4 de novembro de 2015

Capítulo 8

Anastasia pensou que algo andava mal. Podia sentir a mudança no ar que vinha antes de uma tempestade. Ela estava chamando a profunda paz de cada um dos cinco elementos quando a maldade irrompeu pela noite, quebrando sua concentração e rompendo a dispersão do feitiço.
Automaticamente, seu olhar se dirigiu para Bryan, para ver se ele sabia o que acontecia, se sabia o que fazer... horrorizada, viu um humano se mover tão rápido que seu cérebro tratou de negar o que via. Ele levantou Bryan Lankford, o dragão Lankford, Mestre da Espada dos vampiros pela garganta, o bateu contra uma árvore e logo começou a estrangulá-lo.
Ela não teve dúvidas. Anastasia correu diretamente para o homem que estava matando Bryan. Gritando seu nome, ela se atirou contra o humano, fazendo com que ele deixasse de enforcá-lo.
Ele soltou Bryan o suficiente para que o calouro pudesse tocar o chão. Com a cabeça instável, lutando para expulsar as partículas de luz de seus olhos, Anastasia se arrastou até Bryan, tocando a sua mão.
― Bryan! Oh, deusa, não!
Ele estava quieto e sua garganta parecia mal, como se tivesse parado de funcionar. Ele não estava respirando. Ela tinha certeza que ele não respirava.
― Deixe-o ― o homem grunhiu.
Ele tentou alcançá-la, mas Anastasia deu a volta na árvore e ficou fora de seu alcance.
― Quer brincar um pouco de pique-esconde? ― ele gargalhou ― bom, não há nada de mal com um jogo prévio. Biddle já está a ponto de vencer.
E começou a examiná-la dando voltas na árvore.
Anastasia observou os olhos do homem e viu que a jovem Grande Sacerdotisa em treinamento tinha razão. Biddle estava completamente louco.
Sabia que só tinha alguns segundos, assim, em vez de tentar evitar a criatura chama Biddle, ela se agachou e colocou uma mão na grossa casca da árvore e outra na garganta de Bryan. Anastasia fechou os olhos e pensou na terra debaixo da árvore, na riqueza, na força eterna, na vida que acreditava com toda a sua força que devia estar ali. Ela imaginou uma nascente verde surgindo do solo, das raízes e da própria árvore fluindo por ela e através dela até Bryan.

Terra, venha a mim;
Peço magia de cura para o espadachim!

No mesmo instante, a temperatura aumentou no tronco da árvore, em sua mão e no pescoço de Bryan.
― A hora dos jogos prévios acabou. Vamos para as coisas boas. Vamos. Eu nunca tive um vampiro.
E, dizendo isso, Jesse Biddle se agachou e agarrou o tornozelo de Anastasia com uma grande força. Como se ela não pesasse mais que uma boneca, ele a arrastou para longe de Bryan na direção da entrada escura da prisão. Anastasia virou para ver se Bryan havia feito algum movimento – até o mínimo indício do ar enchendo seu peito novamente. Mas não conseguiu notar nada antes que Biddle a lançasse no interior do edifício e fechasse a porta atrás deles.
― Ela não esssstá morta!
Anastasia ficou olhando a coisa dentro da jaula. Não era um pássaro. Não era um ser humano. Nem sequer parecia real... exceto pelo brilho escarlate de seus olhos que parecia espectral, algo feito de sombras e pesadelos.
― Não ainda ― Biddle concordou ― vou me divertir um pouco antes de mata-la.
― Ussssá-la não era parte do plano ― a criatura assobiou.
― Não existe nenhum plano! Eu vou apenas me alimentar de seu sangue para conseguir o que quero. O que acontecer antes a ela não tem importância!
Anastasia olhou a criatura na jaula e depois o delegado.
― O que é essa coisa?
― Não sei exatamente ― Biddle respondeu quando sua mão deslizou do tornozelo dela para a panturrilha ― simplesmente o ignore, não é real, de qualquer modo.
De onde Anastasia caiu, ela chutava, tentando separar-se dele. O corpo magro demais de Biddle era uma ilusão: a força de suas mãos ossudas era incrível, e apenas um puxão na perna de Anastasia a jogou de volta a ele.
― Não! Deixe-me em paz! Não me toque!
Ela lutou contra ele.
― Oh, vamos. Todo mundo sabe sobre as mulheres vampiras como você. Todas vocês tem vários homens. Portanto, não finja que é uma pequena virgem.
Um calafrio percorreu o corpo de Anastasia, congelando-a... ela ficou encarando o homem que se alçava como um esqueleto vivo em sua frente.
Ele sorriu.
― Assim mesmo. Continue assim e será mais fácil para você.
Com uma mão ainda ao redor de seu tornozelo, Biddle começou a desabotoar o cinto de sua própria calça com a outra.
Foi então que Anastasia descobriu a verdade: este ser humano iria violentá-la e matá-la.
Oh, Nyx! Por favor, me ajude! Não quero morrer assim!, rezava freneticamente.
Então, através do choque e do frio em seu sangue, ela sentiu o calor do ajoite que havia colocado em seu bolso quando o seu feitiço foi quebrado, e junto às pedras estava a pequena bolsa de veludo cheia de sal.
À medida que Biddle colocava a mão suas calças, Anastasia enfiou a mão no bolso de sua saia. Recolheu um punhado de sal e jogou na cara do humano.
Biddle deu um grito e pulou para trás, piscando rigidamente enquanto limpava seus olhos lacrimejantes.
― Vadia! ― gritou.
Ele lhe havia dado o tempo que precisava... Anastasia saltou para trás levantando sua bolsa de sal e ajoite, um cristal impregnado com a magia residual das profundezas da terra. Desde a antiguidade, as sacerdotisas o utilizavam para trazer a paz através da clareza do espírito. Agora Anastasia, uma sacerdotisa consagrada à paz e a terra, chegou ao fundo de seu espírito e à sua relação com o elemento pela qual se sentia mais próxima. Com um único movimento, jogou o conteúdo da bolsa no chão, formando um círculo de cristais ao seu redor.

