29 de novembro de 2015

Capítulo 42

— Isso não é um problema — A governanta loira, Ryannen, disse inesperadamente. — Podemos fazem com que o Sr. Tanner tenha repelido um possível ataque de vampiros e a escola chamou Alaric Saltzman para assumir seu lugar e investigar. Certo, Idola? — Ela disse olhando para a ruiva; para a morena, ela disse: — Não é, Susurre?
Elena não tinha certeza. Apesar de ter escutado o que as mulheres diziam, ela não estava prestando muita atenção. Tudo que sabia era que sua voz tinha ficado rouca e que lágrimas caíam de seus olhos.
— E... Pela Chave Mestra... Eu quero...
Stefan apertou sua mão. Elena, de repente, percebeu que eles estavam em pé, todos os três, lado a lado. E o olhar em cada rosto era o mesmo: determinação mortal.
— Eu quero Damon de volta — Ela não ouvira esse tom em sua voz desde o dia em que lhe contaram que seus pais haviam morrido.
Se tivesse havido uma mesa, ela teria colocado os punhos cerrados sobre ela e faria seu melhor para bater de frente com as mulheres. Como não havia, ela simplesmente inclinou-se em direção a elas, falando numa voz baixa e rala.
— Se vocês fizerem isso... Trazê-lo de volta, exatamente como ele era antes de entrar na Casa de Portais... Então poderão pegar a Chave Mestra e os tesouros. Se disserem não... Vocês perdem tudo. Tudo. Isso não é negociável, entendem?
Ela continuou encarando os olhos verdes de Idola. Ela se recusava a olhar para Susurre, com medo de ter que abaixar sua cabeça e começar a esfregar seus dedos em pequenos círculos. Ela não daria nem uma olhadela para Ryannen, que estava olhando para ela firmemente, que entrou do modo de negociações. Ela simplesmente olhou para aqueles olhos verdes sob sobrancelhas teimosas. Idola fez um som de mau humor e balançou sua cabeça linda.
— Olha, alguém claramente cometeu um erro na preparação dessa entrevista.
Uma olhadela para Susurre.
— As outras coisas que você pediu... Tudo junto, já é difícil de realizar. Você entende isso? Entende que isso envolve mudar lembranças de todos os habitantes ao redor da cidade, mudar as lembranças dos dez meses que se passaram? Isso significa mudar quase tudo em Fell’s Church... E há muita coisa para se mudar... Sem mencionar os outros meios de comunicação, não? Quer dizer, teremos que implorar pela alma de três humanos e trazê-los à vida novamente. Eu nem ao menos sei se temos pessoal para isso...
Ryannen colocou uma mão no braço da ruiva.
— Nós temos. As mulheres de Susurre têm umas coisinhas para fazer no Mundo Inferior. Eu poderia emprestar trinta por cento das minhas... Afinal, teremos que enviar uma petição para a Corte Maior por aqueles espíritos...
Idola interrompeu.
— Certo. O que eu estava dizendo é que só poderemos cumprir isso... Se vocês nos derem a Chave. No entanto, quanto a seu companheiro vampiro... Não podemos dar vida ao inanimado. Não funciona com vampiros. Uma vez que eles morrerem… Eles morrem para sempre.
— Isso é o que vocês dizem! — Stefan gritou, tentando ficar na frente de Elena. — Mas por que somos os mais amaldiçoados, entre todas as criaturas? Como sabem que é impossível? Vocês já tentaram alguma vez?
Idola estava fazendo um gesto de repugnância, quando Bonnie interrompeu, sua voz tremendo:
— Isso é ridículo! Vocês podem reconstruir uma cidade, podem matar a pessoa que esteve por trás do que Shinichi e Misao fizeram, mas não podem trazer um vampiro de volta? Vocês trouxeram Elena!
