15 de novembro de 2015

Capítulo 6

A casa de Vickie era de esquina, e eles se aproximaram dela pela rua lateral. A essa hora o céu estava cheio de pesadas nuvens roxas. A luz tinha quase uma propriedade subaquática.
— Parece que haverá uma tempestade, — Matt disse.
Bonnie espiou Damon. Nem ele nem Stefan gostavam de luz forte. E ela conseguia sentir o Poder emanando dele, como uma batida pouco abaixo da superfície de sua pele. Ele sorriu sem olhar para ela e disse, — Que tal neve em junho?
Bonnie ficou rígida com um arrepio.
Tinha olhado o jeito de Damon uma ou duas vezes no celeiro e o encontrado escutando a história com um ar de indiferença desapegada. Ao contrário de Stefan, sua expressão não tinha mudado nem levemente quando mencionou Elena – ou quando contou sobre a morte de Sue. O que ele realmente sentia por Elena? Tinha invocado uma tempestade de neve uma vez e a deixado para congelar. O que estava sentindo agora? Ele ao menos ligava para pegar o assassino?
— Esse é o quarto da Vickie, — disse Meredith. — A janela da sacada nos fundos.
Stefan olhou para Damon. — Quantas pessoas na casa? 
— Dois. Homem e mulher. A mulher está bêbada. 
Pobre Sra. Bennett, pensou Bonnie.
— Preciso dos dois adormecidos, — Stefan disse.
Não conseguindo evitar, Bonnie estava fascinada pela onda de Poder que sentiu de Damon. Suas habilidades psíquicas nunca foram fortes o suficiente para sentir a crua essência antes, mas agora elas eram. Agora conseguia sentir isso tão claramente quanto conseguia ver a luz violeta desbotada ou o cheiro de matagal do lado de fora da janela da Vickie.
Damon deu de ombros. — Eles estão dormindo. 
Stefan bateu levemente com o pé no vidro.
Não houve resposta, ou pelo menos nenhum que Bonnie conseguisse ver. Mas Stefan e Damon olharam um para o outro.
— Ela já está parcialmente em transe, — Damon disse.
— Ela está assustada. Eu farei isso; ela me conhece, — disse Stefan. Ele colocou seus dedos na janela. — Vickie, é Stefan Salvatore, — disse. — Estou aqui para ajudá-la. Venha me deixar entrar.
Sua voz estava baixa, nada que pudesse ter sido ouvida do outro lado do vidro. Mas após um momento as cortinas se movimentaram e um rosto apareceu.
Bonnie arfou audivelmente.
O longo cabelo castanho claro de Vickie estava desgrenhado, e sua pele estava da cor de um giz. Havia enormes círculos pretos debaixo de seus olhos. Os próprios olhos estavam fixos e vítreos. Seus lábios estavam ásperos e secos.
— Ela parece estar vestida para a cena da loucura de Ofélia, — Meredith sussurrou. — De camisola e tudo.
— Ela parece estar possuída, — Bonnie sussurrou de volta, enervada.
Stefan simplesmente disse, — Vickie, abra a janela. 
Mecanicamente, como uma boneca de dar corda, Vickie girou uma das correias laterais para abrir a janela da sacada, e Stefan disse, — Posso entrar? 
Os olhos vidrados de Vickie varreram o grupo do lado de fora. Por um momento Bonnie achou que ela não reconhecera nenhum deles. Mas então piscou e disse lentamente, — Meredith... Bonnie... Stefan? Você está de volta. O que está fazendo aqui?
— Convide-me para entrar, Vickie. — A voz de Stefan era hipnótica.
— Stefan... — Houve uma longa pausa e então: — Entre.
Ela deu um passo para trás enquanto ele colocava uma mão no peitoril e saltava por cima. Matt o seguiu, então Meredith. Bonnie, que estava usando uma mini saia, ficou do lado de fora com Damon. Desejou ter usado calça jeans na escola hoje, mas então não soubera que iria numa expedição.
