4 de novembro de 2015

Capítulo 7

― Está franzindo o cenho desde que deixamos a House of Night ― Bryan falou, então estalou os lábios para o par de cavalos cinzas que estava puxando a charrete. ― Oooa, calma! ― exclamou, vendo Anastasia pelo canto do olho ― veja, até os cavalos podem sentir o seu cenho franzido.
― Não estou com o cenho franzido. Estou concentrada ― ela respondeu, franzindo o cenho ― mas está certo sobre os cavalos, estão muito nervosos.
Ele lhe deu um grande sorriso.
― Tenho razão sobre mais coisas do que o comportamento dos cavalos.
Anastasia virou seu corpo de modo que pudesse encará-lo diretamente.
― Alguém alguma vez já lhe explicou a diferença de confiança e arrogância?
― Se eu te disser que não, vai me passar um sermão?
Ela vacilou antes de falar e então disse:
― Não, creio que não.
Seguiram em frente em silencio, e depois de um curto tempo, Dragon respondeu suspirando.
― Está bem, me dê um sermão. Gosto quando o faz. Realmente.
Anastasia abriu a boca para dizer que ela não se importava se ele gostava ou não, mas antes ele acrescentou:
― Verdade seja dita, eu te escutaria dizer qualquer coisa. Sua voz é linda.
Seus olhares se cruzaram brevemente.
― Quase tanto quanto a sua.
Ele pareceu bobo e jovem, porém quando ela olhou no fundo de seus olhos, viu uma profunda bondade, o que fez seu rosto esquentar.
― Oh, bem, obrigada. E obrigada pelos girassóis também. Assumo que é você quem as tem deixado para mim ― ela disse, virando para frente.
― Sim, está certa. Gostou deles? Realmente?
― Sim, realmente ― respondeu, ainda virada para frente.
Envergonhada por sua reação, ela tentou entender se era a este Dragon a quem ela reagia ou a versão mais velha que ainda rondava seus pensamentos.
Houve outro longo silêncio entre eles, e então Dragon balbuciou:
― Eles não me odeiam.
― Eles?
― As treze garotas e os dois rapazes.
― Ah, eles. E como sabe disso? Não contei quem eram eles.
Ele sorriu.
― Não tem importância. Ninguém me odeia. Sabe o que isso significa?
― Que meu feitiço surtiu efeito? ― ela respondeu, sorrindo para que ele soubesse que estava brincando.
Dragon sorriu de volta.
― Sabe que nosso feitiço funcionou muito bem. Quero dizer que não sou tão mau.
― Nunca disse que era.
― Não, você disse que eu era um delitador arrogante.
― Não acho que delitador seja uma palavra.
― Acabo de inventá-la ― ele lhe respondeu ― sou bom com palavras.
Anastasia revirou os olhos e resmungou:
― Vangloriando-se. De novo.
Ele riu outra vez.
― Viu os meus registros, não foi?
― Talvez.
― Você viu. E descobriu que sou quase tão talentoso nos trabalhos da escola quanto nos exercícios com a espada.
― Arrogante... ― ela suspirou e olhou para o outro lado, assim ele não veria o sorriso se formando em sus lábios.
― Como isso é arrogante se é a verdade?
― É arrogante se vangloriar, seja verdade ou não.
― Algumas vezes um vampiro tem que vangloriar-se um pouco para conseguir que uma sacerdotisa o note.
Sem nem seque virar para ele, Anastasia bufou.
― Você não é um vampiro.
― Ainda não sou.
― E tem muitas mulheres que te notam.
― Não quero muitas mulheres ― ele replicou, o tom de brincadeira ausente em sua voz ― eu quero você.
Ela virou-se para ele então. Seus olhos cor de café eram honestos e fortes. Esta noite seu cabelo não estava preso atrás e lhe emoldurava o rosto, fazendo com que sua mandíbula firme parecesse mais pronunciada. Ele estava vestindo uma simples camisa preta, sem desenhos ou adornos. Anastasia supôs que fosse para mesclar-se com a escuridão ao redor deles, mas para ela ele estava maior, mais forte, tão misterioso como a noite sem fim.
― Queria que dissesse algo ― ele apontou.
O olhar fixo dela mudou de seu amplo peito para os seus olhos.
― Eu não tenho certeza do que dizer.
― Podia dizer que eu tenho uma chance com você.
― Eu sou simplesmente uma conquista? Algo para ganhar, como o título de Mestre da Espada?
Ele parou a charrete abruptamente e começou a afrontar Anastasia.
― Isso é um monte de besteiras! Por que disse isso?
― É competitivo ― ela respondeu ― tem as habilidades de um predador. Persegue. Agarra. Conquista. Sou provavelmente a única mulher em muito tempo que não caiu a seus pés para te adorar. Assim você me quer porque sou um desafio.
― Quero você porque é bonita e elegante, bela e talentosa, linda e bondosa. Ou pelo menos acho que você tem um coração no peito ― ele soltou uma longa respiração, frustrado ― Anastasia, o feitiço que lançamos – supostamente – foi para mostrar a verdade sobre mim. Então admitirei que sou arrogante ― ele deu de ombros ― penso que com as minhas habilidades um pouco de arrogância é necessária. Mas quero que compreenda que te querer não tem nada a ver com a conquista ou com as habilidades de predador.
Seus olhos castanhos capturaram os dela e ela viu dor, não raiva. Lentamente, cruzou o espaço entre eles e tocou seu braço.
