7 de novembro de 2015

Capitulo 4 - Naquele momento, Kalona estava absolutamente contente...


Kalona não pensou muito na terra mortal. Ele atravessou um grande corpo de água para encontrar um grande continente fértil. Grande parte dele era muito quente ou muito frio. Grande parte dele era desabitado, e aquilo que era povoado pelos filhos humanos da Mãe Terra estava longe de ser o que a consciência predeterminada de Kalona considerava civilizada. Evitou-os. Os seres humanos podem ter sido criados à imagem de Nyx, mas pareciam rasos e desinteressantes quando comparados com a glória de sua Deusa. Kalona percorria o continente vasto pensando em Nyx.
Ele finalmente veio a descansar perto do centro do continente, voando baixo por um campo de gramíneas silvestres que parecia estender-se por todo o caminho até o horizonte ocidental.
Ele pousou na borda da grande pradaria, perto de um riacho de areia que corria musicalmente sobre pedras lisas de rio. Kalona bebeu da água limpa e fria e, em seguida, sentou-se com suas costas contra a casca áspera de uma árvore.
O que ele poderia criar a partir do ar invisível e do poder divino para agradar Nyx? Ele procurou dentro de si e facilmente encontrou o poder divino que cantava pelo seu sangue.
Usando isto, ele concentrou sua consciência para fora e subiu, muito acima da borda da pradaria e da terra mortal. Lá, ele encontrou correntes de magia, trilhas divina de poder antigo, a mesma força bruta e antiga que corriam em seu sangue. Experimentando, Kalona absorveu um fragmento de energia etérea, puxando-o para si. Então se levantou, preparando-se, e chamou, um pouco hesitante:
— Ar?
No mesmo instante, o elemento respondeu, girando em torno dele.
— Mostre-me o que você pode fazer.
Kalona se sentiu tolo, falando em voz alta para um elemento invisível. Ele apontou para uma enorme árvore que tinha de alguma forma crescido longe da linha da floresta, orgulhosa e sozinha, bem nas ervas altas da pradaria.
— Com a ajuda do poder divino, comando o Ar a criar aquilo que pode ser visto a partir do Outromundo!
Ar correu em volta dele, capturando o fio de energia etérea, e com um rugido poderoso soprou na árvore, que explodiu em uma enorme nuvem em forma de cogumelo de pó de madeira e lascas que subiu tão alto no céu que Kalona perdeu de vista. Grandes pássaros pretos, perturbados em seus poleiros, crocitaram e voaram em círculos, repreendendo-o.
O imortal suspirou. Ele não achava que a explosão de uma árvore, não importa quão espetacular fosse... os pensamentos de Kalona foram interrompidos por um súbito afluxo de poder, algo que vertia para dentro dele, como se fosse um retorno de energia a partir da destruição da árvore.
Kalona balançou a cabeça, limpando seus pensamentos. Seu corpo formigava brevemente, mas em questão de segundos a sensação se dissipou, deixando-o vazio e confuso. Ele franziu a testa. Ele precisava se lembrar de que era novo neste mundo – novo para os poderes que tinha nascido para empunhar. Talvez fosse destinado a absorver os restos de energia não utilizada.
Kalona passou a mão pelos cabelos longos e espessos, dando voz à sua frustração.
— Como vou saber? É lamentável que a Mãe Terra não pudesse permitir um tempo de adaptação e compreensão antes que impingisse testes em cima de mim, especialmente testes que servem para estabelecer o meu valor.
Bem, ele tinha usado com sucesso o Ar e o poder do Divino juntos. E o resultado provavelmente podia ter sido visto a partir do Outromundo, bem como do sol e da lua. Mas Kalona não acreditava que Nyx acharia a visão de lascas e poeira e pássaros irritados muito agradável. Certamente não o agradou quando fragmentos minúsculos da árvore começaram a chover. Kalona ainda franzia a testa enquanto espanava o pó de madeira de suas asas.
— O Ar é um elemento ridículo — ele murmurou e, em seguida, envolto em uma nuvem de pó de madeira, ele tossiu e continuou escovar poeira e folhas de suas asas.
