29 de novembro de 2015

Capítulo 8

Damon acenou com a cabeça, pensativo, olhando para frente e para trás, entre a estaca de combate e a fronha em sua mão.
Será que ele nunca tinha suspeitado de algo assim antes? Subconscientemente? Afinal, havia o ataque ao avô, que havia falhado, tanto na tentativa de matá-lo quanto na de apagar sua memória completamente. A imaginação de Damon pôde preencher o resto: seus pais, não vendo razão de arruinar com a vida de sua filhinha com esta horrível obrigação — com toda essa mudança de cenário —, então decidiram desistir de tudo, ou seja, de proteger Fell’s Church.
Se ao menos eles a vissem agora.
Oh, sem dúvida se certificaram de que Meredith fizesse aulas de autodefesa e treinasse diversas artes marciais desde que era pequena, enquanto ela jurasse segredo absoluto, até mesmo de suas melhores amigas.
Pois é, Damon pensou. O primeiro enigma de Shinichi já estava resolvido. “Um de vocês esconde um segredo de todos”. Eu sempre soube que havia algo com essa menina... E aí está. Aposto minha vida que ela é faixa preta.
Houve um longo silêncio. Agora, Damon o quebrou:
Seus ancestrais eram caçadores também? Ele perguntou, como se ela fosse telepata.
Ele esperou por um momento... Ainda silêncio.
Ok. Nada de telepatia. Essa foi boa.
Ele acenou com a cabeça para a majestosa estaca.
— Isso, certamente, foi feito para um lorde ou para uma lady.
Meredith não era idiota. Falou sem tirar os olhos dele. Estava pronta para que, a qualquer instante, ela pudesse entrar no modo de matar.
— Somos somente pessoas comuns tentando fazer nosso trabalho para que as outras pessoas possam ficar a salvo.
— De serem mortas por um vampiro ou dois.
— Bem, até agora a história de “você vai apanhar se fizer besteira” não fez com que os vampiros se tornassem vegetarianos.
Damon teve que rir.
— É uma pena você não ter nascido antes para converter o Stefan. Ele poderia ter sido seu maior triunfo.
— Você acha isso engraçado, mas fazemos com que eles se convertam.
— Sim. As pessoas dirão qualquer coisa enquanto vocês estiverem apontando um pedaço de pau para eles.
— Pessoas que sentem que é errado Influenciar outras, fazendo-as acreditarem que elas estão algo em troca.
— É isso aí, Meredith! Deixe-me Influenciar você.
Dessa vez, foi Meredith quem riu.
— Não, estou falando sério! Quando eu for um vampiro novamente, deixe-me Influenciar você para não ter tanto medo de mordidas. Não demorará mais do que um segundo. Mas me dará tempo para lhe mostrar...
— Uma grande casa de doces que jamais existiu? Um parente morto há mais de dez anos que teria se abominado com a ideia de você tirar uma memória minha e usá-la como uma isca? Um sonho de acabar com a fome no mundo, ao invés de colocar comida em uma boca?
Essa garota, Damon pensou, é perigosa. É como se ela fosse do clube Contra-Influência, onde isto era ensinado aos seus membros. Querendo que ela visse que os vampiros, ou os ex-vampiros, ou os Vampiros de Antes e os Vampiros de Depois, tinham qualidades boas, como coragem...
Ele soltou a fronha e agarrou o fim da estaca de combate com as duas mãos.
Meredith levantou uma sobrancelha.
— Eu não te disse que algumas partes desta estaca que você acabou de tocar são venenosas? Ou você não estava ouvindo?
Ela tinha automaticamente tocado na estaca também, acima da parte perigosa.
— Disse — Ele disse incompreensivamente.
— Eu disse “venenosa tanto para humanos quanto para lobisomens e outras coisas”... Lembra-se?
— Disse isso também. Mas prefiro morrer a viver como humano, então: que os jogos comecem. 
E com isso, Damon começou a empurrar a estaca em direção ao coração de Meredith.
Imediatamente, ela segurou com mais força a estaca, empurrando-a em direção a ele. Mas ele tinha três vantagens, ambos logo perceberam: ele era um pouquinho mais alto e mais forte do que a ágil e atlética Meredith; ele segurava mais partes da estaca do que ela; e ele havia assumido uma posição mais agressiva.
Mesmo que ele pudesse sentir o veneno nas palmas das mãos, continuou empurrando, até chegar à área de matar, próximo ao coração dela. Meredith afastou-se com uma quantidade surpreendente de força e, de repente, de alguma forma, voltaram à estaca zero.
Damon olhou para cima para ver como aquilo tinha acontecido, e viu, para sua surpresa, que ela também havia compreendido que a estaca estava na zona de matança. Agora, as mãos dela gotejavam sangue ao chão, assim como as dele.
— Meredith!
— O que foi? Levo meu trabalho a sério.