— A morte de Elena como vampira permitiu que ela se tornasse a Guardiã que, originalmente, estava predestinada a ser. Quando a pessoa que dava ordens a Shinichi e Misao: era Inari Saitou... Obaasan Saitou, como vocês a conheciam... E ela já está morta, graças aos seus amigos em Fell’s Church, que a enfraqueceram... E a vocês, que destruíram a Esfera Estelar dela.
— Inari? Quer dizer, a avó de Isobel? Você está dizendo que era a Esfera Estelar dela que estava no tronco da Grande Árvore? Isso é impossível! — Bonnie gritou.
— Não, não é. É a verdade — Ryannen disse simplesmente.
— E ela está morta agora?
— Depois de uma longa batalha que matou a seus amigos. Sim... Mas o que a matou verdadeiramente foi ter sua Esfera Estelar destruída.
— Então — Susurre disse silenciosamente —, se vocês seguirem a onda... De certo modo, o seu Damon morreu para salvar Fell’s Church de outro massacre igual ao daquela ilha japonesa. Ele vivia dizendo que era isso que ele veio fazer aqui no Mundo Inferior. Vocês não acham que ele ficaria... Satisfeito? Em paz?
— Em paz? — Stefan cuspiu com amargura, e Sage rosnou.
— Mulher — Ele disse —, com certeza você não conheceu Damon Salvatore antes.
O tom em sua voz estava... Mais resonante, mais ameaçadora, de alguma forma... Fazendo Elena parar de encarar Idola. Ela se virou e olhou...
... E viu a grande sala sendo preenchida pelas asas de Sage.
Elas não eram iguais aos seus efêmeros Poderes de Asa. Elas eram, claramente, parte de Sage. Eram aveludadas e reptilianas e, abertas desse jeito, se estendiam de parede a parede, tocando o teto grande e dourado. Elas também demonstravam o porquê de Sage não usar camisas com frequência.
Ele era bonito nessa forma: pele bronzeada e cabelos contra as gigantes asas de aparência delicada. Mas Elena, depois de olhar uma vez para ele, sabia que era hora de jogar o ás na manga. Ela virou-se para encontrar diretamente os olhos verdes de Idola.
— Esse tempo todo, nós estivemos barganhando pelos tesouros da Casa de Portais — Ela disse — E... Uma Chave Mestra.
— Uma Chave Mestra que fora roubada por kitsune eras e eras atrás — Susurre explicou calmante, erguendo seus olhos.
— E vocês disseram que não é suficiente para trazer Damon de volta — Elena forçou sua voz para que não vacilasse.
— Nem se esse fosse o seu único pedido — Ryannen jogou um pouco de seu cabelo dourado acima do ombro.
— Isso é o que você diz. Mas... E se eu colocar na negociação... Outra Chave Mestra?
Houve uma pausa, e o coração de Elena começou a bater de medo. Pois esse era o tipo errado de pausa. Não houve arfadas de choque. Nenhum olhar de surpresa entre uma Guardiã para a outra. Nenhum olhar de descrença.
Depois de um instante, Idola disse presunçosamente.
— Você se refere à outra Chave roubada que seus amigos têm na Terra? Ela foi confiscada no momento em que eles a esconderam. É uma propriedade roubada. Pertence a nós.
Ela esteve aqui tempo demais, nas Dimensões das Trevas, Elena pensou com uma parte de sua mente. Ela estava se divertindo.
Idola se inclinou em direção a ela, como se confirmasse a dedução de Elena.
— Simplesmente... Não é... Possível — Ela disse enfaticamente.
— Verdade, não é — Ryannen adicionou rapidamente. — Nós não sabemos o que acontece com vampiros. Mas eles não passam por nós. Nunca os vimos depois da morte. A explicação mais simples é que eles simplesmente... Somem — Ela estalou seus dedos.
— Eu não acredito nisso! — Elena estava ciente que sua voz havia aumentado de volume. — Eu não acredito nisso nem por um segundo!
