26 de novembro de 2015

Capítulo 39

Elena atravessou a multidão sentindo-se um soldado. Não sabia o motivo. Talvez porque parecesse que tinha uma busca e conseguiu concluí-la e permanecer viva e de quebra ainda tinha recuperado algo importante. Talvez porque tivesse ferimentos de honra. Talvez porque acima dela houvesse uma inimiga que ainda queria seu sangue.
Pensando bem, refletiu Elena, é melhor tirar todos esses combatentes daqui. Podemos mandá-los para uma casa segura — bom, em uma dezena de casas seguras, e...
Mas no que ela estava pensando? Não existia uma casa segura ali. Ela não era responsável por aquelas pessoas — aqueles idiotas, principalmente, os que ficaram parados, se deliciando vê-la sendo açoitada. Mas... apesar disso, talvez ela devesse tirá-los dali.
— Bloddeuwedd! — gritou, apontando para uma silhueta que girava no alto. — Bloddeuwedd está solta e me fez isto! — apontando para as três lacerações nas costas. — Ela vai atacar quem estiver na frente!
No início parecia que a maior parte das exclamações de raiva girava em torno das marcas que Elena agora tinha nas costas. E ela não tinha a menor intenção de discutir. Só havia uma pessoa ali com quem queria falar.
Mantendo Bonnie e Meredith atrás dela, ela chamou.
Damon! Damon, sou eu! Onde você está?
Havia tanto trânsito telepático que ela duvidava de que ele a tivesse ouvido.
Mas por fim ela pegou um Elena?, fraco.
... Sim...
Elena, segure-se em mim. Pense que está me segurando. Vamos para uma frequência diferente.
Segurar-se a uma voz? Mas Elena se imaginou segurando-se em Damon E com toda a força que pôde, enquanto pegava as mãos de Bonnie e Meredith.
Agora pode me ouvir? Desta vez a voz era muito mais clara e muito mais alta.
Sim. Mas não estou te vendo.
Mas eu a vejo. Estou chegando... CUIDADO!
Tarde demais, os sentidos de Elena a alertaram de uma imensa sombra que mergulhava do alto. Ela não conseguiu se mexer rápido o suficiente para sair do caminho de um bico do tamanho de um crocodilo.
Mas Damon conseguiu. Saltando de algum lugar, ele pegou Elena, Bonnie e Meredith em uma braçada e saltou de novo, caindo na grama.
Ah, meu Deus, Damon!
— Alguém se machucou? — perguntou ele elevando a voz alta.
— Eu estou bem — disse Meredith baixo, aparentando calma. — Mas acho que lhe devo a minha vida. Obrigada.
— Bonnie? — perguntou Elena.
 Estou bem. Quero dizer... Estou bem. Mas Elena, suas costas...
Pela primeira vez, Damon conseguiu virar Elena e ver as feridas em suas costas.
— Eu... fiz isso? Mas... Pensei...
— Foi Bloddeuwedd — disse Elena incisivamente, olhando para uma forma que circulava no céu vermelho escuro. — Ela mal tocou em mim, mas suas garras pareciam facas de aço. Temos que ir agora!
Damon pôs as mãos nos ombros dela.
— E voltar quando as coisas se acalmarem, você quer dizer.
— E nunca mais voltar! Ah, meu Deus, lá vem ela!
Algo que visto de longe parecia do tamanho de uma bola de beisebol em um instante, de uma bola de vôlei um segundo depois e logo em seguida era tão grande como um ser humano. E todos se dispersaram, saltando, rolando, tentando se afastar, menos Damon, que segurou Elena e gritou: — Ela é minha escrava! Se tiver algum problema com ela, primeiro discuta comigo!
— E eu sou Bloddeuwedd, criada pelos deuses, condenada a ser uma assassina toda noite. Vou matar você primeiro, depois devorá-la, a ladra! — Bloddeuwedd exclamara em sua nova voz rouca. — Duas dentadas e tudo estará resolvido.
Damon, preciso te contar uma coisa!
— Lutarei com você, mas minha escrava ficará fora disso!
— Primeira dentada; lá vou eu!
Damon, temos de ir!
Houve um grito de dor e fúria.
Damon estava meio agachado, com um imenso caco de vidro na mão, como uma espada, e gotas grandes de sangue escuro caíam de onde ele... Ah, meu Deus!, pensou Elena, ele arrancou um dos olhos de Bloddeuwedd!
— VOCÊS TODOS VÃO MORRER! TODOS!