Sal, que o círculo encerra,
Dou-te como tarefa, preda-me à terra.

Então, levantando o ajoite como um punhal, ela o fincou na terra gritando:

Terra abaixo, cheia de bravura.
Conceda-me proteção nesta noite escura!

Ela sentiu a onda de poder vir debaixo, como se uma barragem tivesse se rompido. Como uma tempestade no campo, o verde-claro estalava a sua volta. Pressionando as palmas das mãos contra o elemento que lhe foi dado como afinidade, Anastasia chorava lágrimas de alegria e de graças quando Biddle tentou cruzar o círculo de sal. Ele retrocedeu com um grito de dor enquanto a criatura dentro da jaula gritou:
 ― Não! A luzzzz verde! Me queeeeeima! Me queeeeima!
― Você, cale-se! ― Biddle chutou a jaula da criatura e a coisa começou a se acalmar com um gemido queixoso. Então começou a dar a volta no escudo brilhante. ― O que é isso? O que você fez, maldita bruxa?
― Pedi para que meu elemento me proteja. Não pode me machucar agora ― levantou o queixo e o encarou ― não sou uma bruxa. Eu sou uma sacerdotisa vampira com uma afinidade com a terra, e você não pode me machucar agora! ― repetiu.
― Não vai durar! Não vai durar! ― exclamou Biddle, puxando sua camisa nervosamente ― quando a luz morrer, você também o fará.
Anastasia negou com a cabeça.
― Você não entende. A terra está me protegendo. A luz não vai morrer ou desaparecer. E eu vou sentar aqui e esperar que minha Grande Sacerdotisa me encontre. Juro, ela me encontrará. A House of Night sabe que estou aqui. Vão encontrar a mim e a Bryan ― sua voz começou a tremer, mas ela pegou mais energia da terra e continuou ― e logo você terá que responder pelo o que fez esta noite. ― Seu olhar mudou dele para a patética criatura presa na jaula ― e terá que responder pelo o que fez à pobre criatura também.
― Ninguém se importa com os vampiros ou fantasmas.
― Isso não é certo ― Anastasia lhe respondeu, e enquanto falava, sentia a exatidão de suas palavras ― há pessoas boas em Saint Louis. Eles comercializam conosco. Inclusive se convertem em nossos consortes. Eles não vão gostar do que fez, em o que se converteu, ou o que arranjou aqui.
Ela fez uma pausa e viu uma centelha de algo que poderia ser sanidade nos olhos dele.
― Sabe que tenho razão. Apenas vá daqui. Vá, antes que alguém mais saia ferido.
Anastasia viu compreensão ou arrependimento em seu rosto, e então escutou o terrível som úmido e violento de uma espada que trespassa um corpo. Os olhos de Biddle se arregalaram quando notou a lâmina que apareceu de repente no meio de seu peito. Com uma graça surpreendente, o delegado caiu de joelhos e tombou de lado na crescente poça de sangue enquanto Bryan arrancava sua espada.
O jovem cresceu sobre Biddle, respirando com dificuldade. Sua garganta já não estava esmagada, porém ainda estava cruelmente golpeada e maltratada. Ele tinha os lábios franzidos, expondo os dentes em um grunhido selvagem, e Anastasia percebeu que agora ele era o dragão. O jovem doce tinha-se ido, assim como o guerreiro de bom coração. Enquanto ela o via respirar o embriagador aroma do sengue, imaginou que ele fosse se agachar junto a Biddle, cortar sua garganta e drená-lo até a morte.
O pressentimento que havia perseguido Anastasia por toda a noite a inundou. Ela percebeu que sua intuição não havia sido simplesmente uma advertência sobre o plano de Biddle. Não, havia sido mais, muito mais que isso. Extraindo mais magia da terra, a sacerdotisa sussurrou:

Que a terra corte como uma espada,
Invocando somente a verdade de Bryan Lankford!

