7 de novembro de 2015

Capítulo 5 - Sinto sua falta no instante em que não estou mais em sua presença…


— Eu sei que estou favorecendo Kalona — Nyx disse, olhando para seu espelho enquanto L’ota penteava o seu cabelo loiro prateado e começava a trançá-lo em um padrão impossivelmente complicado. — Não é minha intenção. Não é como se eu não gostasse de Erebus. Pelo contrário! Toda vez que vejo Erebus, ele me faz sorrir. Ele é tão inteligente e talentoso. Você sabia que ele pode cantar e tocar a lira? Na verdade, foi sua voz que ontem me chamou do Outromundo para a Grécia. Ele estava tocando e cantando tão bem que todos os Delos o nomearam a encarnação alada de Apolo. Eles estavam colocando ramos de oliveira a seus pés e o adoravam.
Não é para ser adorado. A skeead sussurrou desaprovando.
— Ah, não, ele não permitiu que o adorassem. Mesmo antes de saber que eu fazia parte da multidão, ele riu ao ser chamado de Deus e fez um grande show tocando notas erradas, fingindo ser um músico viajante, e um não muito bom, e que suas asas eram parte da fantasia. Com um golpe de mão rápido demais para os olhos mortais verem, ele chamou o Ar e misturou com Energia Divina, e de repente ele vestia uma máscara que o fazia parecer como um pássaro bobo. Dentro de instantes, ele tinha feito a audiência rir e dançar com ele como uma galinha, e esquecendo totalmente que ele era realmente divino. — Nyx sorriu enquanto se lembrava do quão fofo e bobo Erebus se fez parecer, só para o benefício dos mortais que assistiam.
Ela se perguntou se Kalona teria feito o mesmo se ela não aparecesse para interceder entre ele e as pessoas da pradaria. Seu sorriso desapareceu. Ele vinha negando sua divindade, não vinha?
Você pensa no outro, L’ota disse.
— Sim. Eu penso nele frequentemente. Algo aconteceu quando olhei pela primeira vez em seus olhos. Algo maravilhoso.
Deve ser digno de você, a skeeaed disse, sua voz sussurrante soando estranhamente forçada.
Nyx deu um olhar curioso a ela.
— L’ota, os dois foram criados para mim. Erebus e Kalona. Os testes da Mãe Terra são apenas uma formalidade. Ela está, afinal, agindo como uma mãe, o que significa que ela está sendo carinhosamente, mas previsivelmente, superprotetora.
A skeeaed não olhou para seus olhos de Deusa no espelho, e Nyx deu de ombros.
— Não importa. Eu não espero que você entenda, pequena L’ota. Erebus e Kalona não são problemas seus. Agora, onde estão as dríades que eu convoquei? — Nyx levantou-se e caminhou até a parede de janelas com vista para os jardins requintados de seu palácio, sem perceber que a skeeaed tinha ficado quieta e mal-humorada com as palavras desprezíveis da Deusa. — Pedi que um grupo de dríades reunisse gardênias do mundo mortal para que você pudesse tecê-las em meu cabelo. Você notou que desde que permiti que visitassem a terra, as dríades parecem sempre distraídas?
Eu apenas noto o que você me manda notar, L’ota murmurou baixo demais para Nyx ouvir.
A Deusa tinha se virado da janela para olhar a skeeaed quando sua câmara explodiu em uma enxurrada de dríades animadas cujos braços estavam cheios de flores brancas perfumadas, mudando toda hora para tons de verde e azuis e roxos em sua animação.
— O que vocês… — Nyx parou, percebendo o que deve ter causado a animação das deidades.
— Um deles está pronto para começar seu teste! — As dríades pularam e dançaram ao seu redor, atirando gardênias em seu cabelo, e fazendo L’ota repreendê-las enquanto ela rapidamente reorganizava as tranças da Deusa.
— Qual deles? — Nyx perguntou sem fôlego, forçando-se a se sentar ereta para que L’ota pudesse terminar seu penteado e para que as dríades excessivamente animadas pudessem vesti-la com as roupas que ela havia escolhido, que eram da cor de um ruborizar de uma donzela.
As dríades começaram a gritar de novo e Nyx balançou sua cabeça em consternação. Elas estavam animada demais. Nem a Deusa conseguia entender suas tagarelice estridente.
L’ota entendeu suas parentes perfeitamente. Ela sussurrou uma palavra para a Deusa: Kalona.