Bloddeuwedd atacou um vampiro qualquer que estava abaixo dela e Elena gritou junto com o vampiro. O bico preto o pegou por uma perna e o levantou.
Mas Damon correu para a frente, saltando, golpeando. Com um grito de fúria, Bloddeuwedd alçou voo de novo.
Agora todos viam o perigo. Os outros vampiros correram para dar apoio a Damon, e Elena ficou feliz pelos amigos não serem responsáveis por outra vida. Ela já tinha muito com o que lidar.
Damon, vou embora agora. Se quiser venha comigo. Eu consegui a chave.
Elena tentou enviar aquelas palavras, telepaticamente, só para Damon, e se esforçou para não ser dramática. Não lhe restava espaço para isso. Ela havia sido desprovida de tudo, menos da necessidade de encontrar Stefan.
Desta vez, ela sabia que Damon a ouvira.
Chegou a pensar que Damon estivesse morrendo. Que Bloddeuwedd de alguma maneira tinha voltado e perfurado todo seu corpo, como se usasse uma lança de luz. Depois percebeu que a sensação era de êxtase, e duas mãozinhas de criança se estenderam na luz e seguraram as dela, permitindo que ela libertasse uma criança maltrapilha, mas sorridente.
Sem correntes, pensou ela meio zonza. Ele nem mesmo estava com as pulseiras de escravo.
— Meu irmão! — disse-lhe a criança. — Meu irmão mais novo vai viver!
— Ora, é bom ouvir isso — disse Elena, tremendo.
— Ele vai viver! — Uma pequena ruga apareceu em sua testa.
— Mas você precisa correr! E cuide bem dele! E...
Elena pôs dois dedos nos lábios dele, muito delicadamente.
— Não precisa se preocupar com nada disso. Basta ficar feliz. — O garotinho riu.
— Eu vou! Eu estou!
— Elena!
Elena saiu do... bem, ela devia estar em transe, embora aquilo tivesse sido mais real do que muitas outras coisas que vivera recentemente.
— Elena! — Damon tentava desesperadamente se controlar.
— Mostre-me a chave!
Devagar e majestosamente, Elena levantou a mão.
Os ombros de Damon se retesaram, tensos, por... alguma coisa... e arriaram.
— É um anel — disse ele vagarosamente. O gesto lento e majestoso não pareceu ter efeito algum nele.
— Foi o que pensei no início. É uma chave. Não estou perguntando, nem querendo saber se concorda comigo, estou lhe dizendo. É uma chave. A luz dos olhos de uma das raposas aponta para Stefan.
— Que luz?
— Mostro depois. Bonnie! Meredith! Vamos embora.
— SÓ SAIRÁ DAQUI SE EU QUISER!
— Cuidado! — gritou Bonnie.
A coruja mergulhou de novo. E mais uma vez, no último segundo, Damon pegou as três meninas e saltou. O bico da coruja não bateu na grama, nem em cacos de vidro, e sim na escada de mármore, que rachou. Houve um grito de dor, depois outro, quando Damon, ágil como um dançarino, investiu para o olho bom da ave gigante. Conseguiu fazer um corte bem acima dele. O sangue enchia o olho.
Elena não suportava mais. Desde que começara essa jornada com Damon e Matt, ela parecia um frasco cheio de raiva. Gota a gota, a cada novo insulto, essa raiva enchia sem parar o frasco. Agora sua fúria estava prestes a transbordar.
Mas então... O que aconteceria?
Ela não queria saber. Tinha medo de não sobreviver a isso. O que ela sabia era que não conseguia mais ver dor, sangue e angústia. Damon definitivamente gostava de lutar. Que bom para ele. Que lute então.
Ela estava indo buscar Stefan, mesmo que tivesse de seguir o caminho todo a pé.
Meredith e Bonnie estavam em silêncio. Conheciam esse estado de espírito de Elena. Ela não estava apenas divagando. E nenhuma das duas queria ficar para trás.
Foi exatamente neste momento que a carruagem chegou num estrondo, ao pé da escada de mármore.
Sage, que obviamente sabia alguma coisa da natureza humana, da natureza de demônios e vampiros e de vários tipos de natureza bestial, saltou da carruagem com duas espadas em riste. Também assoviou e, em um instante uma sombra — pequena — disparou do céu até ele.
Por fim, lentamente, estendendo cada perna como um tigre, veio Sabber, que de imediato repuxou os lábios, mostrando um número impressionante de dentes.
Elena saltou para a carruagem, os olhos encontrando os de Sage. Me ajude, pensou ela, desesperada. E os olhos dele disseram simplesmente: Não tenha medo.