— Ó ser alado! Grande Deus! Rogamos saber o seu nome para que possamos adorá-lo e não incorrer em sua ira! Por favor, não nos destrua como você fez à Árvore do Grande Espírito!
Tossindo, Kalona desviou o olhar de suas asas. Cerrando os olhos através do ar carregado de pó, ele viu um grupo de nativos vestidos de couro, penas e conchas prostrando-se na margem oposta do rio. Ele olhou para trás e abafou um suspiro e outra tosse, registrando mais um na sua lista de erros – ele estava tão concentrado na pradaria coberta de grama e em empunhar seu poder que não notou ter pousado próximo de um assentamento humano.
Kalona ergueu os ombros. Coberto de poeira ou não, ele teria que dizer alguma coisa a essas crianças curiosas e equivocadas da Mãe Terra.
— Eu sou Kalona — falou. Eles se encolheram de medo, e ele percebeu que devia modular a potência de sua voz. Limpou a garganta e começou de novo. — Eu sou Kalona, e não vim para destruí-los.
— Kalona das Asas de Prata, como podemos adorá-lo? — perguntou o homem que tinha falado primeiro. Ele era enrugado e curvado, mas estava enfeitado com mais penas e conchas do que os outros, e seu rosto e peito à mostra foram pintadas em redemoinhos de cor ocre.
— Não, adoração não é o motivo de eu estar aqui — disse Kalona.
— Mas você matou a Árvore do Grande Espírito! É mais forte do que ela. Agora você enche o ar com a prova de seu poder, e os corvos o chamam. Rogamos que não seja como o coiote malandro. Nós lhe traremos chigustei e o melhor da nossa carne cozida para comer. A mais bela das nossas donzelas vai aquecer sua cama e dançar a dança do nascer do sol para você. Só não nos destrua!
— Você não entendeu. Eu não... — as palavras de Kalona foram cortadas conforme o ar cheio de pó de repente clareou e uma mulher requintada se materializou.
Ela estava vestida com o mais puro dos couros brancos, enfeitada com pedras azuis, contas vermelhas redondas e ossos esculpidos. Seu cabelo escuro passava de sua cintura delgada.
Seus pés delicados estavam nus, seus tornozelos decorados com cordões de conchas, de modo que cada vez que ela se movia, ela fazia música. Sua pele morena foi pintada com símbolos antigos em um azul tão escuro e rico que o desenho parecia líquido e em constante mudança. Embora na aparência ela fosse totalmente diferente de sua primeira visão da Deusa, Kalona soube imediatamente que este ser radiante era sua Nyx.
Os seres humanos se prostraram novamente e começaram a rogar:
— Estsanatlehi!
— Amada Mulher Mutável!
— Salve-nos do Kalona das Asas de Prata!
Kalona tossiu mais uma vez e, em seguida, apressadamente tentou explicar-se:
— Eu não sabia que era a sua árvore.
Nyx caminhou na direção dele e pegou sua mão, apesar de a sua atenção e seus belos olhos escuros estarem voltados inteiramente para os seres humanos.
— Meu povo, não temam. Kalona das Asas de Prata não é um destruidor, nem um Deus. Ele é meu... — Nyx fez uma pausa, mudando o olhar para ele. Kalona tinha certeza de que viu de diversão em seus olhos, apesar de ela ter escondido bem o seu sorriso — Meu guerreiro, meu Destruidor de Monstros e meu Assassino de Inimigos — ela concluiu.
— Será que a Árvore do Grande Espírito a ofendeu, Estsanatlehi, de modo que você enviou o seu Assassino de Inimigos contra ela? — perguntou o homem pintado e cheio de penas.
