20 de novembro de 2015

Capítulo 8

O relógio antiquado mostrava 03h00 quando Meredith despertou subitamente de um sono irregular.
E então mordeu seu lábio para sufocar um grito. Um rosto estava curvando sobre o seu, de cabeça para baixo. A última coisa que lembrava era de estar deitada de costas no saco de dormir, falando sobre Alaric com Bonnie.
Agora Bonnie estava curvada sobre ela, com o rosto invertido e os olhos fechados. Estava ajoelhada atrás da cabeça de Meredith, sobre o seu travesseiro, de cabeça para baixo, e seu nariz quase tocando o de Meredith. Adicione a isso uma estranha palidez nas bochechas de Bonnie e uma respiração rápida e quente que soprava na testa de Meredith, e ninguém, ninguém, Meredith insistiu para si mesma, teria conseguido não gritar.
Ela esperou Bonnie falar, fitando a escuridão os seus olhos fechados.
Mas em vez disso, Bonnie ajoelhou-se e levantou, andou de costas perfeitamente até a escrivaninha de Meredith, onde seu celular estava carregando a bateria, e o pegou. Ela parecia ter ligado a câmera de vídeo do celular, pois abriu a boca em direção a ele e começou a gesticular.
Era assustador. Os sons que saíam da boca de Bonnie eram parecidos com um discurso de trás para frente. Era emaranhado, gutural e muito alto, transportava todos os ruídos da cadência dos filmes de terror que os tornavam tão populares. Mas ser capaz de falar dessa forma de propósito... não era possível para um humano normal ou uma mente humana normal. Meredith tinha uma estranha sensação de que algo tentava esticar a sua mente até ela, tentando alcançá-la através de dimensões inimagináveis.
Talvez isso fizesse sentido ao contrário, Meredith pensou, tentando distrair a si mesma enquanto o som assustador prosseguia. Talvez ele pense em nós também. Talvez nós estejamos em canais diferentes...
Meredith achava que não poderia suportar muito mais daquilo. Estava começando a pensar que estava ouvindo palavras, mesmo frases no discurso reverso, e nenhum deles era agradável. Por favor, faça isso parar agora.
Com mais um gemido... A boca de Bonnie fechou com um choque de dentes. O som parou instantaneamente. E então, como um vídeo passado ao contrário em câmera lenta, caminhou para trás até o seu saco de dormir, ajoelhou-se, e rastejou, deitando com a cabeça sobre o travesseiro – tudo sem abrir os olhos para ver aonde ia.
Foi uma das coisas mais assustadoras que Meredith já tinha visto, ou ouvido, sendo que já tinha visto e ouvido uma quantidade considerável de coisas assustadoras.
Meredith não podia deixar a gravação até o amanhecer, senão não poderia vê-la sozinha.
Levantou-se e tateou a mesa, pegou o celular e levou-o para o outro quarto. Lá o anexou ao computador, onde poderia ouvir a mensagem de trás para frente.
Depois de ouvir a mensagem no sentido inverso, uma vez depois duas, decidiu que Bonnie nunca deveria ouvi-la. Isso a deixaria tão assustada que acabaria essa história de contato com o paranormal para os amigos de Elena.
Havia sons animalescos ali, misturados com a voz distorcida de trás pra frente... Não era a voz de Bonnie de jeito nenhum. Não era a voz de nenhuma pessoa normal. E quase soava pior indo para frente do que para trás, o que talvez significasse que, quem quer que estivesse falando aquilo, normalmente falava ao contrário.
Meredith podia distinguir as vozes humanas dos gemidos, dos risos distorcidos e ruídos de animal. Embora fizessem os pelos em seu corpo eriçarem e formigarem, ela tentou juntar as palavras, no meio daquela coisa toda sem sentido. E ao juntá-las, entendeu:
 Deeeeeeeeeee...perr...t...aaaar... sss errrr... aa... rrre-eppp-e... een... tino e chhhhh... ooocca... ... nttte. Voooocê... e... eeeuuuu... dddevvemos... sssss... taaaar... laaa...quan...oo a.... ellla... deeeees...er...taaaaa. Nãooo... essstarremos... lla... laaaa (foi um “ela”, ou só estava repetindo o que disse antes?) masssssss... taaaaaa... deeeeee. Issso...ccaberáá... aaaa... outrrrrrrra... pessssoaaaa...
Meredith pegou um bloco e caneta, e as anotou:

Despertar será repentino e chocante. Você e eu devemos estar lá quando ela Despertar. Não estaremos lá por (ela?), mais tarde. Isso caberá a outras mãos.

