29 de novembro de 2015

Capítulo 39

Elena puxou a criança para mais próxima de si. Damon havia entendido, mesmo em seu estado atordoado e confuso. Todo mundo estava conectado. Ninguém estava sozinho.
— E ele pediu outra coisa. Perguntou se você poderia me abraçar, desse jeito... Se eu dormir — Os olhos negros de veludo encararam o rosto de Elena. — Você faria isso?
Elena tentou se manter estável.
— Eu vou te abraçar — Ela prometeu.
— E nunca vai me soltar?
— E jamais vou te soltar — Elena lhe disse, pois ele era uma criança e não havia motivos para assustá-lo.
E porque, talvez, essa parte de Damon — essa pequenina e inocente parte — poderia ser do tipo que “vivesse para sempre”. Ela ouvira dizer que vampiros não voltavam, não reencarnavam igual os humanos. Os vampiros da Dimensão das Trevas ainda estavam “vivos” — os aventureiros, os caça-fortunas e os condenados à prisão pela Corte Celestial.
— Eu vou te abraçar — Elena prometeu novamente. — Para todo o sempre.
Nessa hora, seu corpinho começou a ter outro espasmo, e ela viu lágrimas nos cílios negros dele, e sangue em seus lábios. Mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele adicionou:
— Eu tenho outros recados. Eu os sei de cor. Mas... — Seus olhos imploraram por perdão — Eu tenho que dá-los aos outros.
Quê outros? Elena pensou primeiramente, aturdida.
Então ela se lembrou. Stefan e Bonnie. Havia outros entes queridos.
— Eu posso… Dar-lhes o recado — Ela disse hesitantemente, e ele lhe deu um sorrisinho, o seu primeiro, bem no canto dos lábios.
— Ele me deixou um pouco de telepatia, também — Ele disse. — Para o caso de eu precisar falar com você.
Ainda ferozmente independente, Elena pensou.
Tudo o que ela disse foi:
— Vá em frente, então.
— O primeiro é para o meu irmão, Stefan.
— Você pode dizer isto a ele em pouco tempo — Elena disse.
Ela se agarrou àquele corpinho dentro da alma de Damon, sabendo que essa era a última coisa que havia sobrado. Ela poderia sacrificar alguns preciosos minutos, então Stefan e Bonnie poderiam se despedir. Ela fez um tremendo esforço para se ajustar ao seu corpo real... Seu corpo fora da mente de Damon, e encontrou-se abrindo seus olhos, piscando para tentar focar sua visão.
Ela viu o rosto de Stefan, branco e aflito.
— Ele está...?
— Não. Mas logo estará. Ele pode ouvir telepatia, se você pensar claramente, como se estivesse falando. Ele pediu para falar contigo.
— Comigo?
Stefan se curvou lentamente e colocou suas bochechas contra as do irmão. Elena fechou os olhos novamente, guiando-o através da escuridão, onde uma pequena luz ainda estava brilhando.
Ela sentiu os pensamentos de Stefan quando ele a viu lá, ainda segurando o menino com cabelos escuros em seus braços.
Elena não havia percebido que, por meio de sua ligação com a criança, ela poderia ser capaz de ouvir cada palavra pronunciada. Ou que os recados de Damon viriam em palavras de uma criança.
O garotinho disse:
— Você deve pensar que eu sou um idiota.
Stefan começou a falar. Ele nunca tinha visto ou ouvido o Damon-criança antes.
— Eu nunca pensaria isso — Ele disse bem devagar, maravilhado.
— Mas isso é uma coisa bem típica... Dele, você sabe... Típica... Minha.
— Eu acho — Stefan disse vacilante — que é bem triste... Eu nunca ter realmente conhecido vocês dois.
— Por favor, não fique triste. Foi isso que ele me pediu para dizer. Que você não devia ficar triste... Ou com medo. Ele disse que é quase como se ele fosse dormir, quase como se ele fosse voar.
— Eu... Lembrarei-me disso. E… Obrigado, irmãozão.
— Eu acho que isso é tudo. Você sabe como cuidar das nossas garotas...
Houve um outro terrível espasmo que deixou a criança sem ar.
Stefan disse rapidamente:
— Claro. Eu tomarei conta de tudo. Pode ir.
Ela pôde sentir algo pesar no coração de Stefan, mas sua voz estava calma.
— Voe para longe, irmão. Voe bem longe.
Elena sentiu algo através de sua ligação... Bonnie tocando o ombro de Stefan. Ele rapidamente ascendeu para que ela pudesse vir aqui. Bonnie estava quase histérica com os soluços, mas ela havia feito uma coisa boa, Elena viu. Enquanto Elena esteve em seu mundinho com Damon, Bonnie havia pegado um punhal e cortado uma longa mecha do cabelo de Elena. Então ela havia cortado uma de seus próprios cachos de morango e as amarrou entre si — formando um ondulado dourado, um entrosamento vermelho e amarelo —, colocando-as no peito de Damon. Isso era tudo que eles poderiam fazer neste lugar sem flores, para honrá-lo e para que ele tivesse algo para sempre junto dele.
