26 de novembro de 2015

Capítulo 40

Matt e a Sra. Flowers estavam no bunker — o anexo que o tio da Sra. Flowers havia construído para abrigar a carpintaria e outros hobbies. Estava ainda mais detonado que o resto da casa, e era usado como depósito, onde a Sra. Flowers guardava, por exemplo, a cama de armar do tio Joe e aquele sofá velho e arriado que não combinava mais com a mobília da casa.
Agora, à noite, aquele lugar era o paraíso. Nenhuma criança ou adulto de Fell's Church tinha sido convidado a entrar lá. Na realidade, a não ser pela Sra. Flowers, por Stefan — que ajudou a transferir os móveis grandes para lá — e agora por Matt, ninguém jamais estivera ali, pelo que a Sra. Flowers se recordava.
Matt se agarrou a isso. Estivera lendo atentamente todo o material que Meredith pesquisara e um trecho precioso tinha significado muito para ele e para a Sra. Flowers. Era o que permitia que dormissem à noite, quando as vozes chegavam.
Acredita-se que os kitsune sejam uma espécie de primos distantes dos vampiros ocidentais, que seduzem determinados homens (já que a maioria dos espíritos raposas assume a forma feminina) e se alimentam diretamente de seu chi, ou espírito vital, sem a intermediação do sangue. Assim, pode-se deduzir que são regidos por regras semelhantes as dos vampiros. Por exemplo, eles também não podem entrar em uma casa sem ser convidados...
E, ah, as vozes...
Ele agora estava profundamente feliz por ter aceitado o conselho de Meredith e Bonnie e procurado primeiro a Sra. Flowers antes de ir para casa.
As meninas conseguiram convencê-lo de que ele acabaria colocando os pais em perigo, pois a cidade inteira estava esperando Matt para linchá-lo pelo suposto ataque a Caroline. Mas Caroline parecia tê-lo achado no pensionato assim que chegou, mas, estranhamente, nunca levou nenhuma multidão até lá. Matt achava que talvez fosse porque teria sido inútil.
Ele não tinha ideia do que poderia acontecer se aquelas vozes realmente pertencessem a ex-amigos que há muito tempo foram convidados a esta casa.
Esta noite...
— Vamos lá, Matt — ronronou Caroline, com a voz arrastada, lenta e sedutora. Parecia que estava deitada, falando pela fresta embaixo da porta. — Não seja um desmancha-prazeres. Sabe que uma hora vai ter que sair.
— Deixa eu falar com a minha mãe.
— Não posso, Matt. Eu já te disse, ela está em treinamento.
— Para ficar como você?
— Dá muito trabalho ficar como eu, Matt. — De repente o tom de Caroline não era mais sedutor.
— Aposto que sim — murmurou Matt, e acrescentou: — Se você fez alguma coisa com a minha família, vai se arrepender.
— Ah, Matt! Tenha dó, cai na real. Ninguém vai fazer nada aqui.
Matt abriu as mãos devagar para olhar o que segurava. O antigo revólver de Meredith, carregado com as balas abençoadas por Obaasan.
— Qual é o segundo nome de Elena? — perguntou. Não em voz alta, embora houvesse os sons de música e danças no quintal da Sra. Flowers.
— Matt, do que está falando? O que está fazendo aí, uma árvore genealógica?
— Te fiz uma pergunta simples. Você e Elena brincavam juntas desde que eram praticamente bebês, não é? Então, qual é o segundo nome dela?
Houve uma agitação lá dentro e Caroline finalmente respondeu, mas dava para ouvir claramente uma instrução sussurrada, como Stefan ouvira tanto tempo atrás, apenas uma fração de segundo antes de ela falar.
— Se está interessando apenas em fazer joguinhos, Matthew Honeycutt, vou achar outra pessoa para conversar comigo.
Ele praticamente podia ouvir Caroline se mexendo com irritação.
Mas Matt tinha vontade de comemorar. Permitira-se comer uma bolacha e tomar meio copo do suco de maçã caseiro da Sra. Flowers. Eles nunca sabiam quando podiam ficar presos ali para sempre, apenas com os suprimentos que traziam, então sempre que Matt saía do bunker, voltava com o máximo de coisas que encontrava e achava que podia ser útil. Um acendedor de churrasqueira e um spray para cabelos equivaliam a um lança-chamas. Potes e mais potes das deliciosas conservas da Sra. Flowers. Anéis de lápis-lazúli para o caso de acontecer o pior e terminarem com dentes pontudos.