— Não, xamã. Meu guerreiro estava apenas abrindo caminho para uma nova Árvore do Grande Espírito, que dá frutos. Eis aqui o meu presente para vocês! — Nyx soltou a mão de Kalona e se virou para o buraco negro vazio em que a árvore costumava ficar. Ela começou a mover seus pés descalços em uma dança que tinha o ritmo de um batimento cardíaco, acompanhada pela música dos cordões de conchas que decoravam seus tornozelos. — Ouça-me, oh Mãe Terra. Eu sou Estsanatlehi, a Mulher Mutável, Oradora pelo povo. Peço que a Árvore do Grande Espírito renasça e dê frutos para alimentar o povo. Ouça-me, ó Mãe Terra. Eu sou Estsanatlehi, a Mulher Mutável, Oradora pelo povo... — Nyx repetiu sua canção várias vezes, até que dançou ao redor do buraco negro três vezes completas. Com o círculo triplo concluído, ela quebrou uma conta vermelha redonda de seu vestido e jogou-a no buraco com um grito vitorioso.
Kalona engasgou, juntamente com os seres humanos, quando uma árvore instantaneamente brotou a partir do centro do buraco, crescendo mais e mais, seus galhos se alongando, brotando, florando, e então se preenchendo com folhas simples, verde-claras na parte de cima e prata na parte inferior. Kalona piscou, e toda a árvore estava carregada de carnudas frutas vermelhas.
— Colham e compartilhem esse fruto, e lembrem-se de que a sua Deusa não é destrutiva ou vingativa — disse Nyx, movendo-se de volta para o lado de Kalona. — Como sempre, desejo que vocês abençoados sejam — concluiu. Em seguida, ela passou os braços em volta do pescoço de Kalona e sussurrou em seu ouvido: — Você deve me levar embora daqui agora.
Quase não conseguindo respirar, Kalona ergueu a Deusa em seus braços e saltou no ar, segurando-a com força enquanto suas poderosas asas os levavam para o céu.

* * *

— Ali — Nyx disse, apontando para baixo. O terreno tinha mudado abaixo deles. Ele tinha começado a inclinar suavemente e estava coberto com aglomerados de árvores altas. A Deusa fez sinal para além das árvores, em direção a um rio largo e escuro, salpicado de bancos de areia e cercado por arbustos — Você pode me colocar lá embaixo.
Kalona circulou até que encontrou um banco de areia levemente inclinado livre de ervas e arbustos. Ele pousou suavemente.
— Você não tem que me segurar agora — disse ela.
A cabeça de Nyx descansava em seu ombro, como tinha estado durante a maior parte de sua jornada. Ele não podia ver seu rosto, mas podia ouvir o sorriso em sua voz. Ele deu-lhe coragem.
— Eu gosto de segurar você — ele falou.
— Você é muito forte — disse ela, rindo baixinho.
— Agrada você que eu seja forte?
— Agrada quando você tem que me levar rapidamente para longe de uma situação complicada.
Kalona a colocou no chão então, embora permanecesse perto dela, segurando suas mãos.
— Perdoe-me por isso. Minha intenção não era assustar os mortais. Eu... eu estava tentando... — sua voz sumiu, e Kalona sentiu seu rosto queimar de vergonha.
Nyx sorriu e acariciou sua bochecha com sua mão macia.
— Você estava tentando o quê?
— Agradá-la! — disse ele em uma explosão de honestidade.
— Você pensou destruir uma árvore iria me agradar?
Ele balançou a cabeça e poeira árvore caiu de seu cabelo em seu rosto. Nyx espirrou violentamente três vezes e esfregou os olhos lacrimejantes.
— Perdoe-me outra vez! — ele ergueu as mãos impotente, tentando ajudá-la, e como se estivesse só esperando por este movimento de suas mãos, mais poeira choveu de seus braços em seu rosto. Ela espirrou novamente e, incapaz de falar, fez um gesto para ele dar um passo atrás.
Frustração brilhou através dele, atraindo tufos de poder divino. Com uma ideia repentina, Kalona desabafou:
— Ar, ajude-me a criar uma paz reconfortante para Nyx!
Ele prendeu a respiração enquanto o ar girou em torno de sua Deusa, carregando os luminosos fragmentos de seu poder para que gentilmente roçassem sua pele, soprando a poeira de seu rosto e deixou-a piscando longe a última de suas lágrimas e sorrindo para ele.
