13 de novembro de 2015

Capítulo 8

— Quem...? Ah, é você! — Bonnie disse, assustada com o toque em seu cotovelo. — Me assustou. Não o escutei chegando.
Ele teria de ser mais cuidadoso, Stefan percebeu. Nos poucos dias em que estivera longe da escola, tinha esquecido do hábito de andar e se mover como um humano e voltara à sua passada silenciosa e perfeitamente controlada de predador.
— Me desculpe — disse, enquanto andavam lado a lado pelo corredor.
— Sem problemas — Bonnie respondeu com uma tentativa corajosa de parecer indiferente. Mas seus olhos castanhos estavam arregalados e um tanto fixos. — Então, o que está fazendo aqui hoje? Meredith e eu fomos à pensão esta manhã para dar uma espiada na Sra. Flowers, mas ninguém atendeu a porta. E não te vi na aula de biologia.
— Cheguei esta tarde. Estou de volta à escola. Pelo tempo que for necessário para achar o que estamos procurando, de qualquer maneira.
— Para espionar Alaric, você quer dizer — Bonnie murmurou. — Eu disse a Elena ontem para deixá-lo comigo. Opa — acrescentou, quando dois calouros passando encararam-na.
Ela revirou os olhos para Stefan. Com consenso mútuo, eles viraram em um corredor lateral e foram para uma escadaria vazia. Bonnie inclinou-se contra a parede com um suspiro de alívio.
— Tenho que me lembrar de não dizer o nome dela — ela falou apaticamente. — Mas é tão difícil. Minha mãe me perguntou como eu me sentia essa manhã e eu quase disse: “ótima, já que vi Elena ontem à noite”. Não sei como vocês dois mantiveram – você sabe o quê – em segredo por tanto tempo...
Stefan sentiu um sorriso repuxando seus lábios contra sua vontade. Bonnie era uma gatinha de seis semanas, toda cheia de charme e sem inibição. Sempre dizia exatamente o que estava pensando no momento, mesmo se contradissesse completamente o que tinha acabado de falar, mas tudo o que fazia vinha do coração.
— Você está parada num corredor deserto com um você sabe o quê agora — lembrou-a diabolicamente.
— Ohhh — seus olhos se arregalaram novamente. — Mas você não faria, faria? — acrescentou, aliviada. — Porque Elena mataria você... Ah, céus. — Procurando por outro tópico, engoliu em seco e disse: — Então... então como foi ontem à noite?
O humor de Stefan se escureceu imediatamente.
— Não muito bem. Ah, Elena está bem; está dormindo em segurança.
Antes que pudesse continuar, seus ouvidos captaram passos no final do corredor. Três veteranas estavam passando, e uma se afastou de seu grupo ao ver Stefan e Bonnie. O rosto de Sue Carson estava pálido e seus olhos estavam vermelhos, mas ela sorriu para eles.
Bonnie ficou cheia de preocupação.
— Sue, como você está? Como o Doug está?
— Estou bem. Ele está bem, também, ou pelo menos vai ficar. Stefan, eu queria falar com você — acrescentou. — Sei que o meu pai o agradeceu ontem por ajudar Doug daquele jeito, mas eu queria agradecê-lo, também. Quero dizer, sei que as pessoas na cidade tem sido horríveis com você e – bem, eu simplesmente estou surpresa por você ligar o bastante para ajudar. Mas estou contente. Minha mãe diz que você salvou a vida do Doug. E então, queria agradecê-lo, e dizer que eu sinto muito – sobre tudo.
Sua voz tremia ao final do discurso. Bonnie fungou e tateou em sua mochila por um lencinho, e por um momento pareceu que Stefan ficaria preso na escadaria com duas fêmeas choramingando. Consternado, ele procurou em seu cérebro por uma distração.
— Tudo bem — ele disse. — Como a Chelsea está? 
