26 de novembro de 2015

Capítulo 43

Elena não conseguia descrever muito bem o que sentia. Não era decepção. Era... uma espécie de trégua. Pelo que parecia a maior parte de sua vida, ela procurara por Stefan.
Mas agora que o tinha de volta, seguro e limpo (ele tomou um longo banho, durante o qual ela esfregou gentilmente com todo tipo de escovas e pedras-pomes. Depois os dois ficaram abraçados embaixo do chuveiro). O cabelo de Stefan estava mais escuro, macio e sedoso — um pouco maior do que ele geralmente mantinha, — disso ela tinha certeza. Ele não teve energia suficiente para se preocupar com o cabelo. Elena entendia isso.
E agora... Não havia guardas nem kitsune por perto para espioná-los. Não havia nada que os afastassem. Eles brincaram no chuveiro, espirrando água um no outro, Elena tomando todo o cuidado para manter os pés no tapete antiderrapante, pronta para tentar sustentar o corpo magro de Stefan. Mas eles agora não podiam brincar.
A brincadeira com água durante o banho também foi muito útil — para esconder as lágrimas que não paravam de cair pelo rosto de Elena. Ela podia — ah, meu Deus — contar e sentir cada uma das costelas de Stefan. Ele estava só pele e ossos, seu lindo Stefan, mas os olhos verdes continuavam vivos, falseando e dançando em seu rosto pálido.
Depois de vestirem os pijamas, eles simplesmente ficaram sentados na cama por um tempo, juntos, os dois respirando — Stefan estava tão acostumado a ficar perto de humanos e, recentemente, a tentar se acostumar a pequena quantidade de sangue que recebia — em sincronia, e os dois sentindo o corpo quente um do outro... Era quase insuportável. Depois, meio inseguro, Stefan tateou, procurando a mão de Elena, e a pegou, segurando-a em suas mãos, virando-a, maravilhado.
Elena engolia em seco sem parar, tentando falar qualquer coisa, sentindo que praticamente irradiava felicidade. Ah, isso era tudo o que eu queria, pensou, embora soubesse que em breve ia querer falar, e abraçar, e beijar, e alimentar Stefan. Mas se alguém perguntasse se ela teria se contentado apenas com isso, sentar-se juntos, comunicando-se só pelo toque e pelo amor, ela teria aceitado.
Antes que se desse conta, ela estava falando, palavras doces que vinham do fundo da alma.
— Pensei que dessa vez eu não fosse conseguir. Já venci tantas vezes, que desta vez algo ia me dar uma lição e você... Não conseguiria.
Stefan ainda estava maravilhado com a mão de Elena, dobrando meticulosamente para beijar cada dedo em separado.
— Você chama de vencer quase morrer para salvar minha vida inútil... E a ainda mais inútil vida de meu irmão?
— Isso é mais do que vencer — admitiu Elena. — Sempre que conseguimos ficar juntos, é uma vitória. Qualquer momento... Mesmo naquele calabouço.
Stefan estremeceu, mas Elena precisava concluir seu raciocínio.
— Mesmo lá, olhar em seus olhos, tocar sua mão, saber que você estava olhando para mim e me tocando... E que estava feliz... Bom, isso para mim já foi uma vitória.
Stefan olhou para ela. Na luz fraca, seus olhos pareciam escuros e misteriosos.
— E mais uma coisa — sussurrou ele. — Porque sou o que sou... e porque sua glória não é essa nuvem dourada e gloriosa como o seu cabelo, mas uma aura que é... inefável. Indescritível. Está além de qualquer palavra...
Elena pensou que eles iriam ficar sentados, simplesmente se olhando, bebendo nos olhos um do outro, mas isso não estava acontecendo. A expressão de Stefan mudara e Elena percebeu que ele estava perto da sede de sangue e da morte.
Apressadamente, Elena tirou o cabelo molhado do pescoço, depois se recostou, sabendo que Stefan a pegaria.
E foi o que ele fez isso, mas antes pegou o rosto de Elena nas mãos para olhá-la.
— Sabe o quanto eu te amo? — perguntou ele. Todo o seu rosto agora era uma máscara, enigmática e estranhamente emocionante. — Acho que você sabe — sussurrou. — Por várias vezes, vi você disposta a fazer qualquer coisa, qualquer coisa para me salvar... Mas não acho que saiba o quanto esse amor se intensificou, Elena.
Tremores deliciosos desceram pela espinha de Elena.
— Então é melhor me mostrar — sussurrou ela. — Ou posso não acreditar em você...
— Vou lhe mostrar que falo sério — sussurrou Stefan. Mas quando ele se curvou, foi para beijá-la delicadamente. Os sentimentos dentro de Elena, de que esta criatura faminta queria beijá-la em vez de partir para seu pescoço, foram tão intensos que ela não podia explicar em pensamentos ou palavras, apenas puxando a cabeça de Stefan para que sua boca pousasse em seu pescoço.
— Por favor — disse ela. — Ah, Stefan, por favor.
Então ela sentiu a fugaz dor do sacrifício, e Stefan estava bebendo seu sangue. A mente de Elena, que adejava como um passarinho em uma sala iluminada, agora avistava seu ninho e seu parceiro, e voava sem parar até alcançar o amado.
Depois disso não havia necessidade de palavras. Eles se comunicavam por pensamentos, tão puros e claros como gemas cintilantes, e Elena alegrou-se, porque a mente de Stefan lhe estava aberta, não havia nada obscuro, e não havia rochedos de segredos nem crianças acorrentadas e chorosas...
O quê!, ela ouviu a exclamação de Stefan. Uma criança acorrentada? Um rochedo do tamanho de uma montanha? Quem teria isso em sua mente...?
Stefan se interrompeu, sabendo a resposta, mesmo antes que o pensamento rápido de Elena lhe dissesse. Elena sentiu a onda verde-clara de sua compaixão, temperada pela raiva natural de um jovem que passou pelas profundezas do inferno, mas sem se deixar dominar pelo terrível veneno negro da rixa entre irmãos.
Quando terminou de contar tudo o que sabia sobre a mente de Damon, Elena disse: E não sei que fazer! Fiz tudo o que pude. Dei a ele tudo o que podia. Mas não sei se fez alguma diferença.
Ele chamou Matt de Matt em vez de Mutt, interrompeu Stefan.
Sim. Eu... Percebi. Sempre pedi isso a ele, mas nunca pareceu importar.
Mas: você conseguiu mudá-lo. Não é qualquer um que consegue fazer isso.
Elena o apertou em um abraço, mas logo parou, preocupada que pudesse machucá-lo, e olhou para ele. Stefan sorriu e balançou a cabeça. Já parecia uma pessoa, em vez de um sobrevivente de guerra.
Devia continuar usando isso, disse Stefan mentalmente. Sua influência sobre ele é a mais eficaz.
E vou... Sem usar nenhuma Asa artificial, prometeu Elena. Depois ficou preocupada que Stefan pensasse que ela era convencida demais — ou estivesse ligada demais a Damon.
Mas apenas um olhar para Stefan bastou para lhe garantir que ela agia corretamente.
Eles se grudaram um no outro.
Não foi tão difícil quanto Elena imaginou — entregar Stefan a outros humanos para que ele se alimentasse. Stefan usava um pijama limpo, e a primeira coisa que disse aos três doadores foi: ― Se ficarem assustados ou mudarem de ideia, basta falar. Posso curar completamente o pescoço de vocês, e não estou com tanta fome. E de qualquer forma, provavelmente vou sentir se vocês não estiverem gostando, e vou parar. E por fim... Obrigado... Obrigado a todos. Decidi quebrar meu juramento esta noite porque ainda há uma pequena chance de que, sem a ajuda de vocês, eu não acorde amanhã.‖
Bonnie ficou apavorada, indignada e furiosa.
— Quer dizer que não pôde dormir todo esse tempo porque tinha medo de... de...
— Eu dormia de vez em quando, mas felizmente... Graças a Deus... Sempre acordava. Havia ocasiões em que eu não me atrevia a me mexer para economizar energia, mas de algum modo Elena achava um jeito de ir até mim, e a cada vez que ia, me alimentava. — Ele lançou a Elena um olhar que fez seu coração saltar do peito e voar para a estratosfera.
Então montou um revezamento pra alimentar Stefan de hora em hora, e ela e os outros deixaram a primeira voluntária, Bonnie, sozinha, para que ficasse mais à vontade.
Aconteceu na manhã seguinte. Damon já havia saído para visitar Leigh, a sobrinha do antiquário, que pareceu muito feliz em vê-lo. E agora tinha voltado, e olhava com desdém os dorminhocos que se espalhavam por todo o pensionato.
Foi quando viu o buquê.
Era fortemente lacrado com proteções — amuletos para ajudar a atravessar o hiato dimensional. Havia algo poderoso ali.
Damon tombou a cabeça de lado.
Hmmm... O que será?