Apesar de sua jogada, ele era mais forte. Centímetro por centímetro, ele forçou suas mãos perfuradas com braços, para exercer pressão. E centímetro por centímetro, ela foi forçada a ir para trás, recusando-se a desistir até que não havia mais espaço para recuar.
E lá estavam, toda a extensão da estaca entre eles, e a geladeira encostada em Meredith.
Tudo que Damon pôde pensar foi em Elena. Se ele, de alguma forma, sobrevivesse — e Meredith não —, o que aqueles olhos cristalinos lhe diriam? Como ele poderia viver com o que eles lhe dissessem?
E, em seguida, em um tempo exasperante, como um jogador de xadrez que derruba o seu próprio rei, Meredith soltou a estaca, cedendo sobre a força superior de Damon.
Depois disso, como se ela não tivesse medo de lhe dar as costas, pegou um frasco cheio de bálsamo em um armário da cozinha, pegando um bocado do conteúdo, e fez para sinal para Damon dar-lhe as mãos. Ele franziu o cenho. Nunca tinha ouvido falar de um veneno que penetrasse no sangue e que pudesse ser curado pelo lado externo.
— Eu não pus veneno de verdade na parte humana — Ela disse calmamente. — Mas suas mãos foram perfuradas e isso aqui será um excelente remédio. Ela é antiga, passada por gerações.
— Que bondade a sua de me contar. — Disse, sendo nitidamente irônico. — E agora, o que faremos? Começaremos tudo de novo? — Ele adicionou, enquanto Meredith calmamente começou a esfregar pomada em suas próprias mãos.
— Não. Caçadores têm um código, você sabe disso. Você ganhou a Esfera. Suponho que esteja planejando fazer o que o Sage fez. Abrir o Portal para a Dimensão das Trevas.
— Abrir o Portal para as Dimensões das Trevas. — Ele corrigiu. — É provável que eu devesse ter mencionado: há mais de uma. Mas tudo que quero é me tornar um vampiro novamente. E podemos conversar enquanto caminhamos, uma vez que estamos vestindo nossos trajes de ladrões.
Meredith estava vestida do mesmo jeito que ele: calça jeans pretas e uma blusa leve e preta. Com seu cabelo escuro brilhando, ela estava inesperadamente bonita. Damon, quem estava considerando matá-la com estaca, como era a obrigação de sua espécie, encontrava-se agora vacilando. Se ela não lhe desse problemas em seu caminho em direção à porta, ele a deixaria ir, decidiu. Ele estava se sentindo magnânimo pela primeira vez, havia enfrentado e conquistado a assustadora Meredith, e, além disso, ela tinha um código, assim como ele. Ele sentiu uma espécie de parentesco com ela. Com uma gargalhada irônica, acenou com a cabeça para ela ir à frente, mantendo a fronha e a estaca com ele.
Enquanto Damon silenciosamente fechava a porta da frente, viu que o amanhecer estava prestes a chegar.
O timing era perfeito. A estaca pegou os primeiros raios de luz.
— Tenho uma pergunta para você. — Disse ele para os cabelos longos, escuros e sedosos de Meredith. — Disse que não havia achado esta linda estaca antes de Klaus, aquele Antigo maligno, estar morto. Mas se você é de uma família de caçadores, poderia ter sido mais útil em ajudar a despachá-lo. Como por exemplo, estas cinzas brancas poderiam tê-lo matado.
— É que os meus pais não seguiram ativamente com os negócios da família... Eles não sabiam. Ambos são descentes de caçadores, é claro... É preciso ser, para deixar esse assunto fora dos tablóides e...
—... Dos arquivos da polícia...
— Você quer que eu fale, ou prefere ficar aqui sozinho fazendo piadinhas?
— Vá para o assunto principal. — Referindo-se à estaca — Eu ouvirei.
— Mas mesmo que eles optaram por não estarem ativos, sabiam que um vampiro ou um lobisomem poderia decidir raptar sua filha, caso descobrissem sua identidade. Assim, durante a escola, eu fazia “aulas de luta” e “aulas de equitação” uma vez por semana... Eu as fiz desde que tinha três anos. Sou faixa preta em Shihan e Saseung Taekwondo. Devo começar a fazer Dragon Kung Fu...
— Voltando ao ponto principal. Mas como exatamente você encontrou essa maravilhosa arma?
— Depois de Klaus estar morto, enquanto Stefan estava dando uma de babá da Elena, de repente o vovô começou a falar... Somente algumas palavras... Mas isso fez com que eu fosse dar uma olhada no nosso sótão. E encontrei isso.
— Então, você não sabia como usá-la?
— Só havia começado a praticar quando Shinichi apareceu. Mas, não, eu não tinha nenhuma ideia de como usá-la. Embora eu seja ótima usando o Bō (uma arma japonesa), então eu usei a usei do mesmo jeito.
— Você não a usou como se fosse um Bō em mim.
