13 de novembro de 2015

Capítulo 3

Elena e Damon aguardavam na sala escura. Stefan pôde sentir a presença deles no pequeno anexo enquanto abria a porta da sala de fotografia que estava destrancada e deixava Matt entrar.
— Pensei que estas portas devessem estar fechadas — disse Matt enquanto Stefan ligava o interruptor que acendia a luz.
— Estavam — disse Stefan.
Não sabia o que mais dizer para preparar Matt para o que viria. Nunca antes havia revelado tão deliberadamente para um humano.
Se deteve, quieto, até que Matt virou e o olhou. A sala de aula era fria e silenciosa e o ar parecia pesado. Enquanto o momento se aproximava, viu a expressão de Matt mudar lentamente do entorpecimento da dor para inquietude.
— Não estou entendendo — disse Matt.
— Sei que não entende — ele foi até Matt, tirando de propósito as barreiras que ocultavam seus poderes a percepção humana. Viu a reação no rosto de Matt enquanto a inquietação se fundia em medo. Matt falava e sacudia a cabeça, sua respiração começava a acelerar.
— Mas o que... — disse, sua voz se agravava.
— Possivelmente há um monte de coisas que deve estar pensando sobre mim — disse Stefan. — Porque uso óculos escuros. Porque não como. Porque meus reflexos são tão rápidos.
Matt tinha suas costas contra o quadro negro agora. Sua garganta se fechou como se estivesse engasgando. Stefan, com seus sentidos de predador, pôde escutar o coração de Matt palpitar deliberadamente.
— Não — disse Matt.
— Devia ter adivinhado, devia ter se perguntado o que me fazia tão diferente de todos os outros.
— Não. Quero dizer... Não importa. Me mantenho fora das coisas que não são da minha conta.
Matt se dirigia para a porta, seus olhos se cravaram nela em um movimento vagamente perceptível.
— Não faça isso, Matt. Não quero machucá-lo, mas não pode ir agora — ele pôde sentir vagamente a necessidade de Elena de sair de seu esconderijo. Espere, disse a ela.
Matt se manteve parado, renunciando qualquer tentativa de se afastar.
— Se quer me assustar, já conseguiu — disse em voz baixa. — O que mais você quer?
Agora, Stefan disse a Elena.
Para Matt, falou:
— Vire. 
Matt virou. E sufocou um grito.
Elena estava ali, mas não a Elena da tarde, quando Matt a viu pela última vez. Agora seus pés estavam descalços sob a bainha de seu longo vestido. As finas pregas do vestido branco que usava se endureceram como cristais de gelo que brilhavam na luz. Sua pele, sempre linda, aparentava um brilho invernal e seu cabelo dourado pálido parecia sobreposto por um brilho prateado. Mas a verdadeira diferença estava em seu rosto. Aqueles olhos azuis profundos tinham pálpebras pesadas, com um aspecto quase sonolento e mesmo assim despertos de maneira pouco natural. E um olhar de antecipação sensual e ansiedade se fazia ao redor de seus lábios. Estava mais linda do que nunca havia sido em sua vida, mas era uma beleza aterrorizadora.
Enquanto Matt olhava, paralisado, a língua rosada de Elena lambeu os lábios.
— Matt — ela falou, persistindo na primeira consoante do nome. Então sorriu.
Stefan ouviu a respiração incrédula de Matt e o engasgo quando finalmente se afastou dela.
Está tudo bem, enviou um pensamento para Matt envolto em Poder. Enquanto Matt se aproximava bobamente dele, com os olhos abertos em choque, acrescentou:
— Então agora você sabe.
A expressão de Matt dizia que ele não queria saber, e Stefan pôde ver a reação em seu rosto. Damon deu um passo para fora junto a Elena e eles se moveram um pouco para a direita, acrescentando sua presença à carregada atmosfera da sala.
Matt estava rodeado. Os três se fecharam ao redor dele, inumanamente bonitos, totalmente ameaçadores.
Stefan pôde cheirar o medo de Matt. Era o medo desamparado de um coelho para com raposa, de um rato para com coruja. E Matt estava certo em ter medo. Eles eram os caçadores e ele era a presa. O trabalho deles era matá-lo.
E justamente agora os instintos estavam saindo do controle. Os instintos de Matt lhe diziam para se assustar e correr, eram reflexos disparados na mente de Stefan. Quando a presa corre, o predador o caça, simples assim. Os três predadores foram apresentados em um segundo, e Stefan sentiu que não poderia ser responsável pelas consequências se Matt corresse desesperadamente.
