29 de novembro de 2015

Capítulo 41

Stefan não se mexeu ou falou durante longos momentos. O coração de Elena inchou. De repente, estava com tanto medo quanto ele. Ela foi até ele e pegou suas duas mãos, que estavam tremendo.
Querido, não chore, ela enviou. Deve haver tempo para salvarmos Fell’s Church. Deve ter. Não pode acabar assim. E, além disso, Shinichi se foi! Podemos chegar até as crianças; podemos quebrar o feitiço…
Ela parou. Era como se a palavra “feitiço” ecoasse em seus ouvidos. Os olhos verdes de Stefan estavam preenchendo sua visão. Sua mente estava... Estava ficando difusa. Tudo estava se tornando irreal de novo. Em um minuto ela seria capaz de…
Ela arregalou os olhos, respirando com dificuldade.
— Você esteve me Influenciando — Ela disse.
Ela pôde ouvir a raiva em sua própria voz.
— Sim — Stefan sussurrou. — Estive Influenciando você por quase meia-hora.
Como você ousa? Elena pensou, só para ele.
— Vou acabar com isso... Agora — Stefan disse silenciosamente.
— Eu também — Sage adicionou, parecendo exausto.
E o universo fez um movimento lento e Elena se lembrou de tudo que estavam escondendo dela.
Com um soluço selvagem, ela se levantou, espalhando gotas d’água, que chegavam até os seus pés como se fosse uma deusa da vingança. Ela olhou para Sage. E olhou para Stefan.
E Stefan provou o quão corajoso ele era, o quanto ele a amava. Ele lhe contou o que ela já sabia.
— Damon morreu, Elena. Eu sinto muito. Desculpe-me se... Eu a impedi de ficar com ele, como você queria. Sinto muito por ter ficado entre vocês. Eu não entendia... O quanto se amavam. Eu compreendo agora.
E então, ele colocou suas mãos em seu rosto. Ela queria ir até ele. Pare repreendê-lo, para abraçá-lo. Para dizer a Stefan que ela o amava do mesmo jeito, gota por gota, grão por grão. Mas seu corpo ficara dormente, e a escuridão estava ameaçando voltar novamente... Tudo que ela poderia fazer era se abraçar enquanto encolhia na grama. E então, de alguma forma, Bonnie e Stefan estavam ali, todos soluçando: Elena por causa da intensidade da nova descoberta; Stefan fazendo sons estranhos que Elena jamais vira antes; e Bonnie, com uma exaustão seca e violenta que parecia querer quebrar seu corpinho.
O tempo perdeu todo o seu significado. Elena queria lamentar por cada momento da morte dolorosa de Damon, e por cada momento de sua vida, também. Tanto havia sido perdido. Ela não podia colocar sua cabeça no lugar, e não queria fazer nada além de chorar até que as trevas tomassem conta dela de novo.
Foi aí que Sage quebrou o silêncio.
Ele pegou Elena e a ergueu no ar, sacudindo seus ombros. Isso fez com que a cabeça dela fosse para frente e para trás.
— Sua cidade está em ruínas! — Ele gritou, como se isso fosse culpa dela. — Meia-Noite pode trazer ou não um desastre. Oh, sim, eu vi isso tudo na sua mente quando eu a Influenciei. A pequena Fell’s Church já está devastada. E você nem ao menos vai lutar por ela!
Algo brilhou através de Elena. Isso fez com que o torpor derretesse, junto com a frieza.
— Sim, eu lutarei por ela! — Ela berrou. — Eu lutarei por ela com cada osso de meu corpo, até que eu detenha a pessoa que fez isso, ou até que eles me matem!
— E agora, puis-je savoir, vocês voltarão a tempo? Se forem do jeito que vieram, ela estará destruída!
Stefan estava ao lado dela, apoiando-a, ombro a ombro.
— Então, nós o forçamos a nos enviar de volta... Assim, poderemos chegar a tempo.
