5 de novembro de 2015

Capítulo 7

Mais tarde, quando seu mundo tinha ficado escuro, doloroso e cheio de desespero, Lenobia lembrou-se da manhã, da beleza do céu e do mar – e como tudo mudou tão de repente e completamente em menos de dez batidas do seu coração. Recordou-se, e prometeu que pelo resto de sua vida, não levaria nada tão bonito e especial.
Era cedo, e as meninas estavam lentas e rabugentas, não querendo subir. Não queriam ir para o convés orar. Aveline de Lafayette estava especialmente aborrecida, embora a emoção de Simonette em fazer algo novo mais do que compensou o temperamento azedo da menina mais velha.
― Eu queria tanto explorar o navio ― Simonette confidenciou para Lenobia enquanto faziam o seu caminho para a área de passeio na popa do Minerva.
― É um navio muito bonito ― Lenobia murmurou de volta, e depois sorriu quando os cachos de Simonette saltavam enquanto ela balançava a cabeça em resposta.
A estátua de mármore de Maria tinha sido colocada perto da grade preta que emoldurava a popa do navio – ficava exatamente acima do quarto do capitão. A irmã Marie Madeleine estava agitada perto da estátua, dando voltas ao redor e colocando-a um pouco para a direita, até que viu Lenobia, e então fez um gesto para que a menina se aproximasse.
― Filha, eu ficarei a vela e o incenso.
Lenobia deu-lhe o braseiro prateado do incenso, que já estava cheio com a mistura preciosa de incenso e mirra que a freira usava quando estava em oração, assim como a vela, que repousava em seu castiçal de estanho puro. Ela voltou para a estátua e colocou a vela e o queimador de incenso aos pés de Maria.
― Meninas ― a freira se dirigiu à multidão, e depois com um leve sorriso, balançou a cabeça em reconhecimento aos membros da tripulação que estavam começando a se reunir com curiosidade em relação a eles. ― E bons cavalheiros. Vamos começar esta manhã encantadora com as orações Marianas como um agradecimento pela notícia de que estamos a meros dias do nosso destino de Nova Orleans.
Ela fez sinal para que a tripulação chegasse mais perto.
Quando se aproximaram, Lenobia procurou por Martin no grupo, mas ficou desapontada quando não viu o rosto familiar.
― Oh, Deus! Precisamos de fogo para acender a vela de Maria. Lenobia, criança, você poderia por favor...
― Não se preocupe, irmã. Vou acender o fogo de Maria.
As meninas se separaram como nuvens com a chegada da luz do sol e o padre atravessou com um longo pedaço de madeira em sua mão, e no fim dele tremulava uma chama. Ele ofereceu à freira, e ela aceitou com um sorriso forçado.
― Obrigado, padre. Gostaria de puxar as orações Marianas esta manhã?
― Não, irmã. Eu acredito que as orações de Maria são mais plenamente apreciadas quando conduzidas por uma mulher.
Com uma inclinação de cabeça, o bispo retirou-se para o outro lado da popa, onde os membros da tripulação estavam se reunindo. Ele ficou na frente deles.
Lenobia pensou que sua escolha de posição dava uma impressão incômoda, como se ele estivesse prestes a levar o grupo de homens contra elas.
Perplexa, a irmã Marie Madeleine acendeu a vela e o incenso. Então ajoelhou-se. Lenobia e o resto das meninas seguiu seu exemplo. Lenobia se posicionou a esquerda da freira, de frente para a estátua, mas também se virou para ver o padre, e viu sua arrogância hesitar, o que fez com que o seu ato de ajoelhar parecesse condescendente ao invés de obediente. Os homens em torno dele seguiram o exemplo.
Marie Madeleine baixou a cabeça e apertou as mãos juntas em oração. Com os olhos fechados, ela começou a oração em voz clara e forte:
― Santa Maria, rogai por nós.
― Rogai por nós ― as meninas repetiram obedientemente.
― Santa Mãe de Deus ― Marie Madeleine entoou.
― Rogai por nós ― desta vez os membros da tripulação acrescentaram suas vozes para a oração.
― Santa Virgem das virgens.
― Rogai por nós ― a multidão repetiu.
― Mãe de Cristo ― a freira continuou.
― Rogai por nós...
Lenobia repetia a frase, mas não foi capaz de acalmar seu espírito para fechar os olhos e inclinar a cabeça, assim como as outras meninas. Em vez disso, o seu olhar e sua mente divagava.
― Rogai por nós...