* * *

Nyx não tinha dificuldades em achar Kalona. Ao longo dos dias desde sua criação, ela aprendera que tudo o que precisava fazer era pensar nele – imaginar seu rosto bonito em sua mente – e ela seria atraída para ele.
Ela tinha tentado achar Erebus do mesmo jeito e fracassou. Nyx não falou dessa falha para ninguém, especialmente para Kalona ou Erebus.
Naquele dia, a imagem em sua mente a levou de volta para um lugar familiar – a pradaria cheia de grama não muito longe de onde Kalona tinha explodira a Árvore do Grande Espírito. Embora, ela notou enquanto sorria e se apressava para cumprimentar a Mãe Terra, dessa vez ele não estivesse tão perto do assentamento mortal.
— Um de seus rapazes declarou que está pronto para ser testado — Mãe Terra disse depois de abraçar Nyx. Então ela sorriu, feliz. — Ah! Você trouxe as deidades com você! Eu tenho desfrutado tanto a companhia delas.
Nyx deu um sorriso indulgente às dríades que pareciam se divertir.
— Você as mima.
— Elas são maravilhosas! Eu gosto de mimá-las — a Mãe Terra disse, acariciando uma das dríades animadas com carinho. — Ah! Esta é uma deidade nova! — ela disse, olhando L’ota. — O que é você, linda?
— L’ota é uma skeeaed. Uma que me serve pessoalmente.
— Ela é adorável — a Mãe Terra falou, e em seguida compartilhou um sorriso com L’ota. — Por favor, me visite muitas vezes, e traga mais de sua gente com você.
Se Nyx permitir…
— Ela fala! Que interessante.
— É claro que eu permito, L’ota. Você e o resto das skeeaeds podem visitar a Mãe Terra sempre que suas funções permitirem — Nyx disse distraidamente, procurando no céu por Kalona.
— Ele ainda não está aqui, apesar de ter feito Ar me convocar. Seu Kalona deveria saber que deusas não gostam de esperar.
De repente, um bando de corvos escuros como a lua nova no céu circulou acima deles e, em seguida, se empoleirou como se estivessem observando nas árvores próximas.
— Nyx! Eu senti sua falta — Kalona desceu do céu acima deles a ajoelhou-se diante de sua Deusa.
Sua respiração ficou presa quando viu a beleza crua de Kalona. Ele vestia uma calça de couro elaborada, costurada e com franjas que tinha sido pintada para combinar com o branco de suas asas. Seu peito estava nu, apesar de ter redemoinhos de ocre decorando sua extensão muscular. Ela achou que ele parecia poder ser um Deus Guerreiro do Povo da Pradaria. Ansiosamente, ela pegou sua mão, o levantando, flertando animadamente.
— Sentiu minha falta? Mas eu passei grande parte da última noite com você escalando os galhos das árvores gigantes perto do oceano e olhando para a água enluarada — ela virou a mão para que a palma dele ficasse para cima. — Veja, você ainda está com as manchas das amoras doces que colheu para mim. Como poderia sentir minha falta em menos de um dia?
— Sinto sua falta no instante em que não estou mais em sua presença. — As palavras de Kalona não eram brincadeira, e seu olhar cor de âmbar fitou Nyx enquanto ele acariciou seu rosto com as costas da mão.
A Mãe Terra limpou a garganta delicadamente.
— Você me chamou aqui porque estava pronto para revelar sua criação, não é mesmo, Kalona?
— Sim — Kalonda concordou. Sem qualquer hesitação, ele se afastou vários longos passos delas. Encarou as duas mulheres e o bando de deidades que as rodeava. — Nyx, criei algo que demonstra o poder da paixão que sentirei eternamente por você.
Kalona ergueu os braços, desfraldando suas grandes asas da cor do luar. Sua voz, preenchida com o poder antigo do Divino, intensificado pelo Ar, ecoou pela campina.