Elena ficou encarando. Não. Não. Stefan não poderia ter dito isso. Stefan não forçaria a barra… E ela não teria feito com que ele mudasse. Ela voltou-se para Sage.
— Não há razão para brigarmos! Eu tenho uma Chave Mestra na minha mochila, e magia funciona aqui dentro da Casa de Portais! — Ela gritou.
Mas Stefan e Sage estavam se encarando, ambos ferozes e objetivamente. Elena queria ir até Stefan, mas o mundo estava fazendo outro de seus movimentos lentos. Ela temia que Sage atacasse Stefan, e que ela nem ao menos pudesse lutar por ele.
Mas, ao invés disso, de repente, Sage jogou sua cabeça para trás e riu selvagemente. Ou, talvez, tenha sido algo entre um riso e um choro estrondoso. Era tão misterioso quanto o latido de um lobo, e ela sentiu o braço pequeno de Bonnie abraçá-la... Para confortar a ambas.
— Mas que diabos! — Sage berrou, e agora havia um olhar selvagem em seus olhos, também. — Mais oui, quem se importa?
Ele riu novamente.
— Afinal, eu sou o Guardião dos Portais, e já quebrei as regras ao deixar vocês passarem por duas portas diferentes.
Stefan ainda estava respirando com dificuldade. Agora ele havia erguido as mãos e agarrou Sage pelos ombros, sacudindo-o com a força de um vampiro enlouquecido.
— O que você está dizendo? Não há tempo para conversar!
— Ah, mas há, mon ami. Meus amigos, há sim. O que vocês precisam é de uma artilharia pesada do céu para salvar Fell’s Church... E para desfazerem o estrago já feito. Para eliminá-lo de vez, fazer como se nunca tivesse acontecido. E — Sage adicionou deliberadamente, olhando diretamente para Elena — talvez… Só talvez… Desfazer os eventos acontecidos hoje, também.
De repente, cada centímetro da pele de Elena estava formigando. Seu corpo inteiro estava escutando Sage, inclinando-se para ele, ansiando, enquanto seus olhos se arregalavam com a outra única pergunta que importava.
Sage disse bem devagar, bem triunfantemente:
— Sim. Eles podem dar vida aos mortos. Eles têm esse Poder. Eles podem trazer de volta mon petit tyran Damon… Enquanto eles te levam de volta à cidade.
Stefan e Bonnie estavam segurando Elena. Ela não conseguia ficar em pé sozinha.
— Mas por que eles ajudariam? — Ela sussurrou dolorosamente.
Ela nem ao menos se permitia respirar um pouco de esperança, não até que entendesse tudo.
— Daríamos em troca o que foi roubado deles há milênios atrás — Sage respondeu. — Vocês estão na fortaleza do inferno, vocês sabem. É isso que a Casa de Portais é. Os Guardiões não podem entrar aqui. Eles não podem invadir uma porta e exigir o que está lá dentro... Os Sete... Pardon, agora são Seis... Tesouros Kitsune.
Nada de esperanças. Nem um pouquinho. Mas Elena ouviu-se dando uma risada selvagem.
— Como podemos dar a eles um parque? Ou um campo de rosas negras?
— Podemos dar a eles o direito ao parque e ao campo de rosas que está em cima dele.
Nem um pinguinho de esperança, mesmo que ambos os lados do corpo de Elena estivessem tremendo agora.
— E como vamos oferecer a eles a Fonte da Eterna Juventude e Vida?
— Não vamos. Entretanto, tenho aqui várias embalagens que estão ansiosas para serem preenchidas. A ameaça de uma garrafa de La Fontaine sendo espalhada na Terra de vocês... Os devastaria. E, é claro — Sage adicionou —, eu conheço os tipos de pedras preciosas com encantamentos que eles mais anseiam. Aqui, me deixe abrir todos os Portais de uma vez! Aproveitem e peguem tudo que puderem!
