20 de novembro de 2015

Capítulo 4

Com o contrato assinado e guardado em segurança na bolsa de Bonnie, eles caminharam rumo à pensão em que Stefan tinha tornado a residir novamente. Procuraram pela Sra. Flowers, mas não puderam encontrá-la, como de costume. Então, foram até o corredor com tapete desgastado.
 Stefan! Elena! Somos nós!
A porta no topo da escada se abriu e Stefan colocou a cabeça para fora. Ele parecia, de alguma maneira, diferente.
 Feliz  sussurrou Bonnie sabiamente a Meredith.
 Será que é só isso?
 Claro — Bonnie estava chocada. — Ele tem Elena de volta.
 Sim, ele tem. Do jeito que ela estava quando se conheceram, pelo que sabemos. Você a viu na floresta — a voz da Meredith estava cheia de significado.
 Mas... isso é... oh, não! Ela é humana novamente!
Matt olhou para baixo da escada e sibilou.
 Querem parar? Eles vão nos ouvir.
Bonnie ficou confusa. Claro que Stefan podia ouvi-los, mas se você fosse se preocupar com o que ele ouviria, teria que se preocupar com seus pensamentos também. Stefan sempre poderia pegar a forma do que estava pensando, se não as palavras reais.
 Garotos! — sibilou Bonnie. — Quero dizer, sei que eles são absolutamente necessários e tudo, mas às vezes eles realmente não entendem nada.
 Espere até você experimentar os homens — sussurrou Meredith, e o pensamento de Bonnie foi até Alaric Saltzman, o estudante universitário com quem Meredith estava mais ou menos comprometida.
 Poderia te dizer uma coisa ou duas — Caroline acrescentou, examinando as suas longas unhas feitas com um olhar cansado do mundo.
 Mas Bonnie não precisa saber nada ainda. Ela tem muito tempo para aprender — disse Meredith, firmemente no modo materno. — Vamos entrar.
 Sentem-se, sentem-se — disse Stefan incentivando-os quando entraram, o anfitrião perfeito. Mas ninguém podia sentar. Todos os olhos estavam fixos em Elena.
Ela estava sentada em posição de lótus em frente à única janela aberta do quarto, com o vento fresco fazendo sua camisola branca inchar. Seu cabelo era verdadeiramente dourado novamente, não o perolado ouro-branco que se tinha tornado quando Stefan sem querer a transformara em vampira. Parecia exatamente do modo como Bonnie se lembrava dela.
Só que estava flutuando trinta centímetros acima do chão.
Stefan viu todos eles engasgarem.
 É apenas algo que ela faz — disse, quase como um pedido de desculpa. — Ela acordou no dia seguinte ao da nossa luta com Klaus e começou a flutuar. Acho que a gravidade não conseguiu atingi-la muito ainda — ele olhou para Elena. — Olha quem chegou para vê-la — ele falou sedutoramente.
Elena estava olhando. Seus olhos azuis com listras douradas estavam curiosos, e ela sorria, mas não houve sinal de reconhecimento quando olhou de um visitante para o outro.
Bonnie mantinha seus braços estendidos.
 Elena? Sou eu, Bonnie, lembra? Eu estava lá quando você voltou. Estou muito contente em vê-la.
Stefan tentou novamente:
 Elena, lembra? Estes são os seus amigos, seus bons amigos. Esta alta de cabelo escuro é Meredith, e essa pequena duende incandescente é Bonnie, e esse cara com esse jeito todo americano é o Matt — algo mudou na expressão de Elena, e Stefan repetiu: — Matt.
 E eu aqui? Ou estou invisível? — Caroline falou ainda na entrada do quarto.
Ela parecia bem-humorada, mas Bonnie sabia que isso a fazia ranger os dentes, só ver Stefan e Elena juntos e fora de perigo.
 Você está certa. Desculpe — disse Stefan, e fez algo nada normal pra alguém de dezoito anos de idade, que não quisesse parecer um idiota. Puxou a mão de Caroline e beijou graciosa e irrefletidamente como se fosse um cavalheiro de mais ou menos meio milênio atrás. O que, obviamente, era exatamente o caso, pensou Bonnie.