Ventos da força, eu vos chamo!
Através do meu sangue, invoco poder!
A força da paixão, eu ordeno que se mostre!
Minha criação, a Deusa Nyx deve conhecer!

Com um estalo ensurdecedor, Kalona bateu as poderosas mãos juntas, e instantaneamente o ar acima deles começou a turvar e soprar ao redor, de modo que grandes nuvens de tempestade cresceram e o céu mudou do doce dia de verão azul para ferido, raivoso e escuro.

Agora cresça! Cresça! Cresça para longe!
Minha criação, a Deusa Nyx deve conhecer!

Com a repetição de suas palavras, Kalona também repetiu o bater de suas mãos, e os ventos acima dele moveram-se à distância. Enquanto se moviam, eles mudavam, acesos com cacos de poder cor de chumbo, rugiam, formando um vórtice que se tornou um funil, que mergulhou para baixo, e mais ainda, até que sua cauda cinza se encontrou com a pradaria em uma explosão de um elemento colidindo com outro.
O funil atravessou os gramados, deixando um rastro de destruição em sua trilha. Nyx forçou seu olhar da horrível e fantástica criação de Kalona para ele. Kalona brilhava. Ele estava no centro de um turbilhão de energia eólica, olhando para ela com desejo tão poderoso que a assustou. A deusa não conseguia falar. Estava presa em seu olhar, atraída e repelida, igualmente com medo de perdê-lo quanto de aceitá-lo.
— Controle isso, seu tolo! — a Mãe Terra gritou seu comando sobre o vento. — Mudou de direção!
Nyx olhou para onde o funil tinha estado apenas momentos atrás. Ele tinha desaparecido! Ela procurou no céu e percebeu que ele atravessara o terreno da pradaria, mudando de direção, e ia para a linha das árvores, onde o Povo se estabelecera.
— Ar! Eu ordeno que você parta! — Kalona exclamou.
Mas a tarefa de Kalona estava completa, e ele já não mais comandava Ar. Os ventos chicoteantes dentro funil uivaram e cresceram, caindo sobre o assentamento.
Do céu houve um brilho dourado e Erebus pousou, de pé, alto e orgulhoso entre o turbilhão e a linha das árvores. Em uma voz firme e forte ele ordenou:

Ventos da tempestade e dos relâmpagos, paixão e poder,
Eu os ordeno com uma intenção diferente.
Paz e calma eu trago nesta hora.
Agora! Minha criação à Deusa eu apresento.

