13 de novembro de 2015

Capítulo 4

Algo puxou Elena para longe da árvore e, uivando um protesto, ela caiu e ficou de pé como um gato. Seus joelhos atingiram o chão um segundo mais tarde e ficaram machucados.
Ela recuou, os dedos fechados em garras para atacar quem quer que tivesse feito isso. Damon deu um tapa em sua mão.
— Por que você me puxou? — exigiu.
— Por que você não ficou onde a deixei? — ele retrucou.
Olharam um para o outro, igualmente furiosos. Então Elena se distraiu. A gritaria ainda continuava no andar de cima, aumentada agora pelas pancadas e batidas na janela. Damon apertou-a contra a casa, onde não podiam ser vistos de cima.
— Vamos nos afastar desse barulho — disse meticulosamente, olhando para cima. Sem esperar por uma resposta, pegou o braço dela. Elena resistiu.
— Tenho que entrar lá! 
— Você não pode — ele lhe lançou um sorriso de dentes arreganhados. — Quero dizer literalmente. Você não pode entrar nessa casa. Não foi convidada.
Momentaneamente confusa, Elena deixou-o rebocá-la por alguns passos. Então afundou seus calcanhares novamente.
— Mas preciso do meu diário!
— O quê?
— Está no armário, sob o piso de madeira. Eu preciso dele. Não posso dormir sem o meu diário.
Elena não sabia porquê estava fazendo tanto estardalhaço, mas parecia importante.
Damon pareceu exasperado; então, seu rosto clareou.
— Aqui — ele disse calmamente, seus olhos cintilando. Retirou algo de sua jaqueta. — Pegue.
Elena olhou sua oferta com desconfiança.
— É o seu diário, não é?
— Sim, mas é o meu antigo. Quero o novo.
— Esse vai ter que servir, porque é tudo o que vai ganhar. Venha antes que eles acordem a vizinhança inteira — sua voz tinha ficado fria e autoritária novamente.
Elena avaliou o livro que ele segurava. Era pequeno, com uma capa de veludo azul e cadeado em latão. Talvez não fosse edição mais nova, mas era familiar a ela. Decidiu que era aceitável.
Deixou Damon guiá-la para a noite. Não perguntou para onde estavam indo. Não ligava muito. Mas reconheceu a casa na Avenida Magnolia; era onde Alaric Saltzman estava morando.
E foi Alaric quem abriu a porta da frente, chamando Elena e Damon para dentro.
O professor de história parecia estranho, contudo, e não parecia realmente vê-los. Seus olhos estavam embaçados e se moviam como um robô.
Elena lambeu os lábios.
— Não — Damon disse curtamente. — Não é para morder esse. Há algo suspeito nele, mas você deve ficar segura o bastante na casa. Já dormi aqui antes. Aqui em cima.
Ele a guiou por um lance de escadas até um sótão com uma pequena janela. Estava lotado com objetos velhos: trenós, esquis, uma rede. Bem no final, um velho colchão estava esticado no chão.
— Ele nem saberá que você está aqui de manhã. Deite-se.
Elena obedeceu, assumindo uma posição que parecia natural para ela. Deitou de costas, mãos dobradas sobre o diário que segurava perto de seu peito.
Damon colocou um oleado por cima dela, cobrindo seus pés nus.
— Vá dormir, Elena — disse.
Ele inclinou-se sobre ela, e por um momento, Elena achou que ele iria... fazer alguma coisa.
Seus pensamentos estavam desorganizados demais. Mas os olhos negros como a noite dele encheram sua visão. Então ele se afastou, e ela conseguiu respirar novamente. A melancolia do sótão se assentou sobre ela.
Seus olhos se fecharam e ela dormiu.


Ela acordou lentamente, reunindo informações sobre onde estava, pedaço por pedaço. O porão de alguém, pelo que parecia. O que estava fazendo aqui?