— Está no canil. Eles estão mantendo os cães em quarentena lá, todos aqueles que conseguiram reunir — Sue limpou seus olhos e se endireitou, e Stefan relaxou, vendo que o perigo tinha passado. Um silêncio embaraçoso se seguiu.
— Bem — disse Bonnie para Sue por fim — soube o que o Conselho Escolar decidiu sobre o Baile da Neve?
— Ouvi dizer que eles se reuniram esta manhã e basicamente decidiram que nos deixarão fazê-lo. Alguém disse que estavam falando sobre segurança policial, contudo. Ah, aí está o sinal tardio. É melhor irmos para a aula de história antes que Alaric nos dê pontos negativos.
— Vamos em um minuto — Stefan respondeu. Acrescentou casualmente: — Quando é esse Baile da Neve?
— No dia treze; sexta-feira à noite, sabe — Sue disse, e então recuou. — Ai meu Deus, sexta-feira treze. Nem pensei nisso. Mas me lembra que tem outra coisa que queria te contar. Esta manhã retirei meu nome do concurso para Rainha da Neve. Simplesmente... simplesmente parecia certo, de algum modo. É só isso.
Sue se apressou para longe, quase correndo.
A mente de Stefan estava correndo.
— Bonnie, o que é esse Baile da Neve?
— Bem, é na verdade o Baile de Natal, só que nós temos uma Rainha da Neve ao invés de uma Rainha do Natal. Depois do que aconteceu no Dia dos Fundadores, eles estavam pensando em cancelar, e então os cachorros ontem... mas parece que vão fazer, no final de contas.
— Na sexta-feira treze — Stefan disse carrancudamente.
— Sim — Bonnie parecia assustada agora, deixando-se pequena e insignificante. — Stefan, não olhe assim; está me assustando. Qual o problema? O que acha que acontecerá no baile?
— Não sei.
Mas algo aconteceria, Stefan estava pensando. Fell’s Church não teve uma celebração pública que escapou de ser visitada pelo Outro Poder, e essa provavelmente seria a última festividade do ano. Mas não havia razão para falar sobre isso agora.
— Vamos — disse. — Estamos realmente atrasados.
Estava certo. Alaric Saltzman estava no quadro-negro quando eles entraram, como tinha estado no primeiro dia que apareceu na sala de história. Se ficou surpreso ao vê-los chegar atrasados, ou em vê-los chegar, escondeu impecavelmente, dando um de seus sorrisos mais amigáveis.
Então é você que está caçando o predador, Stefan pensou, tomando seu assento e estudando o homem perante ele. Mas você é mais que isso? O Outro Poder de Elena, talvez?
Em face disso, nada mais parecia improvável. O cabelo cor de areia de Alaric, um pouco comprido demais para um professor, seu sorriso juvenil, sua alegria teimosa, tudo contribuía para uma impressão de inocência. Mas Stefan estivera desconfiado desde o começo sobre o que estava embaixo desse exterior inofensivo. Ainda assim, não parecia muito provável que Alaric Saltzman estivesse por trás do ataque a Elena ou do incidente com os cachorros. Nenhum disfarce podia ser tão perfeito.
Elena. A mão de Stefan se fechou debaixo da mesa, e uma dor vagarosa despertou em seu peito.
Ele não queria ter pensado nela. O único jeito que tinha sobrevivido aos últimos cinco dias era mantendo-a longe de sua mente, não deixando sua imagem chegar mais perto.
Mas é claro que o esforço de mantê-la a uma distância segura tomava a maior parte de seu tempo e energia. E esse era o pior lugar de todos para se estar, em uma sala de aula onde ele não conseguia ligar menos para o que estava sendo ensinado. Não havia nada a fazer exceto pensar aqui.
Se forçou a respirar vagarosa, calmamente. Ela estava bem; esse era o importante. Nada mais realmente importava. Mas mesmo enquanto dizia isso, o ciúme o mordeu como uma tira de couro de um chicote. Porque sempre que pensava em Elena agora, tinha que pensar nele.