Meredith colocou a caneta precisamente ao lado da mensagem decifrada no bloco.
E depois disso voltou para o seu saco de dormir, assistindo a imóvel Bonnie dormir como um gato em sua toca, até que, finalmente, o bendito cansaço a fez dormir.


 Eu disse o quê? — Bonnie estava honestamente perplexa na manhã seguinte, espremendo suco de laranja em cima de seu cereal, como uma anfitriã modelo, mesmo que fosse Meredith quem estivesse fritando ovos no fogão.
 Já lhe disse três vezes. As palavras não vão mudar, eu juro.
 Bem — disse Bonnie, de repente mudando de tática — está claro que o Despertar que vai acontecer é o de Elena. Porque, primeiro, você e eu temos que estar lá para isso, e por outro lado, se alguém precisa despertar de algo, é ela.
 Exatamente — concordou Meredith.
 Ela precisa se lembrar quem realmente era.
 Justamente — disse Meredith.
 E temos que ajudá-la a se lembrar!
 Não! — disse Meredith, atendo a sua raiva sobre os ovos com uma espátula de plástico. — Não, Bonnie, não foi isso o que você disse, e não creio que poderíamos fazê-lo mesmo assim. Podemos ensinar-lhe coisas pequenas, talvez, como o que Stefan faz. Como amarrar o sapato. Escovar os cabelos dela. Mas o que você disse foi o Despertar será chocante e repentino”, e não falou nada sobre nós fazermos isso. Só disse que temos que estar lá por ela, porque depois, de alguma forma não estaremos lá.
Bonnie assimilou isso em um silêncio sombrio.
 Não estaremos lá? — repetiu finalmente. — Tipo, não estaremos com Elena? Ou não estaremos... tipo, não estaremos em lugar algum?
Meredith olhou para o café da manhã que de repente não queria comer.
 Eu não sei.
 Stefan disse que poderíamos ir de novo hoje — Bonnie lembrou.
 Stefan seria educado mesmo enquanto tivessem acorrentando-o pra sua morte.
 Eu sei — Bonnie falou de repente. — Vamos chamar Matt. Podemos ir ver Caroline... se ela quiser nos ver, quer dizer. Podemos ver se está diferente hoje. Então esperaremos até a tarde, ligaremos para Stefan e perguntaremos se podemos ir lá novamente para ver Elena.
Na casa de Caroline, a mãe dela disse que ela estava doente e de cama. Eles três, Matt, Meredith e Bonnie voltaram pra casa de Meredith sem vê-la, mas Bonnie continuou olhando pra trás, mastigando seu lábio, olhando em direção à rua de Caroline. A mãe de Caroline é quem parecia doente, com sombras escuras sob os olhos. E a sensação de tempestade, a sensação de pressão era esmagadora na casa de Caroline.
Na casa de Meredith, Matt ficou trabalhando em seu carro que estava sempre precisando de reparos, enquanto Bonnie e Meredith foram até o guarda-roupas escolher algo que serviria pra Elena. Elas ficariam grandes, mas seriam melhores do que as de Bonnie, que eram demasiadamente pequenas.
Às quatro da tarde, ligaram para Stefan. Sim, eles seriam bem-vindos. Então desceram pra buscar Matt.
Na pensão, Elena não repetiu o ritual do beijo do dia anterior, para óbvia decepção de Matt. Mas estava encantada com a roupa nova, embora não por qualquer razão que a antiga Elena teria ficado. Flutuando trinca centímetros acima do chão, manteve as roupas junto ao rosto, cheirando profundamente, sorrindo e, em seguida, irradiando seu sorriso para Meredith, embora quando Bonnie pegou uma das blusas, ela não pôde sentir cheiro algum, nada além do amaciante de roupa que utilizara. Nem mesmo a colônia de Meredith.
 Desculpe-me — disse Stefan quando Elena entrou em uma crise súbita de agarrar e acariciar uma regata azul celeste segurando-o nos braços, como se fosse um gatinho. Mas o rosto dele era carinhoso, e Meredith, parecendo levemente embaraçada, tranquilizou-o que era bom ser tão apreciada.
 Ela pode dizer de onde as roupas vêm — explicou Stefan. — Não usa nada que seja oriundo de fábricas de trabalho escravo.
 Eu só compro em locais listados no serviço contra a escravidão, em um site de roupas — disse Meredith simplesmente. — Bonnie e eu temos algo pra contar — acrescentou.