Ratos ou camundongos estavam lutando em algum lugar entre as pilhas de objetos cobertos por oleados, mas o som não a incomodava.
O traço mais fraco de luz pálida aparecia nas beiradas da janela tapada.
Empurrou seu cobertor improvisado e levantou-se para investigar.
Era definitivamente o porão de alguém, e não de alguém que ela conhecesse. Sentia como se tivesse estado doente por um longo tempo e tivesse acabado de acordar de sua doença. Que dia é hoje?, ela se perguntou.
Conseguia ouvir vozes abaixo dela. A escada ficava embaixo. Algo lhe disse para ser cuidadosa e silenciosa. Ela ficou com medo de fazer algum tipo de perturbação. Abriu a porta do sótão calmamente sem fazer barulho e cuidadosamente desceu a escada. Olhando para baixo, conseguia ver a sala de estar. Reconheceu-a; ela tinha sentado no otomano quando Alaric Saltzman tinha dado uma festa. Estava na casa dos Ramsey.
E Alaric Saltzman estava lá embaixo; conseguia ver o topo da cabeça cor de areia dele.
A voz dele a estarreceu. Após um momento, percebeu que era porque ele não soava estúpido ou bobo ou como geralmente soava na aula. Não estava fluindo em uma tagarelice psicótica, tampouco. Estava falando fria e decisivamente com outros dois homens.
— Ela pode estar em qualquer lugar, até mesmo bem debaixo dos nossos narizes. Mais provavelmente fora da cidade, contudo. Talvez na floresta.
— Por que na floresta? — perguntou um dos homens.
Elena conhecia essa voz, também, e aquela careca. Era o Sr. Newcastle, o diretor da escola.
— Lembre-se, as primeiras duas vítimas foram achadas perto da floresta — disse o outro homem.
Era o Dr. Feinberg?, Elena pensou. O que estava fazendo aqui? O que eu estou fazendo aqui?
— Não, é mais do que isso — Alaric dizia. Os outros homens o escutavam com respeito, até mesmo com deferência. — A floresta está conectada a isso. Eles podem ter um esconderijo lá, uma toca onde podem entrar se forem descobertos. Se houver um, eu acharei.
— Tem certeza? — perguntou o Dr. Feinberg.
— Absoluta — Alaric respondeu brevemente.
— E é onde você acha que Elena está — disse o diretor. — Mas ela permanecerá lá? Ou voltará para a cidade?
— Não sei — Alaric marchou alguns passos e pegou um livro de uma mesinha de centro, correndo seu dedão por ele distraidamente. — Um jeito de descobrir é observar as amigas dela. Bonnie McCullough e aquela garota de cabelos escuros, Meredith. As chances são de que serão as primeiras a verem-na. É assim que geralmente acontece.
— E uma vez que nós a tenhamos localizado? — o Dr. Feinberg perguntou.
— Deixe isso comigo — Alaric disse silenciosa e carrancudamente.
Fechou o livro e o derrubou na mesinha de centro com um som perturbadoramente conclusivo.
O diretor espiou seu relógio.
— É melhor eu ir andando; a cerimônia começa às dez. Presumo que ambos estarão lá? — Ele parou a caminho da porta e olhou para trás, sua postura irresoluta. — Alaric, espero que cuide disso. Quando o chamei, as coisas não tinham chegado a esse ponto. Agora estou começando a me perguntar...
— Eu consigo cuidar disso, Brian. Já disse; deixe comigo. Você preferiria ter a Robert E. Lee em todos os jornais, não apenas como cenário da tragédia, mas também como “A Escola Mal-Assombrada do Condado de Boone”? Um lugar de reunião para demônios? A escola onde os mortos-vivos andam? É esse o tipo de publicidade que você quer?
O Sr. Newcastle hesitou, mordendo o lábio, então acenou, ainda parecendo infeliz.
— Tudo bem, Alaric. Mas faça isso rápido e de forma limpa. Eu o vejo na igreja.
