15 de novembro de 2015

Capítulo 8

De onde Bonnie e Meredith estavam sentadas no carro, só podiam ver a janela da Vickie. Teria sido melhor se tivesse ficado por perto, mas aí alguém podia descobri-las.
Meredith derramou o que restava do café da garrafa térmica e o bebeu. Então bocejou. Se sentindo culpada, ela olhou para Bonnie.
— Está tendo problemas para dormir à noite também?
— Sim. Não posso imaginar o por quê, — disse Meredith.
— Acha que os meninos estão tendo uma pequena conversa? 
Meredith olhou de relance rapidamente, obviamente surpresa e, em seguida, sorriu. Bonnie percebeu que Meredith não tinha esperado cair na dela. 
— Espero que sim, — disse Meredith. — Isso poderia ser bom para Matt. 
Bonnie acenou relaxada e voltou para o banco de trás. O carro de Meredith nunca pareceu tão confortável antes.
Quando olhou para Meredith novamente, a garota de cabelos escuros tinha adormecido.
Ah, ótimo. Magnífico. Bonnie olhou fixo nas borras de café de sua caneca, fazendo uma careta. Não podia relaxar novamente; se as duas adormecessem, poderia ser desastroso. Ela cravou suas unhas nas palmas das mãos e olhou a iluminada janela de Vickie.
Quando encontrou uma imagem embaçada e duplicada sobre a janela, sabia que algo tinha de ser feito.
Ar fresco. Isso iria ajudar. Sem se preocupar por estar tudo muito calmo, ela abriu a porta e se pôs a levantar. A porta aberta fez um estalido, mas Meredith continuou dormindo profundamente.
Ela realmente deve estar cansada, pensou Bonnie saindo do carro. Fechou a porta mais delicadamente, trancando Meredith dentro. Foi só depois que percebeu que não tinha uma chave.
Oh, tudo bem, ela acordaria Meredith para deixá-la entrar. Entretanto ia ver Vickie. Vickie ainda estava, provavelmente, acordada.
O céu estava nublado e calmo, mas a noite estava quente. Atrás da casa de Vickie árvores de nogueira negra se agitavam ligeiramente. Grilos cantavam, mas seu monótono gorjeio parecia apenas uma parte de um silêncio maior. O aroma de madressilva encheram as narinas de Bonnie. Tocou a janela de Vickie gentilmente com os dedos, olhando através das cortinas.
Sem resposta. Na cama ela podia ver o vulto do cabelo castanho saindo por cima de um monte de cobertores. Vickie estava dormindo também.
Como Bonnie permaneceu lá, o silêncio parecia aumentar em torno dela. Os grilos não estavam cantando mais, e as árvores também pararam de se agitar. E mesmo assim, era como se forçasse a ouvir algo que sabia que estava lá.
Eu não estou sozinha, percebeu.
Nenhum de seus sentidos normais lhe disse isso. Mas o seu sexto sentido, foi o que lhe enviou arrepios nos braços e um frio em sua espinha, despertando-a com a presença de poder, disso tinha certeza. Havia alguma coisa... próxima.
Alguma coisa... a observando.
Virou-se lentamente, com medo de fazer algum barulho. Se não fizesse nenhum barulho, talvez aquilo não a pegaria. Talvez não a notaria.
O silêncio tinha se tornado mortal, ameaçador. Seus ouvidos zumbiam com a batida do seu próprio sangue. E não ajudava muito, imaginar o que poderia sair dali a qualquer minuto.
Alguma coisa com as mãos quentes, úmidas, pensava, olhando para a escuridão do quintal. Preto em cinza, preto sobre preto era tudo que conseguia ver. Cada forma pode ser qualquer coisa, e todas as sombras pareciam estar se movendo. Algo com as mãos quentes, úmidas e os braços fortes o suficiente para esmagá-la.
O estalo de um galho se quebrando parecia tiros para ela. Olhou em volta, olhos e ouvidos atentos. Mas só havia escuridão e silêncio. Dedos tocaram a parte de trás de seu pescoço.
Bonnie virou-se novamente, quase caindo, quase desmaiado. Tinha muito medo de gritar. Quando viu quem era, o susto roubou todos os seus sentidos e os seus músculos se desmoronaram. Teria caído no chão se ele não tivesse a apanhado e a colocado em pé.
— Você parece assustada, — disse Damon suavemente.
Bonnie balançou a cabeça. Ainda não tinha voz. Pensou que ainda poderia desmaiar. Mas tentou se afastar. Ele não apertou sua mão, mas não a deixou ir. E lutou muito bem como fizera para tentar quebrar uma parede de tijolos com as mãos. Ela se rendeu e tentou acalmar a sua respiração.
— Você se assustou comigo? — Damon disse. Sorriu, como se eles compartilhassem um segredo. — Não precisa se assustar. 
Como Elena tinha conseguido lidar com isso? Mas não era Elena, evidentemente, Bonnie percebeu. 
Na verdade Elena tinha morrido pra Damon. Damon tinha vencido da sua maneira.
Ele tocou levemente com um de seus braços, a curva do seu lábio superior. 
— Acho que eu deveria ir embora, — disse ele, — e não assustar mais você. É isso o que quer? — Como um coelho com uma cobra, pensou Bonnie. Isto é, como o coelho se sente. Só que acho que ele não vá me matar. Eu poderia morrer só, apesar de tudo. Ela sentia como se suas pernas fossem se dissolver a qualquer minuto, como se pudessem desmoronar. Havia um calor e uns tremores dentro dela.
Pense em algo... rápido. Aqueles olhos negros estavam enchendo insondavelmente o universo agora. Ela pensou que poderia ver estrelas dentro deles. Pense. Rapidamente. 
Elena não ia gostar, pensou, como quando os seus lábios dele tocaram os dela. Sim, era isso. Mas o problema foi, ela não teve a força para dizer isso. O calor estava crescendo, por todo o seu corpo, desde as pontas de seus dedos até as solas de seus pés. Seus lábios eram frios, como a seda, mas tudo estava tão quente. Ela não precisava ter medo, poderia se deixar ir e flutuar. A doçura manifestou sobre ela...
— Que diabos está acontecendo aqui?
A voz quebrou o silêncio, quebrou o feitiço. Bonnie concluiu que podia mexer a cabeça. Matt estava de pé na borda do pátio, o seus punhos apertados, seus olhos azuis como lascas de gelo. Gelo tão frio que queimariam.
— Afaste-se dela, — disse Matt.
Para surpresa de Bonnie, seus punhos se relaxaram . Ela se afastou, endireitou sua blusa, um pouco ofegante. Sua mente estava trabalhando novamente.
— Está tudo bem, — disse para Matt, sua voz estava quase normal. — Eu só estava...
— Volte para o carro e fique lá. 
Espere um minuto, pensou Bonnie. Estava feliz que Matt havia chegado, a interrupção foi muito convenientemente, cronometrada. Mas ele havia pego um pouco pesado, como se fosse seu irmão mais velho protetor.
— Olha, Matt... 
— Vá em frente, — disse ele, ainda olhando para Damon. Meredith não teria deixado ele agir dessa maneira. Elena também não. Bonnie abriu sua boca para dizer a Matt para ir sentar-se no carro, quando de repente ela percebeu algo.
Esta foi a primeira vez em meses que tinha visto Matt realmente se preocupando com alguma coisa. A luz estava de volta nos olhos azuis - gelo que brilhavam de raiva fazendo até Tyler Smallwood recuar. Matt estava vivo agora, e cheio de energia. Era ele de novo.
Bonnie mordeu o lábio. Por um momento lutou com o seu orgulho. Vencida abaixou os olhos. 
— Obrigado por me socorrer — sussurrou, e atravessou o pátio.