— Você não deveria estar aqui, — Vickie disse para Stefan, quase calmamente. — Ele vem para me pegar. Vai te pegar também.
Meredith colocou um braço ao redor dela. Stefan simplesmente disse, — Quem? 
— Ele. Ele vem até mim nos meus sonhos. Matou a Sue. — O tom trivial de Vickie era mais assustador do que qualquer histeria poderia ter sido.
— Vickie, viemos ajudá-la, — Meredith disse gentilmente. — Tudo vai ficar bem agora. Não o deixaremos te machucar, prometo.
Vickie virou-se para encará-la. Olhou Meredith de cima a baixo como se Meredith tivesse repentinamente se mudado para algo inacreditável. Então começou a rir.
Era horrível, uma rouca explosão de felicidade como uma tosse seca. Continuou e continuou até Bonnie querer cobrir suas orelhas. Finalmente, Stefan disse, — Vickie, pare com isso. 
A risada virou algo parecido com soluços, e quando Vickie levantou sua cabeça novamente, parecia menos vidrada mas mais genuinamente chateada. — Vocês todos irão morrer, Stefan, — disse, balançando a cabeça. — Ninguém pode lutar com ele e viver.
— Precisamos saber sobre ele para que possamos lutar contra ele. Precisamos da sua ajuda, — Stefan disse. — Me diga como ele é. 
— Não posso vê-lo nos meus sonhos. É simplesmente uma sombra sem rosto. — Vickie sussurrou, seus ombros se curvando.
— Mas você o viu na casa da Caroline, — Stefan disse insistentemente. — Vickie, me escute, — acrescentou enquanto a garota se virava para longe severamente. — Sei que está assustada, mas isso é importante, mais importante do que pode entender. Nós não podemos lutar contra ele a não ser que saibamos contra o que estamos lidando, e você é a única, a única agora que tem a informação que precisamos. Precisa nos ajudar. 
— Não consigo lembrar...
A voz de Stefan estava inflexível. — Tenho um modo de fazê-la se lembrar — ele disse. — Você me deixa tentar? 
Segundo se arrastaram, então Vickie deu um longo e borbulhante suspiro, seu corpo mole.
— Faça o que quiser, — disse indiferentemente. — Não ligo. Não fará diferença.
— Você é uma garota corajosa. Agora olhe para mim, Vickie. Quero que relaxe. Simplesmente olhe para mim e relaxe. — A voz de Stefan baixou para um murmúrio ninante. Continuou por alguns minutos, e então os olhos de Vickie se fecharam. — Sente-se. — Stefan a guiou para se sentar na cama. Ele se sentou ao lado dela, olhando para seu rosto. — Vickie, você se sente calma e relaxada agora. Nada que se lembrar vai te machucar, — ele disse, sua voz suave. — Agora, preciso que volte à noite de sábado. Você está no andar de cima, na suíte principal da casa de Caroline. Sue Carson está com você, e mais alguém. Preciso ver... 
— Não! — Vickie se contorceu para frente e para trás como se tentasse escapar de algo. — Não! Não posso... 
— Vickie, se acalme. Ele não te machucará. Não pode te ver, mas você pode vê-lo. Me escute.
Enquanto Stefan falava, as lamúrias de Vickie se aquietaram. Mas ela ainda se debatia e retorcia.
— Você precisa vê-lo, Vickie. Nos ajudar a lutar contra ele. Como ele é? 
— Ele parece o demônio! 
Era quase um grito. Meredith sentou do outro lado de Vickie e tomou sua mão.
Ela olhou para fora da janela para Bonnie, que olhou de volta com olhos arregalados e estremeceu ligeiramente. Bonnie não fazia ideia do que Vickie estava falando.
— Me fale mais, — Stefan disse uniformemente.
A boca de Vickie se contorceu. Suas narinas estavam dilatadas como se estivesse cheirando algo horrível. Quando falou, fez cada palavra sair separadamente, como se a estivessem deixando-a enjoada.
