estavam cinco gordas criaturas peludas.
— Gatinhos! — Nyx exclamou, fazendo com que os filhotes acordassem e piscassem para ela com brilhantes, olhos curiosos.
— Então ela estava certa. Os gatos selvagens gostam de você — comentou Erebus, parecendo satisfeito com ele mesmo. — Eles não estão com medo de você, embora eles não se aproximem de qualquer outra pessoa.
Ao som de sua voz, os gatinhos tinham curvado as costas e silvaram, cuspindo ruídos para ele.
Nyx riu e os acariciou, acalmando suas pequenas fúrias.
— É claro que eles não estão com medo de mim. Eles reconhecem sua Deusa. E eles me agradam, muito! De modo que eu levei um secretamente para o Outromundo comigo — Nyx olhou para Erebus.  — Ela?
O sorriso de Erebus o fez parecer um menino adorável.
— Mãe Terra, é claro.
— Claro. Há pouca coisa que se pode ser mantida em segredo da Grande Mãe.
— Isso a incomoda?
— Não, nem um pouco. Eu estimo sua amizade e o carinho que ela tem por mim. Será que te incomoda?
— Não! Eu amo a Grande Mãe e o reino mortal. Há tantas criaturas interessantes que o povoam. E, devo-lhe uma vasta dívida – a de minha criação.
— Você é realmente bom e generoso, Erebus.
— Obrigada, minha Deusa. Você sentaria comigo por algum tempo e esperaria o seu gêiser irromper para que pudéssemos vê-lo juntos?
— Eu adoraria — Nyx o assegurou. Antes de soltar o ramo que tampava a entrada, ela lançou aos gatinhos um último e demorado olhar. — Será que a Mãe Terra mencionou se ela se importaria se eu secretamente levasse mais alguns gatos selvagens?
Erebus riu.
— Não, ela não disse, embora eu vá perguntar a ela na próxima vez que eu a visitar.
— Então você a visita regularmente? — Nyx perguntou enquanto eles faziam o seu caminho de volta ao cume com a vista do gêiser.
— Sim. Eu desfruto de sua companhia, embora não entenda a sua obsessão pelas deidades.
— Eu gostaria de lhe avisar para se acostumar com elas. Mas elas parecem preferir o reino mortal ao do Outromundo. Até minha skeeaed tem sido temperamental ultimamente.
— Skeeaed. É a pequena deidade cor-de-rosa que está tantas vezes à sua sombra?
— Sim, L’ota. Será que você não falou com ela hoje?
— Não, eu não vejo a criatura desde o último teste — Erebus respondeu. Então ele parou e a levantou do chão. — Deusa, existem ervas espinhosas em todos os lugares e as rochas tem pontas afiadas. Da próxima vez que me visitar aqui, eu gostaria de pedir que se lembre de usar sapatos.
— Eu farei isso — ela respondeu. — Mas até então eu apreciarei seu cavalheirismo.
Quando chegaram ao cume, Erebus colocou-a gentilmente no chão em uma rocha com um lado liso que fazia uma cadeira perfeita. Sentou-se no solo rochoso ao lado dela, prontos para assistirem ao gêiser. Nenhum dos dois falou, mas o silêncio entre eles não era desconfortável.
Nyx estava pensando em como agradável e pacifico estar lá, e como o cheiro ruim dificilmente alcançava ao cume, quando a terra começou a tremer e depois sussurrar ondas anunciando a água que viria e a coluna irromperia no ar, subindo contra o pôr do sol rosa.
Nyx pegou a mão de Erebus.
— É tão bonito! Obrigada mais uma vez por criar tal beleza para mim.
— Seu sorriso é agradecimento suficiente — Erebus respondeu. Em seguida, ele inclinou a cabeça e seu olhar dourado capturou o dela, procurando. — Você deveria ir para ele.
Nyx piscou com surpresa.
— Ele?
— Kalona. Você deveria ir para ele. Ele precisa de você. Com você, ele é um ser melhor do que é sem você.
— Eu estava dando a ele tempo para... — Nyx parou a si mesma, não querendo parecer indiferente ao sentimentos de Erebus.
— Você estava dando-lhe tempo para se concentrar no teste final sem a distração de sua beleza — Erebus terminou por ela. — Estou certo de que isso parecia uma boa ideia, mas se conheço meu irmão, e percebi que conheço, já que ele na verdade é apenas uma outra versão de mim mesmo, posso lhe dizer que a solidão não lhe traz o foco. Ele precisa de você — Erebus repetiu.
— Você nunca sente ciúmes do que ele e eu compartilhamos?
— Não, minha luz, bela Deusa. Estou contente com o destino para qual fui criado. Eu não faria um bom guerreiro.
— Eu não estava falando da parte do guerreiro — ela falou suavemente, encontrando seus olhos iluminados pelo sol.
O sorriso dele era quente.
— Se alguma vez me desejar para ser seu amante, eu o faria com o maior prazer e felizmente retornaria esse desejo – tão frequentemente ou raramente quanto você pudesse me querer. Mas não tenho nenhum desejo de reivindicar o seu corpo como meu e só meu. Meu único desejo é sua felicidade, e acredito que com meu irmão ao seu lado, sendo o seu guerreiro e amante, é o que a faria mais feliz. Também o tornaria mais feliz, o que é importante para mim, embora eu tenha certeza de que levará eras para convencer Kalona disso.
Nyx deslizou de seu banquinho de pedra para o colo de Erebus, onde ela jogou os braços ao redor dele e o abraçou com força.
— Você me faz feliz, muito feliz!
— Então eu não devo interromper essa felicidade.
Dos braços de Erebus, Nyx olhou para o céu escuro para ver Kalona pairando acima dele, sua voz tão plana e sem emoção como sua expressão.
— Irmão! Venha, junte-se a nós — Erebus falou, ficando de pé e com cuidado ajudando Nyx a voltar a seu banco de pedra. — Nós estávamos falando de você.
— Eu só ouvi a voz de sua Deusa — Kalona disse, sem olhar para Nyx. — E ela falou da grande felicidade que você traz a ela. Nyx, com sua permissão, deixarei-os agora.
— Você tem a minha permissão — Nyx falou, sua voz soando muito jovem.
Com um flash de asas pratas, Kalona desapareceu no horizonte.
Erebus suspirou.
— Para um guerreiro, ele parece muito sensível.
— Ele me odeia — disse Nyx.
— Ele a ama — Erebus corrigiu. — Esse é o motivo por ele ter voado para longe em uma crise de ciúmes. Tudo o que você precisa fazer é encontrá-lo e explicar por que você disse que eu a faço muito feliz. Mais tarde eu falarei a ele que se ele vai bisbilhotar, deve aprender a fazer um trabalho mais completo.
— Erebus, você é um bom amigo — Nyx falou, inclinando-se para beijar seu rosto.
— E você é uma gentil e amorosa Deusa — Erebus respondeu. — Oh, e eu estou pronto para completar o teste final.
— Vamos convocar Espírito e chamar a Mãe Terra?
— Há bastante tempo para isso. Posso esperar um pouco até que você tenha feito a paz com meu irmão.
Nyx abraçou-o novamente e em seguida se levantou e, pensando em Kalona, chamou a magia da Divindade para ela. A magia a ergueu, e deixando um reluzente rastro de luz das estrelas para trás, começou a levar a Deusa em direção ao mar de grama que cobria o centro do continente selvagem.

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