Às cegas, Elena estendeu as mãos para trás. A mãozinha de ossos finos e um tanto trémula alcançou a dela. Outra mão, magra, fria e rígida como a de um menino, mas com dedos longos e finos, segurou-lhe a outra.
Não havia ninguém em quem confiar naquele lugar. Ninguém de quem se despedir, nem com quem deixar recados de despedida. Elena entrou na carruagem e sentou-se no banco traseiro, o mais distante possível da frente, para acomodar aqueles que viriam atrás.
E eles vieram, como uma avalanche. Ela arrastara Bonnie e Meredith para perto dela; assim, quando Sabber saltou para seu lugar costumeiro, caiu em três colos macios.
Sage não perdeu tempo. Com Talon agarrada a seu pulso esquerdo, ele deixou espaço suficiente para a última disparada de Damon — e que disparada. Rachado e quebrado, vertendo um fluido preto, o bico de Bloddeuwedd batera na ponta da escada de mármore onde Damon estivera.
— Para onde? — gritou Sage, logo depois que os cavalos partiam a galope...  Para algum lugar, qualquer lugar, longe dali.
— Ah, por favor, não deixe que ela machuque os cavalos. — Bonnie ofegava.
— Ah, por favor, não deixe que ela rasgue o teto da carruagem — disse Meredith, de algum modo capaz de ser irônica mesmo quando sua vida corria perigo.
— Para onde, s'il vous plaît? — rugiu Sage.
— Para a prisão, é claro — disse Elena, ofegante. Ela sentiu que precisava tomar um pouco de ar.
— A prisão? — Damon parecia distraído. — Sim! A prisão! — Em seguida acrescentou, pegando algo parecido com uma fronha, cheia de bolas de bilhar: — Sage, o que é isso?
— O que conseguimos encontrar! — disse Sage, numa voz mais animada, enquanto os cavalos desviavam-se para uma nova direção. — E olhe perto de seus pés!
— Mais fronhas...?
— Eu não estava preparado para uma grande carga. Mas deu tudo certo!
Agora a própria Elena tateava uma das fronhas. Estava cheia de hoshi no tama, claros e cintilantes, esferas estelares, lembranças que valiam...
Nada?
— Esferas inestimáveis... Embora, é claro, não saibamos o que há nelas. — A voz de Sage mudou sutilmente. Elena se lembrou do aviso sobre 'esferas proibidas'; o que, em nome do sol amarelo, seria considerado ali?
Bonnie foi a primeira a pegar uma delas e a colocar em sua têmpora. E o fez tão rápido que Elena não conseguiu impedi-la.
— O que é? — disse Elena, tentando afastar a esfera.
— É... poesia. Uma poesia que não entendo — disse Bonnie um tanto irritada.
Meredith também pegara uma esfera cintilante. Elena estendeu a mão para ela, mas novamente foi tarde demais.
Meredith ficou sentada como se estivesse em transe por um momento, depois fez uma careta e abaixou a esfera.
— O quê? — perguntou Elena.
Meredith balançou a cabeça. Tinha uma leve expressão de aversão.
— O que é? — Elena quase gritava, e quando Meredith largou a esfera, Elena avançou para ela. Colocou-a na têmpora e imediatamente estava vestida de couro preto da cabeça aos pés. Havia dois homens grandalhões diante dela, sem muito tônus muscular. E ela podia ver toda a musculatura deles porque estavam quase despidos, a não ser por alguns trapos, como se fossem mendigos. Mas certamente não eram — pareciam bem alimentados, e claramente atuavam quando um deles se prostrou, ― Eu errei. Pedimos seu perdão, oh, amo!‖
Elena afastou a esfera da têmpora (elas colavam suavemente, se fizessem uma leve pressão).
— Por que eles não usam o espaço para outra coisa? — disse ela.
Logo outra coisa estava em volta dela. Uma menina, com roupas humildes, mas que não eram de estopa, parecia apavorada. Elena se perguntou se ela estava sendo controlada.
E Elena era a menina.
Porfavornãodeixequemepeguemporfavomãodeixequeme...
 Deixar o que pegar você? — perguntou Elena, mas era como ver um filme ou ler um livro em que o personagem entrava numa casa vazia durante uma tempestade furiosa, criando todo aquele suspense. A Elena que andava com medo não podia ouvir a Elena que fazia as perguntas.
Acho que não quero ver como isso termina, concluiu ela. E devolveu a esfera para os pés de Meredith.
— Temos três sacos?
— Sim, senhora. Três sacos cheios.