Enquanto recontava a profecia, Bonnie levou Elena até o banheiro e a ajudou a vestir um short, que serviu, e a regata azul-celeste, que quase serviu, ficando apenas um pouco longo.
A cor assentou com o cabelo emaranhado mas ainda glorioso de Elena perfeitamente, e Bonnie tentou achar o espelho que tinha trazido na bolsa – já que o antigo tinha se estilhaçado – para mostrar-lhe como tinha ficadoElena pareceu tão confusa como um cachorrinho ao ver o seu próprio reflexo. Bonnie manteve o espelho seguro em sua mão enquanto mostrava o rosto dela nele, e Elena ficou pulando de um lado para outro na frente dele, como um bebê brincando de esconde-esconde. Bonnie ficou satisfeita ao dar uma boa escovada nos cabelos emaranhados que eram aquela massa dourada, Stefan claramente não sabia como lidar. Quando finalmente o cabelo de Elena estava liso e sedoso, orgulhosamente a levou para fora para mostrar seu trabalho.
E ficou imediatamente arrependida. Os outros três estavam concentrados no que parecia uma conversa sinistra. Relutamente, Bonnie soltou a mão de Elena, que voou imediatamente – e literalmente – para o colo de Stefan, para se juntar à conversa.
 Claro que nós compreendemos, — Meredith dizia. — Mesmo antes de Caroline ter saído, que outra opção havia afinal? Mas...
 Outra opção para quê? — perguntou Bonnie, enquanto sentava na cama de Stefan ao lado dele. — Do que é que vocês estão falando?
Houve uma longa pausa e, em seguida, Meredith levantou-se para colocar um braço em torno de Bonnie.
 Estávamos falando sobre o motivo porque Stefan e Elena precisam sair de Fell’s Church... precisam ir pra bem longe.
Primeiro, Bonnie não reagiu – sabia que devia estar sentindo alguma coisa – mas estava em um estado de choque muito profundo para entender o que era. Quando as palavras voltaram, a única coisa que pôde ouvir a si mesma dizendo estupidamente foi:
 Embora? Por quê?
 Você viu porque – aqui, ontem  Meredith explicou, seus olhos negros cheios de dor, seu rosto pela primeira vez mostrando a angústia incontrolável que devia estar sentindo. Mas no momento, sua angústia não significava nada para Bonnie, a não ser a sua própria.
E ela estava chegando agora, como uma avalanche enterrando-a uma neve vermelha e quente. O gelo queimava. De alguma maneira, lutou contra isso tempo suficiente para dizer:
 Caroline não vai fazer nada. Ela assinou o contrato. Sabe que, se quebrá-lo – especialmente quando... quando você-sabe-quem assinou, também...
Meredith devia ter contado a Stefan sobre o corvo, porque ele suspirou e balançou a cabeça suavemente, segurando Elena, que tentava olhar para cima para seu rosto. Era evidente que sentia a infelicidade do grupo, tal como era claro que não entendia realmente o que a estava causando.
 A última pessoa que quero perto de Caroline é meu irmão — Stefan empurrou o seu cabelo escuro dos olhos irritadamente, como se tivesse se lembrado de como os dois se pareciam. — E também não acho que a ameaça de Meredith sobre as irmãs da fraternidade funcionará. Ela está muito envolvida na escuridão.
Bonnie tremeu por dentro. Não gostava dos pensamentos que aquelas palavras – a escuridão – lhe traziam.
 Mas...  Matt começou, e Bonnie percebeu que ele se sentia do mesmo jeito que ela – atordoada e nauseada – como se estivessem atrás de uma carona depois de um festival barato.
 Ouça — disse Stefan. — Há outra razão pela qual não podemos ficar aqui;
 Que outra razão? — Matt perguntou lentamente.
Bonnie estava muito chateada para falar. Tinha pensado sobre isso em algum lugar profundo em seu inconsciente. Mas empurrara os pensamentos longe toda vez que eles vinham.
 Bonnie já entendeu, eu acho — Stefan olhou para ela. Ela olhou de volta para ele com os olhos transbordando em lágrimas. — Fell’s Church — Stefan explicou suavemente e tristemente — foi construída sobre um lugar onde descansa muito poder. As fontes de energia que vem desse lugar, lembram? Não sei se isso é deliberado. Alguém sabe se os Smallwoods tinham algo a ver com esse local?