Ele saiu e o Dr. Feinberg o seguiu.
Alaric ficou de pé ali por algum tempo, aparentemente encarando o vazio. Por fim acenou uma vez e ele próprio saiu pela porta da frente.
Elena lentamente arrastou-se de volta escada acima.
Agora, o que fora tudo isso? Ela se sentia confusa, como se estivesse flutuando livre no tempo e no espaço. Precisava saber que dia era, por que estava ali, e por que se sentia tão assustada. Por que sentia tão intensamente que ninguém devia vê-la, ouvi-la ou notá-la.
Olhando ao redor do sótão, não viu nada que lhe daria alguma ajuda. Onde estava deitada havia apenas o colchão e o oleado – e um livrinho azul.
Seu diário! Avidamente, o agarrou e o abriu, pulando os dias.
Elas paravam no dia 17 de outubro; não ajudavam a descobrir a data de hoje. Mas enquanto olhava para a escrita, imagens formaram em sua mente, pendurando-se como pérolas para formar memórias. Fascinada, lentamente sentou-se no colchão. Folheou de volta para o começo e começou a ler sobre a vida de Elena Gilbert.
Quando terminou, estava fraca com medo e terror. Pontos brilhantes dançaram e cintilaram perante seus olhos. Havia tanta dor naquelas páginas. Tantos esquemas, tantos segredos, tanta necessidade. Era a história de uma garota que se sentia perdida em sua própria cidade natal, em sua própria família. Que estivera procurando por... algo, algo que nunca conseguia alcançar. Mas não foi isso o que causou o pânico palpitante em seu peito que drenava toda a energia de seu corpo. Não era por causa disso que ela sentia como se estivesse caindo mesmo estando sentada tão ereta quanto conseguia. O que causava o pânico era que ela se lembrava.
Se lembrava de tudo.
Da ponte, da água corrente. Do horror à medida que o ar deixava seus pulmões e não havia nada além de líquido para respirar. O jeito como tinha machucado. E o instante final quando tinha parado de doer, quando tudo tinha parado. Quando tudo... parara.
Ah, Stefan, eu estava tão assustada, pensou. E o mesmo medo estava dentro dela agora. Na floresta, como pôde ter se comportado daquela maneira com Stefan? Como pôde ter se esquecido dele, de tudo que ele significava para ela? O que a tinha feito agir dessa maneira?
Mas ela sabia. No centro de seu consciente, sabia. Ninguém levantava e andava de um afogamento assim. Ninguém levantava e andava, viva.
Lentamente, levantou e foi olhar pela janela tapada. O painel escurecido de vidro agia como um espelho, jogando reflexos de volta a ela.
Não era o reflexo que vira em seu sonho, onde ela tinha percorrido um corredor de espelhos que pareciam ter vida própria. Não havia nada dissimulado ou cruel nesse rosto. Mesmo assim, estava sutilmente diferente do que estava acostumada a ver.
Havia um brilho pálido em sua pele e um vazio notável em seus olhos. Elena tocou com as pontas dos dedos em seu pescoço, de ambos os lados. Foi onde Stefan e Damon tinham tomado seu sangue. Tinham realmente sido vezes o bastante, e ela tinha realmente tomado o bastante deles em troca?
Deve ter sido. E agora, pelo resto da sua vida, pelo resto da sua existência, teria que se alimentar como Stefan. Teria que...
Ela afundou em seus joelhos, pressionando a testa contra a madeira nua de uma parede. Eu não posso, ela pensou. Ah, por favor, não posso; não posso.
Nunca havia sido muito religiosa. Mas das profundezas dela, seu horror estava fluindo, e cada partícula de seu ser juntou-se em um grito por ajuda. Ah, por favor, pensou. Ah, por favor, por favor, me ajude. Não pediu por nada específico; não conseguia reunir seus pensamentos tanto assim. Só: Ah, por favor, me ajude, ah, por favor, por favor.
