25 de novembro de 2015

Capítulo 5

Elena entrou no banco de trás do Jaguar e colocou uma camisa aqua marinha e jeans sob a camisola, apenas para o caso de um policial - ou mesmo alguém tentando ajudar os proprietários de um automóvel aparentemente parado em uma estrada deserta – parar por ali. E então ela se deitou no banco de trás do Jaguar.
Mas, apesar de agora se sentir quente e confortável, o sono não vinha.
O que eu quero? Realmente quero agora? Ela se perguntou. E a resposta veio de imediato.
Quero ver Stefan. Quero sentir seus braços em volta de mim. Quero apenas olhar para seu rosto - em seus olhos verdes com aquele olhar especial que só ele já mostrou para mim. Quero que ele me perdoe e me diga que sabe que eu sempre vou amá-lo.
Elena se sentiu ruborizar com o calor que atravessou seu corpo, quero que Stefan me beije. Quero os beijos Stefan... quente e doce e reconfortante...
Elena estava pensando nisso pela segunda ou terceira vez, ela fechou os olhos e mudou a posição, mais uma vez as lágrimas brotando. Se ao menos pudesse chorar, chorar muito por Stefan. Mas algo a impedia. Ela tentou muito espremer uma lágrima.
Deus, ela estava exausta...
Elena tentou. Manteve os olhos fechados e se virou para trás e para frente, tentando não pensar em Stefan por apenas alguns minutos. Ela tinha que dormir. Desesperada, deu um suspiro poderoso para tentar encontrar uma posição melhor - quando de repente tudo mudou.
Elena estava confortável. Muito confortável. Não podia sentir o lugar ao todo. Ela se ergueu e congelou, sentando-se no ar. Ela estava quase batendo a cabeça contra o teto do Jag.
Perdi a gravidade de novo! pensou, horrorizada. Mas, não - isto era diferente do que tinha acontecido da primeira vez quando voltou da outra vida, e tinha flutuado como um balão. Não conseguia explicar o porquê, mas tinha certeza.
Ela estava com medo de se mover em qualquer direção. Não tinha certeza da causa da sua angústia, mas não ousou se mover.
E então ela viu.
Viu a si mesma, com a cabeça para trás e os olhos fechados no banco de trás do carro. Poderia dizer cada pequeno detalhe, desde as dobras em sua camisa aquamarinha de veludo até a trança que fez em seu cabelo dourado pálido, que, por falta de um prendedor de cabelo, estava se desfazendo. Ela parecia como se estivesse dormindo serenamente.
Então foi assim que tudo terminou. Isto é o que eles vão dizer, que Elena Gilbert, em um dia de verão, morreu tranquilamente em seu sono. A causa de morte jamais foi encontrada...
Porque eles nunca poderiam ver o coração partido como causa de morte, pensou Elena, e em um gesto ainda mais melodramático do que seus habituais gestos melodramáticos, tentou se lançar para baixo para seu próprio corpo com um braço cobrindo o rosto.
Não funcionou. Assim que ela começou a se lançar, viu-se fora do Jaguar.
Ela tinha passado diretamente através do teto sem sentir nada. Suponho que é isso o que acontece quando você é um fantasma, pensou. Mas nada é como da ultima vez. Quando eu vi o túnel, fui para a Luz. Talvez eu não seja um fantasma.
De repente, Elena sentiu uma onda de euforia. Sei o que é isso, pensou, triunfante. Esta é uma experiência fora do corpo!
Ela olhou para si mesma dormindo de novo, procurando cuidadosamente. Sim! Sim! Havia um cordão anexando seu corpo dormindo, seu verdadeiro corpo - ao seu eu espiritual. Ela estava presa! Onde quer que fosse, poderia encontrar seu caminho de casa.
Havia apenas dois destinos possíveis. Um era voltar para Fell‘s Church.
Ela conhecia a direção do sol, e tinha certeza de que alguém que tenha uma OOB1 (como Bonnie, que havia passado por um modismo espiritualista e tinha lido muitos livros sobre o assunto, familiarmente chamavam) seria capaz de reconhecer o cruzamento de todas as linhas de poder. O outro destino, é claro, era Stefan.
Damon poderia pensar que ela não sabia para onde ir, e era verdade que ela só podia sentir vagamente que Stefan estava no sentido oposto ao sol nascente - a oeste dela. Mas ela sempre soube que as almas dos verdadeiros amantes estavam ligadas de alguma forma... por um fio de prata de coração para coração ou um cordão vermelho do dedo mindinho para dedo mindinho.
Para seu deleite, ela achou quase que imediatamente.
Um cordão da cor do luar, que parecia estar esticada entre coração sonolento de Elena, e... sim. Quando ela tocou no fio, que ressoou tão claramente dela para Stefan, ela sabia que ele iria levá-la a ele.
Nunca houve dúvida em sua mente sobre qual o rumo que ela tomaria. Ele tinha estado em Fell's Church. Bonnie era uma médium com alguns poderes impressionantes, e também a velha senhora de Stefan, a Sra. Theophilia Flores. Eles estavam lá, junto com Meredith e seu intelecto brilhante, para proteger a cidade.
E todos eles entenderiam, disse a si mesma um pouco desesperada. Ela não poderia jamais ter essa chance novamente.
Sem hesitar por nenhum outro momento, Elena virou-se para Stefan e se deixou levar.
Imediatamente ela se viu correndo no ar, muito rápido para reparar em seu entorno. Tudo o que passou por ela era como um borrão, diferindo apenas na cor e textura como Elena percebeu, com um nó na garganta, que estava passando por objetos.