Três dias restantes de viagem, e a irmã Marie Madeleine diz que não posso ir para o porão novamente.
― Mãe da divina graça.
― Rogai por nós...
Martin! Como é que vou falar com ele? Preciso vê-lo novamente, mesmo que isso signifique outro encontro com o padre.
― Mãe Puríssima.
― Rogai por nós...
O olhar de Lenobia esvoaçou pelo grupo dos homens e do homem com vestes roxas que se ajoelhava diante deles. Seus olhos se arregalaram em choque.
Ele não tinha a cabeça baixa e olhos fechados. Ele estava olhando para a estátua, em frente da qual a freira estava de joelhos em oração. Suas mãos não estavam unidas. Em vez disso, uma mão estava acariciando o brilhante crucifixo cor de rubi que pendia no meio de seu peito. A outra estava fazendo um ligeiro movimento, mas estranho, apenas uma flutuação de seus dedos, quase como se estivesse acenando para algo diante dele.
― Mãe castíssima.
― Rogai por nós...
Confusa, Lenobia seguiu o olhar do padre e percebeu que ele não estava olhando para a estátua, mas para a única vela acesa aos pés de Maria, em frente à freira. Foi nesse momento que a chama se intensificou, brilhando com uma intensidade tão forte que parecia a cera parecia chorar. Em seguida, cera e chama chiaram e soltaram faíscas, e o fogo explodiu em cascata sobre hábito de linho de Marie Madeleine.
― Irmã! O fogo! ― Lenobia falou, ficando de pé para correr na direção a Marie Madeleine.
Mas o estranho fogo já havia se tornado um incêndio terrível. A freira gritou e tentou se levantar, mas ela estava obviamente desorientada pelas chamas que a estavam consumindo. Em vez de se afastar da vela queimando descontroladamente, Marie Madeleine caiu para a frente, diretamente sobre a piscina de cera derretida.
As meninas ao redor de Lenobia estavam gritando e segurando-a, impedindo-a de chegar até freira.
― Para trás! Vou salvá-la! ― o padre gritou enquanto corria para a frente, púrpura esvoaçante como uma chama atrás dele, com um balde nas mãos.
― Não! ― Lenobia gritou, lembrando as lições que tinha aprendido na cozinha sobre cera, gordura e água. ― Um cobertor, e não água! Abafe-o!
O padre jogou o balde de água sobre a freira queimando e o fogo explodiu, flamejando cera quente no meio da multidão de meninas e criando pânico e histeria.
O mundo tornou-se fogo e calor. Ainda assim, Lenobia tentou chegar a Marie Madeleine, mas mãos fortes seguraram sua cintura e a puxaram para trás.
― Não! ― ela gritou, lutando para fugir.
― Chérie! Você não pode ajudá-la!
A voz Martin era um oásis de calma no caos, e o corpo de Lenobia ficou mole. Ela deixou-se ser puxada de volta para longe da popa, fora do alcance da queima. Mas no meio das chamas Lenobia viu Marie Madeleine parar de lutar. Completamente envolvida em chamas, a freira foi até a grade, virou-se e por um instante seu olhar encontrou o de Lenobia.
Lenobia nunca iria esquecer aquele momento. O que ela viu nos olhos de Marie Madeleine não era dor, terror ou medo. Ela viu a paz. E dentro de sua mente ecoava a voz da freira, misturada com outra que era mais forte, mais clara, e mais bela.
Siga o seu coração, criança. A mãe sempre a protegerá...
Então a freira passou por cima da grade e pulou para os frescos braços acolhedores do mar.
A próxima coisa que Lenobia se lembrou foi de Martin arrancando sua camisa e usando-a para vencer as chamas que estavam lambendo sua saia.
― Você fica aqui! ― ele gritou para ela quando o fogo havia acabado. ― Não se mova!
Lenobia assentiu inexpressivamente e, em seguida, Martin juntou-se aos outros membros da tripulação enquanto eles usavam roupas, partes de velas e cordame para abater o fogo. O capitão Cornwallis estava lá, gritando ordens e usando sua jaqueta azul para extinguir os bolsões de fogo, que agora pareciam desaparecer com uma facilidade natural.
― Eu estava tentando ajudar! Eu não sabia!
O olhar Lenobia foi atraído pelos gritos do padre. Ele estava de pé no parapeito, olhando para o mar.
― Charles! Você está queimado? Você está ferido? ― Lenobia assistiu o capitão se apressar até ele enquanto o sacerdote se balançou e quase caiu ao mar.