Oh. Isso não parece ter dado muito certo. Elena abria a boca de novo quando Damon acrescentou em voz baixa:
— E um saco vazio.
— É mesmo? Então vamos tentar dividi-las. O que for... proibido... em um dos sacos. Coisas estranhas como a poesia de Bonnie ficam em outro. E informações sobre Stefan... ou sobre nós... no terceiro. E coisas boas, como dias de verão, entraram no quarto — disse Elena.
— Acho que está sendo otimista — disse Sage. — Esperar achar um globo com Stefan tão rapidamente...
— Todo mundo em silêncio! — disse Bonnie de repente. — Aqui tem Shinichi e Damon falando.
Sage enrijeceu, como se tivesse sido atingido por um raio do céu tempestuoso, depois sorriu.
— E por falar no diabo... — murmurou ele. Elena sorriu para ele e apertou sua mão antes de pegar outra esfera.
— Parece ser a lembrança de um julgamento. Não entendo. Provavelmente foi registrado por um escravo, porque posso ver todos eles. — Elena sentiu os músculos faciais se enrijecerem de ódio ao ver, mesmo numa espécie de sonho, Shinichi, o kitsune que causou tantos problemas. Seu cabelo era preto, a não ser por uma borda irregular, que dava a impressão de ter sido mergulhada em lava incandescente.
E, é claro, Misao, a suposta irmã de Shinichi. Esta esfera estelar deve ter sido feita por um escravo, porque ela podia ver os gêmeos e um homem que parecia ser ligado às leis.
Misao, pensou Elena. Delicada, distinta, séria... Demoníaca. Seu cabelo era igual ao de Shinicni, mas estava preso num rabo de cavalo. Era possível ver seu ar demoníaco quando ela levantava os olhos. Eram efervescentes, dourados, risonhos, como os do irmão; olhos que jamais traziam remorso — a não ser, talvez, por achar que ainda não haviam tido vingança suficiente. Eles não tinham responsabilidade nenhuma. Achavam a angústia divertida.
Então algo estranho aconteceu. As três figuras na sala de repente se viraram e olharam diretamente para ela, ou melhor, diretamente para quem fez a esfera, Elena se corrigiu, mas ainda era desconcertante.
Foi ainda mais desconcertante quando avançaram. Quem eu sou?, pensou Elena, sentindo-se ansiosa. Depois tentou algo que nunca havia feito antes ou pensar que pudesse ser feito. Com cuidado, estendeu seu Poder para o ser em volta do globo. Ela era Werty, uma espécie de secretário de advogado. Ela, ou ele, tomava notas quando os acordos importantes eram feitos.
E Werty sem dúvida não gostou do que estava acontecendo naquele momento. Os dois clientes e seu chefe se aproximavam dele, de uma forma que nunca haviam feito.
Elena se afastou do funcionário e pôs a bola de lado. Ela tremia, pois parecia que tinha sido mergulhada em água gelada. E depois o teto afundou.
Bloddeuwedd.
Mesmo com o bico aleijado, a imensa coruja rasgou boa parte do teto da carruagem.
Todos gritavam e ninguém sabia direito o que fazer. Sabber e Damon a haviam ferido: Sabber erguendo-se dos três colos macios em que estava, atacou os pés de Bloddeuwedd. Conseguiu ferir um deles antes de deixar-se cair na carruagem, onde quase escorregou. Elena, Bonnie e Meredith seguraram o que alcançaram do cão e o puxaram de volta ao banco traseiro.
— Chega pra lá! Deixa ele sentar aí — gemeu Bonnie, vendo o estrago que Sabber tinha feito em seu vestido. Ele também deixou marcas vermelhas nela.
— Bom — disse Meredith, — da próxima vez vamos pedir sobretudos de aço... Mas espero que não haja nenhuma próxima vez!
Elena rezou com fervor para ela ter razão. Bloddeuwedd planava em um ângulo mais baixo, sem dúvida na esperança de arrancar algumas cabeças.
— Todo mundo pegue madeira. E esferas! Atirem as esferas quando ela se aproximar de vocês. — Elena tinha esperanças de que a visão das esferas estelares, a obsessão de Bloddeuwedd, a retardasse.
Ao mesmo tempo, Sage gritou: — Não desperdicem as esferas! Atirem outra coisa! Já estamos quase lá. À esquerda, depois em frente!
As palavras deram um novo alento a Elena. Eu tenho a chave, pensou. O anel é a chave. Só preciso pegar Stefan — e levar todos para a porta que tem a fechadura. Tudo isso no mesmo prédio. Já estou praticamente em casa.