— Ele usa... uma velha capa de chuva. Ela oscila em suas pernas no vento. Faz o vento soprar. Seu cabelo é loiro. Quase branco. Fica de pé por sua cabeça toda. Seus olhos são tão azuis – azul elétrico. — Vickie lambeu seus lábios e engoliu, parecendo repugnada.
— Azul é a cor da morte. 
Trovão rugiu e chicoteou no céu. Damon olhou para cima rapidamente, então franziu a testa, os olhos se estreitando.
— Ele é alto. E está rindo. Está se esticando para me alcançar, rindo. Mas Sue grita “Não, não” e tento me desvencilhar. Então ele a pega ao invés. A janela é quebrada, e a sacada está logo ali. Sue está gritando "Não, por favor." E então eu o observo – o observo jogá-la... — O fôlego de Vickie estava problemático, sua voz subindo histericamente.
— Vickie, está tudo bem. Você não está realmente lá. Você está a salvo. 
— Ah, por favor, não – Sue! Sue! Sue!
— Vickie, fique comigo. Escuta. Só preciso de mais uma coisa. Olhe para ele. Diga-me se ele está usando uma jóia azul.
Mas Vickie estava balançando sua cabeça para frente e para trás, soluçando, mais histérica a cada segundo. — Não! Não! Eu sou a próxima! Eu sou a próxima! — De repente, seus olhos se abriram enquanto saia do transe sozinha, engasgando e arfando. Então sua cabeça se jogou para os lados.
Na parede, uma foto estava se agitando.
Foi seguida pelo espelho emoldurado por bambu, então pelos frascos de perfume e os batons na penteadeira abaixo. Com o som como o de pipoca, brincos começaram a estourar de um porta-brincos. A agitação ficou mais alta e mais alta. Um chapéu de palha caiu do gancho.
Fotos estavam sendo derramadas do espelho. Fitas e CDs se espalharam de uma prateleira para o chão como cartas de baralho sendo distribuídas.
Meredith estava de pé assim como Matt, os punhos fechados.
— Faça isso parar! Faça isso parar! — Vickie gritou selvagemente.
Mas não parou. Matt e Meredith olharam ao redor enquanto novos objetos se juntavam à dança. Tudo que era móvel estava sacudindo, pulando, oscilando. Era como se o quarto tivesse sido pego por um terremoto.
— Pare! Pare! — gritou Vickie, suas mãos sobre suas orelhas.
Diretamente acima da casa um trovão explodiu.
Bonnie pulou violentamente enquanto via o ziguezague do relâmpago disparar pelo céu.
Instintivamente agarrou algo no que se segurar. À medida que o raio resplandecia, um pôster na parede de Vickie se rasgou diagonalmente como se partido por uma faca fantasma. Bonnie engoliu um grito e se agarrou mais firme.
Então, tão rapidamente como se alguém tivesse apertado um botão de desligar, todos os barulhos pararam.
O quarto de Vickie estava quieto. A franja no abajur do lado da cama oscilou ligeiramente. O pôster tinha se enrolado em dois pedaços irregulares, cima e baixo. Lentamente, Vickie abaixou suas mãos de suas orelhas.
Matt e Meredith olharam ao redor meio trôpegos.
Bonnie fechou seus olhos e murmurou algo parecido com uma oração. Não foi até ela abri-los novamente que percebeu no que estivera se apoiando. Era a maleável frieza de uma jaqueta de couro. Era o braço de Damon.
Ele não tinha se movido para longe dela, contudo. Não se movia agora. Estava se inclinando para frente ligeiramente, os olhos estreitos, observando o quarto intensamente.
— Olhe para o espelho, — ele disse.
Todos olharam, e Bonnie prendeu sua respiração, os dedos agarrando novamente. Ela não tinha visto, mas deve ter acontecido enquanto tudo no quarto era uma selvageria.
Na superfície de vidro do espelho de bambu duas palavras estavam rabiscadas com o batom coral escuro de Vickie.