O capitão pegou-o a tempo.
― Venha para longe da grade, homem!
― Não, não ― o padre livrou-se dele. ― Eu preciso fazer isso. Devo.
Ele ergueu o braço, fez o sinal da cruz, e depois Lenobia ouviu começar a oração ritos passado.
― Domine Sancte...
Lenobia nunca tinha odiado ninguém tanto em sua vida.
Simonette balançou em seus braços, rosada, chamuscada e soluçando.
― O que fazemos agora? O que fazemos agora?
Lenobia agarrou-se a Simonette, mas ela não pôde atender a menina.
― Mademoiselles! Alguma de vocês está ferida? ― a voz do capitão explodiu quando ele atravessou o grupo de garotas chorando, tirando aquelas que tinham estado mais próximas das chamas e dirigindo-as ao médico do navio. ― As que estiverem sem ferimentos, vão abaixo. Limpem-se. Mudem suas roupas. Depois, mademoiselles, descansem. O fogo acabou. O navio será reparado. Vocês estão seguras.
Martin se paerceu na fumaça e confusão, e Lenobia não teve escolha senão ir abaixo com Simonette ainda segurando firmemente a mão dela.
― Ouviu-a também? ― Lenobia sussurrou enquanto elas faziam seu caminho, tremendo e chorando, pelo corredor estreito.
― Eu ouvi o grito da irmã. Foi terrível ― Simonette soluçou.
― Nada mais? Você não ouviu o que ela disse? ― Lenobia persistiu.
― Ela não disse nada. Ela só gritava ― Simonette olhou para ela, os olhos arregalados e cheios de lágrimas. ― Você ficou louca, Lenobia?
― Não, não ― Lenobia disse rapidamente, colocando um braço reconfortante em torno de seus ombros. ― Eu quase desejo estar louca, assim eu não teria de lembrar o que aconteceu.
Simonette soluçou de novo.
― Oui, oui, eu não vou sair do quarto até chegarmos a terra. Nem mesmo para ir jantar. Eles não podem me obrigar!
Lenobia a abraçou com força e não falou mais nada.

* * *

Lenobia não deixou seus aposentos durante os próximos dois dias. Simonette não precisou ter medo de ser forçada a ir até a habitação do comandante para as refeições da noite. O alimento foi trazido para elas em seu lugar.
A morte da irmã Marie Madeleine tinha lançado um feitiço sobre todos, e a rotina normal da vida a bordo mudou. As músicas barulhentas e às vezes obscenas que a tripulação costumava cantar por semanas não eram mais as mesmas. Não havia riso. Sem gritos. O navio em si parecia estar em silêncio.
Horas depois da morte da freira, um vento feroz veio de trás deles, encheu as velas e impeliu-os para a frente, como se o sopro de Deus estivesse mandando-os para longe do local da violência.
Em seus quartos, as meninas estavam em estado de choque. Simonette e algumas outras ainda choravam e não deixavam de chorar. A maioria delas se amontoava em suas camas, falava em voz baixa ou orava.
Os empregados da embarcação que lhes traziam comida lhes asseguravam de que tudo estava bem e que iriam aportar em breve. O pronunciamento evocou nada
mais que olhares sombrios e as lágrimas silenciosas.
Todo o tempo Lenobia esteve pensando e lembrando.
Lembrou-se da bondade de Marie Madeleine. Lembrou-se da fé e da força da freira. Lembrou-se da paz que ela viu em seus olhos moribundos e as palavras que ecoaram magicamente em sua mente.
Siga o seu coração, criança. A mãe sempre a protegerá.
Lenobia lembrou da irmã Marie Madeleine, mas ela pensou em Martin. Ela também pensou no futuro. Foi pouco antes do amanhecer do terceiro dia que Lenobia tomou sua decisão, e rastejou silenciosamente da cabine que havia se tornado como um mausoléu.
Ela não viu o amanhecer. Ela foi direto para o porão de carga. Ulisses, o gigante gato preto e branco, estava se esfregando contra as pernas dela quando chegou perto da baia improvisada. Os cavalos a viram primeiro, e ambos os percherões relincharam, o que fez Martin girar, fechando o espaço entre eles em três passos largos, e puxando-a em seus braços, abraçando-a forte. Ela podia sentir seu corpo tremendo enquanto ele falava.
― Você veio, chérie! Não achei que você viria. Achei que nunca ia te ver novamente.