Seu entusiasmo era contagiante. Elena deu meia-volta, prendendo a respiração, arregalando os olhos ao ver o primeiro brilho de luz da porta.
— Esperem — A voz de Stefan estava grossa de repente.
Bonnie e Elena viraram-se de volta e congelaram, abraçando-se, tremendo.
— O que o seu... Seu pai... Vai fazer quando descobrir que você permitiu isso?
— Ele não vai me matar — Sage disse bruscamente, o tom selvagem de volta em sua voz. — Ele pode achar isso tão amusant quanto eu acho, e estaremos compartilhando risadas amanhã.
— E se ele não achar isso engraçado? Sage, eu não acho... Damon não iria querer...
Sage virou-se e, pela primeira vez desde que ela o conhecera, Elena pôde acreditar que ele era realmente filho de seu pai. Seus olhos até pareciam ter mudado de cor, para um amarelo flamejante, com pupilas de diamante, como se fosse um gato.
Sua voz era como aço estilhaçado, mais duro que a de Stefan.
— O que acontece comigo e meu pai é assunto nosso... Meu! Fique aqui se quiser. Ele nunca se importa com vampiros, de qualquer forma… Ele diz que eles já estão amaldiçoados. Mas farei tudo que puder para trazer mon chéri Damon de volta.
— A qualquer custo?
— Pode custar o inferno inteiro!
Para surpresa de Elena, Stefan agarrou os ombros de Sage por um momento e, depois, simplesmente o abraçou, o máximo que pôde.
— Eu só queria ter certeza — Ele disse silenciosamente. — Obrigado, Sage. Obrigado.
Então ele se virou e caminhou até a planta Radhika Real e, com um puxão, arrancou-a do chão.
Elena, com o coração batendo em seus lábios, garganta e ponta dos dedos, correu para recolher embalagens e garrafas que Sage estava tirando de uma nona porta que havia aparecido entre o campo de rosas negras. Ela pegou um galão e uma garrafa de água Evian, ambos com as tampas de segurança intactas. Elas eram de plástico, o que era bom, pois ela havia deixado ambas caírem a caminho da fonte borbulhante. Suas mãos estavam tremendo demais; e, o tempo todo, ela estava enviando orações monótonas.
Oh, por favor. Oh, por favor. Oh, por favor!
Ela, agora, tinha água da Fonte dentro das garrafas, com as tampas lacradas. E, então, percebeu que Bonnie ainda estava parada no meio da Casa de Portais. Ela parecia confusa, assustada.
— Bonnie?
— Sage? — Bonnie disse. — Como vamos levar essas coisas até a Corte Celestial, para barganharmos?
— Não se preocupe — Sage disse gentilmente. — Tenho certeza que os Guardiões estão esperando por nós do lado de fora para nos prender. Eles nos levarão à Corte.
Bonnie não parou de tremer, mas ela concordou e se apressou em ajudar Sage a pegar garrafas de Black Magic... E destruí- las.
— Um sinal — Ele disse. — Un signe do que nós faremos com essa área caso eles não concordarem. Tome cuidado para não cortar suas lindas mãos.
Elena, então, achou ter ouvido a voz rouca de Bonnie, e ela não estava em um tom feliz. Mas o murmúrio surdo de Sage foi reconfortante. Elena não iria se permitir ter esperanças ou entrar em desespero. Ela tinha uma tarefa em mãos, um esquema. Ela tinha um Plano Secreto para a Corte Celestial.
Quando ela e Bonnie pegaram tudo que conseguiram carregar, com suas mochilas bem cheias, também; Stefan, com duas caixas pretas estreitas que evitavam fazer muitos movimentos; e Sage, que parecia uma mistura de Papai Noel com um Hércules lindo, bronzeado e com cabelos cumpridos, enquanto ele carregava dois sacos feito de lençóis, eles deram uma última olhada na Casa de Portais devastada.
— Certo — Sage disse, então. — É hora de encararmos os Guardiões.