Após um momento, levantou-se novamente.
Seu rosto ainda estava pálido, mas assustadoramente lindo, como porcelana fina iluminada de dentro. Seus olhos ainda estavam manchados com sombras. Mas havia uma resolução neles.
Ela tinha que encontrar Stefan. Se houvesse alguma esperança, ele saberia. E se não houvesse... bem, precisava ainda mais dele. Não havia nenhum outro lugar em que queria estar exceto com ele.
Fechou a porta do sótão cuidadosamente atrás dela enquanto saía. Alaric Saltzman não podia descobrir seu esconderijo. Na parede, viu um calendário com os dias até 4 de dezembro riscados. Quatro dias desde a última noite de sábado. Ela tinha dormido por quatro dias.
Quando alcançou a porta da frente, se encolheu com a luz do dia do lado de fora. Machucava.
Mesmo o céu estando tão nublado que chuva ou a neve pareciam iminentes, machucava os olhos dela. Teve que se forçar a deixar a segurança da casa, e então sentiu uma paranoia torturante sobre ficar exposta do lado de fora. Escapou ao lado de cercas, ficando próxima às árvores, pronta para sumir nas sombras. Ela própria se sentia como uma sombra – ou um fantasma, com o longo vestido branco de Honoria Fell. Ela deixaria qualquer um que a visse de cabelos em pé.
Mas toda sua circunspecção pareceu um desperdício. Não havia ninguém nas ruas para vê-la; a cidade podia ter sido abandonada. Passou por casas aparentemente desertas, jardins abandonados, lojas fechadas. Logo em seguida viu carros estacionados alinhados na rua, mas eles estavam vazios, também.
E então viu uma forma contra o céu que a fez parar de andar. Um campanário, branco contra as pesadas nuvens escuras. As pernas de Elena tremeram enquanto se forçou a deslizar para mais perto do edifício. Ela conhecera essa igreja por toda a sua vida; tinha visto a cruz gravada naquela parede mil vezes. Mas agora que se aproximava dela, era como se um animal preso fosse se soltar e mordê-la. Pressionou uma mão na parede de pedra e escorregou-a para cada vez mais perto do símbolo entalhado.
Quando seus dedos esticados tocaram o braço da cruz, seus olhos se encheram de lágrimas e sua garganta doeu. Deixou sua mão deslizar por ela até que cobriu gentilmente a gravação.
Então se inclinou contra a parede e deixou as lágrimas saírem.
Eu não sou malvada, pensou. Fiz coisas que não devia. Pensei muito em mim mesma; nunca agradeci Matt, Bonnie e Meredith por tudo que fizeram por mim. Eu devia ter brincado mais com Margaret e ter sido mais boazinha com a tia Judith. Mas não sou malvada. Não sou amaldiçoada.
Quando conseguiu enxergar novamente, olhou para o edifício. O Sr. Newcastle tinha dito algo sobre a igreja. Era esta a qual ele se referia?
Evitou a frente da igreja e a entrada principal. Havia uma porta lateral que dava para o coro, e ela deslizou pelas escadas sem fazer barulho e olhou para baixo da galeria.
Viu de uma só vez porque as ruas estavam tão vazias. Parecia que todos em Fell’s Church estavam aqui, cada assento em cada banco da igreja preenchido, e os fundos da igreja completamente lotada com pessoas de pé.
Encarando as fileiras da frente, Elena percebeu que reconhecia cada rosto; eles eram membros da turma dos veteranos, vizinhos e amigos da tia Judith. Tia Judith estava lá, também, usando o vestido preto que usara no funeral dos pais de Elena.
Ai, meu Deus, Elena pensou. Seus dedos agarraram o corrimão. Até agora estivera ocupada demais olhando para escutar, mas a monotonia silenciosa da voz do reverendo Bethea solveu-se repentinamente em palavras.
— … partilhas nossas lembranças dessa garota muito especial — disse, e moveu-se para o lado.
