26 de novembro de 2015

Capítulo 37

Elena foi amarrada, como uma atriz de um filme barato que logo seria libertada, de pé contra um pilar. O gramado ainda estava sendo escavado pelos curiosos, e os vampiros que haviam colocado Elena naquela situação levaram uma vara de freixo para Damon examinar. O próprio Damon movimentava-se em câmera lenta, tentando adiar aquilo ao máximo, esperando ouvir o barulho das rodas de coche que lhe diriam que a carruagem tinha voltado. Ele sustentava uma atitude enérgica, mas por dentro sentia-se tão moroso quanto chumbo derretido.
Nunca fui sádico, pensou Damon. Sempre gostei de dar prazer — a não ser nas lutas. Era eu quem devia estar naquela prisão. Será que Elena não vê isso? É minha vez de ficar sob o açoite.
Ele vestiu suas "roupas de mágico", demorando-se o máximo que pôde, mas sem parecer que queria desistir. E agora havia entre seiscentas e oitocentas criaturas esperando para ver o sangue de Elena ser derramado, ver as costas sendo cortadas e miraculosamente curadas.
Muito bem. Estou mais do que pronto para fazer isso. Ele incorporou seu papel, se entregando àquele momento.
Elena engoliu em seco.
— Divida a dor — disse ela, sem saber ao certo como fazia isso. Mas ali estava ela, como um ser em sacrifício, amarrado a um pilar, olhando para a casa de Bloddeuwedd e esperando pelos golpes.
Damon fazia um discurso de apresentação à multidão, falando bobagens e saindo-se muito bem. Elena se concentrou em uma determinada janela da casa e ficou olhando para ela. Depois percebeu que Damon não falava mais.
Um toque da vara em suas costas. Um sussurro telepático.
Está pronta?
Sim, respondeu ela de imediato, sabendo que não estava. E ouvindo, no silêncio mortal, um silvo no ar.
A mente de Bonnie flutuou até a dela. A mente de Meredith fluía como um regato. O golpe foi um mero tabefe, embora Elena sentisse o sangue escorrer.
Ela podia sentir que Damon estava desconcertado. O que devia ter sido um talho de espada foi apenas um tapa. Doloroso, mas sem dúvida suportável.
E outra vez. O triunvirato dividia a dor antes que a mente de Damon percebesse isso.
Mantenha o triângulo em movimento. E um terceiro.
Faltam dois. Elena permitiu que seus olhos percorressem a casa até o terceiro andar, onde Bloddeuwedd tinha se enfurecido com o que se tornara sua festa.
Faltava um. A voz de um convidado chegando a ela. ― Aquela biblioteca. Ela tem mais globos do que a maioria das bibliotecas púbicas, e...  com a voz falhando por um momento, ―... dizem que tem todo tipo de esferas ali. Até as proibidas.  Elena não tinha a menor ideia do que podia ser proibido ali.
Na biblioteca, Bloddeuwedd, uma figura solitária, movia a grande esfera fortemente iluminada para encontrar um novo globo. Dentro da casa, estaria tocando uma música diferente em cada cômodo, mas do lado de fora Elena não ouvia nada.
O último golpe. O triunvirato conseguira, distribuindo a dor agonizante entre quatro pessoas. Enfim, pensou Elena, meu vestido já estava vermelho demais.
E então, quando acabou, Bonnie e Meredith estavam discutindo com algumas damas vampiras que queriam ajudar a limpar o sangue das costas de Elena, que mais uma vez estava imaculada e perfeita, brilhando dourada sob a do sol.
É melhor mantê-las afastadas, pensou Elena bem grogue para Damon; Podem roer unhas ou chupar dedo e sentir meu Poder. Não podemos permitir que ninguém prove meu sangue e sinta a força vital dele; não quando eu me esforcei tanto para esconder minha aura.
Embora houvesse aplausos e gritos de toda parte, ninguém pensou em desamarrar os pulsos de Elena e ela ficou lá, encostada no pilar, olhando a biblioteca.
E o mundo parou.
Tudo em volta dela era música e movimento. Ela estava no ponto imóvel de um universo que não parava de girar. Mas precisava se mexer, e rápido.
Elena puxou com força os pulsos cortando-se.
— Meredith! Me ajude! Corte as cordas, rápido!
Meredith obedeceu prontamente.
Quando se virou, Elena sabia o que veria. O rosto... O rosto de Damon, desnorteado, meio ressentido, um tanto humilde, foi bom para ela, naquele momento.
Damon, precisamos chegar ao...