Caroline pareceu um pouco presunçosa. Stefan havia demorado algum tempo com o ato. Então, ele disse:
 E por último, mas não menos importante, esta beleza bronzeada aqui é Caroline — então, muito gentilmente, em uma voz que Bonnie tinha ouvido-o utilizar apenas algumas vezes desde que tinha conhecido-o, ele continuou: — Não se lembra deles, amor? Quase morreram por você – e por mim.
Elena estava flutuando facilmente, ficando ereta agora, como um nadador tentando permanecer parado.
 Fizemos porque nos importamos — Bonnie falou, e esticou seus braços outra vez para um abraço. — Mas nunca imaginamos poder tê-la de volta, Elena — seus olhos se encheram de lágrimas. — Você voltou para nós. Não se lembra da gente?
Elena flutuou para baixo até que estava diretamente na frente de Bonnie. Não havia ainda nenhum sinal de reconhecimento em seu rosto, mas havia outra coisa. Havia uma espécie de bênção e tranquilidade ilimitadas. Elena irradiava uma calma, paz e amor incondicional que fez Bonnie respirar profundamente e fechar os olhos. Ela podia sentir isso como um sol no seu rosto, como ouvir o oceano. Após um momento, Bonnie percebeu que estava em risco de chorar com a mera sensação de bondade – uma palavra que quase nunca era utilizada nos dias de hoje. Algumas coisas ainda podiam ser simplesmente, intocavelmente boas.
Elena era boa.
E então, com um toque suave no ombro de Bonnie, Elena flutuou em direção Caroline. Esticou seus braços.
Caroline parecia envergonhada. Uma onda de escarlate varreu seu pescoço.
Bonnie viu, mas não conseguiu compreender. Todos eles teriam a chance de pegar a energia de Elena. E Caroline e Elena tinham sido amigas íntimas, até Stefan, a sua rivalidade tinha sido amigável. E foi bom da parte de Elena escolher Caroline para o primeiro abraço.
E então Elena entrou no círculo dos hostis braços de Caroline e justamente quando Caroline começou a dizer “Eu tenho...” ela beijou sua boca em cheio. Não foi apenas um selinho sequer. Elena jogou os braços ao redor do pescoço de Caroline pendurou-se nela. Por um longo momento, Caroline permaneceu completamente parada, como se estivesse em choque. Então se jogou pra trás e lutou, primeiro febrilmente e, em seguida, tão violentamente que Elena foi atirada para trás no ar, com os olhos arregalados.
Stefan a pegou em meio ao voo.
 Que diabos...?  Caroline estava esfregando sua boca.
 Caroline!  a voz de Stefan estava cheia de uma feroz proteção. — Isso não significa nada do que você está pensando. Não tem nada a ver com o sexo de maneira alguma. Ela apenas quer identificá-la, descobrir quem você é. Ela pode fazer isso agora que está de volta para nós.
 Marmotas — disse Meredith com uma voz fria e levemente distante que muitas vezes tinha utilizado para fazer baixar a temperatura do ambiente. — Marmotas se beijam quando se conhecem. Fazem exatamente o que você disse, Stefan, isso as ajuda a identificar indivíduos específicos...
Caroline tinha ido muito além das habilidades de Meredith para esfriar o que quer que fosse, no entanto. Esfregar a boca tinha sido uma má ideia, ela estava manchada de batom escarlate por todo o rosto, de modo que parecia algo saído do filme A noiva de Drácula.
 Você está louca? O que acha que eu sou? Porque alguns hamsters fazem isso, torna isso certo? — Ela tinha corado em um vermelho incandescente desde a base de sua garganta até as raízes do seu cabelo.
 Marmotas. Não hamsters.
 Oh, dá um temp... — Caroline se interrompeu, remexendo em sua bolsa freneticamente desastrada até que Stefan ofereceu-lhe uma caixa de lenços. Ele já havia tirado o vermelho escarlate da boca de Elena. Caroline se apressou para pequeno banheiro anexo ao quarto-sótão de Stefan e bateu a porta com força.
Bonnie e Meredith capturaram os olhos uma da outra e soltaram o ar simultaneamente, explodindo em risos. Bonnie fez uma rápida imitação de expressão frenética de Caroline e um gesto de mímica de alguém usando punhados após punhados de lenços. Meredith balançou a cabeça como um sinal de reprovação, mas ela, Stefan e Matt tiveram ataque de riso histérico. Parte disso foi simplesmente a libertação de tensão – estavam vendo Elena viva novamente, após seis longos meses sem ela, mas não podiam parar de rir.