Elena observou o que aconteceu depois com uma sensação sobrenatural de que possuía um assento de camarote na peça. Não estava de maneira alguma envolvida nos eventos lá embaixo no palco; era somente uma espectadora, mas era a vida dela que estava assistindo.
O Sr. Carson, pai de Sue Carson, subiu e falou sobre ela. Os Carson a conheciam desde que nascera, e ele contava sobre os dias em que ela e Sue tinham brincado no jardim da frente deles no verão. Contava sobre a jovem linda e realizada que ela tinha se tornado. Ficou com um caroço em sua garganta e teve que parar e tirar seus óculos.
Sue Carson subiu. Ela e Elena não eram amigas próximas desde o ensino fundamental, mas ainda se davam bem. Sue tinha sido uma das poucas garotas que ficaram do lado de Elena depois que Stefan fora suspeito no assassinato do Sr. Tanner. Mas agora Sue chorava como se tivesse perdido uma irmã.
— Muitas pessoas não foram legais com a Elena depois do Dia das Bruxas — disse, limpando seus olhos e continuando. — E sei que isso a magoou. Mas Elena era forte. Nunca mudava só para satisfazer o que as outras pessoas achavam que ela deveria ser. E eu a respeito por isso, tanto... — a voz de Sue hesitou. — Quando eu estava concorrendo a Rainha das Boas-Vindas, queria ser escolhida, mas sabia que não seria e estava tudo bem. Porque se a Robert E. Lee já teve uma rainha, foi Elena. E acho que ela sempre será agora, porque é assim que iremos nos lembrar dela. Acho que nos próximos anos as garotas que forem para nossa escola talvez se lembrarão dela e pensarão sobre como ela se manteve fiel àquilo que achava certo... — Dessa vez Sue não conseguiu nivelar sua voz e o reverendo levou-a de volta para seu assento.
As garotas na turma dos veteranos, mesmo aquelas que tinham sido as mais indecentes e vingativas, estavam chorando e dando as mãos. Garotas que Elena sabia com certeza que a odiavam estavam fungando. De repente ela era a melhor amiga de todo mundo.
Havia garotos chorando, também. Chocada, Elena contraiu-se para mais perto do corrimão. Não conseguia parar de assistir, mesmo sendo a coisa mais horrível que já tenha visto.
Frances Decatur levantou, seu rosto comum mais comum do que nunca com o luto.
— Ela saiu do seu caminho para ser legal comigo — disse roucamente. — Ela me deixou almoçar com ela. 
Tolice, Elena pensou. Só falei com você em primeiro lugar porque você era útil em achar informações sobre o Stefan. Mas era o mesmo com cada pessoa que subiu no púlpito; ninguém conseguia achar palavras o suficiente para enaltecer Elena.
— Sempre a admirei… 
— Ela era uma ídola para mim...
— Uma das minhas estudantes favoritas...
Quando Meredith se levantou, o corpo todo de Elena endureceu. Não sabia se conseguiria lidar com isso. Mas a garota de cabelos escuros era uma das poucas pessoas na Igreja que não estava chorando, apesar de seu rosto ter um olhar sério e triste que lembrava Elena de como Honoria Fell se parecia em sua tumba.
— Quando penso em Elena, penso nos bons tempos que tivemos juntas — disse, falando baixo e com seu costumeiro autocontrole. — Elena sempre tinha ideias, e conseguia transformar o trabalho mais chato em diversão. Nunca disse isso a ela, e agora queria ter dito. Queria falar com ela mais uma vez, só para que soubesse. E se Elena pudesse me ouvir agora — Meredith olhou ao redor da igreja e tomou um longo fôlego, aparentemente para se acalmar — se pudesse me ouvir agora, eu diria o quanto esses bons tempos significaram para mim, e o quanto desejo que ainda os pudéssemos ter. Como as noites de quinta em que costumávamos sentar juntas no quarto dela, praticando para o grupo de debate. Queria que pudéssemos fazer isso só mais uma vez como antes — Meredith tomou outro longo fôlego e balançou a cabeça. — Mas não posso, e é isso que machuca.