— Agora, isto me agradou. Obrigada, Kalona.
— Então você me perdoa pela árvore? E assustar aqueles seres humanos? E a poeira?
— Claro que perdoo. Você não quis ofender com nada disso. Embora eu ainda não entenda o que você pretendia criar lá atrás.
— Algo que você pudesse ver a partir do Outromundo — disse Kalona. E acrescentou: — Minha invocação foi falha, minha intenção confusa. Eu não tenho certeza do que esperava que acontecesse, mas tenho certeza que falhei.
— Oh, eu não diria que foi um fracasso total. Você conseguiu chamar minha atenção, apesar de ser porque eu senti o medo do povo.
— De verdade, eu não pretendia fazer nenhum mal a eles.
— Eu acredito em você, mas devo também dizer-lhe o que a Mãe Terra não explicou totalmente a você ou Erebus. Muitos de seus seres humanos são infantis em suas crenças. Eles são facilmente assustados e contam histórias elaboradas para encontrar sentido naquilo que não conseguem entender completamente. No entanto, eu sou especialmente afeiçoada pela raça de mortais que você conheceu hoje. Eles têm um profundo amor e respeito para com a Terra, e uma lealdade que toca meu coração. Eu provavelmente apareço para eles mais do que devia, mas aprecio as histórias que eles contam sobre mim.
— É por isso que você tem essa aparência hoje? Porque eles não iriam reconhecê-la se eles te vissem como você estava antes?
— Sim, em parte. Acho que as diferentes raças da humanidade ficam mais confortáveis se eu aparecer para eles tendo uma aparência tão semelhante a eles quanto possível — Nyx sorriu, de repente menina novamente. — E eu gosto de assumir diferentes rostos. Eu encontro a beleza em todos eles. Assim como encontro beleza em muito da terra e nos mortais que a habitam — ela apontou para o grande rio de areia. — Eu amo a água deste mundo, tudo, desde rios como este, até os grandes lagos que ficam ao norte daqui, e os oceanos safira e turquesa que separam os continentes. Sua beleza me intriga. Há um lago no noroeste desta terra que é tão azul e profundo e frio que me deslumbra cada vez que eu o visito.
— Será que não existem corpos de água no Outromundo?
— É claro! Mas não como os daqui, não tão profundos e misteriosos e aparentemente intermináveis. E aqui eles não são preenchidos com povos dos lagos e náiades. As deidades raramente me permitem desfrutar da tranquilidade de flutuar, livre de preocupações e responsabilidades, em um fresco e claro lago — sua expressão era sonhadora e ela balançou em direção a ele. — Posso te contar um segredo?
— Você pode me contar muitos segredos. Gostaria de guardá-los pela eternidade.
— Eu acredito que você guardaria. Obrigada por isso — disse ela, e inclinou-se, beijando-o castamente na bochecha. — O meu segredo é que às vezes eu altero minha aparência e visito a Terra fingindo ser mortal. Sento-me e olho através de um lago, ou um rio, ou um oceano, e eu sonho.
— E o que você sonha, Deusa? — Kalona perguntou, a pele do seu rosto ainda formigando por causa de seu beijo.
— Eu sonho sobre amor, felicidade, e paz. Sonho que não há escuridão neste mundo ou no meu. Sonho que os mortais vão parar de lutar uns contra os outros e unir-se em seu lugar. E eu sonho que não sou eternamente sozinha.
— Mas você é uma Deusa, imortal, divina e poderosa. Você não poderia forçar os mortais a serem pacíficos, a evitarem as trevas?
O sorriso de Nyx estava triste.
— Eu poderia, se quisesse tirar o livre arbítrio deles. Eu não gostaria, no entanto. E juro a você, eles não gostariam, tampouco. E estou começando a entender que mesmo a ausência de conflitos não livrará este mundo ou o meu da Escuridão.
— Explique essa Escuridão de que você fala — pediu Kalona.