A Sra. Flowers se virou, cochilando no sofá.
— Quem era, Matt, querido? — perguntou ela.
— Ninguém, Sra. Flowers. Pode voltar a dormir.
— Sei — disse a Sra. Flowers em sua voz mais doce. — Bem, se a ninguém voltar, pergunte o primeiro nome da mãe dela.
— Sei — disse Matt na melhor imitação da voz da Sra. Flowers, e os dois riram. Mas, apesar das risadas, havia um bolo em sua garganta. Ele conhecia a Sra. Forbes há muito tempo também. E estava assustado, temia a hora em que a voz a chamá-lo fosse a de Shinichi.
E aí eles estariam encrencados de verdade.
***
— Acabou-se — gritou Sage.
— Elena! — berrou Meredith.
— Ah, meu Deus! — gritou Bonnie.
No instante seguinte, Elena foi lançada para o teto e algo caiu por cima dela. Ela ouviu um grito, mas esse era diferente dos outros. Era um som abafado de pura dor enquanto o bico de Bloddeuwedd batia em algo feito de carne. Eu, pensou Elena. Mas não havia dor.
Não... fui eu?
Ela ouviu uma tosse acima dela.
— Elena... Vá... Meus escudos... Não aguentam...
— Damon! Nós vamos juntos!
Dói...
Era só a sombra de um sussurro telepático e Elena sabia que Damon não pensava ter sido ouvido. Mas ela estava circulando seu Poder cada vez mais rápido, disfarçadamente, concentrada apenas em livrar do perigo aquele que ela amava.
Vou achar um jeito, disse ela a Damon. Vou carregar você. Como um bombeiro.
Ele riu disso, fazendo Elena perceber que não estava morrendo. Agora Elena desejou ter levado o Dr. Meggar na carruagem para que ele pudesse ajudar a curar os feridos...
... e depois o quê? Deixá-lo à mercê de Bloddeuwedd? Ele quer construir um hospital aqui neste mundo. Quer ajudar as crianças, que certamente não merecem toda a crueldade que as vi sofrerem...
Ela afugentou os pensamentos. Não havia tempo para um debate filosófico sobre médicos e suas obrigações.
Era hora de fugir.
Estendendo a mão para trás, ela encontrou duas mãos. Uma estava escorregadia de sangue, então ela estendeu o braço além, agradecendo a sua falecida mãe por todas as aulas de balé e ioga que tenha sido obrigada a frequentar, e pegou a manga acima da mão. Depois colocou as costas dele na dela e puxou.
Para sua surpresa, Elena conseguiu levantar Damon. Tentou puxá-lo mais para cima de suas costas, mas não deu muito certo. E até conseguiu dar um passo trôpego para a frente, depois outro...
E então Sage apareceu, pegando os dois, e eles entraram no saguão do prédio da Shi no Shi.
— Saiam todos! Saiam! Bloddeuwedd está atrás de nós e ela vai matar quem estiver no seu caminho! — gritou Elena. Foi estranho. Ela não pretendia gritar. Não formulara as palavras, a não ser, talvez, nas partes mais profundas de seu subconsciente. Mas gritou para eles no saguão já em polvorosa e ouviu o grito sendo aceito pelos outros.
O que ela não esperava era que eles corressem para as celas. É claro que não iriam para a rua. Devia ter pensado nisso, mas não pensou. Depois sentiu que ela, Sage e Damon desciam pelo caminho que fizeram na noite anterior...
Mas era realmente o caminho certo? Elena uniu as mãos e viu, a julgar pela luz das raposas, que precisavam entrar à direita.
— O QUE SÃO ESSAS CELAS À NOSSA DIREITA? COMO CHEGAREMOS LÁ? — gritou para o jovem vampiro ao lado.
— É onde ficam os Mentalmente Perturbados e em Isolamento — respondeu aos gritos o cavalheiro vampiro. — Não vá por aí.
— Tenho de ir! Preciso de uma chave?
— Sim, mas...
— Você tem uma chave?
— Sim, mas...
— Me dê agora!
— Não posso — gemeu ele de um jeito que a lembrou de Bonnie em seus momentos mais difíceis.
— Tudo bem. Sage!
— Madame?
— Mande Talon furar os olhos deste homem. Ele não quer me dar a chave para a ala de Stefan!
— Considere feito, Madamel
— Esp-pere! Eu m-mudei de ideia. Tome a chave!