Mas de repente eles estavam no meio de uma multidão. Os cumprimentos, os fãs, os céticos... vampiros pedindo uma 'provinha', descrentes que queriam ter certeza de que as costas de Elena eram reais, estavam quentes e sem marcas. Elena sentiu mãos demais em seu corpo.
— Afastem-se dela, malditos! — foi o rugido primal e selvagem de uma fera defendendo sua parceira. As pessoas se afastaram de Elena, e se aproximaram... Muito lenta e timidamente... De Damon.
Muito bem, pensou Elena. Vou fazer isso sozinha. Posso fazer isso sozinha. Por Stefan, eu posso.
Ela abriu caminho pela multidão, aceitando dos admiradores ramos de flores apressadamente colhidas — e sentindo mais mãos em seu corpo. ― Ei, ela não está marcada mesmo!
Por fim, Meredith e Bonnie a ajudaram a sair dalisem elas, Elena jamais teria conseguido.
E estava correndo, correndo para a casa, sem se incomodar em usar a porta que estava ao lado de onde Sabber latia. Ela sabia o que havia ali.
Quando chegou no segundo andar, ficou confusa durante um minuto, antes de ver uma linha vermelha e fina no nada. O sangue dela! Está vendo para quantas coisas ele serve? Agora lhe destacava o primeiro degrau de vidro, aquele em que tropeçara.
E antes, aninhada nos braços fortes de Damon, ela não conseguiu imaginar subir esses degraus, nem de quatro. Agora canalizava todo seu Poder para os olhos — e de repente a escada se iluminou. Mas ainda era apavorante, não havia corrimão, e Elena estava inebriada de empolgação e medo. Além de ter perdido muito sangue. Mas se obrigou a subir, e subiu sem olhar para trás.
— Elena! Eu te amo! Elena!
Ela podia ouvir os gritos de Stefan como se ele estivesse ao lado dela.
Subindo, subindo, subindo...
Suas pernas doíam.
Continue. Não tem desculpa. Se não puder andar, engatinhe. Se não puder engatinhar, arraste-se.
Ela já estava engatinhando quanto finalmente chegou ao topo, na beira do ninho da coruja Bloddeuwedd.
Pelo menos ainda era uma donzela bonita, embora insípida, quando a recebeu. Elena percebeu enfim o que havia de errado com a aparência de Bloddeuwedd. Ela não tinha nenhuma vitalidade animal. Seu coração vegetava.
— Eu vou matá-la e você sabe disso.
Não, ela era um vegetal sem coração.
Elena olhou em volta. Podia ver o que acontecia do lado de fora, embora no meio da sala houvesse prateleiras e mais prateleiras de globos, então tudo era estranhamente distorcido.
Não havia trepadeiras ali, nem quaisquer outras flores exóticas e tropicais.
Mas Elena já estava no meio da sala, no ninho de coruja de Bloddeuwedd, que estava junto ao aparelho que colocava ao seu alcance as esferas estelares.
A chave só podia estar enterrada neste ninho.
— Não quero roubar nada de você — prometeu Elena, respirando com dificuldade. Enquanto falava, enfiava os dois braços no ninho. — Aqueles kitsune enganaram a nós duas. Roubaram uma coisa minha e colocaram a chave no seu ninho. Só estou pegando de volta o que eles colocaram aqui.
— Ra! Como você, uma escrava humana, uma bárbara atreve-se a violar minha biblioteca particular? As pessoas lá fora estão destruindo meu lindo salão de baile, minhas preciosas flores. Você acha que vai se safar de novo desta vez, não é? Mas não vai! Desta vez você vai MORRER!
Era uma voz completamente diferente da voz na sala e monótona de antes, mas ainda assim no mesmo tom da donzela que recebera Elena. Era uma voz poderosa, uma voz opressiva...
... uma voz que combinava com o tamanho do ninho.
Elena levantou a cabeça. Não conseguia distinguir nada do que via. Um enorme casaco de peles num padrão muito exótico? As costas de um imenso animal empalhado?
A criatura na biblioteca se virou para ela. Ou melhor, sua cabeça girou em sua direção, enquanto as costas continuaram imóveis. Ela girou a cabeça de lado, e Elena entendeu que o que era um rosto. A cabeça era ainda mais horrenda e mais indescritível do que podia imaginar. Parecia ter uma única sobrancelha, que caía da beira de um lado de sua testa para o nariz (ou onde deveria estar o nariz) e subia novamente. Suas feições eram como uma sobrancelha em V gigantesca e abaixo havia dois imensos olhos amarelos que piscavam com frequência. Não havia nariz ou boca como as de um humano, e sim um bico preto, ameaçador, grande e curvo. O restante do rosto estava coberto de penas, em sua maioria brancas, transformando-se em cinza mosqueada na base, onde parecia estar o pescoço. Também era cinza e branca em duas projeções que partiam do alto da cabeça — como os chifres de um demônio, pensou Elena assustada.