Erebus bateu as mãos e luz solar saiu de suas palmas, atravessando o coração do funil escuro de nuvens.
Como orvalho evaporado pelos raios do sol de verão, as nuvens se abriram, dissolvendo a paixão da tempestade. Do centro que tão recentemente fora uma espiral de paixão caótica e poder, cores cresceram e arquearam, espalhando-se em um arco brilhante de amarelo, rosa, violeta, púrpura e verde.
As dríades, que tinham se encolhido de medo, se escondendo na grama alta, se arrastaram para fora, murmurando animadas apreciando o show de cores. Até L’ota, que se escondera atrás de Nyx, espiou e arquejou de prazer.
— Você gostou? — Erebus perguntou, correndo até Nyx e primeiro se curvando para ela, em seguida, para a Mãe Terra. — Eu estava um pouco apressado. Tinha planejado apresentar ao anoitecer, quando as cores ficariam mais brilhantes, mas fui atraído para cá por esse turbilhão, e sabia que meus planos deveriam mudar — Erebus franziu a testa para Kalona. — Em que você estava pensando?
— Eu não estava pensando em você!
Os olhos de Nyx se arregalaram de surpresa pelo tom áspero de Kalona, mas antes que ela pudesse repreendê-lo, a Mãe Terra falou.
— Você não estava pensando em ninguém, exceto em si mesmo! Kalona, você falhou neste teste — seu descontentamento fez a grama da pradaria tremer. A Mãe Terra virou as costas para Kalona e foi até Erebus, abraçando-o calorosamente. — Erebus, sua criação é adorável, e eu lhe agradeço por acabar com essa tempestade terrível que poderia ter destruído alguns dos meus filhos.
— Espere, minha amiga — Nyx se dirigiu a Mãe Terra lentamente, com cuidado, considerando cada uma de suas palavras. — Quando você ordenou que Kalona e Erebus completassem três tarefas, proclamou que, como a Deusa deles, é meu direito julgar suas criações. Eu respeitosamente devo lembrá-la de seu próprio édito.
A Mãe Terra se encontrou com o olhar de Nyx. A Deusa procurou por raiva ou ressentimento dentro dos olhos da amiga, mas viu apenas preocupação e, em seguida, resignação. A Mãe Terra inclinou a cabeça para Nyx.
— Você faz bem em me lembrar de minhas palavras. Eu me curvo diante a seu julgamento.
Respirando fundo, Nyx encarou Kalona.
Ele se aproximou dela quando o funil ficara fora de controle, e ela sabia que ele tinha estado pronto para protegê-la contra sua própria criação. Ela também sabia sobre a miséria que viu eu seus olhos cor de âmbar. Ela sentiu a dor espelhada dentro de si mesma.
— Kalona, o que você criou para mim fez exatamente o que você pretendia. Demonstrou o poder de sua paixão, e eu podia ver o seu turbilhão do Outromundo. Aprecio sua força e seu desejo de compartilhar suas paixões mais íntimas comigo. Você exerce o poder de um guerreiro imortal, meu guerreiro imortal, e isso me agrada. Mas se você quiser ser mais que um guerreiro para mim pela eternidade, deverá moderar a sua paixão com bondade, e seu poder, com controle — ela fechou o espaço entre eles. Precisava tocá-lo. Deixar segurá-la em seus braços como ele fizera na noite anterior enquanto ele a alimentava com frutos e olhava para o mar iluminado pela lua com ela. Mas, para seu próprio bem, Nyx negou sua necessidade e terminou seu julgamento. — Eu entendo a intenção por trás de sua criação, e por isso você não falhou no teste, mas você não me agradou, tampouco.
Os ombros de Kalona caíram e ele não encontrou os seus olhos.
— Peço que me perdoe e me dê outra chance de agradá-la, porque eu desejo muito mais do que ser seu guerreiro.
— Prontamente, eu te perdoo e lhe concedo outra chance. Qual elemento você escolhe controlar?
Seus olhos se encontraram com os dela novamente.
— O que é tão favorecido por você; água.
— Minha amiga? — Nyx chamou, olhando de Kalona para Mãe Terra.
A Mãe Terra assentiu e disse:
— Até que cada um consiga sua criação, eu lhes concedo o domínio sobre a água. Como falei; assim será.
— Obrigada, Mãe Terra — Nyx disse.
Sem mais nenhuma outra palavra para Kalona, Nyx deu as costas para ele e caminhou até Erebus. Abraçando-o calorosamente, ela falou:
— Erebus, seu arco de cores é lindo! Você me agradou bastante. Caminharia por um tempo comigo? Eu gostaria de apresentá-lo para o povo da pradaria. Depois do que eles testemunharam hoje, estou certa de que sua música trará o deleite tão necessário.
— Deusa, é o meu maior prazer concordar com o seu pedido.
Nyx o deixou pegar sua mão e juntos eles caminharam pelo gramado em direção às árvores. Embora quisesse, a Deusa não se permitiu olhar para Kalona sequer uma vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!