Querido Diário
Não sei o que dizer. Estamos em casa.
Na noite passada, tomamos um longo banho quando chegamos... E fiquei um pouco decepcionada, porque minha escova preferida para as costas, a de cabo comprido, não estava lá, e não havia esfera estelar com uma música onírica para Stefan... E a água estava MORNA! E ele saiu para ver se o aquecedor estava regulado e encontrou Damon, que tinha indo fazer a mesma coisa!
Mas acordei algumas horas atrás e, durante alguns minutos, tive a visão mais linda do mundo... Um nascer do sol. Rosa claro e verde misterioso a leste, com a noite ainda escura a oeste. Depois um rosa mais escuro no céu, e as árvores foram envolvidas em nuvens de orvalho. Depois um brilho glorioso da beira do horizonte em rosa escuro, creme, e até um verde melão no céu. Por fim, uma linha de fogo e, em um segundo, todas as cores mudaram.
A linha se tornou um arco, o céu a oeste era de um azul muito escuro, depois veio o sol, trazendo calor, luz e cor às árvores verdes, e o céu começou a ficar azul-celeste — celeste significa do paraíso, embora de algum modo eu sinta um tremor delicioso quando digo isso.
O céu parecia uma jóia, azul-celeste, azul cerúleo e o sol dourado começou a despejar energia, amor, luz e todas as coisas boas no mundo.
Quem não ficaria feliz em ver isso enquanto é abraçada por Stefan?
Temos tanta sorte de nascer nessa luz — há quem veja isso todo dia e nunca dê valor, mas somos abençoados. Podemos ter nascido almas sombrias, condenadas a morrer na escuridão carmim, sem jamais saber que em algum lugar por aqui há algo muito melhor.

Um comentário:

  1. Sempre há algo muito melhor, mesmo quando tudo parece escuridão.

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