Lenobia descansou a cabeça contra o peito e respirou o seu perfume: cavalos, feno e o suor honesto de um homem que trabalhou duro a cada dia.
― Eu tinha que pensar antes de vir vê-lo, Martin. Eu tinha que decidir.
― O que é que você decidir, chérie?
Ela levantou a cabeça e olhou para ele, amando a luz azeitonada de seus olhos e as manchas marrons que cintilavam como âmbar dentro deles.
― Primeiro, tenho de lhe perguntar algo... você viu ela saltando para o oceano?
Martin assentiu solenemente.
― Sim, chérie. Foi uma coisa terrível.
― Você ouviu alguma coisa?
― Só os gritos dela.
Lenobia respirou fundo.
― Pouco antes de ela pular no mar, ela olhou para mim, Martin. Seus olhos estavam cheios de paz, sem medo ou dor. E eu não ouvi os gritos dela. Em vez disso, ouvi a sua voz dela, misturado com outra, dizendo-me a seguir o meu coração, que a Mãe deve sempre proteger-me.
― A freira era uma mulher de muita fé e bondade. Seu espírito era forte. Poderia ter falado com você. Talvez a sua Maria que ela tanto ama falou com você, também.
Lenobia sentiu-se fraco com alívio.
― Então você acredita em mim!
― Oui, chérie. Eu sei que há mais no mundo do que aquilo que podemos ver e tocar.
― Eu acredito também.
Ela respirou fundo e endireitou os ombros e, com uma voz que surpreendeu até a si mesma pelo tom maduro, ela declarou:
― Pelo menos agora eu sei. Então o que eu quero dizer para você é isto: Eu te amo, Martin, e eu quero ficar com você. Sempre. Eu não me importo como. Eu não me importo onde. Mas, ver Marie Madeleine morrer me mudou. Se o pior que pode acontecer a mim por escolher viver ao seu lado é morrer, então eu escolho toda a felicidade que podemos encontrar neste mundo.
― Chérie, eu...
― Não. Não me responda agora. Espere dois dias depois que chegarmos às docas, assim como eu levei dois dias. Você deve ter certeza dos dois caminhos, Martin. Se disser não, então eu não quero te ver nunca mais. Se você escolher sim, eu viverei ao seu lado e terei os seus filhos. Eu vou te amar até o dia em que eu morrer – só você, Martin. Sempre você, eu prometo.
Então, antes que ela pudesse enfraquecer, implorar a ele, abraçá-lo e chorar, ela se afastou e pegou a familiar escova e entrou na baia improvisada dos percherões, acariciando os cavalos grandes e murmurando carinhos em saudação.
Martin seguiu lentamente. Não falou ou olhou para ela, apenas se mudou para o segundo dos dois cavalos e começou a trabalhar seu caminho através do emaranhado de crina do cavalo. Assim, ele estava escondido da vista do padre quando o sacerdote entrou no porão de carga.
― Escovar bestas não é um trabalho para uma senhora. Mas então, você não é uma senhora, é, ma petite de bas?
Lenobia sentiu seu estômago revirar, mas ela se virou para o padre a quem pensou em como mais monstro que o homem.
― Eu lhe disse para não me chamar assim ― Lenobia falou, orgulhosa de que sua voz não tremeu.
― E eu disse a você que eu gosto de uma luta ― seu sorriso era divertido ― mas com luta ou sem, quando eu tiver terminado com você, você será qualquer coisa que eu desejar – bastarda, prostituta, amante, filha. Qualquer coisa.
Ele se mudou para a frente, a luz da cruz vermelho-rubi brilhando no peito como se fosse uma coisa viva.
― Quem vai protegê-la agora que a freira que te blindava foi consumida? ― ele chegou à beira da baia e Lenobia encolheu-se, pressionando-se contra o castrado. ― O tempo é curto, ma petite de bas. Te reclamarei como minha hoje, antes de chegar a Nova Orleans, e depois não haverá razão para você manter esta farsa de virgem e se esconder com as Ursulinas em seu convento.
O padre pôs a mão na porta baixa da baia para abri-la.
Martin saiu da sombra dos cavalos para ficar entre Lenobia e o padre. Ele falou calmamente, mas estava brandindo uma picareta em sua mão.
― Acho que você não reivindicará essa senhora. Ela não quer você, Loa. Vá agora, e deixe estar.
Os olhos do bispo se estreitaram perigosamente e seus dedos começaram a acariciar as pedras de rubi de seu crucifixo.