Vozes, não atacando alguém em particular, explodiram em um clamor de argumentos em torno de Elena, formando uma espécie de poema:
Não é possível. Simplesmente impossível (Mas por favor...)
Não! Damon se foi, e perguntar para onde, é o mesmo que pergunta aonde a flama de uma vela vai quando é apagada (Mas vocês não deviam tentar trazê-lo de volta, pelo menos?)
O que aconteceu com a gratidão? Vocês quatro deviam ser gratos que as outras coisas que vocês pediram possam ser feitas. (Mas em trocas de ambas as Chaves Mestras...)
Nenhum Poder que possuímos pode trazer Damon de volta! Elena devia voltar à realidade. Ela já foi mimada demais! (Mas que mal pode fazer se vocês tentarem novamente?)
Certo! Se vocês querem saber, Susurre já nos forçou a tentar. E nada aconteceu! Damon... Se… Foi! Seu espírito está em um lugar que não pode ser encontrado no éter! Isso é o que acontece com vampiros, e todos sabem disso!
Elena encontrou-se olhando para baixo, para suas próprias mãos, que estavam bem limpas, mas com unhas quebradas e as juntas sangrando.
O mundo exterior tornou-se irreal novamente. Ela estava dentro de si, brigando com sua dor, lutando contra o conhecimento que Idola, a Guardiã central, não havia mencionado antes: que elas haviam procurado pelo espírito de Damon. E que ele havia... Sumido.
De repente, a sala estava se pressionando contra ela. Não havia ar suficiente. Só havia essas mulheres: essas Guardiãs, magicamente poderosas, que não tinham Poder ou magia o suficiente para salvar Damon... Ou, pelo menos, nem ao menos se importavam em tentar uma segunda vez.
Ela não tinha certeza o que estava acontecendo com ela. Sua garganta estava doendo, seu peito estava, ao mesmo tempo, grande e apertado. Cada batimento de seu coração soava através dela como se tentasse sacudi-la até a morte.
Até a morte. Em sua mente, ela viu uma mão segurando um copo de Clarion Loess Black Magic.
E então, Elena soube que ela tinha que manter-se firme, manter os braços firmes, de certa forma, e sussurrar as palavras em sua própria mente. Mas, por último, dizer o feitiço, dizê-lo em voz alta.
Por fim... As coisas desaceleraram. Quando os olhos de Idola — um nome perfeito para alguém que idolatrava a si mesmo, Elena pensou —, de Ryannen e de Susurre caíram sobre ela, com as bocas abertas, chocadas demais para moverem até mesmo um dedo serenamente, com calma, Elena disse:
— Asas da Destrui...
Foi uma soldada, uma das várias soldadas rasas, uma das morenas, que a parou. Ela saltou por cima do tablado e, com uma velocidade desumana, bateu com sua mão sobre a boca de Elena, de modo que a última sílaba foi um murmúrio e o corredor dourado, verde e azul não explodiu em fragmentos de metal quente correndo como se fossem riachos de larva; a fonte que jorrava flores não evaporou e os vitrais não se quebraram em átomos.
Então havia mais braços ao redor de Elena, levando-a para baixo, deixando-a respirar com escassamente, mesmo quando ela ficou mole ao tentar sugar um pouco de ar. Elena lutou como um animal, com seus dentes e unhas, para escapar. Mas ela, com o tempo, foi completamente detida, presa ao chão. Ela pôde ouvir a voz profunda e furiosa de Sage e Stefan, entre estouros telepáticos desesperados para ela, implorando e explicando:
— Ela ainda não voltou à realidade! Ela nem ao menos sabe o que está fazendo!
Só que, mais alto, ela pôde ouvir as vozes das Guardiãs.
— Ela poderia ter matado a todas nós!
— Essas Asas... Eu nunca vi algo tão mortal!
— Uma humana! E só com três palavras, ela poderia ter nos eliminado!
