26 de novembro de 2015

Capítulo 38

 Talon! Eia! — Elena gritou e desatou a correr mais rápido que pôde para sair da sala. Era uma atitude estratégica. Será que a coruja ficaria menor e assim conseguiria passar pela porta, ou destruiria seu santuário a fim de ficar na cola de Elena?
Era uma boa estratégia, mas não foi grande coisa no final. A coruja se encolheu para disparar pela porta, depois reassumiu o tamanho gigantesco para atacar Elena enquanto ela descia a escada correndo.
Sim, correndo. Com todo seu Poder canalizado para os olhos, Elena saltou de um degrau a outro, como Damon fizera. Agora não havia tempo para ter medo, nem para pensar. Só para girar entre os dedos um objeto pequeno, duro, em formato de lua crescente.
Shinichi e Misao — eles o colocaram no ninho de Bloddeuwedd.
Devia haver uma escada ou algo feito de vidro que nem Damon conseguiu ver, no canteiro onde Sabber parou e latiu. Não — Damon teria visto, então eles devem ter trago a própria escada. Por isso o rastro terminava ali. Subiram direto à biblioteca. E arruinaram as flores do canteiro, por isso as flores novas não estavam tão viçosas.
Elena sabia pela tia Judith, desde sua infância, que flores replantadas levam algum tempo para se recuperar viço.
Saltar... Pular... Saltar... Sou um espírito do fogo. Não posso errar um passo. Sou um elemental do fogo. Saltar... Saltar... Saltar.
E então Elena olhava o térreo, tentando não pular, mas seu corpo não lhe obedeceu e de repente ela estava saltando. Sentiu o baque ao cair no chão, mas continuou segurando o precioso objeto na mão fechada.
Um bico gigantesco bateu no vidro onde ela estivera um instante antes de deslizar dali. Garras rasparam suas costas.
Bloddeuwedd ainda estava atrás dela.
***
Sage e seu grupo de vampiros viajaram no mesmo ritmo do cachorro em disparada. Sabber liderava, o mais rápido que conseguia. Felizmente poucas pessoas pareciam querer brigar com um cachorro que pesava tanto quanto eles — que pesava mais do que a maioria dos mendigos e crianças que encontravam ao chegarem a mercado.
As crianças se reuniam em volta da carruagem, impedindo que avançasse. Sage aproveitou a oportunidade e trocou uma jóia cara por uma bolsa cheia de moedas e as espalhou atrás da carruagem ao partirem, permitindo que Sabber tivesse rédea solta.
Passaram por dezenas de engarrafamentos e cruzamentos, mas Sabber não era um farejador comum, tinha Poder suficiente para confundir a maioria dos vampiros. Com talvez apenas uma ou duas moléculas-chave em sua membrana nasal, ele podia perseguir sua meta. Onde outro cão podia ser confundido por um entre centenas de rastros de kitsune parecidos, Sabber examinava e rejeitava cada um deles por não ter a forma, o tamanho ou a estrutura exatos.
Mas chegou uma hora em que até Sabber pareceu derrotado. Parou no meio de um cruzamento de seis pistas, apesar do trânsito, mancando um pouco e andando em círculos. Parecia não conseguir se decidir por um caminho.
Nem eu poderia, meu amigo, pensou Sage. Chegamos muito longe, mas está claro que eles foram além. Não há como subir ou descer... Sage hesitou, olhando as pistas cor de carmim.
E então ele viu uma coisa.
Bem à frente, mas à sua esquerda, havia uma perfumaria. Devia vender centenas de fragrâncias, e bilhões de moléculas de cheiros diferentes eram deliberadamente lançadas no ar.
Sabber estava cego. Não cego em seus olhos escuros, fluidos e aguçados, mas onde importava, ele estava entorpecido e cego pelos bilhões de aromas soprados em seu focinho.
Os vampiros queriam seguir em frente ou voltar. Não tinham o verdadeiro senso de aventura, só queriam um bom espetáculo. E sem dúvida muitos escravos estavam gravando o açoitamento para eles, assim seus amos podiam desfrutar do show na tranquilidade de suas casas.
Nesse momento um clarão de azul e ouro fez com que Sage se decidisse.
Um Guardião! Eh, bien...
— Eia, Sabber!
A cabeça e o rabo de Sabber arriaram enquanto Sage pegava aleatoriamente uma das direções e o fez correr junto do vampiro, saindo do cruzamento e entrando em outra rua.
Mas por um milagre o rabo estava erguido de novo. Sage sabia que agora não havia mais nem uma molécula do cheiro dos kitsune nas narinas de Sabber...
... Mas a lembrança do cheiro... ainda está presente.
Sabber mais uma vez estava em modo de caça, de cabeça baixa, rabo erguido, todo o seu Poder e sua inteligência concentrados num único objetivo: encontrar outra molécula que combina com a memória tridimensional daquela em sua mente. Agora que não estava mais cego pelo cheiro dessensibilizador de todos aqueles diferentes odores concentrados, ele era capaz de pensar com mais clareza. E isso o faz disparar entre as ruas, provocando uma comoção atrás dele.
— E a carruagem?
— Esqueça a carruagem! Não perca de vista aquele cara com ocachorro!
Sage, tentando acompanhar Sabber, sabia quando uma perseguição estava perto do fim. Tranquillité!, pensou ele para Sabber. Ele mal sussurrou a palavra. Nunca teve certeza se os amigos animais eram telepatas ou não, mas preferia acreditar que sim, embora se comportassem como se não fossem. Tranquillité!, disse ele a si mesmo também.