Não queremos machucá-lo, disse a Matt. É Elena quem precisa de você, e o que ela necessita não o deixará permanentemente prejudicado. Nem sequer precisa machucar, Matt.
Mas os músculos de Matt permaneciam tensos como se fosse escapar e Stefan se deu conta de que os três o estavam acercando, movendo-se cada vez mais perto, prontos para impedir qualquer fuga.
Você disse que faria qualquer coisa pela Elena, recordou-o desesperadamente, e o viu tomar uma decisão.
Matt liberou sua respiração, a tensão se drenou de seu corpo.
— Tem razão, eu disse — sussurrou. Ele se abraçou visivelmente antes de continuar. — Do que ela precisa?
Elena se inclinou para frente e pousou um dedo no pescoço de Matt, marcando o caminho da artéria.
— Não aí — disse Stefan rapidamente. — Você não quer matá-lo. Fale para ela, Damon — acrescentou quando Damon não fez nenhum esforço para impedir. Fale para ela.
— Tente aqui ou aqui — Damon apontou com clínica eficiência, sustentando o queixo de Matt para cima. Foi forte o suficiente para romper o controle de Matt, e Stefan sentiu ressurgir o pânico.
Confie em mim, Matt. Ele se moveu para trás do humano. Mas tem que ser decisão sua, terminou, lavado repentinamente em compaixão. Você pode mudar de ideia.
Matt hesitou e então falou entredentes:
— Não. Ainda quero ajudá-la. Quero ajudar você, Elena.
— Matt — ela sussurrou, e os olhos azuis como um fio de diamante pousaram sobre ele. Então moveu o olhar para sua garganta e seus lábios se abriram, famintos. Não havia sinal de incerteza como o que ela demonstrou quando Damon lhe sugeriu alimentar-se de para-médicos. — Matt — sorriu de novo e então o atacou como uma ave caçadora.
Stefan pôs a mão espalmada contra as costas de Matt para dar-lhe apoio. Por um momento, quando os dentes de Elena perfuraram sua pele, Matt tentou recuar, mas Stefan pensou rapidamente: Não lute, isso trará dor.
Enquanto Matt tentava relaxar, uma ajuda inesperada veio de Elena, que irradiava pensamentos cálidos e felizes de um filhote de lobo sendo alimentado. Acertou a mordida na primeira tentativa e se encheu de orgulho inocente e crescente satisfação enquanto as pulsadas afiadas de fome cessavam. E simpatizando com Matt, Stefan se deu conta, veio um repentino choque de ciúmes. Ela não odiava Matt nem queria matá-lo, porque não aparentava nenhum risco a Damon. Ela era afeiçoada a Matt.
Stefan a deixou tomar o necessário enquanto fosse seguro para Matt e então interveio. É o suficiente, Elena. Você não quer machucá-lo. Mas foram necessários os esforços dele, de Damon e de um Matt meio grogue para tirá-la de sua presa.
— Ela precisa descansar — disse Damon. — Eu a levarei a um lugar onde ficará segura. — Não estava perguntando a Stefan, estava anunciando. Enquanto se afastavam, sua voz mental acrescentou, para os ouvidos de Stefan: Ainda não esqueci da maneira como me atacou, irmão. Falaremos disso depois.
Stefan o encarou. Notou como os olhos de Elena permaneciam em Damon, como o seguia sem perguntar nada. Mas agora estava fora de perigo; o sangue de Matt havia lhe dado a força que precisava. Isso era tudo o que Stefan tinha que fazer, e disse a si mesmo que era tudo o que importava.
Virou para observar a expressão atordoada de Matt. O garoto humano afundou-se em uma das cadeiras de plástico e ficou olhando para o espaço a sua frente.
Então seus olhos alcançaram os de Stefan e eles se observaram mutuamente de uma maneira lúgubre.
— Então — disse Matt — agora eu sei — ele sacudiu a cabeça, virando-a de maneira discreta. — Mas ainda não posso acreditar — murmurou. Seus dedos pressionaram cautelosamente o lado do pescoço e se sacudiu de dor. — Esse cara... Damon. Quem é ele?
— Meu irmão mais velho — Stefan respondeu sem emoção. — Como sabe o nome dele?
— Ele estava na casa da Elena semana passada. O gato brigou com ele — Matt se deteve, recordando algo claramente. — E Bonnie teve algum tipo de desajuste psíquico.