― Está certo. Não merece isso de mim. Sinto muito, Bryan ― ela suspirou e balançou a cabeça, corrigindo-se ― quero dizer Dragon. Estou um pouco aturdida sobre o que sinto por você.
Ele cobriu a mão dela com a sua.
― Pode me chamar de Bryan. Gosto quando diz meu nome.
― Bryan ― ela repetiu suavemente, e sentiu sua mão tremer ― não esperei encontrar alguém como você em minha vida.
― É porque sou um Mestre da Espada e vou virar um guerreiro, certo?
Ela assentiu.
― Por que te chateia?
― Você vai pensar que é estúpido.
Ele entrelaçou seus dedos com os dela.
― Não, não vou pensar. Te dou a minha promessa. Diga-me.
― Fui criada como uma Quakeress. Sabe o que é isso?
― Não exatamente. Escutei sobre eles. Não são fanáticos religiosos?
― Alguns são. Minha família não era tão ruim quando o resto da nossa comunidade. Eles... me amaram ― ela disse com hesitação, recordando ― enquanto o resto da comunidade me rejeitou depois que fui Marcada. E logo Mudada. Mas ainda recebo cartas da minha mãe. Ela as envia em segredo. Ela ainda me ama. Sei que sempre amará.
― Isso não me parece estúpido. Me parece leal, fiel e amável.
Ela sorriu.
― Essa não é a parte estúpida. O que é estúpido é que há coisas em mim que é muito Quakeress. Não penso que isso alguma vez mudará.
― Quer dizer que não adora a Nyx?
― Não, Nyx é a minha deusa. Pois desde que posso lembrar, me sinto conectada à terra de uma forma especial, uma forma diferente da minha família. Creio que foi assim que encontrei meu caminho até a Deusa, porém meu amor é a terra ― Anastasia tirou o cabelo de seu rosto e continuou ― o que estou tentando dizer é que quando eu era humana, eu era uma pacifista. Sou ainda uma pacifista. E acho que sempre serei.
Ela o viu piscar surpreendido, mas não lhe soltou a mão.
― Não posso mudar o fato de que sou um Mestre da Espada. E não o faria se pudesse.
― Eu sei! Não quis dizer...
― Espera, quero terminar. Não acredito que eu ser um Mestre da Espada e você uma pacifista seja algo de ruim.
― Mesmo quando eu digo que acho que a misericórdia é mais forte que a sua espada?
― Assim é o amor. Assim é o ódio. Há muitas coisas mais fortes que a minha espada.
― Não gosto de violência, Bryan.
― Pensa que eu gosto? ― ele balançou a cabeça e negou sua pergunta antes que ela pudesse fazê-lo. ― Não gosto! A primeira razão pela qual peguei a espada foi porque odeio a violência.
Seus ombros caíram e ele continuou com uma honestidade tão crua que foi quase doloroso de escutar.
― Eu sou pequeno. Sempre fui muito pequeno. Muito baixo, na verdade. Tão baixo que me perturbavam. Fui o alvo de todas as piadas. Eu era o filho do meio de um conde. O filho que era pequeninho, macio e loiro como uma garotinha. ― Ele engoliu a saliva. ― Não gostava de lutar. Eu não queria lugar. Mas isso não importava. A violência chegou a mim, eu querendo ou não. Se eu tivesse me dado por vencido, me rendido diante dela – diante deles – estaria arruinado, quebrado e abusado. Olhe, meu pai não era querido, se pensa que seu menor filho é seu lado mais fraco.
Ele fez uma pausa e Anastasia pôde notar que era difícil para ele falar dessa parte do seu passado – difícil para voltar ali.
― Em vez de quebrar, eu me fortaleci. Aprendi a manejar a espada para deter a violência usada contra mim. Si, fui hábil com isso. Sim, fiquei arrogante e provavelmente usei minha espada quando não precisava, especialmente antes de ser Marcado. Mas a verdade é que prefiro deter a violência no lugar de iniciá-la.
Ela sentia a palma calejada dele contra suas costas, e sentiu esse toque áspero através de seu corpo.
― Um guerreiro é um protetor, não um predador ― ele completou.
― Vive pela violência ― ela lhe respondeu, porém mesmo a seus próprios ouvidos lhe soou fraco ― você se converte em outra coisa quando luta. Você mesmo disse, os outros também. Inclusive te nomeiam por isso.
― Sou um dragão só quando tenho que ser e sempre protegerei o que é meu ― ele falou. ― Tente acreditar nisso. Tente acreditar em mim. Nos dê uma oportunidade, Anastasia.
Anastasia sentiu borboletas no estômago quando reconheceu suas palavras. A versão mais velha dele havia dito a mesma coisa – e a havia chamado de “minha”.
― Eu nos darei uma oportunidade ― ela respondeu lentamente ― se jurar lembrar que a misericórdia é mais forte que a sua espada.
― Eu juro ― ele respondeu.
E logo Anastasia de surpreendeu inclinando-se adiante e beijando-o em seus lábios. Quando ela e Bryan se separaram, estudaram-se durante muito tempo, até que ele disse:
― Depois que lançar o feitiço esta noite, gostaria de caminhar comigo pelo rio até a pradaria?
― Se me proteger ― ela respondeu suavemente.
― Sempre protegerei o que é meu ― ele repetiu.
Sorrindo, entrelaçou o braço ao dela e estalou os lábios para os cavalos continuarem a marcha.