Elena pôde ouvir Bonnie, também, através de sua ligação com Damon, mas, primeiro, tudo o que Bonnie pôde fazer foi soluçar.
— Damon, por favor! Oh, por favor! Eu não sabia… Nunca pensei… Que alguém poderia se machucar! Você salvou minha vida! E agora... Oh, por favor! Eu não posso dizer adeus!
Ela não entendia, Elena pensou, que ela estava falando com uma criança.
Mas Damon havia enviado à criança uma mensagem que devia ser repetida.
— Eu devia te dizer adeus, então — Pela primeira vez, a criança parecia desconfortável. — E... E eu devia te pedir desculpas, também. Ele pensou que você saberia o que isso quer dizer e que você me perdoaria. Mas... Se você não souber... Eu não sei o que vai acontecer... Oh!
Outro espasmo hediondo passou pela criança. Elena o abraçou com mais força, mordendo seus próprios lábios até que sangue saísse; ao mesmo tempo em que tentava proteger o garotinho dos próprios sentimentos dela. E no fundo da mente de Damon, ela viu a expressão de Bonnie mudar, indo da penitência com lágrimas ao medo espantado, seguindo para o controle cuidadoso.
Como se Bonnie tivesse amadurecido em um minuto.
— É claro... Claro que eu entendo! E eu te perdoo... Mas você não fez nada de errado. Eu sou uma menina muito boba... Eu...
— Nós não achamos que você seja uma menina boba — A criança disse, parecendo imensamente aliviada. — Mas obrigado por me perdoar. Há um nome especial que eu devia te chamar, também... Mas...
E encostou-se em Elena.
— Eu acho... Que estou... Ficando com sono…
— Seria “passarinho”? — Bonnie perguntou cuidadosamente, e o rosto pálido do garotinho se ergueu.
— É isso. Você já sabia. Você é… Tão legal e tão esperta. Obrigado... Por facilitar... Mas posso dizer mais uma coisa?
Elena estava prestes a responder, quando ela, abruptamente, estava completamente fora da mente de Damon, de volta à realidade. A Árvore havia aproximado mais um ramo, aprisionando o corpo de Damon entre dois círculos de madeira.
Elena estava sem planos. Sem ideias de como pegar a Esfera Estelar pela qual Damon morrera. Ou a Árvore era inteligente, ou estava ligada a diversas defesas eficazes. Eles estavam deitados onde era evidente que muitas, mas muitas pessoas haviam tentado pegar a Esfera Estelar — deixando seus corpos para trás, no chão de areia.
Sendo assim, ela pensou, me pergunto por que ela não veio atrás de nós, também... Especialmente Bonnie. Ela esteve lá dentro, e então saiu, voltando novamente para lá; no qual, eu nunca a deixaria ter feito isso, caso eu não estivesse pensando em Damon. Por que ela não foi atrás de Bonnie novamente?
Stefan estava tentando ser forte, tentando organizar algo no meio desse desastre, que fora tão impressionante que fez com que Elena se sentasse. Bonnie estava soluçando novamente, fazendo sons comoventes.
Os dois círculos de madeira estavam se espalhando — ficando cada vez mais próximos que nem mesmo Bonnie pôde passar as mãos por ali. O grupo de Elena estava eficientemente longe de qualquer coisa que viesse daquele piso de areia, assim como estavam longe da Esfera Estelar.
— O machado! — Stefan a chamou. — Jogue-o para mim…
Mas não havia tempo. Uma radícula havia se enrolado em torno do machado, arrastando-o rapidamente para os ramos superiores.
— Stefan, me desculpe! Eu estou lerda demais!
— Aquilo foi rápido demais! — Stefan corrigiu.
Elena prendeu a respiração, esperando uma última colisão vinda de cima, uma que mataria a todos eles. Quando percebeu que ela não veio, ela percebeu uma coisa. A Árvore não era só inteligente, mas também sádica. Eles deveriam ficar presos aqui, longe de qualquer suprimento, morrendo lentamente de fome e de sede, ou enlouquecer ao ver os outros morrerem.
O melhor que eles podiam esperar era que Stefan matasse tanto Bonnie quanto ela — mas ele nunca conseguiria escapar. Estes ramos de madeira desceriam de novo e de novo, quantas vezes a Árvore achasse necessário, até que os ossos esmagados de Stefan se juntassem aos outros que haviam formado aquela areia fina.
