29 de novembro de 2015

Capítulo 37

Então Meredith viu algo que não era fumaça ou fogo. O pequeno vislumbre de uma porta... E um pequeno sopro de ar fresco. Com essa esperança para se apoiar, ela correu em direção à porta, arrastando Isobel atrás dela.
Quando passou pelo limite da porta, ela sentiu, de alguma forma, uma água fria e abençoada caindo em seu corpo. Quando puxou Isobel para fora, a menina fez o primeiro som voluntário durante todo o trajeto: um soluço de agradecimento, sem palavras.
As mãos de Matt estavam lá para ajudá-la, tirando-lhe o peso que era Isobel. Meredith se ergueu e começou a cambalear em círculos, e então caiu de joelhos. Seu cabelo estava em chamas! Ela estava se lembrando dos ensinamentos sobre parar, deitar e rolar, quando sentiu a água fria caindo sobre ela. A mangueira d’água subiu e desceu sobre seu corpo e ela se virou, deleitando-se com a sensação de frescor, até que ouviu a voz de Matt dizer:
— As chamas se foram. Você está bem agora.
— Obrigada, Matt. Obrigada — Sua voz estava rouca.
— Hey, foi você que teve de ir até o quarto dela e voltar. Salvar a Sra. Saitou foi bem fácil... Tinha a pia da cozinha cheia de água, então, assim que eu a libertei, nós nos refrescamos e caímos fora.
Meredith sorriu e olhou em volta rapidamente. Isobel havia se tornado sua responsabilidade agora. Para seu alívio, ela viu que a menina estava sendo abraçada por sua mãe.
E tudo isso por causa de uma escolha estranha entre um objeto, por mais precioso que fosse, e uma vida. Meredith olhou para mãe e filha e se alegrou. Ela poderia arranjar outra estaca. Mas nada poderia substituir Isobel.
— Isobel disse para te dar isso — Matt estava dizendo.
Meredith virou-se para ele, uma luz brilhante fazendo com que o mundo se tornasse uma loucura, e por um momento ela não acreditou em seus olhos. Matt estava segurando a estaca na frente dela.
— Ela deve tê-la pegado com sua mão livre e... Oh, Matt, e ela estava quase morta quando começamos...
Matt disse:
— Ela é teimosa. Igual a outra pessoa que eu conheço.
Meredith não sabia muito bem o que ele quis dizer com isso, mas sabia de uma coisa:
— É melhor irmos lá para frente. Eu duvido que o corpo de bombeiros venha. Além disso... Theo…
— Eu farei com que elas andem. Você vai à frente e nos escolta — Matt disse.
Meredith logo chegou ao quintal da frente, que estava horrivelmente iluminado por causa da casa, agora totalmente em chamas. Felizmente, o pátio lateral não estava. Meredith abriu o portão com a estaca. Matt estava bem atrás dela, ajudando a Sra. Saitou e Isobel.
Ela rapidamente correu pela garagem em chamas e depois parou. Atrás dela, ouviu um grito de horror. Não havia tempo para tentarem acalmar quem estivesse chorando, nem havia tempo para se pensar.
As duas mulheres que lutavam estavam ocupadas demais para notarem sua presença... E Theo estava precisando de ajuda. Inari parecia mesmo uma Medusa flamejante, com os cabelos se contorcendo, parecendo cobras. Somente a parte carmesim queimava, e era esta parte que ela estava usando como um chicote, usando uma das cobrar para arrebatar o chicote de prata de Theo, e depois outra para envolver-se em torno da garganta de Theo, sufocando-a. Theo estava desesperadamente tentando tirar aquilo de seu pescoço.
Inari estava rindo.
— Você está sufocando, bruxinha? Tudo acabará em segundos... Para você e para a cidade inteira! A Última Meia-Noite finalmente chegou!
Meredith olhou de volta para Matt... E isso foi tudo o que ela fez. Ele correu, ultrapassando-a, indo direto até as duas mulheres. E então ele se inclinou um pouco, fechando sua mão em uma concha.
Depois disso, Meredith correu, colocando toda sua energia numa curta corrida, mas deixando o suficiente para saltar e colocar um pé nas mãos de Matt. Então, ela sentiu-se voando bem alto, apenas uma curta distância para cortar precisamente com sua estaca uma das cobras que estava sufocando Theo.
Logo Meredith estava em uma queda livre, com Matt tentando pegá-la lá embaixo. Ela pousou mais ou menos em cima dele e ambos viram o que aconteceu a seguir.
Theo, que estava ferida e sangrando, bateu com suas mãos no vestido que estava começando a pegar fogo. Ela estendeu a mão para o chicote de prata e ele voou até seus dedos. Mas Inari não estava atacando. Estava agitando os braços freneticamente, como se estivesse entrando em colapso, e, de repente, ela gritou: um som tão angustiante que Meredith respirou bruscamente. Era um grito de morte.
Em frente aos seus olhos, ela estava voltando a ser a velha Obaasan: pequena, impotente e com aparência delicada que eles conheciam. Mas no momento em que este corpo enfraquecido caiu no chão, ele já estava duro e morto, com sua expressão saindo da malícia impertinente e transformando-se em medo.
Foi quando Isobel e a Sra. Saitou vieram para encarar o corpo, soluçando aliviadas. Meredith olhou para elas e então para Theo, que estava pousando bem devagar no chão.
— Obrigada — Theo disse com o mais fraco dos sorrisos. — Vocês me salvaram... De novo.
— Mas o que vocês acham que aconteceu com ela? — Matt perguntou. — E por que Shinichi e Misao não vieram ajudá-la?
— Eu acho que todos devem estar mortos, não acha? — A voz de Theo era suave, em comparação aos rugidos das chamas. — Quanto à Inari... Eu acho que, talvez, alguém tenha destruído sua Esfera Estelar. Receio não ter sido forte o suficiente para detê-la.