E assim, em apenas alguns instantes, ela se viu olhando para uma cena de cortar o coração: sobre um palete puído e quebrado, aparentando uma cara cinza e magra. Stefan em uma cela hedionda, infestada de piolhos, com essas malditas barras de ferro das quais nenhum vampiro poderia escapar.
Elena virou-se por um momento de maneira que quando o acordasse ele não visse sua angústia e suas lágrimas. Ela estava apenas recompondo-se, 1 Do inglês OOB, Out of Body experience - experiência fora do corpo. Quando a voz de Stefan atravessou por ela. Ele já estava acordado.
— Você tenta e tenta, não é? — disse ele, sua voz carregada de sarcasmo. — Acho que você deve ganhar pontos por isso. Mas sempre comete algum erro. A última vez foi a pequena ponta das orelhas. Desta vez é a roupa. Elena não usaria uma camisa enrugada como essa e não teria os pés sujos e descalços se sua vida dependesse disso. Vá embora. — Encolhendo os ombros sob o cobertor puído, ele virou-se contra ela.
Elena olhou. Tinha muitos tipos de sofrimento para escolher suas palavras: elas estouram dela como um gêiser. — Oh, Stefan! Eu só estava tentando adormecer nas minhas roupas no caso de um policial parar enquanto eu estava no banco de trás do Jaguar. O Jag que você comprou de mim. Mas não acho que você se importa! Minhas roupas estão amassadas, porque estou vivendo com a minha mochila e meus pés se sujavam quando Damon... bem... bem... esqueça isso. Tenho uma camisola de verdade, mas não fiquei com ela quando eu saí do meu corpo e acho que quando você sai, ainda aparenta com você em seu corpo...
Então ela ergueu as mãos em estado de alarme quando Stefan virou-se. Mas - maravilha das maravilhas - agora havia uma mancha de sangue em seu rosto. Além disso, ele não estava mais olhando desdenhosa.
Ele estava olhando mortal, seus olhos verdes piscam com ameaça.
— Seus pés ficaram sujos quando Damon fez o quê? — perguntou ele, enunciando cuidadosamente.
— Não importa.
— É uma droga que não importa... — Stefan parou. — Elena? sussurrou, olhando para ela como se tivesse apenas aparecido.
— Stefan! — Ela não podia ajudar envolvendo os seus braços nos dele. Não conseguia controlar nada. — Stefan, não sei como, mas estou aqui. Sou eu. Não sou um sonho ou um fantasma. Eu estava pensando em você e adormeci - e aqui estou. — Ela tentou tocá-lo com as mãos fantasmagóricas. — Você acredita em mim?
— Eu acredito em você... porque eu estava pensando em você. De alguma forma... de alguma forma isso te trouxe aqui. Por causa do amor. Porque nós nos amamos! — E ele falou as palavras como se fossem uma revelação.
Elena fechou os olhos. Se pudesse estar aqui em seu corpo, ela iria mostrar Stefan quanto o amava. Como não estava, eles tiveram que usar palavras desajeitadas - clichês que passaram a ser unicamente verdadeiros.
— Eu sempre te amarei, Elena — disse Stefan, sussurrando novamente. — Mas não quero você perto de Damon. Ele encontrará uma maneira de te machucar...
— Não posso ajudar com isso, — Elena interrompeu.
— Você tem que fazer isso!
... porque é a minha única esperança, Stefan! Ele não vai me machucar. Ele é capaz de morrer para me proteger. Oh, Deus, tanta coisa aconteceu! Estamos a caminho de... — Elena hesitou, seus olhos piscam ao redor cautelosamente.
Os olhos de Stefan se alargaram por um instante. Mas quando ele falou seu rosto era inexpressivo. — Algum lugar onde você estará segura.
— Sim — disse ela, apenas séria, sabendo que as lágrimas fantasmas estavam agora correndo pelo rosto sem corpo. — E... oh, Stefan, há tanta coisa que você não sabe. Caroline acusou Matt de atacá-la enquanto estavam em um encontro porque ela está grávida. Mas não foi Matt!
— Claro que não! — Stefan disse, indignado, e teria dito mais, mas Elena estava continuando com pressa.
— E eu acho que... a ninhada é na verdade de Tyler Smallwood por causado tempo, e porque Caroline está mudando. Damon disse que...
— Um bebê lobisomem sempre vai transformar a sua mãe em um lobisomem...
— Sim! Mas a parte lobisomem vai ter que lutar contra o Malach que já está dentro dela. Bonnie e Meredith me disseram coisas sobre Caroline, sobre a forma como ela estava rastejando no chão como um lagarto e isso me apavorou. Mas eu tinha que deixá-los lidar com isso para que eu pudesse... pudesse chegar a esse lugar seguro.
— Lobisomens e meio-raposas, — disse Stefan, sacudindo a cabeça. — É claro que, a kitsune, as raposas, são muito mais potentes magicamente, mas lobisomens tendem a matar antes de pensar. — Ele bateu em seu joelho com o punho. — Eu queria poder estar lá!
Elena arfou em uma mistura de admiração e desespero.
— E em vez disso, estou aqui... com você! Eu nunca soube que eu poderia fazer isso. Mas sou capaz de trazer-lhe alguma coisa assim, nem a mim mesmo. Meu sangue. — Ela fez um gesto indefeso e viu a presunção de olhos Stefan.
Ele ainda tinha o vinho de Magia Negra Clarion Loess que ela tinha contrabandeado para ele! Ela sabia! Era o único líquido que podia - comum gole - ajudar a manter um vampiro vivo quando o sangue não estava disponível.