É por isso, todos perceberam, que ela estava prendendo Damon; ela estava zombando de sua morte. Aquela coisa que estava inchando dentro de Elena há algumas semanas, ao ouvir as histórias das crianças que comeram seus animais de estimação, aquelas criaturas que se deleitavam com a dor, junto com o sacrifício de Damon, finalmente ficou de tal tamanho que ela não conseguiu mais contê-la.
— Stefan, Bonnie... Não toque nos ramos — Ela arfou. — Certifiquem-se de que vocês não estão tocando em nenhuma parte dos ramos.
— Eu não estou, amor, e Bonnie também não está. Mas por quê?
— Eu não consigo mais segurar! Eu preciso encarar isso…
— Elena, não! Isso...
Elena não conseguiu mais pensar. A odiosa penumbra estava levando-a a loucura, fazendo com que ela se lembrasse do pontinho verde nas pupilas de Damon, a luz verde e horrível da Árvore.
Ela entendeu exatamente o sadismo da Árvore para com os seus amigos... E nos cantos de seus olhos, ela pôde ver algo preto... Parecido com uma boneca de pano. Só que não era uma boneca; era Damon. Damon, com todo o seu espírito selvagem e inteligente destruído. Damon... Que devia ter partido daqui, e de todos os mundos, neste instante.
O rosto dele estava coberto com o sangue dela. Não havia nada pacífico ou digno dele. Não havia nada que a Árvore já não tivesse tirado.
Elena perdeu a cabeça.
Com um grito cru e sangrento que veio de sua espinha dorsal, saindo rouco de sua garganta, ela agarrou um ramo de árvore que tinha matado Damon, que tinha assassinado seu amado e que a mataria, assim como aos outros dois que ela também amava.
Ela não pensou. Não era capaz de pensar. Mas, instintivamente, ela segurou bem alto o galho da Árvore e deixou a fúria sair de dentro dela, a fúria de um amor assassinado.
Asas da Destruição.
Ela sentiu as Asas saírem de suas costas, como rendas e pérolas negras de ébano, e por um momento ela sentiu com se fosse uma deusa fatal, sabendo que este planeta nunca mais abrigaria qualquer forma de vida.
Quando o ataque saiu, fez com que todo o crepúsculo ao redor dela ficasse preto fosco.
Que cor adequada. Damon vai adorar, ela pensou confusa, e então se lembrou de novo, isso batendo com força sobre ela, dando-lhe Poder para destruir a Árvore desse mundinho. Aquilo a havia destruído por dentro, mas ela deixou com que aquilo continuasse vindo. Nenhuma dor física podia se comparar com o que ela tinha em seu coração, com a dor de perder o que ela havia perdido. Nenhuma dor física podia expressar o que ela sentia.
As enormes raízes no solo abaixo deles ainda resistiam, como se houvesse um terremoto, e então...
Houve um som ensurdecedor, enquanto a Grande Árvore explodia, subindo em linha reta como se fosse um foguete, desintegrando-se em cinzas enquanto subia. Os ramos ao seu redor simplesmente desapareceram junto com a copa acima. Algo na mente de Elena observou que muito longe a mesma destruição estava acontecendo, transformando os galhos e as folhas em pedaços minúsculos que pairavam no ar como se fosse fumaça.
— A Esfera Estelar! — Bonnie gritou no silêncio lúgubre, angustiada.
— Vaporizada! — Stefan pegou Elena enquanto ela caía de joelhos, suas asas negras etéreas desaparecendo. — Mas nós nunca a tínhamos, de qualquer forma. Aquela Árvore a esteve protegendo durante centenas de anos! Tudo que ganharíamos seria uma morte lenta.
Elena virou-se novamente para Damon. Ela não havia tocado na estaca que o havia atravessado... Em segundos, ela seria o único vestígio da Árvore naquele mundo. Ela mal podia ousar ter esperanças de que houvesse uma centelha de vida ainda nele, mas a criança tinha vontade de falar com ela e ela faria o possível para vê-lo, ou morreria tentando. Ela quase sentia os braços de Stefan em torno dela.
Mais uma vez, ela plugou-se nas profundezas da mente de Damon. Dessa vez sabia exatamente aonde ir.
E lá estava ele, devido a um milagre, embora estivesse sentindo uma dor hedionda. Lágrimas caíam de seu rosto e ele estava tentando não soluçar. Seus lábios estavam machucados. As Asas dela não foram capazes de destruir a madeira dentro dele... Ela já havia feito estragos venenosos. E não havia jeito de reverter isso.
— Oh, não. Oh, Deus! — Ela colocou a criança em seu colo.
Uma lágrima caiu em sua mão.
Ela o balançou, mal sabendo o que estava dizendo:
— O que posso fazer para ajudar?
— Você está aqui de novo — Ele disse e, em sua voz, ela ouviu a resposta. Isso era tudo o que ele queria.
Ele era só uma criança.
— Eu estarei aqui... Sempre. Sempre. Nunca vou te abandonar.
Isso não teve o efeito que ela desejava. O garoto engasgou, tentando sorrir, mas foi dilacerado com um espasmo horrível que quase arqueou seu corpo dos braços dela.
E Elena percebeu que ela estava transformando a dor inevitável em uma tortura lenta e excruciante.
— Eu vou te abraçar — Ela modificou suas palavras para ele —, até quando você quiser. Tudo bem?
Ele concordou. Sua voz estava sem fôlego, com dor:
— Você poderia... Poderia fechar meus olhos? Só… Só por um instante?
Elena sabia, apesar do menino não saber, o que aconteceria se ela parasse de insistir e o deixasse dormir. Mas ela não podia aguentar vê-lo sofrendo mais, e nada era real novamente, e não havia mais ninguém no mundo para ela, e ela não se importava em fazer isso se isso significasse que ela o seguiria para a morte.
Estabilizando sua voz cuidadosamente, ela disse:
— Talvez... Nós dois possamos fechar nossos olhos. Não por muito tempo… Não! Mas... Só por um instante.
Ela continuou balançando aquele corpinho em seus braços. Ainda pôde sentir um pulso fraco de vida... Não um batimento cardíaco, mas ainda assim, uma pulsação. Ela sabia que ele ainda não havia fechado seus olhos; que ele ainda estava lutando contra a tortura.
Por ela. Por nada mais. Somente por ela.
Colocando seus lábios na orelha dele, ela sussurrou:
— Vamos fechar nossos olhos juntos, certo? Vamos fechá-los... Quando eu contar três. Tudo bem?
Houve um pouco de alívio e um pouco de amor na voz dele.
— Sim. Juntos. Estou pronto. Você pode contar agora.
— Um.
Nada importava exceto segurá-lo e manter a si mesma calma.
— Dois. E...
— Elena?
Ela se assustou. A criança alguma vez já havia dito o seu nome antes?
— Sim, querido?
— Elena... Eu... Te amo. Não só por causa dele. Eu te amo também.
Elena teve que esconder seu rosto no cabelo dele.
— Eu te amo, também, pequenino. Você sempre soube disso, não soube?
— Sim... Sempre.
— Sim. Você sempre soube. E agora… Bem, fechemos nossos olhos… Só por um instante. Três.
Ela esperou até que o último movimento parasse, e a cabeça dele caiu para trás, seus olhos estavam fechados e a sombra do sofrimento se fora. Ele parecia, não pacífico, mas simplesmente gentil e amável, e Elena pôde ver em seu rosto as características adultas de Damon e a expressão semelhante.
Mas agora, até mesmo aquele pequeno corpo estava evaporado dentro dos braços de Elena. Oh, ela era tão estúpida. Havia se esquecido de fechar os olhos com ele. Ela estava bem tonta, mesmo com Stefan tendo parado o sangramento do seu pescoço. Fechando os olhos... Talvez, ela ficaria do mesmo jeito que ele. Ela ficou contente que ele tinha partido gentilmente, no fim.
Talvez as trevas fossem gentis com ela, também.
Tudo estava quieto agora. Era hora de arrumar os brinquedos e fechar as cortinas. Hora de ir para a cama. Um último abraço... E agora seus braços estavam completamente vazios.
Não havia nada mais para se fazer, nada mais para se lutar. Ela fizera o seu melhor. E, no fim, a criança não estava com medo.
Hora de apagar a luz agora. Hora de fechar seus próprios olhos.
As trevas foram bem gentis com ela, e ela entrou nisso suavemente.

6 comentários:

  1. Que triste, eu não queria que o Damon morresse, eu gostava dele, mas sei que isso foi necessário por conta do triângulo amoroso entre eles.

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  2. sua sem coração... Por isso que eu sou delena,da até nojo.

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  3. estou triste por damon ter morrido ele poderia ter arranjado outra pessoa para poder continuar na historia

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  4. Agora você ama ele né sua vaga***** sem coração!Mas agora não adianta porque ele tá morto!Ele não precisava ter ajudado você a salvar a sua cidadezinha idiota,nem o irmãozinho idiota dele,mas ele te amava,e o que você fazia?Jogava na cara dele que preferia o Stefan!Ah Elena,eu te odeio mais do que já odiei qualquer vilão de qualquer livro que eu já li!

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