Ele sorriu tranquilizadoramente para Bonnie.
Como sempre, Sage estava certo. No momento em que saíram, Guardiãs de duas dimensões diferentes estavam esperando por eles. A duas primeiras pareciam vagamente com Elena: cabelo loiro, olhos azuis escuros, esbeltas. As Guardiãs do Mundo Inferior pareciam ser mais velhas, com uma pele tão escura que era quase ébano, com cabelo enrolado firmemente sob um boné em suas cabeças. Atrás delas havia carros aéreos dourado brilhantes.
— Vocês estão presos — Uma das mais morenas disse, parecendo não gostar de seu trabalho — por removerem do santuário tesouros que, por direito, pertencem à Corte Celestial, onde foi concordado que eles deveriam ser mantidos aí, nos termos das leis de ambas as nossas dimensões.
E então, foi só uma questão de tempo até que eles entrassem no carro aéreo.
A Corte Celestial era... Celestial. Branco perolado com um toque de azul. Minarete. Havia uma longa distância desde o portão fortemente guardado — onde Elena viu um terceiro tipo de Guardiã, uma com um cabelo vermelho curto e inclinado, com olhos verdes penetrantes — até o palácio real, que parecia abranger uma cidade inteira.
Mas foi quando o grupo de Elena foi guiado para a sala do trono é que o choque cultural realmente bateu. Era bem grande e bem mais glamoroso do que qualquer outra sala que Elena já imaginara. Nenhum baile de gala na Dimensão das Trevas poderia tê-la preparado para isso. O teto da catedral parecia ser feito inteiramente de ouro, assim como a dupla linha de colunas que marchavam verticalmente no chão.
O piso em si era de malaquita moderadamente intricada com ouro e lápis-lazúli, o ouro usado, aparentemente, como cimentação feita por mãos habilidosas. As três fontes douradas no meio da sala (a do meio era a maior e mais elaborada) jogava ao ar não água, mas pétalas de flores delicadamente perfumadas que brilhavam como se fossem diamantes ao chegar a seu ápice, flutuando para baixo logo em seguida. Vitrais em cores brilhantes que Elena não se lembrava de ter visto antes jogava luzes de arco-íris em todas as paredes, como se fossem bênçãos, dando calor nas formas gravadas em ouro.
Sage, Elena, Stefan e Bonnie estavam sentados em pequenas cadeiras confortáveis a poucos metros de um grande tablado, coberto com um pano fantasticamente tecido a ouro. Os tesouros estavam espalhados na frente deles, enquanto assistentes vestidos de azul e ouro levavam os objetos, um a um, até as três comandantes do fundo.
As governantas eram compostas por um de cada grupo dos Guardiões — loira, morena, ruiva. Seus lugares na tribuna asseguravam que elas estavam distantes — bem acima — de seus peticionários. Mas com o Poder enviado para seus olhos, Elena pôde ver perfeitamente bem que cada uma se sentara em um trono de joias de ouro requintado. Elas estavam falando baixinho, juntas, admirando a flor Radhika Real — que era um delfínio azul no momento. Então, a mais morena sorriu e enviou uma de suas assistentes atrás de um vaso com terra para que a planta sobrevivesse.
Elena olhou ligeiramente para os outros tesouros. Um galão de água da Fonte da Eterna Juventude e Vida. Seis garrafas de vinho Black Magic e pequenas uvas ao seu redor. Um arco-íris resplandecente disputava com os vitrais em cores brilhantes, alguns brutos, alguns já lapidados e polidos, mas a maioria deles não era só facetada, mas sim esculpidas a mão com inscrições misteriosas de ouro ou prata.
Havia duas caixas pretas e grandes, forradas com veludo e com cilindros de papiro ou papel dentro delas, uma com uma rosa negra deitada ao seu lado; e outra com um spray colorido. Elena sabia o que eram aqueles documentos amarelados com selos de cera: as ações para os campos de rosas negras e para o paraíso kitsune.