Vinho de Magia Negra sem álcool, e jamais feito para humanos em primeiro lugar, era a única bebida que os vampiros realmente gostavam além do sangue. Damon tinha dito para Elena que ele era magicamente feito de uvas especiais que foram cultivadas no solo nas bordas das geleiras, em um solo fértil e amarelado - Loess -, e que eram sempre mantidos na escuridão completa. Isso é o que lhe dá o sabor aveludado escuro.
— Não importa — disse Stefan, sem dúvida para o benefício de quem poderia estar a espiar. — Exatamente como isso aconteceu? — perguntou então. — Esta coisa de fora do corpo? Por que você não vem aqui e me diz mais sobre isso? — Ele deitou sobre o seu catre, virando os olhos sofridos nos dela. — Lamento que eu não tenha uma cama melhor para lhe oferecer. — Por um momento a humilhação se mostrou claramente em seu rosto. Todo esse tempo ele conseguiu esconder dela: a vergonha que sentia em aparecer diante dela desta forma - em uma cela imunda, com farrapos de roupas, e infestados com Deus sabe o quê. Ele, Stefan Salvatore, que tinha sido... Que tinha sido...
O coração de Elena realmente se quebrou então. Ela sabia que ele estava quebrando, porque podia sentir se quebrando como o vidro dentro dela, com cada pedaço - como fragmentos afiados cortando a carne dentro do seu peito. Sabia que estava quebrando, também, porque estava chorando, enormes lágrimas espirituais caiam sobre o rosto de Stefan como sangue, translúcida no ar enquanto caíam, mas se transformando em um vermelho profundo quando tocavam o rosto de Stefan.
Sangue? É claro que não era sangue, pensou. Ela não podia nem mesmo trazer algo tão útil para ele dessa forma. Estava realmente chorando agora; sacudindo os ombros enquanto as lágrimas continuaram a cair sobre Stefan, que agora tinha uma mão levantada como se para pegar uma...
— Elena...  Havia algo maravilhado em sua voz.
— O quê... o quê? — Ela se entusiasmou.
— Suas lágrimas. Suas lágrimas me fazem sentir... — Ele estava olhando para ela com um tipo de respeito.
Elena ainda não conseguia parar de chorar, embora soubesse que tinha acalmado seu orgulhoso coração - e feito alguma outra coisa.
— Eu n-não entendo.
Ele pegou uma de suas lágrimas e beijou-a. Então, olhou para ela com um brilho nos seus olhos. — É difícil falar sobre isso, adorável pequeno amor...
Então, por que usar palavras? Pensou ela, ainda chorando, mas descendo ao nível dele para que ela pudesse fungar bem acima de seu pescoço.
 É só que... eles não são muito liberais com as bebidas por aqui, — disse a ela. — Como você adivinhou. Se você não tivesse me ajudado eu estaria morto agora. Eles não conseguem entender porque eu não estou. Então, eles... bem, fogem antes de chegar a mim, às vezes, você entende...
Elena levantou a cabeça, e dessa vez lágrimas de pura raiva pura caíram de seu rosto. — Onde estão eles? Vou matá-los. Não me diga que eu não posso, porque eu vou encontrar um jeito. Vou encontrar uma maneira de matá-los mesmo estando nessa forma...
Ele sacudiu a cabeça. — Anjo, anjo, você não vê? Não tem que matá-los. Porque tuas lágrimas, as lágrimas fantasma de uma donzela pura...
Ela balançou a cabeça para ele. — Stefan, se alguém sabe que eu não sou uma donzela pura, esse é você...
... de uma donzela pura, — Stefan continuou, nem ao menos perturbado por sua interrupção, — pode curar todos os males. E fiquei mal essa noite, Elena, embora eu tenha tentado esconder. Mas estou curado agora! Tão bom quanto novo! Eles nunca serão capazes de entender como isso pode acontecer. Você tem certeza? Olhe para mim!
Elena olhou para ele. O rosto de Stefan, que tinha estado cinza e marcado antes, agora era diferente. Era normalmente pálido, mas agora seus traços finos pareciam ruborizados - como se ele tivesse estado parado em frente a uma fogueira e a luz ainda estava refletindo as linhas puras e traços elegantes do rosto amado.
 Eu... fiz isso? — Ela lembrou da primeira lágrima que caiu, e como tinha parecido com sangue em seu rosto. Não como o sangue, ela percebeu, mas como a cor natural, afundando-o, refrescando-o.
Ela não podia deixar de esconder o rosto novamente em seu pescoço enquanto pensava, estou feliz. — Ah, estou tão contente. Mas eu gostaria que pudéssemos nos tocar. Quero sentir seus braços em volta de mim.
— Pelo menos posso olhar para você, — Stefan murmurou, e Elena sabia que mesmo isso era como água no deserto para ele. — E se pudéssemos nos tocar, iria colocar meu braço em volta de sua cintura e beijá-la aqui e aqui...
Eles se falaram desta maneira por um tempo - apenas trocando brincadeiras de amantes, cada uma sustentada pela imagem e som do outro. E então, suave, mas firme, Stefan pediu-lhe para lhe contar tudo sobre Damon tudo desde o começo. Agora Elena estava de cabeça fria o suficiente para lhe contar sobre o incidente com Matt, que fez Damon soar como um vilão.
— E Stefan, Damon realmente está nos protegendo da melhor maneira possível. — Ela contou-lhe sobre os dois vampiros possuídos que estavam seguindo-os e sobre o que Damon tinha feito.
Stefan apenas encolheu os ombros e disse com ironia — A maioria das pessoas escreve com lápis; Damon escreve nas pessoas com eles. — Ele acrescentou — E a sua roupa estava suja?