Matt ficou tão irritado que não se atreveu a se aproximar de Damon com medo dele se oscilar. E o frio da escuridão dos olhos de Damon lhe disseram que esta não seria uma boa ideia.
Mas a voz de Damon era clara, quase desapaixonada. — Meu gosto por sangue não é apenas um capricho, você sabe. É uma necessidade e você está interferindo aqui. Estou fazendo o que eu faço. Estou apenas fazendo o que tenho que fazer.
Esta insensível indiferença foi demais para Matt. Eles pensam que nós somos como alimento, ele lembrava. Eles são caçadores, e nós somos a presa. E ele tinha Bonnie em suas garras, Bonnie, que não podia brigar nem com um gatinho.
Com desdém ele disse, — Por que não vai pegar alguém do seu tamanho, então?
Damon sorriu e o ar ficou mais frio. — Alguém como você?
Matt olhou fixamente para ele. Podia sentir os músculos se tencionar em sua mandíbula. Após um momento disse: — Você pode tentar. 
— Posso fazer mais do que tentar, Matt. — Damon deu um único passo em direção a ele como uma perseguição a panteras. Involuntariamente, Matt pensou em uma selva de felinos, seus poderosos sentidos aguçados, e seus dentes afiados. Pensou quando Tyler tinha discutido com ele, ano passado na cabana Quonset, quando Stefan se jogou contra ele. Carne vermelha. Apenas carne vermelha e sangue.
— Qual é o nome do professor de historia? — Damon dizia sedosamente. Pareceu entretido agora, se divertindo com isso. — O Sr. Tanner, não foi? Fiz mais do que provas com ele.
— Você é um assassino. — Damon assentiu, como se tivesse sido apresentado.
— Claro, ele enfiou uma faca em mim. Não estava planejando deixá-lo sem vida, mas ele me irritou e mudei de ideia. Está me irritando agora, Matt. 
Matt teve seus joelhos travados impedindo de correr. Era mais do que um felino perseguindo sua presa com graça, mais sublime do que seus olhos negros fixados. Havia algo dentro de Damon que sussurrava terror para o cérebro humano. Uma ameaça diretamente ao sangue de Matt, dizendo-lhe para fazer alguma coisa para fugir. Mas não iria correr. Sua conversa com Stefan foi obscurecida na sua mente agora, mas sabia de uma coisa . Mesmo que ele morra aqui, não iria correr.
— Não seja estúpido, — disse Damon, como se tivesse ouvido os pensamentos de Matt. — Nunca te tiraram sangue a força, não é? Dói, Matt. Dói muito. — Elena, lembrou Matt. A primeira vez que ela havia tirado sangue dele, ele ficou bastante assustado, e o medo foi suficientemente ruim. Mas tinha feito isso por sua própria vontade. Como seria se fosse contra sua vontade? 
— Não vou correr. Não vou olhar. — Ele disse em voz alta, olhando diretamente para a Damon, — Se vai me matar, é bom parar de falar e fazer. Porque talvez possa me matar, mas isso é tudo o que pode fazer.
— Você é ainda mais estúpido do que meu irmão, — disse Damon. Com dois passos ele cruzou a distância até Matt. Agarrou Matt pela camiseta, uma mão de cada lado da garganta. — Acho que vou ter que te ensinar da mesma forma. — Tudo estava congelado. Matt podia sentir seu próprio medo, mas ele não se moveu. Não podia se mexer agora. Não importava. Ele não iria ceder. Se morresse agora, morreria sabendo disso.
Os dentes de Damon eram tão brancos que brilhavam no escuro. Como um tubarão cravando seu dentes. Matt poderia sentir a mordida feito navalha nele antes que ele o tocasse. Não vou me render à nada, pensava , e fechou seus olhos.
A pegada o deixou completamente sem equilíbrio. Ele tropeçou e caiu para trás, seus olhos abertos fora de órbita. Damon tinha deixado ele ir e o empurrou pra longe.
Inexpressivo, aqueles olhos negros olhando para baixo sentando-se na sujeira.
— Vou tentar colocar isso de uma maneira que você possa entender, — disse Damon. — Você não quer se meter comigo Matt. Sou mais perigoso do que possa imaginar. Agora, saia daqui. Eu a vigio.
Silenciosamente, Matt se levantou. Esfregava sua camisa onde as mãos de Damon tinha amassado. E depois que se foi, mas ele não iria correr e não iria sair da vista de Damon. Eu ganhei, pensava. Ainda estou vivo, então eu ganhei.
E havia uma espécie de respeito meio que sinistro naqueles olhos negros, no final. Fez Matt se perguntar sobre algumas coisas. Realmente fez.