— Eu não acho que posso, ou pelo menos não muito bem. Eu sou inexperiente com ela. Até agora só senti a sua maldade e testemunhei o que aqueles sob sua influência fazem. Os seres humanos podem ser muito cruéis quando incitados, sabia?
Kalona não sabia, mas percebeu que ele não sabia por que não estava prestando muita atenção aos mortais que habitam a terra. Seu único foco tinha sido ganhar o seu lugar ao lado de Nyx. Ele estava apenas começando a entender que podia precisar estar ao lado dela por maiores razões do que o desejo que sentia por ela.
— Você está em perigo, Nyx?
A Deusa encontrou seu olhar.
— Eu não sei.
— Estes testes ridículos! Eles me mantém longe de você. Eu deveria estar ao seu lado, protegendo-a!
Ela o estudou com cuidado, não reagindo a sua explosão. Eventualmente, ele sentiu-se tolo, e ele olhou para o rio que fluía preguiçosamente.
— Você está ansioso para falar sobre o conflito humano e os perigos das Trevas. Você é rápido para pular em minha defesa.
— Sempre! — Ele garantiu a ela, perguntando-se por que ela de repente parecia tão triste.
— Mas você não diz nada sobre minha solidão eterna.
— Pensei que eu não precisasse dizer nada, que compreendeu que se eu fosse o seu protetor, estaria sempre ao seu lado, seu amante e companheiro, eternamente cuidando de você.
— Kalona, talvez uma boa lição para você aprender seja nunca presumir que sabe o que uma Deusa, ou qualquer mulher, está pensando — disse Nyx.
Com um sorriso, ela fez sinal para ele se juntar a ela quando se sentou em um tronco caído e começou a procurar através dos seixos entre seus pés descalços, escolhendo alguns e descartando outros.
Kalona se sentou e, sem saber o que dizer em seguida, deixou escapar:
— A Terra é realmente como o Outromundo?
— Sim e não — explicou ela. — A terra está para o Outromundo como a Árvore do Grande Espírito daquele povo está para uma Deusa.
— Então, a terra é apenas um reflexo pálido do Outromundo — Kalona disse, incapaz de manter o alívio fora de sua voz.
O olhar de Nyx agitou-se ao encontro do seu brevemente antes que ela voltasse a escolher rochas. Ela continuou:
— Embora apenas um reflexo do Outromundo, há uma beleza única no mundo que se torna ainda mais especial e preciosa, porque nada permanece o mesmo aqui. A humanidade vive e morre e depois revive. As estações mudam. Os continentes mudam. A vida humana acontece aqui, o amor acontece aqui, nascimento e morte acontecem aqui. O tempo da humanidade é breve, mas fascinante, comovente e requintado. Espero que um dia você valorize os seres humanos, e a terra, como eu faço.
— Eu valorizo você, acima de todas as coisas — disse Kalona.
Nyx encontrou seu olhar.
— Eu sei que você o faz. Pude sentir a nossa ligação desde o começo, quando olhei em seus olhos cor de âmbar. Desde então, acredito que você tenha me intoxicado.
Kalona caiu de joelhos diante dela.
— Diga-me o que posso criar que lhe agradaria mais! Só quero fazê-la feliz e estar ao seu lado para sempre, como seu protetor e companheiro.
— Kalona, filho do luar poderoso que eu amo tão bem, não posso lhe dizer o que criar para mim. Isso seria injusto para com a minha amiga, a Mãe Terra. É ela a responsável por você vir a existir. Foi ela quem criou os testes que devem suportar. Eu não posso, não vou, usurpar suas responsabilidades. O que posso dizer é que desejo apenas que você seja você mesmo – forte, honesto e único – nestes testes, e durante a eternidade que espero que possamos compartilhar juntos.
Ela tomou sua mão, e em seguida ficou de pé, puxando-o para cima com ela.
— Agora eu gostaria de compartilhar algo com você sobre este mundo, este mutável, engraçado, fabuloso mundo. Venha comigo!