Em Damon, que estava livre para ir e vir quando quisesse. Que poderia estar até mesmo com Elena nesse minuto.
A raiva queimou na mente de Stefan, clara e fria, misturando-se com a dor quente em seu peito. Ainda não estava convencido de que não fora Damon quem o atirara casualmente, sangrando e inconsciente, no poço abandonado para morrer. E levaria a ideia sobre o Outro Poder de Elena muito mais a sério se não tivesse certeza de que foi Damon quem perseguira Elena até sua morte. Damon era mau; não tinha misericórdia ou escrúpulos...
E o que ele fez que eu não fiz?, Stefan se perguntou pesadamente, pela centésima vez. Nada.
Exceto matar.
Stefan tinha tentado matar. Quisera matar Tyler. Com a lembrança, o fogo gelado de sua raiva dirigida a Damon foi apagado, e olhou ao invés na direção da carteira no fundo da sala.
Estava vazia; apesar de Tyler ter saído do hospital no dia anterior, ele não tinha retornado à escola. Ainda assim, não havia perigo de lembrar alguma coisa de sua tarde horrenda. A sugestão subliminar para esquecer devia permanecer por um bom tempo, enquanto ninguém mexesse com a mente de Tyler.
Ele de repente ficou muito consciente de que estava encarando a carteira vazia de Tyler com olhos estreitos e taciturnos. Enquanto desviava o olhar, capturou o olhar de alguém que estivera observando-o fazer isso.
Matt se virou rapidamente e se inclinou sobre seu livro de história, mas não antes que Stefan visse sua expressão.
Não pense nisso. Pense em nada, Stefan disse a si mesmo, e tentou se concentrar na aula de Alaric Saltzman sobre a Guerra das Rosas.


5 de dezembro – não sei as horas, provavelmente início da tarde.
Querido Diário,
Damon devolveu você para mim esta manhã. Stefan disse que não queria que eu fosse para o sótão de Alaric novamente. Esta é a caneta de Stefan que estou usando. Não possuo mais nada, ou pelo menos não posso pegar as minhas próprias coisas, e a maioria delas a tia Judith daria por falta se eu as pegasse. Estou sentada nesse momento em um celeiro atrás da pensão. Não posso ir aonde as pessoas dormem, sabe, a não ser que eu seja convidada.
Acho que animais não contam, porque há alguns ratos dormindo aqui debaixo do feno e uma coruja nas vigas. No momento, estamos nos ignorando.
Estou tentando duramente não ficar histérica.
Achei que escrever ajudaria. Algo normal, algo familiar. Exceto que nada mais em minha vida é normal.
Damon diz que vou me acostumar mais rápido se eu jogar a minha antiga vida fora e abraçar a nova. Ele parece achar que é inevitável que eu fique como ele. Diz que nasci para ser uma predadora e não há razão em fazer as coisas pela metade.
Eu cacei um veado ontem. Um macho, porque era o que estava fazendo mais barulho, batendo seus chifres contra os galhos de árvore, desafiando outros machos. Eu bebi seu sangue.
Quando dou uma olhada nesse diário, tudo o que consigo ver é que estava procurando por algo, por algum lugar ao qual pertencer. Mas não é isso. Não é essa nova vida. Tenho medo do que me tornarei se eu começar a pertencer a isto.
Ah, Deus, estou apavorada.
A coruja do celeiro é quase puramente branca, especialmente quando estende suas asas e você consegue vê-las por dentro. As penas das costas parecem mais douradas. Tem só um pouco de dourado ao redor do rosto. Está me encarando nesse momento porque estou fazendo barulho, tentando não chorar.
É engraçado que eu ainda consiga chorar. Acho que são as bruxas que não conseguem.
Começou a nevar do lado de fora. Estou puxando o manto ao meu redor.