A investida seguinte veio ainda mais baixa. Bloddeuwedd, cega de um olho, com o sangue enchendo o outro e o olfato bloqueado pelo próprio sangue seco, tentava acertar a carruagem e derrubá-la.
Se ela conseguir, vamos morrer, pensou Elena. E ela conseguirá pegar qualquer um que esteja se retorcendo no chão.
— ABAIXEM-SE! — gritou ela, com sua voz telepática também.
E então algo parecido com um avião passou tão perto que ela sentiu os tufos de cabelo sendo puxados, apanhados nas garras.
Elena ouviu um grito de dor vindo do banco da frente, mas não levantou a cabeça para ver o que era. A carruagem de repente parou aos solavancos e, no instante seguinte, uma ave da morte girava, aos gritos, tentando atacar o que via pela frente. Agora Elena precisava de toda sua atenção, todas as suas faculdades, para fugir desse monstro que zumbia para eles cada vez mais baixo.
— A carruagem está destruída! Saiam! Corram! — A voz de Sage chegou a ela num trovão.
— Os cavalos — gritou Elena.
— Eles já eram! Saiam, merda!
Elena nunca tinha ouvido Sage xingar. Tentou não pensar naquilo agora.
Não sabia como Meredith e ela conseguiram sair, pois tropeçavam uma na outra a todo momento, tentando ajudar, mas só atrapalhando ainda mais. Bonnie já estava fora. O coche batera num poste e a lançara pelo ar.
Felizmente, mandou-a a um canteiro de trevos feios mas viçosos e ela não teve nenhum ferimento grave.
— Ahhh, minha pulseira... Não, lá está — gritou ela, pegando alguma coisa que brilhava no meio do trevo. Ela lançou um olhar cauteloso para a noite carmim. — E agora, o que vamos fazer?
— Vamos correr! — exclamou Damon. Ele deu a volta pelos destroços, onde tinham caído amontoados. Havia sangue em sua boca e no branco antes imaculado de seu pescoço. Lembrou Elena daqueles que costumavam beber sangue de cavalo e leite para se nutrir. Mas Damon só bebia de humanos. Ele jamais tirou sangue equino...
Os cavalos ainda estarão aqui e Bloddeuwedd também, uma voz ríspida falou em sua mente. Ela brincaria com eles; haveria dor. Assim foi rápido. Foi... um impulso.
Elena tentou pegar as mãos dele, ofegando.
— Damon! Desculpe!
— SAIAM DAQUI! — Sage rugia.
— Temos de chegar a Stefan — disse Elena, e pegou Bonnie com a outra mão. — Me ajude, por favor. Não estou conseguindo ver o anel. — Meredith, segundo Elena pensava, conseguiria chegar ao prédio da Shi no Shi sem muita ajuda.
E foi uma grande correria, retração e alarmes falsos por uma Bonnie abalada. Por duas vezes o horror planava sobre elas, chocando-se em sua frente, ou um pouco ao lado, quebrando o que via pela frente, levantando nuvens de poeira. Elena não conhecia os hábitos das corujas, mas Bloddeuwedd descia em ângulo para sua presa, depois abria as asas e mergulhava no último minuto. Mas a pior coisa na coruja gigante era seu silêncio. Não havia farfalhar que indicasse onde ela poderia estar. Algo em suas penas abafava o som, e assim nunca sabiam quando ela atacaria novamente.
No fim, tiveram de engatinhar por toda sorte de lixo, avançando o mais rápido que podiam, segurando madeira, vidro, qualquer coisa afiada por cima da cabeça, enquanto Bloddeuwedd atacava novamente.
E o tempo todo Elena tentava usar seu Poder. Não era o mesmo Poder que usara antes, mas podia sentir seu nome se formando nos lábios. O que ela não conseguia sentir, não conseguia forçar, era uma ligação entre as palavras e o Poder.
Sou uma péssima heroína, pensou. Sou ridícula. Eles deviam ter dado esses Poderes a alguém que já soubesse controlar essas coisas. Ou me ensinado a usá-los antes. Ou... Não...
— Elena! — Algo voava diante dela, mas de algum modo ela virou para a esquerda e contornou. Depois estava no chão e olhava para Damon, que a protegia com próprio corpo.
— Obrigada — sussurrou ela.
— Ande!
— Desculpe — sussurrou ela e estendeu a mão direita, com o anel, para ele pegar.
Em seguida ela curvou-se, arfando de soluços. Podia ouvir o bater de asas de Bloddeuwedd bem acima deles.

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