― Você ousa falar comigo, rapaz? Deve entender quem eu sou. Eu não sou este Loa com que você me confundiu. Eu sou um padre, um homem de Deus. Me deixe agora e eu vou esquecer que tentou questionar-me.
― Loa é um espírito. Eu vejo você. Eu sei que você. Os Bakas o converteram, homem. Você é mal. É escuro. E não é querido aqui.
― Você ousa ficar contra mim! ― rugiu o padre.
Quando sua raiva cresceu, as chamas das lanternas ao redor do porão também tremeram.
― Martin! As chamas! ― Lenobia sussurrou freneticamente para ele.
O padre começou a se mover para a frente, como se fosse atacar Martin com as próprias mãos, e duas coisas aconteceram muito rapidamente. Em primeiro lugar, Martin levantou a picareta, mas ele não atacou o padre. Ao contrário, ele lançava-a contra si mesmo. Lenobia ofegou quando Martin cortou a palma da própria mão e, em seguida, quando o padre estava quase em cima dele, ele atirou um punhado de sangue para ele, atingindo-o no meio do peito, cobrindo o crucifixo vermelho com vida escarlate. E com uma voz que era profunda e cheio de energia, Martin entoou:

“Ela pertence a mim e dela eu sou
De lealdade e verdade,
Este sangue é a minha autenticidade!
Tudo o que fez foi em vão.
Que volte a você com dez vezes a dor!”

O padre cambaleou para o lado, como se o sangue tivesse sido um golpe, e os cavalos achataram suas orelhas contra a cabeça enorme e, com gritos de raiva, golpearam-no com seus grandes dentes quadrados.
Charles de Beaumont pulou para trás, tropeçando para fora da baia, apertando o peito. Ele se inclinou e olhou para Martin.
Martin levantou a mão sangrenta e segurou-a, com a palma para fora, como um escudo.
― Você perguntou quem protegerá essa garota? Respondo-lhe: eu. A magia está conjurada. Eu a selei com meu sangue. Você não têm nenhum poder aqui.
Os olhos do padre estavam cheios de ódio, sua voz mal-intencionada.
― O feitiço de sangue pode emprestar-lhe poder aqui, mas você não terá poder para onde estamos indo. Lá você é apenas um homem negro tentando se levantar contra um homem branco. Eu vou vencer... Eu vou vencer... Eu vou vencer...
O padre murmurou as palavras mais e mais enquanto deixava o porão de carga, ainda segurando o peito.
Tão logo ele se foi, Martin puxou Lenobia em seus braços e segurou-a enquanto ela tremia. Acariciou seus cabelos e murmurou sons baixos, sem palavras para acalmá-la.
Quando o medo foi embora, Lenobia mudou-se de seus braços e rasgou uma tira de algodão de sua camisa para enfaixar a mão de Martin. Ela não falou enquanto fazia o curativo. Só quando terminou, ela lhe apertou a mão ferida e olhou nos olhos dele perguntando:
― Aquela coisa que você disse... o feitiço que conjurou... é verdade? Será que realmente funciona?
― Oh, funciona, chérie. Funciona o suficiente para mantê-lo longe de você neste navio. Mas este homem, ele cheio de um grande mal. Você sabe que ele causou o incêndio que matou a mulher santa?
Lenobia assentiu.
― Sim, eu sei.
― Seus Bakas são fortes, malvados. Eu tornei a dor dez vezes pior, mas chegará um momento, talvez, quando ele pensará que vale a pena. E ele está certo. No mundo em vamos ele tem o poder, não eu.
― Mas você o parou!
Martin assentiu.
― Eu posso enfrentá-lo com magia da minha mãe, mas não luto com homens brancos, suas leis podem se voltar contra mim.
― Então você tem que sair de Nova Orleans. Vá para longe, onde ele não pode te ferir.
Martin sorriu.
― Oui, chérie, avec tu.
― Comigo? ― Lenobia fitou-o por um momento, sua preocupação para com ele acima de tudo em sua mente. Então ela percebeu o que ele tinha dito e se sentiu como se a aurora houvesse subido dentro dela. ― Comigo! Nós estaremos juntos.
Martin puxou-a em seus braços novamente e abraçou-a.
― É o que fez a minha magia tão forte, chérie, este amor que tenho por você. Ela preenche o meu sangue e faz meu coração bater. Agora você tem meu voto em troca. Eu sempre vou te amar, só você, Lenobia.
Lenobia apertou o rosto contra o peito e desta vez, quando ela chorou, as lágrimas eram de felicidade.

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