— Teve uma premonição? O que ela disse?
— Ela disse... disse que a morte estava na casa. 
Stefan ficou observando a porta por onde Damon e Elena haviam passado.
— Ela estava certa. 
— Stefan, o que está acontecendo? — um tom de apelação entrou em sua voz. — Continuo sem entender. O que aconteceu com Elena? Vai ser assim para sempre? Não há nada que se possa fazer a respeito?
— Assim como? — disse Stefan brutalmente. — Desorientada? Uma vampira?
Matt olhou para longe.
— Ambos.
— Primeiro, ela ficará mais racional agora que se alimentou. É isso o que Damon pensa, de qualquer forma. Por outro lado, só há uma coisa que se pode fazer para mudar sua condição — enquanto os olhos de Matt se abriram com esperança esboçada, Stefan continuou: — pode pegar uma estaca de madeira e cravá-la em seu coração. Então ela não será mais uma vampira. Simplesmente estará morta.
Matt se levantou e foi para a janela.
— Você não poderá matá-la, entretanto, por que isso já aconteceu. Ela se afogou no rio, Matt. Mas devido à quantidade de sangue que recebeu de mim... — pausou para clarear sua voz — e, ao que parece, de meu irmão, ela se transformou em vez de morrer. Despertou como uma caçadora, como nós. Isso é tudo o que será agora.
Ainda de costas, Matt respondeu:
— Sempre soube que havia algo de diferente em você. Disse a mim mesmo que era simplesmente porque você era de outro continente — sacudiu a cabeça de novo. — Mas, dentro de mim, sabia que era algo mais. E algo me dizia para continuar confiando em você. E foi o que fiz.
— Como quando foi comigo para conseguir verbena.
— Sim. Como isso — acrescentou. — Pode me dizer agora para que diabos era?
— Para a proteção de Elena. Queria manter Damon longe dela. Mas parece que não era isso o que ela queria — não pôde esconder a dor, a traição crua em sua voz.
Matt virou.
— Não a julgue antes de saber tudo o que aconteceu, Stefan. É algo que aprendi.
Stefan estava assustado; então lhe mostrou um pequeno sorriso sem graça. Como antigos namorados de Elena, ele e Matt estavam na mesma posição agora. Se perguntou se seria tão legal quanto Matt tinha sido. Levar sua derrota como um cavalheiro.
Não pensava assim.
Lá fora, um barulho começou a ecoar. Era inaudível aos ouvidos humanos e Stefan quase o ignorou até que as palavras penetraram em sua consciência.
Então se lembrou do que havia feito na escola há apenas algumas horas. Até agora, havia esquecido tudo sobre Tyler Smallwood e seus amigos rudes.
Sua memória voltava; vingança e horror fecharam sua garganta. Havia estado fora de si por causa da dor sobre Elena e a razão lhe escapara sobre pressão. Mas essa não era desculpa para o que havia feito. Estavam todos mortos? Teria ele, que jurara há muito tempo não voltar a matar ninguém, assassinado três pessoas nesse dia?
— Stefan, espera. Aonde vai?
Como não respondeu, Matt o seguiu, quase correndo para alcançá-lo. Fora do edifício principal da escola, o caminho estava escuro. Do outro lado do campo, o Sr. Shelby estava parado no barracão.
O rosto do zelador estava cinza e coberto de linhas de horror. Parecia tentar gritar, mas só um pequeno gemido saiu de sua boca. Usando o cotovelo para abrir espaço, Stefan olhou a sala e teve um curioso sentimento de déjà vu.
Parecia a Sala do Carniceiro Louco da Casa Assombrada. Exceto que isto não era uma montagem feita para os visitantes. Era real.
Os corpos estavam espalhados por todos os lados, em meio a fragmentos de madeira e vidro da janela quebrada. Toda a superfície visível estava coberta por sangue marrom e sinistro enquanto secava. E um olhar nos corpos revelava o motivo: cada um deles tinha um par de lívidas feridas púrpuras em seus pescoços. Exceto por Caroline: seu pescoço não tinha marcas, mas seus olhos estavam brancos e observando.
Atrás de Stefan, Matt estava hiperventilando.
— Stefan, Elena não... ela não...
— Silêncio — respondeu Stefan bruscamente. Olhou de novo para o Sr. Shelby, mas o zelador havia tropeçado no carrinho de vassouras e panos e se inclinava sobre ele. O vidro triturava-se debaixo dos pés de Stefan enquanto cruzava o piso para se inclinar sobre Tyler.