Boa noite, Querida.
— Ah, Deus, — Bonnie sussurrou.
Stefan se virou do espelho para Vickie. Havia algo diferente nele, Bonnie pensou – estava se mantendo relaxado mas ereto, como um soldado que acabou de ter confirmação de uma batalha. Era como se ele tivesse aceitado um desafio pessoal de algum tipo.
Ele pegou algo de seu bolso traseiro e desdobrou, relevando raminhos de uma planta com longas folhas verdes e pequeninas flores lilás.
— Isso é verbena, verbena fresca, — disse silenciosamente, sua voz uniforme e intensa. — Peguei fora de Florença; está florescendo lá agora. — Ele pegou a mão de Vickie e pressionou o pacote contra ela. — Quero que você segure e fique com isso. Coloque um pouco em todos os cômodos da casa, e esconda pedaços em algum lugar das roupas dos seus pais se puder, para que eles tenham isso perto deles. Enquanto tiver isso com você, ele não pode controlar a sua mente. Ele pode te assustar, Vickie, mas não pode forçá-la a fazer nada, como abrir uma janela ou porta para ele. E escute, Vickie, porque isso é importante.
Vickie estava tremendo, seu rosto enrugado. Stefan pegou suas mãos e a fazer olhar para ele, falando lenta e claramente.
— Se eu estiver certo, Vickie, ele não pode entrar a não ser que você o deixe. Então fale com os seus pais. Diga a eles que é importante que eles não convidem estranhos para dentro de casa. De fato, eu posso fazer Damon colocar essa sugestão na mente deles agora mesmo. — Ele olhou para Damon, que deu de ombros ligeiramente e acenou, parecendo como se sua atenção estivesse em outro lugar.
Auto - conscientemente, Bonnie retirou sua mão da jaqueta dele.
A cabeça de Vickie estava inclinada sobre a verbena.
— Ele entrará aqui de algum jeito, — disse suavemente, com terrível certeza.
— Não. Vickie, me escute. De agora em diante, vamos observar a sua casa; vamos ficar esperando por ele.
— Não adianta, — Vickie disse. — Você não pode pará-lo. — Começou a rir e chorar ao mesmo tempo.
— Vamos tentar, — Stefan disse. Ele olhou para Meredith e Matt, que concordaram.
— Certo. Desse momento em diante, você nunca estará sozinha. Haverá sempre um ou mais de nós do lado de fora observando você. 
Vickie simplesmente balançou a cabeça abaixada. Meredith deu um aperto em seu braço e ficou de pé enquanto Stefan inclinava sua cabeça na direção da janela.
Quando ela e Matt se juntaram a ele lá, Stefan falou a todos com uma voz baixa. — Não quero deixá-la desprotegida, mas não posso ficar agora. Há algo que preciso fazer, e preciso uma das garotas comigo. Por outro lado, não quero deixar Bonnie ou Meredith sozinhas aqui. — Ele se virou para Matt. — Matt, você... 
— Eu fico, — disse Damon.
Todos olharam para ele, surpresos.
— Bem, é a solução lógica, não? — Damon parecia divertido. — Afinal, o que você espera que um deles faça contra ele de qualquer jeito?
— Eles podem me chamar. Posso monitorar os pensamentos deles dessa distância, — Stefan disse, não cedendo um centímetro.
— Bem, — Damon disse ironicamente, — Posso chamá-lo também, irmãozinho, se eu me meter em encrencas. Estou ficando entediado com essa sua investigação de qualquer jeito. Tanto faz eu ficar aqui quanto em qualquer outro lugar.
— Vickie precisa ser protegida, não abusada, — Stefan disse.