Elena guardou seu caderninho perto de seu corpo e puxou o suave veludo escuro do manto até seu queixo. O celeiro estava absolutamente silencioso, exceto pela respiração insignificante dos animais que dormiam ali. Do lado de fora, a neve caía silenciosamente, como se acobertando o mundo em uma quietude abafadora. Elena a encarou com olhos que não viam, mal notando as lágrimas que corriam por suas bochechas.


— Bonnie McCullough e Caroline Forbes poderiam ficar por mais um momento? — Alaric pediu enquanto o último sinal tocava.
Stefan franziu a testa, um franzido que se aprofundou quando viu Vickie Bennett pairando fora da porta aberta da sala de história, seus olhos tímidos e assustados.
— Estarei ali fora — disse de forma significativa para Bonnie, que acenou.
Acrescentou um levantar de sobrancelhas, e ela respondeu com um olhar virtuoso. Veja se direi alguma coisa que não devo, o olhar dizia.
Saindo, Stefan só esperava que ela se mantivesse firme.
Vickie Bennett estava entrando enquanto ele saía, e Stefan teve que sair do caminho dela. Mas isso o colocou diretamente no caminho de Matt, saíra pela outra porta e tentava chegar ao corredor o mais rápido possível.
Stefan agarrou seu braço sem pensar.
— Matt, espera.
— Me solta.
O punho de Matt se levantou. Olhou para ele com aparente surpresa, como se não estivesse certo sobre o que devia estar tão nervoso. Mas cada músculo em seu corpo estava lutando contra o agarro de Stefan.
— Eu só quero falar com você. Só por um minuto, está bem?
— Eu não tenho um minuto — Matt respondeu, e por fim seus olhos, um azul mais claro e menos complicado que o de Elena, encontrou os de Stefan. Havia um vazio nas profundezas deles que o lembravam do olhar de alguém que fora hipnotizado, ou que estava sob a influência de algum Poder.
Exceto que não era Poder algum além da própria mente de Matt, ele percebeu abruptamente. Era isso o que o cérebro humano fazia consigo mesmo quando encarava algo que simplesmente não conseguia lidar. Matt tinha se fechado, se desligado.
Testando, Stefan continuou:
— Sobre o que aconteceu na noite de sábado...
— Não sei do que você está falando. Olha, eu disse que tenho que ir, droga.
Negação era como uma fortaleza atrás dos olhos de Matt. Mas Stefan tinha que tentar novamente.
— Não o culpo por ficar bravo. Se eu fosse você, ficaria furioso. E sei o que é não querer pensar, especialmente quando pensar te leva à loucura.
Matt estava balançando a cabeça, e Stefan olhou ao redor do corredor. Estava quase vazio, e o desespero o fez concordar em correr um risco. Ele abaixou a voz.
— Mas talvez você ao menos queira saber que Elena estava viva, e está muito...
— Elena está morta! — Matt gritou, chamando atenção de todos no corredor. — E eu te disse para me soltar! — acrescentou, e alheio à plateia deles, empurrou Stefan com força. Foi tão inesperado que Stefan cambaleou contra os armários, quase acabando estirado no chão. Encarou Matt, mas o garoto nem mesmo olhou para trás saía pelo corredor.
Stefan passou o resto do tempo simplesmente encarando a parede até que Bonnie emergisse. Havia um pôster ali sobre o Baile da Neve, e ele decorara cada centímetro dele na hora que as garotas saíram.
Apesar de tudo o que Caroline tentara fazer para ele e Elena, Stefan descobriu que não conseguia reunir nenhum ódio por ela. Seu cabelo castanho parecia desbotado, seu rosto, cansado. Ao invés de estar aprumada, sua postura parecia simplesmente definhada, pensou, observando-a ir embora.
— Tudo bem? — perguntou a Bonnie, enquanto caminhavam lado a lado.
— Sim, é claro. Alaric simplesmente sabe que nós três – Vickie, Caroline, e eu – passamos por poucas e boas, e quer que nós saibamos que ele nos apoia — Bonnie disse, mas mesmo seu otimismo teimoso sobre o professor de história soava um pouco forçado. — Nenhuma de nós contou nada, contudo. Haverá outro encontro na casa dele semana que vem — acrescentou brilhantemente.