Do que você está falando?, Elena pensou, seu infortúnio interrompido pela surpresa. Nós costumávamos praticar para o grupo de debate nas noites de quarta, não quinta. E não era no meu quarto; era no seu. Não era divertido coisa alguma; de fato, nós acabamos desistindo porque ambas odiávamos aquilo...
De repente, observando o rosto cuidadosamente composto de Meredith, tão calmo do lado de fora para cobrir a tensão dentro, Elena sentiu seu coração começar a golpear.
Meredith estava mandando uma mensagem, uma mensagem que só Elena seria capaz de entender. O que queria dizer que Meredith esperava que Elena fosse capaz de ouvi-la.
Meredith sabia.
Stefan tinha contado a ela? Elena escaneou as fileiras abaixo de pessoas de luto, percebendo pela primeira vez que Stefan não estava entre elas. Nem Matt. Não, não parecia provável que Stefan tivesse contado a Meredith, ou que Meredith tivesse escolhido esse jeito de fazer uma mensagem chegar a ela se ele tivesse. Então se lembrou do jeito como Meredith olhara para ela na noite em que resgataram Stefan do poço, quando Elena pediu para ser deixada sozinha com Stefan.
Lembrava-se daqueles afiados olhos escuros estudando seu rosto mais de uma vez nos últimos meses, e do jeito como Meredith parecia ficar mais silenciosa e pensativa cada vez que Elena aparecia com um pedido estranho.
Meredith tinha adivinhado então. Elena se perguntava quanto da verdade ela tinha juntado.
Bonnie estava subindo agora, chorando sinceramente. Isso era surpreendente; se Meredith sabia, por que não contara a Bonnie? Mas talvez Meredith tivesse apenas uma suspeita, algo que não queria dividir com Bonnie caso fosse apenas uma esperança falsa.
O discurso de Bonnie foi tão emocional quanto o de Meredith tinha sido controlado. Sua voz ficava falhando e tinha que afastar as lágrimas de suas bochechas. Finalmente o reverendo Bethea foi até lá e deu-lhe algo branco, um lenço ou algum lencinho de papel.
— Obrigada — Bonnie disse, limpando seus olhos lacrimosos.
Inclinou sua cabeça para trás para olhar para o teto, ou para recuperar seu equilíbrio ou para respirar um pouco. Quando o fez, Elena viu algo que ninguém conseguiu ver: ela viu o rosto de Bonnie se esvair de cor e expressão, não como alguém prestes a desmaiar, mas de um jeito que era familiar demais.
Um arrepio passou pela espinha de Elena. Não aqui. Ah, Deus, de todas as horas e lugares, não aqui.
Mas já estava acontecendo. O queixo de Bonnie se abaixou; ela estava olhando para a congregação novamente. Exceto que desta vez ela não parecia vê-los de modo algum, e a voz que vinha da garganta de Bonnie não era a voz de Bonnie.
— Ninguém é o que aparenta. Lembrem-se disso. Ninguém é o que aparenta.
Então ela simplesmente ficou ali, sem se mover, encarando diretamente a frente com olhos vazios.
As pessoas começaram a se mover e olhar uma para outra. Houve um murmúrio de preocupação.
— Lembrem-se disso... lembrem-se... ninguém é o que aparenta…
Bonnie oscilou repentinamente, e o reverendo Bethea correu para ela enquanto outro homem precipitava-se pelo outro lado.
O segundo homem tinha uma careca que agora brilhava de suor – o Sr. Newcastle, Elena percebeu. E lá nos fundos da Igreja, caminhando pela nave, estava Alaric Saltzman. Ele alcançou Bonnie justo quando ela desmaiou, e Elena ouviu um passo atrás dela na escada.

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