* * *

Seus braços ainda estavam entrelaçados enquanto andavam pela rua de paralelepípedos. Anastasia geralmente contemplava os navios a vapor alinhados um atrás do outro pelo comprimento do rio. Assim como alguns dos luxos encontrados na House of Night, ela se perguntava se algum dia se acostumaria com a majestade das grandes máquinas. Elas eram de um contraste drástico comparadas à cidade, que era escura e tranquila a essa avançada hora. Os navios a vapor eram realmente palácios flutuantes, zumbindo em atividade, seus alegres candelabros resplandecendo, os sons das bailarinas e dos apostadores ecoando sobre a água ao ritmo da magia da música.
Normalmente, sua atenção estaria voltada para os navios, para as pequenas janelas que marcavam cada cabine. No entanto, esta noite Anastasia apenas lançou-lhes um olhar. Esta noite ela estava completamente distraída, e não era por ensaiar o feitiço.
O feitiço de paz era um dos mais simples de fazer. Eram necessários apenas dois ingredientes: lavanda para acalmar, que seria esmagada com a pedra favorita de Anastasia, o ajoite. A pedra continha um ilusório tom turquesa no interior do cristal e era sempre um canal para a energia do amor puro e da paz. O feitiço era elementar: mistura-se a lavanda com o ajoite e então os queima sobre a vela que simboliza a terra enquanto se falava as palavras para paz. Era fácil, rápido e efetivo.
Então por que se sentia tão inquieta?
À distância, sobre os sons de farra dos navios, ela ouviu o som definido do grasnido de um corvo. Anastasia tremeu.
― Sente frio? ― Bryan a puxou para mais perto ― realmente não quer que eu carregue a cesta de feitiços? Eu já fiz isso antes ― ele lhe disse, sorrindo.
― Estou bem. E tenho que carregar a cesta de feitiços até depois do lançamento. Preciso infundir a minha energia ― ela sorriu ― pode devolver a charrete ao menino.
― Com prazer.
Caminharam, e Anastasia se deteve repentinamente, e ele parou ao seu lado.
― Não, isso não está completamente certo. Não estou bem, e já que é o meu protetor, devo ser honesta com você. Algo está errado. Me sinto intranquila – assustada.
Ele cobriu a dela mão com a sua.
― Não deve temer. Juro que posso vencer qualquer delegado intimidador ― Bryan mirou no fundo de seus olhos ― os valentões não me ameaçam por muito tempo.
― É a confiança ou a arrogância que fala?
― Ambas ― ele sorriu ― venha, terminemos isto, assim poderemos seguir adiante e fazer coisas melhores esta noite ― ele apontou para uma pequena área similar a um parque à esquerda deles ― a prisão é o edifício quadrado de pedra do outro lado do povoado.
― Bom, façamos o que viemos fazer.
Anastasia se apressou adiante com Bryan, ignorando o sentimento de escuridão que havia estado com ela desde a Reunião do Conselho.
São os nervos, é tudo, disse a si mesma. Minha House of Night conta comigo, e estou sendo cortejada por um novato encantador. Eu simplesmente preciso me focar, se repreendeu furiosamente, e fazer o que devo.
― O que você precisa que eu faça? ― Bryan lhe perguntou enquanto cruzavam o pequeno parque e se aproximavam do edifício de pedra.
― Na realidade, quanto menos fizer, melhor ― ele a olhou enigmaticamente e ele lhe explicou ― Bryan, eu sei que está aqui como meu protetor, mas isso não muda o fato de que é um espadachim. Representa o contrário de um feitiço de paz.