O sorriso de Damon era charmoso. — Ela? — Ele acenou na direção da garota que estava sentada na cama, balançando-se com a verbena. Do cabelo desgrenhado até os pés descalços, Vickie não era uma figura bonita. — Você tem minha palavra, irmão, consigo melhor do que isso. — Por apenas um instante, Bonnie achou que aqueles olhos escuros olharam para o lado na direção dela. — Você está sempre dizendo como gostaria de confiar em mim, de qualquer jeito, — Damon acrescentou. — Aqui está a sua chance de provar. 
Stefan parecia como se quisesse confiar, como se estivesse tentado. Ele também parecia desconfiado. Damon não disse nada, meramente sorriu daquele jeito derrisório e enigmático.
Praticamente pedindo para que não confiassem, Bonnie pensou.
Os dois irmão ficaram olhando um para o outro enquanto o silêncio e a tensão se esticavam entre eles. Bem então Bonnie pôde ver a semelhança familiar de seus rostos, um sério e intenso, o outro brando e ligeiramente zombeteiro, mas ambos inumanamente bonitos.
Stefan soltou sua respiração lentamente. — Está bem, — disse silenciosamente por fim. Bonnie, Matt e Meredith estavam todos encarando-o, mas ele não pareceu notar. Falou com Damon como se fossem as únicas pessoas ali. — Você fica aqui, do lado de fora da casa onde não será visto. Voltarei e assumirei quando eu terminar o que estou fazendo.
As sobrancelhas de Meredith estavam em seu cabelo, mas ela não fez comentário algum. Tampouco Matt. Bonnie tentou domar seus próprios sentimentos de incerteza. Stefan devia saber o que estava fazendo, ela disse a si mesma. De qualquer jeito, é melhor que ele saiba.
— Não demore muito, — Damon disse desdenhosamente.
E foi assim que eles foram embora, com Damon se misturando à escuridão na sombra das nogueiras negras no quintal de Vickie e a própria Vickie em seu quarto, balançando-se sem parar.
No carro, Meredith disse, — Para onde? 
— Preciso testar uma teoria, — disse Stefan brevemente.
— Que o assassino é vampiro? — Matt disse dos fundos, onde estava sentado com Bonnie.
Stefan olhou para ele aguçadamente. — Sim. 
— É por isso que você disse a Vickie para não convidar ninguém para entrar, — Meredith acrescentou, para não fracassar no departamento de raciocínio. Vampiros, Bonnie se lembrou, não podiam entrar em um lugar onde humanos viviam e dormir a não ser que fossem convidados. — E foi por isso que perguntou se o homem estava usando uma pedra azul.
— Um amuleto contra a luz do dia, — Stefan disse, esticando sua mão direita. No terceiro dedo havia um anel de prata com lápis-lazúli. — Sem um destes, exposição direta ao sol nos mataria. Se o assassino é um vampiro, ele mantém uma pedra como essa em algum lugar junto de si. — Como se por instinto, Stefan esticou sua mão para tocar brevemente em algo sob sua camiseta. Após um momento, Bonnie percebeu o que deveria ser.
O anel de Elena. Stefan tinha dado a ela em primeiro lugar, e depois de sua morte ele tinha pego para usar em uma corrente ao redor do seu pescoço. Então aquela parte dela sempre estaria com ele, ele tinha dito.
Quando Bonnie olhou para Matt ao seu lado, viu que seus olhos estavam fechados.
— Então como podemos afirmar que ele é um vampiro? — Meredith perguntou.
— Há só uma maneira na qual consigo pensar, e não é muito agradável. Mas tem que ser feita.
O coração de Bonnie afundou. Se Stefan achava que não era agradável, ela tinha certeza de que ia achar ainda menos. — O que é? — disse sem entusiasmo.
— Preciso dar uma olhada no corpo de Sue.
Houve um silêncio absoluto. Até mesmo Meredith, normalmente impassível, parecia chocada. Matt se virou, inclinando sua testa contra o vidro da janela.
— Tem que estar brincando, — Bonnie disse.
— Gostaria de estar.
— Mas – pelo amor de Deus, Stefan. Não podemos. Eles não nos deixarão. Quero dizer, o que vamos dizer? ‘Me dá licença enquanto eu examino esse cadáver procurando por buracos’?