— Porque eu ouvi um enorme baque - que acabou por ser Matt em cima do carro — disse ela. — Mas, para ser justa, ele estava tentando enfiar uma estaca em Damon no momento. Eu o fiz se livrar da estaca.  Ela acrescentou, em um leve sussurro: — Stefan, por favor, se imcomode por Damon e eu termos que... estar juntos por muito tempo agora. Stefan isso não muda nada entre nós.
— Eu sei.
E o mais surpreendente era que ele sabia. Elena foi banhada pelo brilho profundo de sua confiança nela.
Depois que eles se apoiaram. Elena se aconchegou sem peso acima da curva do braço de Stefan... e isso era o paraíso.
E então de repente o mundo - todo o universo - estremeceu ao som de uma batida violenta. Isso puxou Elena. Algo que não pertencia aquele lugar com amor, confiança e a doçura de compartilhar todas as partes do seu eu com Stefan.
Isso começou de novo – um estrondo monstruoso que aterrorizava Elena. Ela se agarrou inutilmente a Stefan, que estava olhando para ela com preocupação. Ele não ouviu o barulho que estava derrotando-a, ela percebeu.
E então algo ainda pior aconteceu. Ela foi arrancada dos braços de Stefan, e estava correndo para trás, para trás atravez dos objetos, de volta mais rápido e mais rápido até que com um abalo ela desembarcou em seu corpo.
Apesar de toda a sua relutância, ela aterrisou perfeitamente no corpo sólido que até agora tinha sido o único que ela conhecia. Pousou sobre ele e fundiu-se, e então estava sentada e os sons eram os de Matt batendo na janela.
— Já se passaram mais de duas horas desde que você foi dormir, — disse ele enquanto abria a porta. — Mas eu percebi que você precisava disso. Você está bem?
— Oh, Matt— disse Elena. Por um momento, parecia impossível que fosse capaz de não chorar. Mas então se lembrou do sorriso Stefan.
Elena piscou, obrigando-se a lidar com sua nova situação. Ela não tinha visto Stefan por tempo suficiente. Mas suas lembranças de seu doce e curto tempo juntos foram embrulhados em narcisos e lavanda e nada poderia levá-los para longe dela.

***

Damon estava irritado. Como ele voava mais alto em seu horizinte, asas negras de corvo, a paisagem sob ele se desdobrava como um magnífico tapete, o dia amanhecia fazendo as pastagens e as colinas brilharem como a esmeralda.
Damon ignorou. Tinha visto isso muitas vezes também. O que ele procurava era uma moça esplêndida.
Mas sua mente continuava à deriva. Mutt e sua estaca... Damon ainda não entendia por que Elena queria ter um fugitivo da justiça junto com eles.
Elena… Damon tentou envocar os mesmos sentimentos irritados por ela que tinha por Mutt, mas simplesmente não conseguia.
Ele circulou em direção a cidade abaixo, mantendo-se no bairro residencial, em busca de auras. Queria uma aura tão forte quanto bela. E ele tinha estado na América tempo suficiente para saber que neste início da manhã você poderia encontrar três tipos de pessoas acordadas e do lado de fora. Alunos eram os primeiros, mas era verão, por isso havia menos para escolher. Apesar das presunções de Mutt, Damon raramente afundou-se em meninas do ensino médio. Corredores eram o segundo. E o terceiro, com pensamentos belos, assim como aquele ali em baixo... eram jardineiros.
A moça com a tesoura de poda olhou para Damon, virou a esquina e se aproximou de sua casa, correndo deliberadamente e então abrandando o passo. Seus passos deixaram claro que ele ficou encantado ao sentir a extravagância de flores na frente da encantadora casa vitoriana. Por um momento a menina olhou assustada, quase com medo. Isso era normal.
Damon usava botas pretas, calça jeans preta, uma camiseta preta e jaqueta de couro preta, além de seus Ray-Bans. Mas então ele sorriu e, no mesmo instante começou a primeira delicada infiltração na mente da bela moça.
Uma coisa era clara, mesmo antes disso. Ela gostava de rosas.
— Um completo esplendor de Dreamweavers — disse ele, balançando a cabeça em admiração quando olhou para os arbustos cobertos de flores rosa brilhante.
— E aquelas White Icebergs na treliça... Ah, mas as suas Moonstones! Ele tocou de leve uma rosa aberta, suas pétalas cor de luar, sombreada com um rosa pálido nas bordas.
A jovem mulher, Krysta, não podia conter o sorriso. Damon sentiu o fluxo de informações sem esforço de sua mente para a dele. Ela tinha apenas 22 anos, não era casada, ainda morando na casa dos pais. Tinha precisamente o tipo de aura que ele estava procurando, e apenas um pai dorminhoco em casa.
— Você não parece do tipo que sabe muito sobre rosas, — disse Krysta francamente, e depois deu uma risada auto-consciente. — Sinto muito. Conheci todos os tipos no Creekville Rose Shows.
— Minha mãe é uma ávida jardineira — Damon mentiu fluente e sem um traço de desconfiança. — Acho que eu herdei minha paixão dela. Só que eu não fico em um lugar por tempo suficiente para cultivá-las, mas ainda posso sonhar. Gostaria de saber qual é o meu maior sonho?
A essa autura Krysta sentiu como se estivesse flutuando sobre uma deliciosa nuvem de rosas perfumadas. Damon sentia cada nuance delicada com ela, gostava de ver o seu rubor, apreciou o leve tremor que sacudiu seu corpo.
— Sim — Krysta disse simplesmente. — Eu adoraria saber o seu sonho.