Ou, pelo menos, não podiam até que uma caixa de lenços voou para fora do banheiro, quase acertando a cabeça de Bonnie, e todos perceberam a porta tinha batido e voltado a se abrir, e que havia um espelho no banheiro. Bonnie capturou o reflexo de Caroline no espelho e então seus olhos a encarando furiosamente.
Sim, ela os tinha visto rindo dela.
A porta fechou novamente, desta vez, como se tivesse sido chutada. Bonnie baixou a cabeça rapidamente agitando seu cabelo cacheado, desejando que o chão se abrisse e a engolisse.
 Vou pedir desculpas — disse depois de engolir duramente, tentando ser adulta sobre a situação. Então olhou para cima e percebeu que todo mundo estava mais preocupado com Elena, que estava claramente perturbada por esta rejeição.
Ainda bem que fizemos o juramento com sangue, Bonnie pensou. E é uma coisa boa que você-sabe-quem assinou também. Se havia uma coisa que Damon sabia a respeito, era sobre consequências.
Enquanto estava pensando nisso, ingressou na bagunça em torno de Elena. Stefan estava tentando segurar Elena; Elena estava tentando ir atrás Caroline; e Matt e Meredith estavam ajudando Stefan dizendo para Elena que estava tudo bem.
Quando Bonnie se juntou a eles, Elena desistiu de tentar chegar ao banheiro. Seu rosto estava muito angustiado, seus olhos azuis cheios de lágrimas.
A serenidade de Elena tinha sido quebrada pela dor e arrependimento e por baixo disso – uma surpreendentemente profunda apreensão. A intuição de Bonnie deu uma pontada.
Mas segurou Elena pelo cotovelo, a única parte que podia alcançar, e acrescentou sua voz ao coro:
 Você não sabia que ela ia ficar tão chateada. Não quis magoá-la.
Cristais de lágrimas derramaram pelas bochechas de Elena, e Stefan capturou-as com um lenço, como se cada uma fosse inestimável.
 Ela pensa que Caroline está ferida — disse Stefan — e está preocupada com ela, por algum motivo que não entendo.
Bonnie percebeu que Elena podia se comunicar com ele afinal de contas – por uma ligação de suas mentes.
 Senti isso também — falou. — A dor. Mas diga a ela, quer dizer, Elena, prometo que vou pedir desculpas. Vou implorar.
 Isso pode custar algumas implorações de todos nós — disse Meredith. — Mas, antes, quero ter certeza de que este anjo esquecido me reconheça.
Com uma expressão sofisticada de tranquilidade, ela tomou Elena dos braços de Stefan e a puxou para os seus braços, em seguida, beijou-a.
Infelizmente, isto coincidiu com a saída de Caroline do banheiro. A parte inferior do seu rosto estava mais branca que a parte de cima, a maquiagem tinha sido tirada: batom, base, blush e tudo mais. Ela parou e encarou em pavor.
 Não acredito nisso! — ela falou em tom sarcástico. — Vocês ainda estão fazendo isso! É nojen...
 Caroline — a voz Stefan era um aviso.
 Vim aqui para ver Elena — Caroline – a linda, ágil e bronzeada Caroline – estava torcendo as mãos, como se estivesse em um terrível conflito. — A antiga Elena. E o que vejo? Ela é como um bebê, não pode falar. Ela é como um guru sorridente flutuando no ar. E agora é como uma espécie de pervert...
 Não termine isso — disse Stefan calmamente, mas firme. — Posso te afirmar que ela deverá estar livre dos primeiros sintomas em poucos dias, a julgar pelos progressos realizados até agora — acrescentou.
E ele estava diferente de alguma forma, Bonnie se lembrou de sua primeira opinião ao vê-lo hoje. Não apenas feliz de ter Elena volta. Ele estava... mais forte de algum modo de dentro pra fora. Stefan sempre foi quieto por dentro; seus poderes pareciam como uma piscina de água límpida. Agora ela viu que a mesma água clara tinha se tornado um tsunami.
O que poderia ter mudado tanto Stefan?
A resposta veio-lhe imediatamente, embora sob a forma de uma pergunta.
Elena ainda era parte espírito – a intuição de Bonnie lhe disse. O que aconteceria se ele bebesse o sangue de alguém que estava nesse estado?