Quando você via os tesouros juntos daquele jeito, pareciam ser coisas demais, Elena pensou. Qualquer objeto dos Sete… Não, agora eram Seis… Tesouros Kitsune eram o bastante para se comercializar.
Um galho da Radhika Real, que agora estava sendo trazida de volta, (uma larkspur rosa que estava se transformando em uma orquídea branca) colocada devidamente em um novo vaso, era imensuravelmente precioso. Havia uma única rosa negra aveludada, com um Poder de segurar a mais poderosa das magias.
Uma joia do tesouro da caverna de mineração, talvez um diamante com o duplo tamanho de um pulso que fariam a Grande Estrela da África e o Jubileu de Ouro passar vergonha. Um dia no paraíso kitsune, onde um dia poderia parecer uma vida inteira. Uma gota da água efervescente que faria um humano viver tanto quanto o mais velho dos Antigos...
É claro, devia haver também a maior Esfera Estelar já vista, cheia de Poder místico, mas Elena tinha esperança de que os Guardiões não reparassem nisso.
Esperança? Ela se perguntou e sacudiu a cabeça, fazendo com que Bonnie apertasse sua mão levemente. Nada de esperança. Ela não ousava ter esperança. Nem uma gota.
A outra assistente, ruiva, deu-lhes um olhar esverdeado e gelado, pegando o galão de água de plástico que dizia Água do Setor 3 no rótulo. Sage rugiu quando ela saiu.
— Qu’est-ce qui lui prend? Quer dizer, qual o problema dela? Eu gosto da água do setor dos vampiros. Não gosto daquele lixo de água do Mundo Inferior.
Elena já havia descoberto o código de cor para os Guardiões.
As loiras eram aquelas que mexiam nos negócios, impacientes somente com atrasos. As morenas eram as gentis — talvez houvesse menos trabalho para elas fazerem aqui no Mundo Inferior.As ruivas dos olhos verdes eram simplesmente as megeras. Infelizmente, a jovem no trono do centro, lá em cima do tablado, era ruiva.
— Bonnie? — Ela sussurrou.
Bonnie teve que engolir e fungar antes que pudesse falar.
— Sim?
— Eu já te falei o quanto eu adoro seus olhos?
Bonnie ficou encarando-a por um bom tempo com seus olhos castanhos antes de começar a tremer de tanto rir. Pelo menos aquilo começou como uma risada, e então Bonnie enfiou a cabeça no ombro de Elena e simplesmente ficou tremendo.
Stefan apertou a mão de Elena.
— Ela tentou tanto... Por você. Ela… Ela o amava também, entenda. Eu nem sabia. Eu acho... Eu acho que estive cego de ambos os lados.
Ele passou a mão livre pelo cabelo já despenteado. Parecia muito jovem, como se fosse um menino que tinha sido subitamente punido por fazer algo que não fora informado que era errado. Elena se lembrou dele no quintal da pensão, com ela dançando com seus pés em cima dos dele, e depois no quarto no sótão, com ele beijando suas mãos, os nós de seus dedos doloridos depois de tantas marteladas, seus pulsos. Ela queria dizer a ele que tudo ficaria bem, que o riso voltaria para os seus olhos, mas ela não podia aguentar em mentir para ele.
De repente Elena sentiu como se fosse uma mulher muito, muito velha, que podia ouvir e ver bem vagamente, que cada movimento lhe causava um dor terrível e que sentia um frio por dentro. Todas as suas articulações e ossos estavam cobertos de gelo.
Finalmente, quando todos os tesouros, incluindo a Chave Mestra brilhante com diamantes, foram levados até as mulheres sobre os tronos para serem manuseados, pesados, examinados e discutidos, seguido com uma olhadela calorosa da mulher com pele morena chegando até o grupo de Elena.