― Mas eu... ― ele começou, porém Anastasia o deteve.
― Oh, sei que sua intenção é boa, mesmo tranquila, no entanto isso não muda a sua essência, sua aura de guerreiro.
Ele deu um grande sorriso. E ela franziu o cenho.
― Não quis dizer isso como um elogio ― ela adicionou enquanto analisava as etapas do feitiço em voz alta. ― Vou colocar as velas e lançar o círculo ao redor da própria prisão. A frente dá para o rio, o que quer dizer que é virado para leste. Isso é bom. Normalmente eu queimaria a lavanda sobre a vela da terra porque é o elemento com a qual me sinto mais conectada, mas como quero que o feitiço seja levado à cidade inteira, decidi usar a vela do ar como canalizador. Me agrada que o ar dê para a fachada – é um bom agouro ― expressou alegremente, ignorando o sentimento de mal-estar que não a abandonava.
― Isso soa bem – lógico ― ele concordou assentindo ― então caminharei contigo, mas me manterei fora do círculo.
― Não ― ela respondeu, vasculhando sua cesta para assegurar-se de que as pequenas velas coloridas estavam em ordem ― apenas fique aqui no parque.
― Mas não serei capaz de te ver quando estiver do outro lado da edificação.
― Não, porém poderá me ouvir ― ela respondeu distraidamente, já começando a centrar-se na preparação do feitiço.
― Anastasia, não gosto que vá estar fora das minhas vistas.
Ela encarou-o.
― Bryan, este é um feitiço de paz. Desde o momento que eu começar a espalhar a lavanda, a paz e calma me tranquilizarão. Sei que está aqui para proteger-me dos problemas, e me alegro por isso, mas a verdade é que isso é muito raro, nunca ouvi falar de uma sacerdotisa atacada durante a realização de um feitiço como esse.
Anastasia supôs que as palavras que dizia eram certas, porém se sentiu equivocada, como se alguma presença exterior as tivesse tornado pesadas e sem fundamento. Ela balançou a cabeça, mais para si mesma do que para Bryan.
― Não, não pode me seguir durante o feitiço.
― Certo. Entendo. Não gosto, mas ficarei aqui.
Ele apontou uma área sombreada na borda do parque, fora do raio da escassa iluminação da lâmpada a gás na frente da prisão;
― Sabe que há bem pouca luz ao redor do edifício.
Ela levantou uma sobrancelha.
― Bryan, sou um vampiro. Preciso de pouca luz, e é bom que esteja escuro aqui. Manterá minha magia longe dos olhos humanos, lembra?
― Eu não quis dizer isso... eu só disse... ― começou duas vezes e logo suspirou, se dirigiu até a área que havia apontado anteriormente e falou firmemente: ― estarei aqui. Te esperando.
― Bom. Isto não deve levar muito tempo, mas eu tendo a ser presa por meus feitiços.
Anastasia parou diante dele, dando-lhe uma palmadinha no braço.
― Eu sei ― ele murmurou ― nem sequer notaria um urso violento por perto.
― Ele não estava violento ― respondeu, rindo.
O rapaz a havia iluminado com um pouco de seu humor, de modo que sussurrou o nome de Nyx com um sorriso em seus lábios e, se sentindo mais segura e serena, Anastasia colocou a primeira vela – a amarela, no leste para o Ar – e chamou o elemento para seu círculo. Concentrando-se completamente no feitiço que estava por vir, ela alcançou a bolsa de veludo que continha o sal e, enquanto andava no sentido horário em volta da construção, espalhava o sal em uma linha contínua pelo solo onde pisava, sussurrando:

O sal uso neste feitiço para atar,
Para selar a intenção, tranquilizar.

Deixando de lado o pressentimento perturbador, Anastasia caminhou em volta da prisão, lançando seu círculo e mantendo seu pensamentos calmos, serenos, felizes. E, mesmo que tenha decidido fazer o feitiço com a vela que simbolizava o ar, enquanto trabalhava ela automaticamente visualizou-se alcançando o solo profundamente, trazendo a substanciosa magia da terra para ajudar a firmar o feitiço e reforçá-lo. Como havia feito desde que tentou ainda novata, o elemento lhe respondeu, magia forte e estável, despertada desde as profundezas da prisão e começou a fluir.

* * *

A criatura da Escuridão sentiu a onda da terra em resposta ao pedido cortês da jovem sacerdotisa e supôs que o tempo para fazer a vontade de seu amo havia chegado. Começou um sussurro de um tipo realmente diferente.
O humano, que havia começado a caminhar de um lado para o outro na frente da jaula de prata, fez uma pausa e escutou.

Para o fogo frio sobreviver
A vampira Anastasia não deve viver.

― Sim! Sim, eu sei ― Biddle grunhiu.
Compulsivamente, movia sua cabeça nervosamente e se mantinha dando tapas em sua camisa, como se estivesse tentando se desfazer de insetos imaginários que caminhavam sobre sua pele.
― Mas não posso chegar a ela naquele ninho de vampiros.
― Esta noite ela está perto
Mate-a lá em cima, traga-a aqui.
― Quer dizer que ela está lá fora? Sozinha?
Biddle não pareceu notar que a voz da criatura havia mudado de um sussurro serpeante para um cântico profundo e melódico muito mais sedutor do que um humano seria capaz de fazer.
― Dragon Lankford é seu protetor,
Mas o fogo frio pode sair vencedor.
No interior da jaula, a escura criatura abriu sua mandíbula, e com um terrível som, vomitou negros fios pegajosos que rastejaram até Biddle, que avançou impacientemente para encontra-los.
Como se saudando um amante, ele gemeu prazerosamente quando a Escuridão se abrigou ao redor de suas pernas e se infiltrou em sua pele, enchendo-o com um poder que era tão aditivo quanto destrutivo.
Reforçado com a força emprestada, Biddle tirou a comprida adaga que carregava desde que havia capturado a criatura – desde que ele a estava alimentando com seu sangue.
― Depois que o sangue da vampira eu beber,
Você terá mais poder.
― Sim! Com mais poder posso me desfazer desses malditos vampiros para sempre! Os liquidarei de um em um. E começarei esta noite, com esse pequeno bastardo arrogante.
Biddle começou a subir a estreita escadaria. Atrás dele, a criatura todavia falava:
― Não se distraia com o menino!
Com Anastasia ausente, ele não é mais que um peão do destino.
Biddle bateu com a mão em seu peito, riu de si mesmo e ignorou as palavras da criatura.