Não estava morto. Um sentimento de alívio explodiu quando se deu conta. O peito de Tyler se movia debilmente e quando Stefan levantou a cabeça do garoto, seus olhos se abriram um pouco, cristalinos e sem ver.
Você não se lembra de nada, Stefan falou mentalmente. Mesmo assim, se perguntou por que se importava. Deveria deixar Fell’s Church, abandonar tudo agora e nunca mais voltar.
Mas não podia. Não enquanto Elena estivesse ali.
Reuniu a mente inconsciente do resto das vítimas dentro de sua mente e lhes disse o mesmo, induzindo no mais profundo de seus cérebros. Não recordavam quem os atacara. A noite anterior estava completamente em branco.
Enquanto o fazia, sentiu seus Poderes mentais tremerem como músculos cansados. Estava perto do esgotamento.
Lá fora, o Sr. Shelby por fim encontrou sua voz e estava gritando. Cansado, Stefan deixou a cabeça de Tyler cair de volta no piso e se virou.
Os lábios de Matt estavam contraídos em uma linha fina, seu nariz enrugado, como se tivesse cheirado algo desagradável. Seus olhos eram os olhos de um estranho.
— Elena não fez isso — sussurrou. — Você sim. 
— Silêncio — Stefan o empurrou, passando por ele até o agradável frio da noite, colocando distância entre ele e barracão, sentindo o ar frio em sua pele quente.
Passos correndo pelas redondezas do refeitório lhe diziam que alguns humanos tinham ouvido por fim os gritos do zelador.
— Você o fez, não é mesmo? — Matt havia seguido Stefan para fora do campo. Sua voz dizia que tentava entendê-lo.
Stefan se virou para ele.
— Sim, fui eu — grunhiu. Ele olhava para Matt sem ocultar nenhuma de suas ameaças de aborrecimento em seu rosto. — Eu te disse, Matt, somos caçadores. Assassinos. Vocês são as ovelhas, nós somos os lobos. E Tyler estava pedindo por isso desde que cheguei. 
— Pedindo por um soco na cara, sim. Como se você não tivesse feito isso antes. Mas... isso? — Matt parou de andar, encarando os olhos de Stefan sem medo. Tinha coragem psíquica; tinha que admitir isso. — E nem sequer sente pena? Nem sequer se arrepende disso?
— Por que deveria? — Stefan respondeu fria e vagamente. — Você se arrepende quando come bistecas demais? Sente pena da vaca? — Pôde ver a descrença nauseante e o pressionou, levando a dor em seu peito mais profundamente. Era melhor que Matt se mantivesse afastado nesses momentos, muito afastado. Ou poderia terminar como aqueles corpos no barracão. — Sou o que sou, Matt. E se não pode lidar com isso, deveria manter-se longe.
Matt se manteve de frente para ele por um momento, a descrença se transformando lentamente em desilusão doente. Os músculos ao redor de sua mandíbula se destacaram. Então, sem dizer uma palavra, virou os calcanhares e se afastou.


Elena estava no cemitério.
Damon a havia deixado ali, exaltando que deveria ficar ali até que ele voltasse. Entretanto, não queria ficar sentada. Sentia-se cansada, mas não realmente com sono, e o novo sangue a afetava como um relâmpago de cafeína. Queria sair e explorar.
O cemitério estava cheio de atividade apesar de não haver humanos à vista. Uma raposa observava escondida pelas sombras através do caminho do rio. Pequenos roedores caminhavam nos túneis embaixo do longo e frondoso pasto ao redor das lápides, guinchando e correndo. Uma coruja voava quase silenciosamente através da velha igreja onde cantava em um campanário um misterioso grito.
Elena se levantou e o seguiu. Isso era muito melhor do que se esconder no mato como um rato ou um roedor. Olhou interessada ao redor da velha igreja usando seus sentidos afiados para examiná-la. A maior parte do teto havia se desprendido e só três muros estavam de pé, mas o campanário se mantinha como um monumento entre os escombros.
De um lado estava a tumba de Thomas e Honoria Fell, como um longo caixão. Elena olhava com seriedade para os rostos de mármore da tampa de suas tumbas. Permaneciam em tranquilo repouso, seus olhos fechados, as mãos cerradas sobre os peitos. Thomas Fell parecia sério e um pouco inconformado, mas Honoria parecia totalmente triste. Elena pensou de maneira perdida em seus próprios pais, repousando lado a lado no cemitério moderno.