Maravilha, pensou Stefan. Normalmente poderia ter dito algo sobre isso, mas no momento ele estava distraído.
— Ali está Meredith. Deve estar nos esperando.
— Não, ela está indo para a ala de história — Bonnie disse. — Que engraçado, eu disse a ela para nos encontrar aqui.
Era mais do que engraçado, pensou Stefan. Ele tinha capturado um relance dela enquanto a menina virava a esquina, mas aquele relance ficou preso em sua mente. A expressão no rosto de Meredith era calculista, observadora, e seu passo tinha sido furtivo. Como se estivesse tentando fazer algo sem ser vista.
— Ela vai voltar em um minuto quando vir que não estamos lá — Bonnie falou, mas Meredith não voltou em um minuto, ou dois, ou três. De fato, passaram-se quase dez minutos antes que aparecesse, e então pareceu assustada ao ver Stefan e Bonnie esperando-a.
— Desculpa, fiquei presa — disse friamente, e Stefan teve que admirá-la pelo autocontrole.
Ele se perguntava o que havia por trás disso, e somente Bonnie estava com vontade de conversar enquanto os três saíam da escola.


— Mas da última vez usamos fogo — Elena disse.
— Porque estávamos procurando por Stefan, por uma pessoa específica — Bonnie replicou. — Desta vez estamos tentando prever o futuro. Se fosse simplesmente o seu futuro pessoal que eu estivesse tentando prever, olharia a sua palma, mas estamos tentando descobrir algo mais geral.
Meredith entrou no quarto, cuidadosamente equilibrando uma tigela de porcelana cheia até a borda de água. Em sua outra mão, segurava uma vela.
— Eu trouxe as coisas.
— A água era sagrada para os druidas — Bonnie explicou, enquanto Meredith colocava o prato no chão e as três garotas se sentavam ao redor dele.
— Aparentemente, tudo era sagrado para os druidas — apontou Meredith.
— Shh. Agora, coloque a vela no castiçal e acenda-a. Então derrubarei a cera derretida na água, e as sombras que ela formar me dirão as respostas para as suas perguntas. Minha avó usava chumbo, e disse que a avó dela usava prata derretida, mas disse que cera funcionaria — quando Meredith acendeu a vela, Bonnie olhou para os lados e tomou um longo fôlego. — Estou ficando cada vez mais assustada em fazer isso.
— Você não tem que fazer isso — Elena respondeu suavemente.
— Eu sei. Mas eu quero – desta vez. Além do mais, não é esse tipo de ritual que me assusta; ser possuída que é horrível. Eu odeio. É como alguma outra pessoa entrando no meu corpo.
Elena franziu a testa e abriu sua boca, mas Bonnie estava continuando.
— De qualquer jeito, aqui vai. Apague as luzes, Meredith. Dê-me um minuto para sintonizar e então faça suas perguntas.
No silêncio da sala turva, Elena observou o castiçal, os cílios abaixados de Bonnie e o rosto sóbrio de Meredith. Olhou para baixo para suas próprias mãos no colo, pálidas contra o negrume do suéter e da legging que Meredith lhe emprestara. Então olhou para as chamas dançantes.
— Tudo bem — Bonnie disse suavemente e pegou a vela.
Os dedos de Elena se entrelaçaram, apertando fortemente, mas ela falou em uma voz baixa para não quebrar a atmosfera.
— Quem é o Outro Poder em Fell's Church?
Bonnie inclinou a vela para que a chama lambesse as laterais. Cera quente desceu como água na tigela e formou glóbulos redondos lá.
— Era o que eu receava — Bonnie murmurou. — Não houve resposta, nada. Tente uma pergunta diferente.
Desapontada, Elena soltou o ar, as unhas mordiscando suas palmas. Foi Meredith quem falou.