* * *

A profunda paz da suave brisa...

O feitiço de Anastasia foi flutuando através da noite até Dragon. Ele podia ver a sua silhueta diante da prisão, fora da iluminação das oscilantes lâmpadas a gás que pontilhavam o portal de pedra. Ela cantava com a mesma cadência monótona que havia usado para o feitiço de atração.

A profunda paz do fogo mais ardente...

Dragon pensou que a voz era provavelmente o som mais bonito que ele alguma vez tinha ouvido. Le acalmava e fazia parecer que tudo estava bem no mundo.

A profunda paz do sal marinho...

Ele havia estado se preocupando que Anastasia não gostasse dele porque ele estava treinando para ser guerreiro, mas enquanto ela realizava seu feitiço, dizendo as palavras e alimentando o fogo com a lavanda e o ajoite picado, Bryan percebeu que não tinha com o que se preocupar.

A profunda paz da terra eterna...

Seria fácil convencer Anastasia de que ele não era realmente violento. Ele não era como costumava ser. Era mais velho e sábio. Só usou sua espada quando devia fazê-lo – ou em sua maioria só havia usado dessa maneira. Ela veria.

A profunda paz da brilhante lua...

Ela entenderia. Dragon deixou um suspiro baixo sair lentamente e se recostou mais comodamente contra o grande carvalho. Ele contemplava o céu e pensava que era realmente inteligente deixar a cada dia um girassol para Anastasia quando aconteceu. Em um momento ele estava ali de pé, tranquilo, e no seguinte Biddle estava em sua frente.
Dragon cravou os olhos no homem, congelado de surpresa. Nos poucos dias desde que o tinha visto, Biddle tinha experimentado uma terrível transformação.
Seu rosto estava mais magro, suas bochechas secas. Estava com olheiras escuras e inchadas. Ele estremecia espasmodicamente.
Aquilo foi o que interrompeu o ritual das Filhas das Trevas e as expulsou da ilha? Dragon imaginou que podia quebrar o esquelético humano com uma mão. Ele era obviamente apenas a patética casca de um homem.
Dragon tentou manter a repugnância longe de sua voz quando disse:
― Delegado Biddle, há algo que posso fazer por você?
Biddle sorriu.
― Sim. Você pode morrer.
Pela primeira vez em sua vida, Bryan Dragon Lankford viu o rosto da maldade pura.
O instinto levou Dragon a desembainhar a espada, mas demorou demais. Biddle se moveu com uma velocidade e força sobre-humana. Ele agarrou a garganta de Dragon e lançou com força contra o carvalho, forçando o ar a sair com um sibilo de seu corpo. Com a outra mão, o delegado golpeou a espada que Dragon segurava fracamente.
Biddle riu da cara de Dragon, dizendo-lhe:
― Seu fanfarrão! Seu pequeno fanfarrão presunçoso!
― Não!
Dragon engasgou, tentando lutar pelo ar. A familiaridade misteriosa nas palavras do delegado e suas ações o chocaram, e repentinamente ele se encontrava novamente naquele estábulo quatro anos atrás, perdendo sua casa, família e seu direito de nascimento uma vez mais.
― E sabe que ― Biddle acrescentou, pressionando sua boca no ouvido de Bryan ― não a matarei aqui em cima, a levarei para baixo. Isso é o que vou fazer – o que quiser. A arrastarei até lá embaixo e a matarei, porém primeiro vou ter um pouco de diversão com essa pequena e atraente vampira.
A garganta de Dragon ardia, e enquanto tudo ficava escuro, ele escutou Anastasia, perto demais, gritar seu nome.

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