O vampiro tirou uma chave de um molho e a entregou a Elena. Parecia com as outras chaves em seu anel. Parecida demais, disse a mente desconfiada de Elena.
— Sage!
— Madame!
— Pode esperar com Sabber até eu passar? Quero que ele arranque o você-sabe-o-quê desse sujeito se ele estiver mentindo para mim.
— Mas é claro, Madame!
— Esp-p-p-pere — disse o vampiro, ofegante. Estava claro que ele estava totalmente apavorado. — Eu posso... posso ter lhe dado a chave errada... Nesta... nesta luz...
— Me dê a chave certa e me diga tudo o que preciso saber ou farei com que o cão volte e o mate — disse Elena e, nesse momento, ela falou sério.
— T-tome. — Desta vez a chave não parecia uma chave. Era redonda, ligeiramente convexa e tinha um buraco no meio. Como um donut em que um policial se sentou, parte da mente de Elena disse, e ela começou a rir histericamente.
Cale a boca, disse-lhe sua mente com aspereza.
— Sage!
— Madame?
— Talon pode ver o homem que estou segurando pelos cabelos? — Ela teve de ficar na ponta dos pés para pegá-lo.
— Mas é claro, Madame!
— Poderá se lembrar dele? Se eu não achar Stefan, quero que ela mostre a Sabber, para que ele siga seu rastro.
— Er... Ah... Entendi, Madame!
Uma mão, pingando sangue do pulso, ergueu um falcão no alto, ao mesmo tempo em que houve um estrondo inesperado no alto do prédio.
O vampiro estava quase aos prantos.
— Vire à d-d-direita a partir d-d-daqui. Use a ch-ch-chave na fenda na altura da c-c-abeça para entrar n-no corredor. Talvez haja guardas lá. Mas... se... se não tiver uma chave para a cela individual que quer... Desculpe, mas...
— Eu tenho! Tenho a chave da cela e sei o que fazer depois! Obrigada, você foi de grande ajuda.
Elena soltou o cabelo do vampiro.
— Sage! Damon! Bonnie! Procurem um corredor trancado, do lado direito. Não se deixem levar pela multidão. Sage, segure Bonnie e faça Sabber latir como um louco. Bonnie, segure-se em Meredith na frente dos homens. O corredor leva a Stefan!
Elena nunca soube o quanto daquela mensagem, falada e enviada telepaticamente, seus aliados ouviram. Mas à frente ela ouviu um som que lhe parecia um coro de anjos cantando.
Sabber latia loucamente.
Elena jamais teria sido capaz de parar. Estava numa correria de pessoas e aquilo a levava para uma barreira feita por quatro pessoas, um falcão e um cachorro de aparência raivosa.
Mas oito mãos se estenderam enquanto ela era varrida — e um rosnado, um focinho feroz saltou à frente de Elena para separá-la multidão. De algum modo ela colidiu com a parede à direita segurando nela, empurrando-a, agarrando e forçando-a.
Mas Sage olhava a mesma parede, desesperado.
— Madame, ele a enganou! Não tem nenhuma fechadura aqui!
A garganta de Elena ficou áspera. Ela se preparou para gritar, ―Sabber, ataque,  e partiu atrás do vampiro.
Mas então, pouco abaixo dela, a voz de Bonnie disse:
— É claro que tem. Tem a forma de um círculo.
E Elena se lembrou.
Guardas baixos. Como demoniozinhos ou macacos. Do tamanho de Bonnie.
— Bonnie, pegue isso! Enfie no buraco. Mas cuidado! É a única que temos.
Sage de imediato orientou Sabber a parar e rosnar pouco à frente de Bonnie no túnel, para evitar que o fluxo de demônios e vampiros em pânico a atrapalhasse.
Com cuidado, solenemente, Bonnie pegou a chave grande, examinou-a, tombou a cabeça de lado, girou-a nas mãos e a colocou na parede.
— Não aconteceu nada!
— Tente girar ou empurrar...
Um estalo. A porta se abriu, deslizando.
Elena e seu grupo caíram no corredor, enquanto Sabber ficou entre eles e a multidão esmagadora, latindo, mordendo e saltando.
Elena, deitada no chão, com as pernas entrelaçadas sabe-se-lá-em-quem, colocou a mão em concha em seu anel.
Os olhos de raposa apontaram diretamente para a frente e pouco para a direita.
Brilharam para uma cela à frente.

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