Damon se inclinou para frente, baixou a voz. — Eu quero uma espécie de verdadeiras rosas negras.
Krysta olhou assustada e algo passou pela sua mente rápido de mais para Damon pegar. Mas depois ela disse em uma voz igualmente abafada:
— Então, há algo que eu gostaria de te mostrar. Se... se você tiver tempo para vir comigo.
O quintal era ainda mais esplêndido do que a frente e lá havia uma rede balançando suavemente, Damon registrou com agrado. Afinal, ele logo precisaria de um lugar para colocar Krysta... enquanto ela dormia.
Mas na parte de trás do pavilhão tinha algo que fez acelerar seu ritmo involuntariamente.
— Rosas Black Magic! — ele exclamou, olhando para o vinho-escuro, quase cor de Borgonha.
— Sim, — Krysta disse suavemente. — Black Magics. O mais próximo que alguém já chegou de uma rosa preta. Consigo três colheitas por ano, — ela sussurrou trêmula, sem deixar de questionar quem este jovem homem possa ser, tão dominada por seus sentimentos que quase tomou Damon para si.
— Elas são magníficas — disse ele. — O mais profundo vermelho que eu já vi. O mais próximo do preto já criado.
Krysta ainda estava tremendo de alegria. — Você pode ficar com uma se quiser. Estou levando-as para o Creekville show na próxima semana, mas posso dar-lhe uma desabrochando agora. Talvez você possa sentir o cheiro.
— Eu... adoraria — disse Damon.
— Você pode dar a sua namorada.
— Não tenho namorada — disse Damon, feliz por voltar a mentir. As mãos de Krysta tremeram levemente quanto ela cortou uma das mais retas e longas hastes para ele.
Damon estendeu a mão para pegá-la e seus dedos se tocaram. Ele sorriu para ela.
Quando os joelhos de Krysta ficaram moles com prazer, Damon a pegou facilmente e continuou com o que estava fazendo.

***

Meredith estava bem atrás de Bonnie quando ela entrou no quarto de Caroline.
— Eu disse, feche a porta! — Caroline disse... não, rosnou.
Era natural olhar para ver de onde a voz vinha. Pouco antes de Meredith cortar o único feixe de luz fechando a porta, Bonnie viu Caroline no canto da penteadeira. A cadeira que se costumava usar para sentar na frente dela tinha desaparecido.
Caroline estava embaixo da mesa.
Esse poderia ser um bom espaço para se esconder aos dez anos de idade, mas Caroline, de dezoito anos de idade, tinha se enrolado em uma posição impossível para caber lá. Estava sentada em uma pilha que parecia ser pedaços de roupas. Suas melhores roupas, Bonnie pensou de repente, quando um brilho dourado piscou e se foi quando a porta se fechou.
Depois eram só as três juntas na escuridão. Nenhuma iluminação veio de cima ou de baixo da porta do corredor.
É porque esse salão está em outro mundo, pensou Bonnie descontroladamente.
— O que há de errado com um pouco de luz, Caroline? — Meredith perguntou calma. Sua voz era firme, reconfortante. — Você nos pediu para vir vê-la... Mas não podemos ver você.
— Eu disse para vir e conversar comigo, — Caroline corrigiu imediatamente, exatamente como sempre era nos velhos tempos. Isso deve ter sido confortante também. Exceto... exceto agora quando Bonnie podia ouvir sua voz como se estivesse ressoando sob a mesa, ela podia dizer que tinha uma nova qualidade. Não só rouca, quanto...
Você realmente não quer pensar isso. Não na escuridão sombria desta sala, a mente de Bonnie disse a ela.
Não tão rouca quanto, confusa, Bonnie pensou impotente. Você poderia até dizer que Caroline rosnou respostas.
Pequenos sons avisaram Bonnie que a menina debaixo da mesa estava se movendo. A respiração de Bonnie acelerou.
— Mas queremos ver você, — Meredith disse calmamente. — E você sabe que Bonnie tem medo do escuro. Posso simplesmente ligar o abajur da cabeceira?
Bonnie poderia sentir-se trêmula. Isso não era bom. Não foi inteligente mostrar para Caroline que estava com medo dela. Mas a escuridão a fazia tremer. Ela podia sentir que este quarto estava errado em seus ângulos - ou talvez fosse apenas sua imaginação. Ela também podia ouvir coisas que a fez pular - tipo esse duplo clique logo atrás dela. O que tinha feito isso? — Tubo bbbem então! Liiigue aquela ao lado da minha cama. — Caroline estava definitivamente rosnando. E estava se movendo em direção a elas; Bonnie podia ouvir o ruído e a respiração se aproximando.
Não deixe-a chegar até mim no escuro! Foi um pensamento apavorado e irracional, mas Bonnie não podia deixar de pensar nisso mais do que poderia ajudar tropeçando cegamente de lado em...
Algo grande - e quente.
Não é Meredith. Nunca, desde Bonnie tinha conhecido-a, Meredith tinha cheirado a suor rançoso e ovos podres. Mas a coisa quente pegou as duas mãos erguidas de Bonnie, e lá estavam os estranhos cliques duplos quando se aproximou.
E as pontas cutucaram estranhamente a pele de Bonnie.
Então, quando uma luz ao lado da cama acendeu, elas se foram. A lâmpada que Meredith tinha encontrado colocou uma muito, muito fraca luz rubi e foi fácil perceber porquê. Uma lingerie rubi e um robe tinham sido amarrados ao redor da sombra.
— Isso pode causar um incêndio — disse Meredith, mas até o seu nível de voz parecia abalado.