— A Sentença de vocês foi decidida. E — Ela adicionou em uma voz tão suave quanto o golpe de uma libélula — elas estão bastante impressionadas. Isso não acontece com muita frequência. Falem mansamente e mantenham suas cabeças para baixo e acho que vocês terão seus desejos mais profundos realizados.
Algo dentro de Elena deu um salto que a teria feito agarrar a túnica de uma das assistentes, mas, felizmente, Stefan a tinha dentro de um abraço de ferro. A cabeça de Bonnie saiu do ombro de Elena, e Elena teve que conter-se.
Eles caminharam, o retrato da humildade, até onde quatro almofadas vermelhas brilhavam contra o tecido dourado do chão. Certa vez, Elena teria se recusado a se humilhar desse jeito. Agora, ela estava agradecida por ter um lugar macio para descansar seus joelhos.
Assim tão perto, ela pôde ver que as governantas usavam um colar de metal, no qual uma única pedra estava pendurada sobre a testa de cada uma.
— Nós consideramos o seu pedido — A morena disse, seu diadema de ouro branco com pingente de diamante ofuscava Elena com alfinetadas de lilás, vermelho e azul marinho.
— Oh, sim — Ela adicionou, rindo. — Nós sabemos o que vocês querem. Até mesmo um Guardião de rua teria que ser bem ruim em seu trabalho para não saber. Vocês querem que sua cidade seja... Renovada. As casas queimadas reconstruídas. As vítimas da peste malach recriadas, com suas almas de volta ao normal, e suas memórias...
— Mas, primeiro — Interrompeu a loira, acenando com a mão —, nós não temos assuntos para tratar? Essa garota... Elena Gilbert... Não pode ser qualificada como porta-voz do grupo. Se ela se tornar uma Guardiã, ela não pertence aos peticionários.
A ruiva sacudiu a cabeça como uma potranca impaciente, fazendo com que o ouro rosa de sua diadema piscasse, e seus rubis brilhassem.
— Oh, vai em frente então, Ryannen. Se o seu nível de recrutamento é modesto...
A loira encarregada dos negócios ignorou isso, mas inclinou-se, alguns de seus cabelos retido atrás de seu rosto devido ao pingente de safira.
— Que tal, Elena? Eu sei que nosso primeiro encontro foi... Infeliz. Você tem que acreditar que sinto muito por isso. Mas você estava indo bem em se tornar uma Guardiã completa quando tivemos ordens de Lá de Cima para dar-lhe um corpo novo, assim você poderia pegar sua vida humana novamente.
— Vocês fizeram isso? É claro que fizeram — A voz de Elena estava baixa, suave e lisonjeira. — Vocês podem fazer tudo. Mas... Nosso primeiro encontro? Eu não me lembro...
— Você era jovem demais, e viu só um flash do nosso carro aéreo enquanto ele passava pelo veículo de seus pais. Era para ser um pequeno acidente com só uma vítima... Você. Mas, ao invés disso...
As mãos de Bonnie voaram até sua boca. Ela estava entendendo algo que Elena não entendia. O “veículo” dos seus pais...? A última vez que dirigira com seu pai e sua mãe... E a pequena Margaret... Fora no dia do acidente. No dia em que ela havia distraído seu pai, que estava dirigindo…
— Olha, papai! Veja esse lindo carr…
E então houve o impacto.
Elena se esqueceu de ser humilde e de manter a cabeça baixa. Na verdade, ela a levantou, encontrando olhos azuis salpicados de dourado muito parecidos com os dela. Seu próprio olhar, ela sabia, era penetrante e duro.
— Vocês... Mataram meus pais? — Ela sussurrou.
— Não, não! — A morena gritou. — Foi uma operação que falhou. Tínhamos que interagir com a dimensão da Terra somente por alguns minutos. Mas, inesperadamente, seu talento aflorou. Você viu o nosso carro aéreo. E ao invés de só uma vítima aparente: você, seu pai se virou para olhar e...
Lentamente, a voz dela falhou enquanto Elena virava os olhos incrédulos sobre ela.