Bonnie e Meredith estavam sentadas no carro quando ele voltou. Ambas parecendo preocupadas.
— Você foi há muito tempo, — disse Bonnie. — Você está bem?
Matt desejava que as pessoas parassem de lhe perguntar isso. 
— Estou bem, — disse , e, em seguida, acrescentou, — De Verdade. — Após um momento de reflexão decidiu que não havia outra coisa que deveria dizer. — Desculpe por eu ter gritado com você, Bonnie.
— Tudo bem, — disse Bonnie friamente. Em seguida, derretendo-se, disse, — Você realmente parece melhor, sabe. Parece mais com o seu antigo você.
— É? — Ele esfregava sua camisa amassada novamente, olhando ao redor. — Bem, esse emaranhado de vampiros é, obviamente, um grande exercício de aquecimento.
— O que vocês fizeram? Baixaram a cabeça e correram um para o outro de lados opostos do pátio? — perguntou Meredith.
— Algo como isso. Ele diz que vai olhar a Vickie agora. 
— Acha que podemos confiar nele? — Meredith disse sussurrando.
Matt considerou. 
— De fato, acho. É estranho, mas não acho que ele vá machucá-la. E se o assassino vier, acho que ele terá uma surpresa. Damon está pronto pra uma lutar. Então podemos voltar para a biblioteca.