— Se Lenea não a tivesse detido...
— Ou se ela estivesse a alguns centímetros mais para trás...
— Ela destruiu uma lua, vocês sabem! Não há mais nenhuma vida lá, e cinzas ainda estão caindo do céu!
— Isso não está em questão. O mais importante é que ela não devia ter Poderes de Asa. Elas devem ser cortadas.
— Isso mesmo... Cortem suas Asas! Façam isso!
Elena reconheceu as vozes de Ryannen e Idola. Ela ainda estava tentando lutar, mas a agarraram com tanta força, de uma forma tão impiedosa, que só o fato dela tentar ganhar um pouco de ar já a deixava exausta.
E então, eles arrancaram suas Asas. Foi rápido, pelo menos, e Elena sentiu pouca coisa.
O que doía mais era seu coração. Um pouco de orgulho e teimosia saíram na hora do combate, e agora ela tinha vergonha por ter casa suas Asas sendo arrancadas. Primeiro saíram as Asas da Redenção, aquelas em tons de arco-íris. Depois, as Asas da Purificação, brancas e iridescentes como teias de aranha.Asas de Voo, iguais à cor de mel. Asas da Lembrança, de cor violeta e azul meia-noite. E, em seguida, as Asas de Proteção, de cor verde esmeralda e ouro, as Asas que salvaram seus amigos do ataque de Bloddeuwedd, na primeira vez que entraram nas Dimensões das Trevas.
E finalmente, as Asas da Destruição, altas, de cor ébano com bordas delicadas como renda preta.
Elena tentou ficar em silêncio enquanto cada Poder era retirado. Mas após a primeira ou a segunda ter caído ao seu lado, ela vendo somente sombras, ela ouviu uma pequena arfada, percebendo que era sua própria voz. E com o próximo corte, um pequeno grito involuntário.
Por um momento, houve silêncio. E então, de repente, houve um ruído esmagador. Ela pôde ouvir Bonnie lamentando, Sage rugindo e Stefan, o gentil Stefan, gritando blasfêmias e maldições para as Guardiãs. Elena adivinhou pelo som abafado de sua voz que ele estava lutando contra elas, lutando para chegar até ela.
Ele a alcançou, de alguma forma, justo quando as mortais e delicadas Asas da Destruição foram arrancadas de seus ombros e mente, e caiu como se fosse uma sombra ao chão. Foi bom ele tê-la alcançado, pois, no passado, Elena era menos perigosa do que era agora com os Poderes de Asa despertos nela. De repente, as Guardiãs pareciam ter medo. Elas pararam atrás dela, aquelas mulheres fortes e perigosas, e só Stefan estava lá para pegá-la e segurá-la em seus braços.
Atordoada e confusa, ela era somente uma garota comum de dezoito anos. Exceto por seu sangue. Eles queriam tirar-lhe seu sangue, também... Para “purificá-lo”. Essas três governantas e suas assistentes já estavam reunidas em um triângulo, determinadas, em torno dela e estavam trabalhando em sua magia quando Sage berrou:
— Parem!
Elena caiu nos ombros de Stefan, podendo vê-lo vagamente, suas asas negras aveludadas ainda abertas de parede a parede, ainda tocando o teto dourado. Bonnie se agarrou a ele como se fosse uma penugem de dente-de-leão perdida.
— Vocês já diminuíram a aura dela a quase nada — Ele rosnou. — Se “purificarem” o sangue dessa pauvre petite completamente, ela morrerá... E então ela despertará. Vocês terão criado une vampira, Mesdames. É isso que vocês querem?
Susurre recuou. Para uma governanta tão dura e inflexível, ela parecia quase gentil demais — mas não o suficiente ao arrancar minhas Asas, Elena pensou, contorcendo os ombros para aliviá-los. Talvez ela não soubesse o quanto doeria, outra parte de sua mente ofereceu vagamente.