Houve um flash de luz verde e uma imagem surgiu diante de Anastasia. Era Bryan, um vampiro completamente Mudado. Ele estava em um campo de batalha, uma vez mais, completamente dragão. Ela engasgou quando viu o que ele estava matando: irmãos vampiros.
O que vê é o que acontecerá se sua força não for temperada com misericórdia.
As palavras estavam em sua mente, porém não eram suas. Mesmo que nunca tivesse ouvido essa voz antes, Anastasia percebeu que a Deusa Nyx estava falando com ela.
Anastasia também sabia o que tinha que fazer.
Bryan havia drenado o sangue de Biddle e, repleto com o poder, a vitória e a violência, caminhava na direção da jaula com o espírito com a espada levantada.
― Bryan, pare! ― Anastasia gritou, se pondo de pé e saindo do círculo de proteção para se interpor entre ele e a coisa na jaula.
― Dê licença, Anastasia. Não sei o é aquilo, mas se aliou com Biddle. Tem que morrer.
Ela se manteve firme.
― Bryan, está em uma jaula. Biddle o manteve prisioneiro.
― Não me importa! ― Bryans praticamente grunhiu a ela, seu hálito cheirando a sangue e ódio ― tem que ser morto!
Anastasia reprimiu o estremecimento de medo que sentiu ao ver quão violento ele tinha se tornado. Ele é violento. Todavia também é Bryan, se recordou. Movendo-se lentamente, esticou a mão para cobrir a dele, que sustentava a espada sangrenta.
― Não me importa a criatura, mas não se preocupa comigo? ― lhe perguntou em voz baixa.
Ele hesitou. Através de sua mão, sentiu a tensão sobre a espada se esvair um pouco.
― Sim. Eu me preocupo com você.
― Então me escute. Houve mortes suficientes esta noite. Eu estou pedindo que deixe a misericórdia ganhar. Seja mais forte que sua espada. Transforme-se no guerreiro que há dentro de você.
Seus olhos se encontraram e se prenderam. Quando ele finalmente suspirou e baixou sua espada, Anastasia viu seu futuro, seu Bryan, dentro deles.
― Sim ― ele respondeu, tocando sua bochecha ― escolho transformar-me no guerreiro que acredita estar dentro de mim.
Anastasia ia abraçá-lo quando o rosto dele se contraiu de dor e, com um grito terrível, Bryan caiu a seus pés.
Freneticamente, ela caiu de joelhos junto a ele.
― Bryan! O que...
E então se interrompeu quando ele levantou seu rosto cheio de lágrimas.
― Oh! ― ela soltou um longo suspiro, maravilhada ― elas são tão lindas.
Com uma mão trêmula, estendeu o braço e traçou as novas tatuagens do vampiro completamente Mudado ao seu lado.
― O que é? Que aspecto tem? ― ele perguntou.
― Dragões. São exatamente como os dragões.
― Dragões ― ele repetiu, rindo.
E quase de imediato ele ficou sério e pegou a mão dela. Limpou a garganta e, de joelhos ao seu lado, disse:
― Anastasia, quero ser seu guerreiro. Minha senhora, pode aceitar o juramento de meu coração, corpo e alma como seu protetor?
― Apenas acrescente uma promessa mais a isso. Dragon Lankford, se estiver comprometido a me servir, tem que me dar seu juramento que deste momento em diante moderará sua força com a misericórdia.
Sem duvidar, ele respondeu:
― Eu prometo a você o meu juramento.
Bryan colocou sua mão em punho sobre o coração e inclinou a cabeça para sua sacerdotisa. Ele a ajudou a se levantar e o olhar de Anastasia se virou para a confusa criatura de sombras que estava agachada observando por entre as barras de prata.
― Por favor, mostre misericórdia a ele.
― Então observe meu primeiro ato como um guerreiro misericordioso ― ele se aproximou da jaula ― criatura, não sei o que é, mas te aviso, se não nos machucar, vou protegê-lo.
― Liberdade... ― falou com sua voz estranha, sussurrante.
Com sua espada preparada, de pé entre a coisa fantasma e sua sacerdotisa, Bryan se agachou e abriu a jaula. Houve um som de agitação e a criatura se desvaneceu por completo, em sibilos:
― Esssstá terminadoooo...
― Obrigada, Bryan ― disse Anastasia.
Seu guerreiro a tomou nos braços.
― Venha a mim, minha senhora, minha.
E Anastasia, genuinamente feliz, entrou no que realmente acreditava ser o seu “felizes para sempre”.

* * *

Nesse mesmo instante, nas entranhas da terra, um prisioneiro alado se agita através dos olhos escarlates da criatura que Dragon Lankford acabara de libertar. Kalona começa a procurar outra peça do quebra-cabeça que vai se alinhar com o destino e frutificar os seus desejos para o futuro.

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