Caroline estava diante delas na luz vermelha. Ela parecia mais alta do que nunca para Bonnie, alta e musculosa, exceto pela protuberância de sua barriga.
Estava vestida normalmente, com calça jeans e uma camiseta apertada. Estava mantendo as mãos escondidas atrás de suas costas como em uma brincadeira, e sorrindo seu velho e insolente sorriso malicioso. Eu quero ir para casa, pensou Bonnie.
Meredith disse: — Bem?
Caroline não parava de sorrir. — Bem, o quê?
Meredith perdeu a paciência. — O que você quer?
Caroline apenas olhou de soslaio. — Você já visitou sua amiga Isobel hoje? Teve um pouco de conversa com ela?
Bonnie tinha um poderoso impulso de golpear aquele sorriso presunçoso para fora do rosto de Caroline. Ela não o fez. Isso era apenas um truque com a luz da lâmpada - ela sabia que tinha que ser - mas parecia quase como se houvesse um ponto vermelho brilhante no centro de cada um dos olhos de Caroline.
— Visitamos Isobel no hospital, sim — disse Meredith sem expressão. Então, com uma raiva inconfundível na voz, ela acrescentou: — E você sabe muito bem que ela não pode falar ainda. Mas — com um pequeno triunfante contra-ataque — os médicos dizem que ela será capaz de falar. Sua língua vai curar, Caroline. Ela pode ter cicatrizes por todos os lugares que perfurou sozinha, mas vai ser capaz de falar de novo muito bem.
O sorriso de Caroline havia desaparecido, deixando o rosto pálido e olhar cheio de fúria maçante. E o quê? Bonnie perguntava.
— Faria bem a você sair um pouco dessa casa — Meredith disse à menina de cabelos cobre. Você não pode viver no escuro...
— Não vou ficar aqui para sempre — Caroline disse bruscamente.  Só até os gêmeos nascerem. — Ela estava de pé, as mãos ainda atrás, e arqueou as costas para que seu estômago ficasse mais evidente do que nunca.
— Os gêmeos? — Bonnie ficou surpresa em falar.
— Matt Junior e Mattie. É assim que eu vou chamá-los.
O sorriso soberbo de Caroline e o olhar insolente foram quase demais para Bonnie ficar de pé. — Você não pode fazer isso! — ela ouviu a si mesma gritando.
— Ou talvez eu chame a menina Honey. Matthew e Honey, de seu pai, Matthew Honeycutt.
— Você não pode fazer isso, — gritou Bonnie, mais estridente.  Especialmente quando Matt nem mesmo está aqui para se defender...
— Sim, ele fugiu muito de repente, não foi? A polícia está se perguntando por que ele tinha que fugir. É claro — Caroline baixou a voz a um sussurro significativo — ele não estava sozinho. Elena estava com ele. Eu me pergunto o que os dois fazem no tempo livre? — Ela riu, uma alta e tola risada.
— Elena não é a única pessoa com Matt — disse Meredith, e agora sua voz era baixa e perigosa. — Alguém está, também. Você se lembra de um contrato que assinou? Sobre não contar a ninguém sobre Elena ou trazer publicidade em torno dela?
Caroline piscou lentamente, como um lagarto. — Há muito tempo atrás. Em uma vida diferente, para mim.
— Caroline, você não vai ter uma vida se você quebrar esse juramento! Damon iria matá-la. Ou... você já...? — Meredith parou.
Caroline ainda estava rindo daquela maneira pueril, como se fosse uma menina e alguém tivesse dito a ela uma piada marota.
Bonnie sentiu o suor frio quebrar por todo o seu corpo ao mesmo tempo. Finos cabelos ergueram em seus braços.
— O que você está ouvindo, Caroline? — Meredith molhou os lábios.
Bonnie podia ver que ela estava tentando segurar os olhos de Caroline, mas a menina de cabelos acobreados se virou. — É... Shinichi? — Meredith avançou de repente e agarrou os braços de Caroline. — Você usou para ver e ouvi-lo quando olhou no espelho. Você o escuta o tempo todo, agora, Caroline?
Bonnie queria ajudar Meredith. Ela o fez. Mas não poderia ter se movido ou falado por nada.
Lá estavam – fios cinzas - no de cabelo Caroline. Cabelos grisalhos, Bonnie pensou. Brilhavam monótonos, muito mais claros do que o ruivo flamejante do qual Caroline era tão orgulhosa. E lá estavam... outros fios que não brilhavam tanto. Bonnie tinha visto essa coloração mesclada em cães; sabia vagamente que alguns lobos têm a mesma aparência. Mas isso era realmente de mais, vê-los no cabelo de sua amiga. Especialmente quando pareciam cerdas e tremiam, levantando como os pelos do pescoço de um cão...
Ela está louca. Não louca de raiva; louca de louca, Bonnie percebeu.
Caroline olhou para cima, não para Meredith, mas diretamente para os olhos de Bonnie. Bonnie se encolheu. Caroline estava olhando para ela como se considerando se Bonnie era ou não o jantar ou apenas lixo.
Meredith entrou para ficar ao lado de Bonnie. Seus punhos estavam cerrados.
— Não encarrre, — Caroline disse abruptamente, e virou as costas. Sim, isso foi definitivamente um rosnado.
— Você realmente queria que nós te víssemos, não é? — Meredith disse suavemente. — Você está... exibindo-se na nossa frente. Mas acho que talvez esta seja a sua maneira de pedir ajuda...
— Dificilmente!