Então, toda a sua mente se juntou sua reunião de emergência. Algo quente e fresco estava deslizando na parte detrás de seu pescoço, em pequenas gotas. Não era sangue. Não, isso era, definitivamente, mais precioso do que as Guardiãs lhe havia tirado. As lágrimas de Stefan.
Ela se balançou fortemente, tentando colocar-se de pé. De alguma forma, tremulamente, ela conseguiu. Só percebeu o quão trêmula estava quanto tentou levantar a mão e limpar as lágrimas do grande rosto de Stefan com o polegar. Sua mão inteira tremeu como se ela estivesse fazendo uma brincadeira infantil. Seu polegar atingiu o rosto dele com força o suficiente para não fazê-lo estremecer. Ela olhou para ele com uma desculpa muda, chocada demais para tentar falar.
Stefan estava falando. Mais e mais.
— Não importa — Ele estava dizendo. — Tudo bem, amor. Oh, minha amada, tudo ficará bem. 
Ele enxugou os olhos com uma mão que estava firme como rocha, o tempo todo olhando só para ela, e — ela sabia — pensando somente nela. Ela sabia disso porque também conhecia aquele momento, quando ele chegou.
Cabelos ruivos estavam em sua linha de visão, desfocada em meio a lágrimas novas. Cabelos ruivos e olhos verdes estreitos, bem próximos a ela. Foi quando Elena sentiu que Stefan se lembrou de que havia outras coisas além de Elena no mundo.
Seu rosto mudou. Ele não rosnou ou abriu sua mandíbula. A mudança foi uma alteração completa, mas se centrava em seus olhos, que ficaram mortalmente estreitos enquanto tudo o mais se tornava forte e feroz.
— Se você tocar nela de novo, sua vadia perversa, vou rasgar sua garganta — Stefan disse cada palavra parecendo ferro e gelo caindo no chão.
As lágrimas de Elena pararam com o choque. Stefan não falava assim com as mulheres. Nem Damon falaria... Falava. Mas as palavras ainda estavam ecoando no silêncio súbito da sala com aparência de catedral. As pessoas estavam se afastando.
Idola estava se afastando também, mas seus lábios estavam curvados.
— Você acha que só porque somos Guardiãs não podemos prejudicá-la...?
Ela estava começando, quando a voz de Stefan a cortou claramente.
— Eu acho que só porque vocês são “Guardiãs” vocês matam hipocritamente e saem impunes disso — Stefan disse, e seus lábios produziram palavras mais convincentes e assustadoras do que as de Idola. — Vocês teriam matado Elena se Sage não tivesse impedido. Maldita!
Ele acrescentou em voz baixa, mas com absoluta convicção que fez com que Idola desse mais um passo pra trás.
— Sim, é melhor você ir se reunir com suas amiguinhas — Ele adicionou. — Eu posso decidir matar você, de qualquer forma. Eu matei meu próprio irmão, como deve ter percebido.
— Mas, com certeza... Isso foi depois de você ter levado um golpe mortal.
Susurre estava entre os dois, tentando interceder.
Stefan deu de ombros. Ele olhou para ela com o mesmo desprezo que olhou para a outra governanta.
— Eu ainda podia usar meus braços — Ele disse deliberadamente. — Eu podia ter decidido abandonar minha arma, ou aliviá-lo da dor. Ao invés disso, eu optei por colocar uma lâmina direto em seu coração — Ela mostrou seus dentes num sorriso distintamente hostil. — E agora eu nem ao menos preciso de uma arma.
— Stefan — Ela conseguiu sussurrar no último segundo.
— Eu sei. Ela é mais fraca do que eu e você não quer me ver matando-a. É por isso que ela ainda está viva, amor. É o único motivo.
Enquanto Elena levantava seus olhos meio assustados para ele, Stefan adicionou em uma voz que só ela pudesse ouvir.