E então, com a cabeça ainda a fitando, o corpo se virou para Elena.
Era o corpo de uma mulher forte, coberto de penas brancas e cinzentas, pelo que Elena viu. Garras se projetavam de sob as penas mais baixas.
— Olá — disse a criatura numa voz que parecia um rangido, o bico abrindo-se e fechando-se para morder as palavras. — Eu sou Bloddeuwedd e jamais permito que toquem em minha biblioteca. Eu sou a sua morte.
As palavras 'Não podemos pelo menos conversar primeiro?' estavam nos lábios de Elena. Ela não pretendia ser uma heroína. Certamente não queria enfrentar Bloddeuwedd enquanto procurava a chave que certamente estaria ali em algum lugar.
Elena continuou tentando explicar enquanto tateava freneticamente dentro do ninho, quando Bloddeuwedd estendeu as asas que abarcaram toda a sala e se aproximaram dela.
E então, como um raio, algo disparou entre as duas, soltando um grito áspero.
Era Talon. Sage deve ter dado ordens ao falcão quando ele o soltou.
A coruja pareceu se encolher um pouco — para atacar melhor, pensou Elena.
— Por favor, me deixe explicar. Ainda não encontrei, mas tem uma coisa em seu ninho que não pertence a você. É minha... E... de Stefan. E os kitsune esconderam aqui na noite em que você os expulsou de sua propriedade. Não se lembra disso? — Bloddeuwedd não disse nada por um momento, depois mostrou que tinha uma filosofia simples, que servia para qualquer situação.
— Você pôs os pés em meus aposentos particulares. Você vai morrer — disse e desta vez, quando investiu, Elena pôde ouvir o estalo do bico se fechando.
Novamente, algo pequeno e brilhante mergulhou para Bloddeuwedd, atingindo seus olhos. A coruja grande teve de desviar a atenção de Elena para lidar com aquilo.
Elena desistiu. Às vezes a gente precisa de ajuda.
— Talon! — gritou, sem saber o quanto da fala humana Talon compreendia. — Mantenha-a ocupada... Só por um minuto!
Enquanto as duas aves disparavam, giravam e guinchava ao seu redor, Elena continuou procurando, se desviando das aves quando era preciso. Mas aquele grande bico preto estava sempre perto demais. Chegou a cortar seu braço, mas Elena estava tão agitada que mal sentiu a dor. Continuou procurando sem parar.
Finalmente percebeu o que devia ter feito desde o início e pegou um globo em seu suporte transparente.
— Talon! — chamou ela. — Aqui!
O falcão mergulhou para ela e houve um estalo. Mas Elena ainda tinha todos os dedos e o globo havia sumido.
Ora, ora, Elena agora ouviu o verdadeiro guincho de raiva de Bloddeuwedd. A coruja gigante perseguindo o falcão era como um humano tentando bater numa mosca — mas numa mosca inteligente.
— Devolva o globo! É inestimável! Inestimável!
— Terá de volta assim que eu achar o que estou procurando — Elena, aterrorizada e com os hormônios à flor da pele, subiu para o interior do ninho e começou a procurar no piso de mármore com os dedos.
Por duas vezes Talon a salvou, fazendo alguns globos se espatifaram no chão enquanto a imensa coruja Bloddeuwedd investia para Elena. A cada vez, o ruído do globo se quebrando fazia a coruja se esquecer de Elena e tentar atacar o falcão. Depois Talon pegou outro globo e voou em alta velocidade bem embaixo do nariz da coruja.
Uma sensação de que tudo o que sabia meia hora antes estava errado começou a se apoderar de Elena.
Ela se encostara no pilar da abóbada, exausta, olhando a biblioteca e a donzela que a habitava, e as palavras simplesmente fluíam em sua mente.
A sala dos globos de Bloddeuwedd...
Sala dos globos. Ball room.
Salão de Baile. Ball room.
A sala de esfera estelar... de Bloddeuwedd...
... o ballroom de Bloddeuwedd.
Duas maneiras de entender as mesmas palavras. Dois ambientes bem diferentes.
Foi quando percebeu isso que seus dedos tocaram um objeto metálico.

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