— Que horas são? — Meredith gritou abruptamente, lembrando-se.
Ela correu para o velho SUV, que ainda estava ligado. Seu relógio mostrava que era meia-noite em ponto.
— Nós salvamos os cidadãos? — Matt perguntou desesperadamente.
Theo virou seu rosto em direção ao centro da cidade. Por quase um minuto ela ficou assim, como se ouvisse alguma coisa. Por fim, quando Meredith sentiu como se fosse se estilhaçar de tanta tensão, ela se virou e disse silenciosamente:
— A amada Mama, a Vovó e eu somos uma agora. Eu sinto as crianças, que se acharam segurando facas... E algumas segurando armas. Eu as sinto enquanto elas estão paradas nos quartos de seus pais, incapazes de se lembrar como foram chegar ali. E eu sinto seus pais, alguns escondidos em armários, um segundo atrás com medo por suas próprias vidas, agora vendo armas sendo abaixadas e crianças caindo ao chão, soluçantes e confusas.
— Conseguimos, então. Você conseguiu. Você a conteve — Matt ofegou.
Ainda gentil e calma, Theo disse:
— Outro alguém... Bem longe... Fez muito mais. Eu sei que a cidade precisa de reparos. Mas a Vovó e a Mama concordam em algo: Por causa deste alguém, nenhuma criança matou seu pai esta noite, ou nenhum pai matou seu filho. O longo pesadelo de Inari e sua Última Meia-Noite acabou.
Meredith, encardida e enlameada, sentiu alguma coisa crescendo e inchando dentro dela, cada vez mais, até que ela não pôde mais se conter e esqueceu todo o seu treinamento. Ela explodiu, dando um grito de alegria.
Descobriu que Matt estava gritando também. Ele estava tão encardido e enlameado quanto ela, mas a agarrou pelas mãos e giraram, fazendo uma gloriosa dança da vitória.
E foi divertido gritar e girar como se fossem duas crianças. Talvez... Talvez, na tentativa se manter calma, ela sempre agia como uma adulta, perdendo a essência de diversão, no qual ela sempre sentia como se fosse uma qualidade só para crianças.
Matt não tinha problemas em expressar seus sentimentos, quaisquer que eles fossem: criancice, maturidade, teimosia, felicidade. Meredith encontrou-se admirando isso, também pensando que fazia um bom tempo desde a última vez que ela olhara realmente para ele. E agora, ela sentiu uma onda de sentimentos por ele. E pôde ver que Matt sentia-se da mesma forma por ela. Como se ele nunca tivesse olhado apropriadamente para ela antes.
Este era o momento... Em que eles deviam se beijar. Meredith havia visto isto em alguns filmes, e lido em alguns livros, que isso era quase inevitável.
Mas esta era a vida real, não uma história. E quando o momento chegou, Meredith encontrou segurando os ombros de Matt, enquanto ele segurava os dela, e ela pôde ver que ele estava pensando exatamente a mesma coisa sobre o beijo.
O momento se prolongou...
Então, com um sorriso, o rosto de Matt mostrou que ele sabia o que devia ser feito. Meredith também sabia.
Ambos se aproximaram, e se abraçaram. Quando recuaram, ambos estavam sorrindo. Eles sabiam o que eles eram: eram muito diferentes, eram amigos íntimos. Meredith esperava que eles sempre fossem.
Ambos se viraram para olhar para Theo, e Meredith sentiu uma pontada no coração, o primeiro desde que ela tinha ouvido falar que eles haviam poupado a cidade. Theo estava mudando. E foi o olhar em seu rosto, enquanto ela os observava, que fez com que Meredith tivesse a pontada.
Depois de ser jovem, e enquanto assistia sua juventude no auge, ela foi envelhecendo mais uma vez, enrugando, o cabelo ficando branco ao invés de prata sob o luar. Por fim, ela era uma mulher de idade vestindo uma capa de chuva coberta com pedaços de papel.
— Sra. Flowers!
Era perfeitamente seguro e certo beijar essa pessoa. Meredith lançou os braços sobre a frágil idosa, tirando seus pés do chão, emocionada. Matt se juntou a ela, e eles a ergueram mais alto, acima de suas cabeças. Eles a carregaram deste jeito até as Saitou, mãe e filha, que estavam assistindo ao incêndio.
Lá, ficando sérios, eles a colocaram no chão.
— Isobel! — Meredith disse. — Deus! Eu sinto muito... Sua casa...
— Obrigada — Isobel disse em sua voz suave e arrastada.
Então, ela se virou e se afastou.
Meredith sentiu um arrepio. Ela estava começando a se arrepender da celebração, quando a Sra. Saitou disse:
— Sabia que esse é o melhor momento da história da nossa família? Durante centenas de anos, aquela velha kitsune... Ah, sim, nós sempre soubemos o que ela era... Esteve prejudicando humanos inocentes. E nos últimos três séculos, tem sido a minha família, descendentes de samurais mikos, quem ela tem aterrorizado. Finalmente meu marido poderá voltar para casa.
Meredith olhou para ela, surpresa. A Sra. Saitou assentiu.
— Ele tentou desafiá-la e o baniu de casa. Desde que Isobel nasceu, eu temo por ela. E agora, por favor, perdoem-na. Ela tem problemas em expressar o que sente.
— Eu sei disso — Meredith disse silenciosamente. — Eu terei uma conversinha com ela, se estiver tudo bem para você.
Se alguma vez em sua vida nunca teve a chance de dizer a um amigo como era bom se divertir, ela pensou, a oportunidade era essa.

Um comentário:

  1. Esse negócio entre Matt e Meredith foi meio estranho, né?!!

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