Stefan não era visível por fora da biblioteca, mas quando o carro tinha passado para cima e para baixo da rua, uma ou duas vezes ele se materializou para fora da escuridão. Tinha um espesso livro com ele.
— Violação de domicílio e um grandioso furto, da biblioteca — comentou Meredith. — Me pergunto como conseguiu isso? 
— Peguei emprestado, — disse Stefan, olhando ofendido. — Isso é pra que servem as bibliotecas, certo? E eu copiei o que precisava do diário.
— Você quer dizer que encontrou? Você descobriu? Então nos conte tudo como prometeu, — disse Bonnie . — Vamos para a pensão. 
Stefan parecia um pouco surpreso quando ouviu que Damon tinha ficado lá e vigiado Vickie, mas não fez nenhum comentário. Matt não lhe disse exatamente como Damon tinha voltado, e percebeu que Bonnie também não.
— Estou quase certo sobre o que está acontecendo na Fell’s Church. E tenho metade do enigma resolvido, de qualquer maneira, — disse Stefan quando elas foram decididas para o seu quarto no sótão da pensão. — Mas há só uma maneira de resolver isso, e só há uma forma de resolver a outra metade. Preciso de ajuda, mas não é algo que eu iria pedir.
Ele olhava para Bonnie e Meredith quando disse isso.
Elas olharam uma para a outra, e depois, olharam para ele de volta. 
— Esse cara matou uma de nossas amigas, — disse Meredith. — E ele está enlouquecendo outra. Se você precisar de nossa ajuda, vai tê-la.
— Custe o que custar, — Bonnie acrescentou.
— É algo perigoso, não é? — Matt exigido. Ele não podia se abster. Como se Bonnie não tivesse dito o suficiente...
— É perigoso, sim. Mas é a sua luta também, você sabe.
— Droga, está certo, — disse Bonnie. Meredith tentando reprimir um sorriso. Finalmente ela teve que se virar e rir.
— A volta de Matt, — disse quando Stefan perguntou qual era a piada.
— Sentimos sua falta, — acrescentou Bonnie. Matt não podia entender do porque do riso, e isso o fez se sentir quente e desconfortável. Ele correu para perto da janela.
— É perigoso, não vou tentar enganar vocês sobre isso, — disse Stefan para as meninas. — Mas é a nossa única chance. A coisa toda é um pouco complicada, e vou começar do início. Temos que voltar para a fundação Fell’s Church...
Ele falou até muito tarde da noite .


Quinta-feira, 11 de junho, 7 da noite
Querido Diário,
Não pude escrever a noite passada, porque cheguei muito tarde. Mamãe estava chateada de novo. Ela teria ficado histérica, se soubesse o que eu estava realmente fazendo. Saindo com vampiros e planejando algo que pode me matar. Isto é, que pode matar todos nós.
Stefan tem um plano para pegar o homem que assassinou Sue. Isso me faz lembrar de alguns dos planos da Elena e é isso que me preocupa. Eles sempre pareceram maravilhosos, mas muitas das vezes dava tudo errado.
Nós conversamos sobre quem fica com o trabalho mais perigoso, e decidimos que deve ser Meredith. O que está ótimo pra mim. Quero dizer, ela a é mais forte e atlética, e sempre mantém a calma em situações de emergência. 
Mas o que me incomoda, incomoda só pouquinho, é que todo mundo foi tão rápido sobre a escolha de Meredith, especialmente Matt. Quero dizer, não é que eu seja totalmente incompetente. Sei que não sou tão inteligente como os outros, e eu certamente não sou tão boa nos esportes ou como agir sob pressão, mas não sou um desastre total. Sou boa em alguma coisa.
Enfim, nós vamos agir, após a formatura. Estamos todos dentro, exceto Damon, que vai ficar vigiando Vickie. É estranho, mas todos nós confiamos nele agora. Até eu. Apesar do que ele me fez a noite passada, não acho que ele vai deixar Vickie se machucar.
Não tive mais sonhos com a Elena. Acho que se eu tiver , vou acabar gritando freneticamente. Ou nunca mais vou dormir novamente. Só não aguento mais isso.
Tudo bem. É melhor eu ir. Espero que, até domingo tenhamos resolvido o mistério e capturado o assassino morto. Eu confio em Stefan.
Só espero que eu possa me lembrar da minha parte.

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