— Nós podemos achar esse Outro Poder se o procurarmos? E podemos derrotá-lo?
— Foram duas perguntas — Bonnie observou baixinho enquanto inclinava a vela novamente.
Desta vez a cera formou um círculo, um anel branco grumoso.
— Isso é união! O símbolo para pessoas dando as mãos. Significa que conseguiremos se ficarmos juntos.
A cabeça de Elena deu um solavanco para cima. Essas foram quase as mesmas palavras que ela usara para Stefan e Damon. Os olhos de Bonnie brilhavam com excitação, e sorriram uma para outra.
— Cuidado! Você ainda está derramando — Meredith disse.
Bonnie rapidamente endireitou a vela, olhando para a tigela novamente. O último derramamento de cera formou uma linha fina e reta.
— Isso é uma espada — ela falou lentamente. — Significa sacrifício. Nós conseguiremos se ficarmos juntos, mas não sem sacrifício. 
— Que tipo de sacrifício? — perguntou Elena.
— Não sei — Bonnie respondeu, seu rosto perturbado. — É tudo que posso lhe dizer dessa vez.
Ela colocou a vela de volta no castiçal.
— Ufa — disse Meredith, enquanto se levantava para acender as luzes.
Elena levantou-se, também.
— Bem, pelo menos sabemos que podemos vencer — disse, puxando as pernas da calça, que era longa demais para ela.
Capturou um relance de si mesma no espelho de Meredith. Certamente não parecia mais com Elena Gilbert, a modelo fashion da escola. Vestida toda de preto desse jeito, parecia pálida e perigosa, como uma espada embainhada. Seu cabelo caía aleatoriamente ao redor dos seus ombros.
— Eles não me reconheceriam na escola — murmurou, com uma pontada. Era estranho ligar sobre ir à escola, mas ela ligava. Era porque não podia ir, achava. Por ter sido rainha por tanto tempo, comandado as coisas, era quase inacreditável não poder colocar os pés lá novamente.
— Você podia ir para outro lugar — Bonnie sugeriu. — Quero dizer, depois que tudo isso acabar, pode terminar a escola em algum outro lugar onde ninguém te conheça. Como Stefan fez.
— Não, acho que não — Elena estava com um humor estranho esta noite, depois de passar o dia sozinha no celeiro observando a neve. — Bonnie — disse abruptamente — você olharia a minha palma novamente? Quero que você preveja meu futuro, meu futuro pessoal.
— Nem sei se lembro de todas as coisas que a minha avó me ensinou... mas, certo, tentarei — Bonnie demonstrou piedade. — É melhor que não tenha mais estranhos morenos no caminho, e só. Você já tem tudo com o que consegue lidar. — Ela riu enquanto pegava a mão esticada de Elena. — Lembra quando Caroline perguntou o que você conseguiria fazer com dois? Acho que está descobrindo agora, hein?
— Só leia a minha palma, sim?
— Tudo bem, essa é sua linha da vida... — as palavras de Bonnie dissiparam-se quase antes de começar. Ela encarou a mão de Elena, medo e apreensão em seu rosto. — Devia vir até aqui. Mas foi cortada tão antes... 
Ela e Elena se encararam sem falar por um momento, enquanto Elena sentia a mesma apreensão solidificar dentro de si.
Então Meredith as interrompeu.
— Bem, naturalmente está curta — disse. — Só significa o que já aconteceu, quando Elena se afogou.
— Sim, é claro, deve ser isso — Bonnie murmurou. Soltou a mão de Elena, que lentamente recuou. — É isso, está certo — repetiu em uma voz mais forte.
Elena fitava o espelho novamente. A garota que a olhava de volta era linda, mas havia uma sabedoria triste em seus olhos que a velha Elena Gilbert nunca tivera. Percebeu que Bonnie e Meredith a estavam observando.
— Deve ser isso — concordou e sorriu levemente, mas seu sorriso não tocava os olhos.

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