Vou para casa, é para lá que devo ir, pensou. Tinha se lembrado do lugar. Podia desenhá-lo agora: seu bonito quarto com cortinas azuis e móveis de madeira cor de cereja e sua pequena lareira. E algo importante debaixo do piso de seu closet.
Encontrou seu caminho para a rua Maple pelo instinto que corria profundamente por sua memória, deixando que seus pés a guiassem. Era uma casa velha, muito velha, com um grande pórtico e grandes janelas na frente. O carro de Robert estava estacionado na entrada.
Elena caminhou até a porta principal e então se deteve. Havia uma razão pela qual as pessoas não deviam vê-la, apesar de que não podia se lembrar qual o motivo no momento. Hesitou, então subiu agilmente pelos galhos da árvore até a janela de seu quarto.
Mas não seria capaz de entrar sem ser notada. Uma mulher estava sentada na cama com o quimono de seda vermelha de Elena nas mãos, olhando-o. Tia Judith. Robert estava parado no vestíbulo, falando com ela. Elena percebeu que podia escutar o murmúrio de vozes mesmo através do vidro.
— ... fora amanhã de novo — estava dizendo. — Enquanto não há tempestade. Irão atrás em cada centímetro do bosque e a encontrarão, Judith. Você vai ver — tia Judith não disse nada e continuava soando cada vez mais desesperada. — Não podemos perder as esperanças, não importa o que as garotas digam...
— Não adianta, Bob — tia Judith tinha levantado a cabeça finalmente e seus olhos estavam vermelhos, mas secos. — Não adianta nada.
— Os esforços para o resgate? Não quero vê-la falando desse jeito — se sentou ao lado dela.
— Não, não é só isso... Apesar do que sei, em meu coração, sei que não vamos encontrá-la viva. Me refiro... A tudo. Nós. O que aconteceu foi nossa culpa...
— Não é verdade. Foi um acidente muito horrível.
— Sim, mas a deixamos passar. Se não houvéssemos sido tão duros, nunca teria dirigido sozinha nem enfrentaria a tempestade. Não, Bob, não tente me calar; quero que me escute — tia Judith tomou um profundo suspiro e continuou. — Tampouco foi só hoje. Elena estava tendo problemas já faz muito tempo. Mas estive preocupada demais comigo mesma, conosco, para lhe dar um pouco de atenção. Posso enxergar isso agora. E agora que Elena... se foi... não quero que aconteça o mesmo com Margareth.
— O que está dizendo?
— Estou dizendo que não posso casar com você, não agora, como havíamos planejado. Talvez nunca — sem voltar a olhá-lo, disse suavemente. — Margareth tem perdido tanto. Não quero que sinta que está me perdendo também.
— Ela não perderá você. Ao contrário, estará ganhando alguém mais, porque estarei aqui. Você sabe o que sinto por ela.
— Sinto muito, Bob, mas não consigo ver dessa maneira. 
— Você não pode estar falando sério. Depois de todo esse tempo que temos passado aqui... depois de tudo o que fizemos...
A voz de tia Judith era sem emoção e implacável.
— Estou falando sério.
Empoleirada na janela, Elena olhou Robert curiosamente. Uma veia palpitava em seu rosto e ele estava avermelhado.
— Você se sentirá diferente amanhã.
— Não. Não é assim.
— Não estará pensando em...
— Estou pensando. E não me diga para mudar de ideia, porque não vou.
Por um instante, Robert olhou ao redor com incompreensiva frustração, então sua expressão se obscureceu. Quando falou, sua voz era alta e fria.
— Entendo. Bom, se esta é a resposta final, então já estou indo.
— Bob — tia Judith se virou, assustada, mas ele já saía porta afora. Ela se levantou, vacilante, como se não estivesse segura se deveria ir atrás dele ou não. Seus dedos amassaram o material vermelho que estava segurando. — Bob! — chamou-o de novo, mais urgentemente, e se virou para jogar o quimono na cama de Elena antes de ir atrás dele.
Mas no momento em que se virou, ficou boquiaberta, uma mão voou até sua boca. Seu corpo inteiro ficou rígido. Seus olhos se cravaram em Elena através do painel prateado de vidro. Por um longo momento, olharam uma para a outra, sem nenhuma das duas se mover. A mão de tia Judith se afastou da boca e ela começou a gritar.

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