Bonnie estava olhando cegamente à distância, quase como se estivesse em transe.
— Shinichi — Ela respirou. — Aquele enigma estranho dele... Ou o que quer que aquilo seja. Aquele que diz que um de nós cometeu assassinato, e que não tinha nada a ver com vampiros ou morte de misericórdia...
— Eu sempre presumi que fosse eu — Stefan disse silenciosamente. — Minha mãe nunca se recuperou do meu parto. Ela morreu.
— Mas isso não faz de você um assassino! — Elena gritou. — Não igual a mim. Não igual a mim!
— Bem, é por isso que estou te perguntando agora — A loira dos negócios disse. — Foi uma missão imperfeita, mas você entende que estávamos apenas tentando recrutá-la, não é? É o método tradicional. Nossos genes nos aprimoraram para sermos os melhores sobre demônios irracionais e perigosos, que não respondem à força tradicional, mas que exigem um plano calculado.
Elena sufocou um grito. Um grito de ira, agonia, descrença, culpa... Ela não sabia disso. Seus Planos. Seus esquemas. O jeito que ela lidava com os meninos do colégio, nos velhos tempos... Estava tudo em sua genética. E... Seus pais… Por que eles morreram?
Stefan se levantou. Sua mandíbula estava dura, seus olhos verdes estavam queimando brilhantemente. Ele apertou a mão de Elena e ela ouviu:
Se você quiser brigar, eu topo.
Mais, non.
Elena virou-se e viu Sage. Sua voz telepática era inconfundível. Ela foi obrigada a ouvir.
Não podemos lutar com eles, estando nós em seus territórios, e vencermos. Nem eu posso. O que vocês podem fazer é fazê-las pagarem! Elena, minha corajosa, os espíritos de seus pais encontraram, sem dúvidas, um novo lar. Seria crueldade trazê-los de volta. Mas vamos exigir dos Guardiões o que você quiser. Um ano ou um dia no passado, exija qualquer que seja o seu desejo! Eu acho que todos nós a apoiaremos.
Elena pausou. Ela olhou para as Guardiãs e olhou para os tesouros. Ela olhou para Bonnie e para Stefan, que estavam esperando. Havia permissão nos olhos deles.
Então ela disse bem devagar para as Guardiãs.
— Isso vai custar muito para vocês. E não quero ouvir que nada disso é impossível. Por todos os tesouros de volta e a Chave Mestra também... Eu quero minha velha vida. Não, eu quero uma nova vida, com a minha velha vida incluída. Quero ser Elena Gilbert, exatamente como se eu tivesse me formado com a minha turma, e quero ir à faculdade Dalcrest. Quero acordar na casa de minha tia Judith de manhã e descobrir que ninguém percebeu que eu estivesse fora durante quase dez meses. Quero notas boas no meu último ano de ensino médio... Só para o caso de emergências. E quero que Stefan tenha vivido pacificamente na pensão o tempo todo, e que todos o aceitem como meu namorado. E quero que cada coisa que Shinichi, Misao e aquela para quem eles trabalhavam sejam desfeitas e esquecidas. Eu quero que essa pessoa esteja morta. E quero que tudo que Klaus fez à Fell’s Church seja desfeita, também. Quero Sue Carson de volta! Quero Vickie Bennet de volta! Quero todo mundo de volta!
Bonnie disse fracamente:
— Até mesmo o Sr. Tanner?
Elena entendeu. Se o Sr. Tanner não tivesse morrido — tendo seu sangue misteriosamente drenado —, então Alaric Saltzman nunca teria sido chamado para Fell’s Church. Elena lembrou-se de Alaric da experiência fora do corpo: cabelo de areia, olhos castanhos e risonhos. Ela pensou em Meredith e seu quase noivado. Mas quem era ela para brincar de Deus? Para dizer sim, essa pessoa poderia morrer porque ela era desagradável e mal-amada, mas essa aqui tinha que sobreviver porque ela era minha amiga.

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