É claro, há algumas coisas sobre mim que você não sabe, Elena. Coisas que espero que você nunca veja. Conhecer você... Te amar… Fez com que eu quase esquecesse disso.
A voz de Stefan em sua cabeça acordou algo dentro de Elena. Ela levantou a cabeça e olhou para a massa indistinta de Guardiãs em torno deles. Viu cabelos cacheados de morango suspensos no ar. Bonnie. Bonnie lutando. Fazendo isso fracamente, não somente porque um par de Guardiãs loiras e outro par de morenas a estavam segurando no ar, uma de cada membro. Enquanto Elena a encarava, ela parecia recuperar suas forças e lutar mais. E Elena pôde ouvir... Algo. Estava fraco e longe, mas quase soava como… Seu nome. Como seu nome era pronunciado por meio de um sussurro ou por meio de um zumbido de passar de rodas de bicicletas.
Le... Na... Eee... Le...
Elena tentou chegar internamente até o som. Tentou desesperadamente se agarrar ao que vinha, mas nada aconteceu. Ela tentou um truque que, ontem, acharia bem fácil: canalizar seu Poder para sua telepatia. Não funcionou. Ela tentou sua telepatia.
Bonnie! Você pode me ouvir?
Não houve nem um menor sinal de mudança na expressão da menina.
Elena havia perdido sua ligação com Bonnie.
Ela assistia enquanto Bonnie percebia a mesma coisa, assistia aquele corpinho brigando para se libertar. O rosto de Bonnie, arrebitado em um pálido desespero, estava triste e, de alguma forma, indescritivelmente puro e belo, de uma só vez.
Isso nunca acontecerá conosco, a voz de Stefan em sua cabeça disse para ela firmemente. Nunca! Eu te dou minha...
Não! Elena pensou de volta, supersticiosamente com medo de alguma maldição.
Se Stefan havia jurado, algo devia acontecer... Ela devia se transformar em uma vampira ou em um espírito... Para assegurar que ele não quebrasse sua palavra.
Ele parou e Elena soube que ele a havia ouvido. E, de alguma forma, esse conhecimento, de que Stefan havia ouvido uma única palavra dela, a acalmou. Ela sabia que ele não estava espionando. Ele ouviu porque ela enviou o pensamento para ele. Ela não estava sozinha.
Ela podia ser comum novamente; poderiam até ter tirado suas Asas, a maioria de seus Poderes e seu sangue, mas ela não estava sozinha. Ela se inclinou em sua direção, sua testa contra o queixo de Stefan.
“Ninguém fica sozinho.”
Ela havia dito isso para Damon. Damon Salvatore, um ser que não existia mais. Mas que ainda era convocado por ela devido a uma só palavra, um grito final. Seu nome.
Damon!
Ele morrera quatro dimensões atrás. Mas ela pôde sentir Stefan apoiando-a, ampliando sua transmissão, enviando-a como um sinalizador através da multidão de mundos que os separavam do corpo frio e sem vida dele.
Damon!
Não houve nenhum sinal de resposta. É claro que não. Elena estava apenas se enganando.
De repente, algo mais forte do que a tristeza, mais forte do que a auto-piedade, ainda mais forte que a culpa, tomou conta dela. Damon não gostaria que ela fosse carregada para fora daquele hall, mesmo que fosse por Stefan. Especialmente por Stefan. Ele iria querer que ela não mostrasse nenhum sinal de fraqueza para aquelas mulheres que a haviam destruído e humilhado.
Sim.
Esse era Stefan. Seu amor, mas não seu amante, disposto a amá-la a partir de agora e até o fim de seus dias...
O fim... De seus dias?
Elena estava, de repente, feliz por não poder projetar telepaticamente para estranhos e que Stefan havia estabelecido um escudo ao redor deles, quando ele a tinha tomado em seus braços.
Ela virou-se para Ryannen, que ainda estava assistindo... Com cautela, mas ainda com a expressão de negócios em seus olhos.