 Caroline, vamos apenas parar com isso — disse ela. — Sinto muito, estou muito, muito arrependida por – você sabe – eu estava errada, e estou arrependida.
 Oh, você se arrepende. E isso deixa tudo bem então, não é? — a voz de Caroline era como ácido puro, e ela deu as costas para Bonnie.
Bonnie ficou surpresa ao ver os vestígios de lágrimas nos olhos dela.
Elena e Meredith ainda tinham os seus braços uma ao redor da outra, suas bochechas molhadas com lágrimas. Estavam se olhando e Elena estava radiante.
 Agora ela vai saber quem você é em qualquer lugar — disse Stefan a Meredith. — Não só o seu rosto, mas... seu interior, também, ou a forma dele pelo menos. Eu deveria ter mencionado isso, antes diste começar, mas fui o único que ela “conheceu”, e eu não percebi...
 Você devia ter percebido! — Caroline andava de um lado para outro como um tigre.
 Então você beijou uma garota, e daí? — Bonnie explodiu. — O que você acha? Que vai criar barba agora?
Como se impulsionada pelo poder do conflito em torno dela, Elena de repente disparou, muito rápida, e estava vagando ao redor da sala como se tivesse tomado um tiro de canhão, o cabelo estralando com eletricidade quando fazia paradas súbitas ou voltas. Ela fez a volta ao redor do cômodo, duas vezes, e quando sua silhueta estava contra a janela empoeirada, Bonnie pensou, Oh, meu Deus! Temos que pegar algumas roupas pra ela! Ela olhou pra Meredith e viu que a amiga partilhara da sua realização. Sim, elas tinham que arrumar roupas para Elena, principalmente roupas íntimas.
Enquanto Bonnie se movia em a direção Elena, tão tímida como se nunca tivesse sido beijada antes, Caroline explodiu.
 Vocês simplesmente vão continuar fazendo isso! — ela estava praticamente entrando em colapso agora, pensou Bonnie. — O que há de errado com vocês? Vocês não têm qualquer senso de moral?
Isso, infelizmente, causou outro ataque histérico, obrigando Bonnie e Meredith a gargalharem. Até Stefan virou pra outro lado rapidamente, sua cordialidade para com a convidada claramente lutando uma batalha perdida.
Não apenas uma convidada, pensou Bonnie, mas uma garota que tinha ido longe demais – mais que isso – pois Caroline não tinha sido tímida sobre deixar as pessoas saberem quando tinha colocado suas mãos nele. Sobre o quão longe um vampiro podia ir, lembrou Bonnie, e ainda não era tudo. Algo sobre o substituir o partilhamento de sangue por – bem, por aquilo... Mas ele não foi o único que Caroline tinha cercado. Caroline tinha má fama.
Bonnie olhou pra Elena, e viu que Elena estava assistindo Caroline com uma estranha expressão. Não é como se Elena tivesse com medo dela, mas sim como se estivesse profundamente preocupada com ela.
 Você está bem? — Bonnie sussurrou para ela.
Surpresa, Elena concordou com a cabeça e, em seguida, olhou para Caroline sacudiu a cabeça negativamente. Ela olhou cuidadosamente Caroline de cima a baixo, e sua expressão era como a de um médico perplexo examinando um paciente muito doente. Então flutuou em direção Caroline, com uma mão estendida.
Caroline se esquivou, como se estivesse com nojo de ter Elena tocando-a. Não, não nojo, pensou Bonnie, mas medo.
 Como vou saber o que ela vai fazer agora? — Caroline rebateu, mas Bonnie sabia que não era a verdadeira razão de seu medo. O que é que nós temos aqui? Ela se perguntou. Elena com medo de Caroline, e Caroline com medo de Elena. O que significa isso?
Os sentidos psíquicos de Bonnie lhe davam arrepios. Havia algo de errado com Caroline, ela sentia, algo que nunca tinha sentido antes. E o ar... Estava pesando de alguma forma, como se uma tempestade estivesse a caminho.
Caroline fez um movimento forte ao virar o rosto para manter Elena afastada dela. Moveu-se para trás de uma cadeira.
 Basta mantê-la longe de mim, tudo bem? Não vou deixar que ela toque em mim novamente... — começou, quando Meredith mudou toda a situação com duas palavras sussurradas.
 O que você disse pra mim? — Caroline perguntou, fitando-a.

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