— Bonnie, para com isso, — Meredith disse.
— Não consigo evitar, — Bonnie retrucou afiadamente. — É uma péssima ideia. E além do mais, a polícia já examinou o corpo dela. Não havia marcas exceto os cortes que ela conseguiu caindo.
— A polícia não sabe pelo que procurar, — Stefan disse. Sua voz estava dura. Escutando isso trouxe algo à lembrança de Bonnie, algo que ela tendia a esquecer. Stefan era um deles. Um dos caçadores. Ele tinha visto pessoas mortas antes. Até mesmo podia ter matado algumas.
Ele bebe sangue, pensou, e estremeceu.
— Bem? — disse Stefan. — Ainda estão comigo?
Bonnie tentou se diminuir no banco traseiro. As mãos de Meredith estavam firmes no volante. Foi Matt quem falou, virando-se da janela.
— Não temos escolha, temos? — disse cansadamente.
— Dá para visitar o corpo das sete até as dez na funerária, — Meredith acrescentou, sua voz baixa.
— Teremos que esperar até depois da visita, então. Depois que fecharem a funerária, quando pudermos ficar sozinhos com ela, — disse Stefan.
— Essa é a coisa mais nojenta que já tive que fazer, — Bonnie sussurrou miseravelmente. A capela funerária estava escura e fria. Stefan tinha solto as fechaduras da porta de fora com um pedacinho de metal flexível.
A sala de visitação era grossamente atapetada, suas paredes cobertas com painéis sóbrios de carvalho. Seria um lugar deprimente mesmo com as luzes acesas. No escuro parecia mais fechada e sufocante e apinhada de formas grotescas. Parecia como se alguém pudesse estar agachado atrás de cada um dos muitos arranjos florais de pé.
— Não quero estar aqui, — Bonnie gemeu.
— Vamos simplesmente acabar com isso, está bem? — Matt disse através de seus dentes.
Quando ligou a lanterna, Bonnie olhou em qualquer lugar exceto para onde ele estava apontando. Não queria ver o caixão, não queria. Ela encarou as flores, um coração feito de rosas rosas. Do lado de fora, um trovão resmungava como um animal adormecido.
— Deixe-me abrir isso – aqui, — Stefan dizia. Apesar de sua perseverança de não o fazer, Bonnie olhou.
O caixão era branco, sinalizado com cetim rosa pálido. O cabelo loiro de Sue brilhava contra ele como o cabelo de uma princesa adormecido em um conto de fada. Mas Sue não parecia como se estivesse dormindo. Estava pálida demais, parada demais. Como uma figura de cera.
Bonnie deslizou mais para perto, seus olhos fixos no rosto de Sue.
Era por isso que era tão frio aqui, disse a si mesma com firmeza. Para impedir a cera de derreter. Ajudou um pouco.
Stefan se abaixou para tocar o colarinho da blusa rosa de Sue. Ele desabotoou o botão de cima.
— Pelo amor de Deus, — Bonnie sussurrou, horrorizada.
— Por que acha que estamos aqui? — Stefan sibilou de volta. Mas seus dedos pausaram no segundo botão.
Bonnie observou por um minuto e então tomou sua decisão. — Saia do caminho, — ela disse, e quando Stefan não se moveu imediatamente, deu-lhe um empurrão. Meredith aproximou-se dela e elas formaram uma falange entre Sue e os garotos. Seus olhos se encontraram com entendimento. Se tivessem que realmente remover a blusa, os garotos iriam sair.
Bonnie desabotoou os pequenos botões enquanto Meredith segurava a luz. A pele de Sue parecia tão cerácea ao toque quanto ao olhar, fria contra seus dedos. Desajeitadamente, dobrou a blusa para revelar um sutiã branco com laços. Então se forçou para empurrar o brilhoso cabelo de Sue para longe de seu pálido pescoço. O cabelo estava duro pelo spray.