— Eu gostaria de ir embora agora, se vocês não se importam — Ela disse, pegando sua mochila e a pendurando sobre o ombro, no melhor gesto de arrogância que pôde fazer.
Houve um raio de agonia enquanto o peso da alça acertava o lugar onde a maioria de suas Asas havia surgido, mas ela manteve a cara de desprezo e indiferença.
Bonnie, de volta ao chão desde que não estava mais lutando, seguiu o exemplo de Elena. Stefan havia deixado sua mochila na Casa de Portais, mas ele gentilmente segurou sua mão em torno do cotovelo de Elena, não para guiá-la, mas para mostrar que ele estava lá por ela. As asas de Sage se dobraram para trás e foram embora.
— Você entende que, devido ao retorno desses tesouros que eram nossos por direito... Mas que fomos impedidas de recuperá-los... Você terá seus pedidos concedidos, exceto por algo impossí...
— Entendo.
Elena disse sem rodeios, justo quando Stefan disse, muito mais bruscamente:
— Ela entende. Só façam isso logo, tá legal?
— Já está tudo organizado — Os olhos de Ryannen, olhos azuis escuros respingados de dourado, encontraram os de Elena com um olhar não totalmente antipático.
— A melhor coisa a se fazer — Susurre acrescentou apressadamente — seria que nós a colocássemos para dormir e a enviássemos para o seu antigo e novo quarto. No momento em que você acordar, tudo terá sido realizado.
Elena forçou para que sua expressão não mudasse.
— Me enviar para a Maple Street? — Ela perguntou, olhando para Ryannen. — Para a casa da tia Judith?
— Em seus sonhos, sim.
— Eu não quero estar dormindo — Ela se aproximou ainda mais de Stefan. — Não deixe que elas me ponham para dormir!
— Ninguém fará nada que você não queira — Stefan disse, e sua voz parecia um fio de uma navalha.
Sage rugiu em seu apoio e Bonnie olhou para a mulher loira, rígida.
Ryannen inclinou a cabeça dela.
Elena acordou.
Estava escuro e ela esteve dormindo. Não conseguia se lembrar exatamente de como ela havia caído no sono, mas sabia que ela não estava na liteira e sabia que ela não estava em um saco de dormir.
Stefan? Bonnie? Damon? Ela pensou automaticamente, mas havia algo estranho com sua telepatia. Parecia que ela fora confinada em sua própria cabeça.
Ela estava no quarto de Stefan?
Devia estar um breu lá fora, já que ela não conseguia sequer ver o alçapão que levava ao pé do sótão.
— Stefan? — Ela sussurrou, enquanto vários pedaços de informações se juntavam em sua cabeça.
Havia um cheiro, que era tanto familiar quanto estranho. Ela estava deitada em uma cama de casal confortável, não em uma das camas de seda e veludo extravagantes de Lady Ulma, tampouco em uma das irregulares da pensão. Ela estava em um hotel?
Enquanto esses pensamentos diferentes reuniam-se em seu cérebro, houve uma batida suave e rápida. Nós dos dedos batendo contra o vidro.
O corpo de Elena se levantou. Ela arremessou para longe a colcha e correu até a janela, evitando os obstáculos misteriosos sem nem pensar direito. Suas mãos arrancaram as cortinas do caminho que, de alguma forma, ela soube quem estava lá, fazendo seu coração disparar e trazendo um nome aos seus lábios.
— Da...!
E então o mundo parou e fez seu salto mortal mais lento de todos.
A visão de um rosto feroz, preocupado, amoroso e, ainda, estranhamente frustrado, apenas do outro lado da janela do segundo andar, trouxe as memórias de Elena de volta.
Todas elas.
Fell’s Church estava salva.
E Damon estava morto.
Sua cabeça inclinou-se lentamente até que sua testa tocou o painel de vidro frio.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!