Ninguém sabia. Não havia nada no antigo diário de Honoria Fell sobre a família de lobisomens terem alguma participação na escolha do lugar onde a cidade foi construída.
 Bem, se isso foi um acidente, foi um belo azar. A cidade – devo dizer, o cemitério da cidade – foi construído diretamente sobre um lugar onde um grande número de fontes de poder se cruzam. Foi isso que o tornou um ímã de criaturas sobrenaturais, más, ou não tão más — ele parou, embaraçado, e Bonnie percebeu que estava falando de si mesmo. — Fui atraído pra cá. E também outros vampiros, como sabem. E a cada pessoa que possui poder q vem aqui, o farol se torna mais forte. Mais brilhante. Mais atraente para outras pessoas com poder. É um ciclo vicioso.
 Eventualmente, algum deles verá Elena — continuou Meredith. — Lembre-se que estas pessoas são como Stefan, Bonnie, mas sem o seu senso moral. Quando alguém vê-la...
Bonnie quase chorou ao pensar. Ela parecia ver uma onda de penas brancas, cada uma caindo em câmera lenta até o chão.
 Mas... ela não era desta maneira, assim que acordou — disse Matt lenta e obstinadamente. — Ela falava. Ela era racional. E não flutuava.
 Falando ou não falando, andando ou flutuando, ela tem poderes — Stefan devolveu. — Chega de deixar vampiros normais loucos. Loucos o suficiente para machucá-la para obtê-la. E ela não mata ou fere. Pelo menos, não consigo imaginá-la fazendo isso. O que espero... — ele continuou, seu rosto ficando escurecido — é que eu possa levá-la a algum lugar onde possa estar... protegida.
 Mas você não pode levá-la — disse Bonnie, ela podia ouvir os próprios gritos, sem ser capaz de controlá-los. — Será que a Meredith não te contou sobre minha premonição? Ela vai Despertar. E precisamos estar com ela para isso. Porque não estaremos com ela depois.
De repente fez sentido. E apesar de isso não ser tão ruim quanto não estar em lugar algum, era ruim mais do que o suficientemente.
 Não estava pensando em levá-la pelo menos até que ela possa caminhar corretamente — disse Stefan, e surpreendeu Bonnie com um rápido abraço em torno de seus ombros. Parecia como um abraço de Meredith, um abraço de irmão, mas mais forte e conciso. — Você não sabe como estou feliz de saber que ela vai Despertar. E que vocês estarão aqui para apoiá-la.
 Mas... — Mas os monstros vão continuar vindo pra Fell’s Church? Bonnie pensou. E não vamos tê-los para nos proteger?
Ela olhou para cima e viu que Meredith sabia exatamente o que ela estava pensando.
 Eu diria — Meredith começou, em seu melhor tom cuidadoso e medido. — Que Stefan e Elena já sofreram o suficiente pelo bem da cidade.
Bem. Não havia como argumentar com isso. E não havia argumentos com Stefan também, ao que parecia. Sua mente estava decidida.
Mesmo assim, conversaram até depois do escurecer, discutindo as diferentes opções e cenários, pensando sobre a previsão de Bonnie. Não conseguiram chegar a nenhuma conclusão, mas pelo menos tinham traçado alguns possíveis planos. Bonnie insistiu que deveria garantir algum meio de comunicação com Stefan, e ela estava prestes a exigir um pouco do seu sangue e cabelo para o feitiço de convocação quando ele gentilmente salientou que agora tinha um celular.
E então estava na hora de ir embora. Os seres humanos estavam famintos, e Bonnie adivinhou que Stefan provavelmente também. Ele parecia estranhamente pálido com Elena sentada em seu colo.
Quando disseram adeus no topo das escadas, Bonnie tentava manter em mente que o próprio Stefan tinha prometido que Elena estaria ali para ela e Meredith lhe apoiarem. Ele nunca a levaria embora sem lhes contar.
Esse não era um adeus.
Então por que parecia tanto como um?

3 comentários:

  1. '— Caroline não vai fazer nada. Ela assinou o contrato. Sabe que, se quebrá-lo – especialmente quando... quando Você-sabe-quem assinou também..." Karina, é impressão minha ou o Voldemort voltou?

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    1. Pelas barbas de Merlin, o Lorde das Trevas está cada vez mais presente na minha vida kkkkknn

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