— Sem buracos, — disse, olhando para a garganta de Sue. Estava orgulhosa por sua voz estar quase firme.
— Não, — disse Stefan estranhamente. — Mas há outra coisa. Olhe para isso. — Gentilmente, ele esticou a mão ao redor de Bonnie para apontar um corte, pálido e sem sangue como a pele ao redor dele, mas visível como uma linha fraca correndo da clavícula para os seios. Sobre o coração. Os longos dedos de Stefan traçaram o ar sobre ele e Bonnie endureceu, pronta para estapear a mão se ele tocasse.
— O que é? — perguntou Meredith, intrigada.
— Um mistério, — Stefan disse. Sua voz ainda estava estranha. — Se eu visse uma marca como essa em um vampiro, significaria que o vampiro estava dando sangue a um humano. É assim que é feito. Dentes humanos não conseguem perfurar a nossa pele, então nós nos cortamos se queremos dividir nosso sangue. Mas Sue não era uma vampira.
— Ela certamente não era! — disse Bonnie. Tentou lutar contra a imagem que sua mente queria lhe mostrar, de Elena se inclinando sobre um corte como aquele no peito de Stefan e sugando, bebendo...
Ela estremeceu e percebeu que seus olhos estavam fechados. — Há mais alguma coisa que você precisa ver? — ela disse, abrindo-os.
— Não. Isso é tudo.
Bonnie abotoou os botões. Ela rearrumou o cabelo de Sue. Então, enquanto Meredith e Stefan abaixavam a tampa do caixão novamente, andou rapidamente para fora da sala de visitação e para a porta de fora. Ficou ali, os braços enrolados ao seu redor.
Uma mão tocou seu cotovelo levemente. Era Matt.
— Você é mais durona do que aparenta, — ele disse.
— É, bem... — Ela tentou dar de ombros. E então de repente estava chorando, chorando muito. Matt colocou seus braços ao redor dela.
— Eu sei, — ele disse. Só isso. Nada de “Não chore” ou “Não esquenta” ou “Tudo vai ficar bem.” Só “Eu sei”. A voz dele estava tão desolada quanto se sentia.
— Eles colocaram spray de cabelo no cabelo dela, — ela soluçou. — Sue nunca usou spray de cabelo. É horrível. — De algum modo, bem então, isso parecia a pior das coisas.
Ele simplesmente segurou-a.
Após um momento Bonnie recuperou seu fôlego. Deu-se conta de que estava segurando Matt quase dolorosamente apertado e afrouxou seus braços. — Deixei sua camiseta toda molhada, — disse apologeticamente, fungando.
— Não importa.
Algo na voz dele a fez dar um passo para trás e olhar para ele. Estava do jeito como estivera no estacionamento da escola. Tão perdido, tão... sem esperança.
— Matt, o que foi? — ela sussurrou. — Por favor.
— Já te contei, — ele disse. Estava olhando para longe para alguma distância imensurável. — Sue está deitada lá morta, e não deveria estar. Você mesma disse, Bonnie. Que tipo de mundo é esse que deixa coisas como essa acontecerem? Que deixa uma garota como Sue ser assassinada por prazer, ou crianças no Afeganistão morrerem de fome, ou focas-bebês terem suas peles tiradas quando vivos? Se é assim que o mundo é, de que adianta alguma coisa? Está tudo acabado de qualquer jeito. — Ele parou e pareceu voltar a si. — Você entende o que estou falando?
— Não tenho certeza. — Bonnie nem mesmo achava que queria ter. Era assustador demais. Mas estava estupefata por uma onda de confortá-lo, para remover aquele olhar perdido dos seus olhos. — Matt, eu...
— Acabamos, — Stefan disse atrás deles.
Enquanto Matt olhava na direção da voz, o olhar perdido pareceu se intensificar. — Às vezes acho que estamos todos acabados, — Matt disse, se afastando de Bonnie, mas não explicou o que queria dizer com aquilo. — Vamos.

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