— Estava tentando persuadir você, não matá-lo. Eu não saberia explicar à Elena como eu quebrara todos os seus ossos.
Damon segurou-se para não rir ou quase isso.
— Então, como é que um casal de caçadores inativos acabou se mudando para uma cidade com centenas de linhas de atração?
— Eu acho que eles não sabiam o que essa linha de Poder natural era. E Fell’s Church parecia pequena e pacífica... Até agora.
Eles descobriram que o Portal estava igual desde a última vez que Damon havia o visto: um elegante pedaço retangular cortando na terra, com cerca de cinco metros de profundidade.
— Agora, sente-se lá. — Ele esconjurou para Meredith, colocando-a no canto oposto de onde estava a estaca.
— Você já pensou... Mesmo que por um instante... O que vai acontecer com Misao se você derramar todo o líquido lá dentro?
— Na verdade, não. Não valeria a pena, nem por um microssegundo. — Damon disse alegremente. — Por quê? Acha que ela faria o mesmo por mim?
Meredith suspirou.
— Não. Esse é o problema com vocês dois.
— Certamente, ela é o seu problema no momento, embora eu possa dar uma passadinha por aqui depois que a cidade estiver destruída para trocar uma ideia com o irmão dela sobre manter o juramento.
— Só depois que você estiver forte o bastante para derrotá-lo.
— Bem, por que não faz alguma coisa? É sua cidade queestão devastando, afinal. — Damon disse. — Crianças atacando a si mesmas e aos outros; e agora, os adultos atacando as crianças...
— Ambos estão morrendo de medo ou sendo possuídos por aqueles malach que as raposas ainda estão espalhando por aí...
— Sim, e o medo e a paranoia continuam sendo espalhados por aí também. Fell’s Church pode ser pequena, comparado com os outros genocídios que eles causaram, mas ela é um lugar importante por estar situada acima...
—… Das linhas de atração cheias de Poder... Sim, sim, eu sei. Mas você nem ao menos se importa? E quanto a nós? Os nossos planos para o futuro? Nada disso importa para você? — Meredith exigiu.
Damon pensou na pequena criatura no quarto do primeiro andar e sentiu um enjoo.
— Eu já disse — Retrucou. — Voltarei para conversar com Shinichi.
Então, cuidadosamente, começou a derramas o líquido da Esfera Estelar em um canto do retângulo. Agora que ele estava realmente no Portal, percebeu que não tinha ideia do que devia fazer. O procedimento correto poderia ser o de entrar no buraco e derramar o líquido de toda a Esfera Estelar no meio. Mas quatro cantos pareciam ditar quatro lugares diferentes para se derramar, e ele estava aderindo a isto.
Esperava que Meredith trapaceasse de alguma forma. Correr até a casa. Fazer algum barulho, pelo menos. Atacá-lo por trás, agora ele tinha deixado cair a estaca. Mas, aparentemente, seu código de honra a proibiu.
Que menina estranha, pensou. Mas vou deixar-lhe a estaca, uma vez que realmente pertence à sua família e, de qualquer maneira, ela me mataria no instante em que eu chegasse à Dimensão das Trevas. Um escravo carregando uma arma — especialmente uma arma como esta — não teria nenhuma chance.
Sensatamente, ele derramou quase todo o líquido à esquerda da última curva e deu um passo para trás para ver o que aconteceria.
SSSS-bah! Branca. Uma ardente luz branca. Foi tudo que seus olhos ou sua mente pôde perceber em primeiro lugar.
E então, como uma corrente de adrenalina, ele pensou: Consegui! O Portal está aberto!
— Para o centro da Dimensão das Trevas, por favor. — Disse ele educadamente para o buraco em chamas. — Um beco isolado, provavelmente, seria melhor, se você não se importa.
E então, ele pulou no buraco.
Só que ele não pulou. Quando estava prestes a dobrar os joelhos, algo o agarrou pela direita.
— Meredith! Eu pensei...
Mas não era Meredith. Era Bonnie.
— Você me enganou! Você não pode ir lá! — Ela estava chorando e gritando.
— Sim, eu posso! Agora, me solta... Antes que ele desapareça. — Ele tentou erguê-la, enquanto sua mente girava inutilmente. Ele havia deixado aquela garota, tipo, uma hora ou mais atrás, num sono tão profundo que ela parecia estar morta. Quanto será que este corpinho aguenta?
— Não! Eles vão te matar! E Elena vai me matar! Mas serei morta primeiro, porque ainda estarei aqui!
Desperto, ele pôde montar as peças do quebra-cabeça.
— Humana, eu disse para me soltar — Ele rosnou.
Ele arreganhou os dentes para ela, que só fez com que ela enterrasse a cabeça em seu casado, agarrando-se no estilo bebê-coala.
Umas boas bofetadas devem afastá-la, pensou.
Ele ergueu sua mão.

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