— Caroline — disse Bonnie, de repente, surpreendida por uma onda de piedade que a inundou — por favor, tente pensar. Lembre-se de quando disse que precisava de um marido? Eu... — Ela parou e engoliu. Quem iria se casar com esse monstro, que há algumas semanas atrás parecia uma adolescente normal? — Eu te compreendi antes, — Bonnie terminou sem jeito. — Mas, honestamente, não fará nenhum bem continuar dizendo que Matt te atacou ! Ninguém... — Ela não teve coragem de dizer o óbvio. — Ninguém vai acreditar em algo como você.
— Oh, posso ficar rrrealmente bonita — Caroline rosnou e depois deu uma risadinha. — Você ficaria surprrresa.
No interior de seu olho, Bonnie viu o antigo insolente flash esmeralda do olhar de Caroline, a expressão astuta e reservada em seu rosto, e o brilho em seus cabelos ruivos.
— Por que escolheu Matt?  Meredith exigiu. — Como sabia que ele foi atacado por um Malach naquela noite? Será que Shinichi os enviou atras dele só para você?
— Ou Misao?  Bonnie disse, lembrando que era a fêmea dos gêmeos kitsune, o espírito da raposa, que tinha falado mais com Caroline.
— Fui a um encontro com Matt naquela noite.  De repente, a voz de Caroline era uma cantilena, como se estivesse recitando poesia - mal.  Eu não me importava de beijá-lo, ele é tão bonitinho. Acho que foi quando ele recebeu o chupão no pescoço. Acho que eu poderia ter mordido seus lábios um pouco.
Bonnie abriu a boca, sentiu a restrição da mão de Meredith em seu ombro, e fechou-a novamente.
— Mas então ele ficou louco — Caroline continuou. — Ele me atacou! Eu o arranhei com minhas unhas, acima e abaixo do braço. Mas Matt era muito forte. Muito forte. E agora...
E agora você vai ter filhotes, Bonnie queria dizer, mas Meredith apertou seu ombro e ela deixou-se novamente. Além disso, Bonnie pensou com uma pontada súbita de alarme, os bebês podem parecer humanos, e podem não ser gêmeos, como disse Caroline. Então, o que fariam?
Bonnie sabia como as mentes adultas trabalhavam. Mesmo se Caroline tingisse seu cabelo de volta para o cobreado, eles podiam dizer, olha quanto estresse ela foi submetida: realmente está ficando prematuramente grisalha!
E mesmo se os adultos vissem a aparência bizarra de Caroline e comportamento estranho, como Bonnie e Meredith tinham, iriam julgá-lo como sendo provocado pelo choque. Oh, pobre Caroline, sua personalidade mudou desde aquele dia. Está com tanto medo de Matt, que se esconde debaixo da escrivaninha. Ela não vai se lavar - talvez esse seja um sintoma comum depois do que passou.
Além do mais, quem sabia quanto tempo levaria para esses bebês lobisomem nascer? Talvez o Malach dentro Caroline pudesse controlar isso, fazer parecer com uma gravidez normal.
E, de repente, Bonnie foi tirada de seus próprios pensamentos para entrar em sintonia com as palavras de Caroline. Caroline estava apenas rosnando no momento. Soava quase como a velha Caroline, ofendida e desagradável, quando disse: — Eu só não entendo por que você tem que colocar sua palavra contra a minha.
— Porque — Meredith disse categoricamente — conhecemos você o bastante. Teríamos ficado sabendo se Matt estivesse namorando com você - e não estava. E ele não é o tipo de cara que só aparece em sua porta da frente, especialmente quando se considera como ele se sentia sobre você.
— Mas você já disse que este monstro que atacou...
— Malach, Caroline. Aprenda a palavra. Você tem um dentro de você!
Caroline sorriu e balançou a mão, descartando isso. — Você disse que essas coisas podem possuí-lo e fazer você fazer coisas fora do normal, certo?
Houve um silêncio. Bonnie pensou, nós nunca dissemos isso na sua frente.
— Bem, se eu admitir que Matt e eu não estávamos namorando? E se eu dissesse que o encontrei dirigindo em torno do nosso bairro, a cerca de cinco quilômetros por hora, apenas olhando perdido. Sua jaqueta estava em pedaços e seu braço estava todo mastigado. Então eu o trouxe para dentro da minha casa e tentei fazer uma atadura em seu braço - mas de repente ele ficou louco. E eu tentava arranhá-lo, mas as ataduras estavam no caminho. Eu acabei arrancando-as dele. Eu ainda as tenho, todas cobertas de sangue. Se eu lhe dissesse isso, o que você diria?
Eu diria que você está nos usando como um ensaio antes de dizer ao xerife Mossberg, Bonnie pensou, friamente. E diria que você estava certa, você provavelmente pode se limpar e parecer bem normal quando fizer um esforço. Se tivesse parado com esse riso infantil e se livrado do olhar astuto, ficaria ainda mais convincente.
Mas Meredith estava falando. — Caroline eles já têm testes de DNA de sangue.
— Claro que eu sei disso! — Caroline estava tão indignada que, por um momento se esqueceu do olhar astuto.
Meredith estava olhando para ela.
— Isso significa que eles podem dizer se as ataduras têm o sangue de Matt ou não, — disse ela. — E se eles estão no padrão correto para coincidir com a sua história.
— Não há nenhum padrão. Os curativos estão apenas encharcados. — De repente, Caroline caminhou até um armário e abriu-o, arrancando um pedaço de que poderia ter sido originalmente uma atadura de esportes. Agora brilhava avermelhada na luz fraca.