E assim, quando o enorme cachorro preto de olhos negros e cintilantes e o homem subiam correndo a escada de um prédio caindo aos pedaços, eles o fizeram em silêncio. Depois, como se estivesse num agradável passeio pelo campo, Sabber sentou-se e olhou na cara de Sage, arfando como quem sorri.
Ele abria e fechava a boca numa paródia muda de latido.
Sage esperou que os jovens vampiros o alcançassem antes de abrir a porta. E, sem qualquer aviso meteu o punho com o Poder de um martelo pela porta e tateou a procura de trancas, correntes e fechaduras. Sentiu apenas uma maçaneta.
Antes de abrir a porta e entrar no que sabia que era um local perigoso, ele disse aos que estavam atrás:
— Qualquer coisa que pegarmos é de propriedade do amo Damon. Sou o capataz dele e foi apenas pelas habilidades de meu cão que chegamos até aqui.
Houve concordância, indo de grunhidos à indiferença.
— Da mesma forma — disse Sage —, qualquer perigo que exista aqui, eu enfrentarei primeiro. Sabber! AGORA!
Eles entraram na sala num rompante, quase arrancando a porta das dobradiças.
***
Elena gritava involuntariamente. Bloddeuwedd tinha acabado de fazer o que Damon não fizera e riscara suas costas com as garras.
Mas ao encontrar a porta de vidro que dava para a área externa, Elena sentia outras mentes aparecendo em seu amparo, para tomar e dividir parte da dor.
Bonnie e Meredith abriam caminho pelos imensos cacos de vidro para chegar a ela e começavam a gritar para a coruja, enquanto Talon, heroicamente, a atacava por cima.
Elena não suportava mais. Tinha de olhar. Sabia que a coisa que parecia de metal que pegou no ninho de Bloddeuwedd não era apenas um pedaço de lixo. Ela precisava ter certeza agora.
Esfregando o pedacinho de metal no vestido escarlate arruinado, ela levou um momento para olhar para baixo, para ver o sol carmim faiscar em ouro e diamantes, duas orelhas curvadas para trás e dois olhos verdes e brilhantes de alexandrita.
A duplicata da primeira metade da chave de raposa, mas olhando para o outro lado.
As pernas de Elena quase vergaram sob seu peso. Ela estava segurando a segunda metade da chave de raposa.
Apressadamente, então, Elena levantou a mão livre e meteu os dedos no bolsinho cuidadosamente confeccionado que ficava atrás do diamante incrustado. Escondia uma bolsa mínima, costurada pela própria Lady Ulma.
Nela estava a primeira metade da chave de raposa, que havia sido guardada ali logo depois que Saber e Talon terminaram de usá-la. Agora, ao colocar a segunda metade da chave no bolso junto com a primeira, Elena ficou desconcertada ao sentir movimento na bolsa. Os dois pedaços da chave de raposa estavam... O que, tornando-se um? Um bico preto bateu na parede ao lado dela.
Sem pensar, Elena se abaixou e rolou no chão, escapando. Quando seus dedos voaram de volta para ter certeza de que a bolsa estava amarrada e segura, ela se assustou ao sentir uma forma conhecida dentro dela.
Não era uma chave?
Não era uma chave!
O mundo girava loucamente em volta de Elena. Nada importava; nem o objeto, nem sua própria vida. Os gêmeos kitsune os enganaram, fizeram de bobos os idiotas humanos e o vampiro que se atreveram a enfrentá-lo. Não havia nenhuma chave de raposa.
Ainda assim, a esperança se recusava a morrer. O que mesmo Stefan costumava dizer? Mai dire mai — nunca diga nunca. Sabendo que era um risco que corria, sabendo que era uma tola por assumi-lo, Elena enfiou o dedo na bolsa novamente.
Algo frio deslizou para o dedo dela e ficou ali.
Ela olhou para baixo e por um momento seu olhar ficou preso naquela visão. Ali, em seu dedo anular, brilhava um anel de ouro com um diamante engastado. Representava duas raposas abstratas enroscadas, que olhavam para lados opostos. Cada raposa tinha duas orelhas, dois olhos verdes de alexandrita e um focinho pontudo.
E era só. De que servia uma quinquilharia dessas para Stefan? Não era nada parecido com as chaves de duas asas que apareciam nas imagens de santuários kitsune.
Um tesouro, certamente valia um milhão de vezes menos do que o que eles já haviam gastado para consegui-lo.
E Elena percebeu uma coisa.
Uma luz brilhava dos olhos de uma das raposas. Se ela não a olhasse tão de perto, ou se não estivesse agora no Salão de Valsa Branco, onde as cores apareciam como realmente eram, podia não ter percebido. Mas a luz brilhava diretamente à frente quando ela virava a mão de lado. Agora saíam dos quatro olhos. E brilhavam exatamente na direção da cela de Stefan. A esperança surgiu como uma fênix no coração de Elena e a levou a uma viagem mental para fora desse labirinto de salas de vidro. A música que tocava era a valsa do Fausto. Longe do sol, no fundo do coração da cidade, era onde Stefan se encontrava. E era para onde brilhavam os olhos verdes claros de raposa.
Elevando-se com a esperança, ela virou o anel. A luz piscou nos olhos de raposa, mas quando Elena virou o anel para que a segunda raposa ficasse alinhada com a cela de Stefan, os olhos piscaram de novo.
Sinais secretos. Por quanto tempo ela deixaria que esses sinais passassem despercebidos se já não soubesse onde ficava a prisão de Stefan?
Mais tempo do que Stefan tinha para viver, provavelmente.
Agora ela só precisava sobreviver por tempo suficiente para chegar a ele.

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