Ágil como uma donzela, Nyx pulou em direção à borda de areia da margem do rio. Voluntariamente, Kalona seguiu a música de conchas que ela deixou em seu rastro. Eles chegaram à margem do rio, e Kalona notou que ela estava segurando a saia de seu vestido de camurça, de modo que uma bolsa havia sido criada em que ela carregava uma pilha de pedras que ela tinha escolhido.
— Isto é o que você faz. Você escolhe uma rocha, a mais suave, mais redonda, e mais plana possível. Então você a joga assim!
Com um movimento hábil de seu pulso, a Deusa atirou uma rocha, jogando-a no rio que corria lentamente.
Kalona riu alto de surpresa quando sua pedra não afundou. Em vez disso, pulou por cima da água, tão graciosamente quanto Nyx tinha pulado para a borda do banco de areia. Em seguida, a Deusa pulava de felicidade.
— Cinco vezes! Ela pulou cinco vezes! Esse foi especial. Aqui, tente você.
Hesitante, Kalona escolheu uma rocha, esperando que fosse suave e redonda e plana o suficiente. Ele franziu a testa em concentração. Tentou apontar. Balançou seu pulso várias vezes, praticando, sem deixar que a pedra se fosse ainda, com a intenção de começar o mais perfeito possível.
— Kalona.
A voz de Nyx era suave. Ele se virou para ela interrogativamente.
Ela se inclinou para ele, levantou-se nas pontas dos pés descalços e beijou-o suavemente nos lábios. Os braços dele a rodearam e ele bebeu o cheiro único de sua pele. O que era? Algo doce e da terra, que o arrastou para ela e fez querer nada mais do que estar perto dela para sempre.
— Isto é diversão, não um teste — ela sussurrou. — Relaxe, poderoso assassino de meus inimigos. Eu acredito que você pode ser companheiro e guerreiro. — Obviamente relutante em deixar seus braços, ela se soltou lentamente, deixando a mão ficar em seu peito. — Agora, divirta-se! — Disse ela, empurrando-o para trás, de forma que suas asas tiveram que se desfraldar para impedi-lo de cair para trás.
Nyx riu, em seguida, fechou a mão sobre a boca e riu um pouco mais.
Kalona pensou que sua risada era tão contagiante quanto o cheiro dela era sedutor. Ele endireitou-se, caminhou até a beira da água, e sem mirar nem um pouco, jogou a pedra no rio, onde aterrissou com um baque líquido e afundou imediatamente.
Ele olhou para Nyx, que estava tentando, sem sucesso, abafar mais risos.
— Bem — ele disse com falsa seriedade. — Parece que ao contrário de você, eu só posso fazer uma coisa bem de cada vez.
Nyx engoliu outra risada e inclinou a cabeça para ele.
— E que coisa você está fazendo bem?
— Eu estou sendo inebriante — respondeu ele, e usou a mão para espanar uma mancha de pó de madeira remanescente de seu peito.
Os olhos escuros de Nyx se iluminaram com humor. Ela sorriu para ele e disse:
— Bom. Então vou continuar a ganhar de você em atirar pedrinhas e qualquer outra coisa que eu colocar em minha mente.
A Deusa lançou outro seixo sobre a superfície do rio e gritou em triunfo quando ela pulou seis vezes antes de desaparecer sob a superfície.
Kalona coçou o queixo.
— Talvez eu devesse trabalhar em ser menos intoxicante.
Nyx sorriu para ele.
— Por favor, não. Eu prefiro você exatamente como você é.
— Então, você que manda. Que assim seja.
Kalona acariciou a bochecha de Nyx suavemente com a palma da mão antes de pegar um seixo liso da pilha e lançá-lo para dentro do rio, onde ele pulou três vezes antes de afundar.
Os aplausos de Nyx se juntaram aos seus e, rindo, Kalona começou a lançar pedras, uma após a outra, lado a lado com a sua Deusa.
Naquele momento, Kalona estava absolutamente contente.

Um comentário:

  1. ''Mas Kalona não acreditava Nyx acharia a visão de lascas e poeira e pássaros irritados muito agradável.'', kkkk

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