Olhando para o tecido duro, à luz de rubi, Bonnie sabia duas coisas. Não era qualquer parte do emplastro que a Sra. Flowers tinha colocado no braço de Matt pela manhã depois de ter sido atacado. E ela estava encharcada com sangue verdadeiro, exatamente nas pontas duras do pano.
O mundo parecia estar girando. Porque apesar de Bonnie acreditar em Matt, esta nova história a assustou. Esta nova história podia até funcionar - já que não se poderia encontrar Matt e testar seu sangue.
Mesmo se Matt admitisse que houve um momento inexplicado naquela noite - ele não conseguia se lembrar.
Mas isso não significa que Caroline estava dizendo a verdade! Por que ela começou com uma mentira, e só a mudou quando os fatos ficaram no caminho?
Os olhos de Caroline eram da cor de um gato. Os gatos brincam com os ratos, só por diversão. Só para vê-los correr.
Matt tinha corrido...
Bonnie balançou a cabeça. De repente não podia ficar nesta casa por mais tempo.  Tinha resolvido isso de alguma forma em sua mente, fazendo-a aceitar todos os ângulos impossíveis das paredes distorcidas. Tinha até se acostumado com o cheiro horrível e a luz vermelha.
Mas agora, com Caroline segurando uma bandagem embebida de sangue e dizendo que era de Matt, que havia sangrado por todo...
— Eu estou indo para casa, — Bonnie anunciou de repente. — E Matt não fez isso, e... e eu nunca vou voltar! — Acompanhada pelo som dos risos de Caroline, ela se virou, tentando não olhar para o ninho que Caroline tinha feito embaixo de sua mesa. Havia garrafas vazias e pratos com restos de comida empilhados lá com as roupas. Qualquer coisa podia estar ali embaixo  inclusive um Malach.
Mas quando Bonnie se moveu, o quarto pareceu mover-se com ela, acelerando sua rotação, até que ela tinha dado duas voltas ao redor antes que pudesse lançar um pé para se conter.
— Espere, Bonnie, espere, Caroline — Meredith disse, soando quase frenética. Caroline estava dobrando seu corpo como um contorcionista, voltando para debaixo da mesa. — Caroline, e sobre Tyler Smallwood? Você não se importa que ele seja o verdadeiro pai do seu... seus filhos? Há quanto tempo você estava saindo com ele antes que ele se juntasse a Klaus? Onde ele está agora?
— Porrrr tudo que eu sei que ele está morto. Você e seuss amigos o mataram. — O rosnado estava de volta, mas não era vicioso. Era mais um ronronar triunfante. — Mas não sinto falta dele, então espero que ele fique morto, — acrescentou Caroline, com um riso abafado.  Ele não se casarrria comigo.
Bonnie tinha que ir embora. Ela se atrapalhou até a maçaneta, achou-a, e estava cega. Passara tanto tempo na penumbra rubi que a luz do corredor era como o sol do meio-dia no deserto.
— Desligue a luz! — Caroline exigiu de debaixo da mesa. Mas quando Meredith se moveu para faz isso, Bonnie ouviu um barulho alto de explosão e viu a lâmpada envolta em tom vermelho ficar escura por si mesma.
E mais uma coisa.
A luz do corredor varreu a sala de Caroline como um farol que a porta se fechou.
Caroline já estava rasgando a algo com seus dentes. Algo com a textura de  carne, mas não de carne cozida.
Bonnie afastou-se para correr e quase derrubou a senhora Forbes.
A mulher ainda estava de pé na sala onde estava quando foram para a o quarto de Caroline. Ela nem sequer parecia com quem ficava escutando atrás da porta. Estava apenas de pé, olhando para o nada.
— Tenho que mostrar-lhes a saída, — ela disse em sua voz suave e cinza. Não levantou a cabeça para encontrar os olhos de Bonnie ou Meredith. — Caso contrário, vocês podem se perder. Eu mostro.
Era uma pequena reta até as escadas e para baixo e quatro passos para a porta da frente. Mas enquanto elas caminhavam, Meredith não disse nada, e Bonnie não conseguiu.
Uma vez lá fora, Meredith se virou para olhar para Bonnie.
— Bem? Ela está mais possuída pelo Malach ou pela parte lobisomem dela? Ou você poderia dizer qualquer coisa de sua aura?
Bonnie ouviu-se rir, um som que era quase um choro.
— Meredith, sua aura não é humana... e eu não sei o que fazer com isso. E sua mãe não parece ter uma aura afinal. Elas são apenas – essa casa é apenas...
— Esquece, Bonnie. Você não tem que ir lá novamente.
— É como... — mas Bonnie não sabia como explicar as paredes que pareciam se divertir ou a forma como as escadas desciam em vez de ir para cima.
— Eu acho — disse ela, finalmente — que é melhor você fazer mais algumas pesquisas. Sobre as coisas como... como possessão do tipo Americano.
— Quer dizer, como possessão por demônios? — Meredith atirou um olhar afiado.
— Sim. Acho que sim. Só não sei por onde começar a listar o que há de errado com ela.
— Eu tenho algumas ideias, — Meredith disse calmamente.  Tipo... você notou que ela nunca mostrou-nos as mãos? Isso foi muito estranho, eu achei.
— Eu sei o porquê — Bonnie sussurrou, tentando não deixar sair o riso soluçando. — É por que ela não tem mais unhas...
— O que você disse?
— Ela colocou as mãos em volta dos meus pulsos. Eu pude senti-las.
— Bonnie, você não está fazendo nenhum sentido.
Bonnie se forçou a falar. — Caroline tem garras agora, Meredith. Garras de verdade. Como um lobo...
— Ou talvez — Meredith disse em um sussurro — como uma raposa

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!