26 de novembro de 2015

Capítulo 36

 O quê? — gritou Damon por sobre a música, enquanto dizia telepaticamente a Elena: Fuja... vá!
Se fosse apenas pela própria vida, Elena ficaria feliz em morrer ali, cercada pela beleza estrondosa do Pássaro de Fogo, em vez de enfrentar aquela escada invisível sozinha.
Mas não era apenas a sua vida. Era também a vida de Stefan. Ainda assim, a donzela-flor não parecia particularmente ameaçadora, e Elena não conseguiu reunir adrenalina suficiente para descer aquela escada horrorosa.
Damon, venha comigo. Temos que procurar o Grande Salão de Baile lá fora. Só você tem força suficiente...
Uma hesitação. Damon preferia lutar a enfrentar aquele campo verde enorme e impossível lá fora, pensou Elena.
Mas Bloddeuwedd, apesar do que disse, agora girava a sala novamente, para que ela, na beira de alguma passagem invisível, pegasse exatamente o globo que queria.
Damon pegou Elena nos braços e disse: — Feche os olhos.
Elena não só fechou os olhos, mas os cobriu com a mão. Se Damon a largasse, ela não ia ajudar em nada gritando: ― Cuidado!
As sensações em si já eram bem nauseantes. Damon saltava de um degrau a outro como uma cabra selvagem. Ele mal parecia tocar os degraus ao descer, e Elena se perguntou — bem de repente — se havia alguma coisa atrás dele.
Se houvesse, ela precisava saber. Ela começou a afastar as mãos e ouviu Damon sussurrar num rosnado ― Fique de olhos fechados!  num tom contra o qual poucas pessoas iriam argumentar.
Elena espiou entre as mãos, encontrando os olhos exasperados de Damon, e viu que não havia nada atrás deles. Ela uniu as mãos e rezou.
 Se você realmente fosse uma escrava, não duraria um dia aqui, sabia? — disse Damon a ela, dando o último salto para o espaço e baixando-a no chão invisível, mas, pelo menos, plano.
Eu não iria querer, enviou Elena com frieza. Eu juro, prefiro morrer.
Cuidado com o que promete, Damon lhe abriu seu sorriso esplêndido de repente. Pode acabar em outras dimensões tentando cumprir sua palavra.
Elena nem mesmo tentou argumentar com ele. Eles estavam lá fora, livres, correndo pela casa de vidro, descendo a escada para o primeiro andar — meio espinhosa no estado mental de Elena, mas suportável — e finalmente saindo pela porta. Na grama do Grande Salão, encontraram Meredith e Bonnie... e Sage.
Ele também estava de smoking branco, embora seu paletó estivesse esticado nos ombros. Além disso, Talon estava empoleirada em um dos ombros — então o problema podia ser resolvido muito em breve, uma vez que ela rasgava o tecido e tirava sangue dele. Sage não parecia ciente disso.
Sabber estava ao lado do dono, fitando Elena com olhos pensativos demais para um animal, mas sem maldade.
— Graças a Deus vocês voltaram! — exclamou Bonnie, correndo para eles. — Sage veio com uma ideia maravilhosa.
Até Meredith estava animada.
— Lembra que Damon disse que devíamos ter trazido um clarividente? Bom, agora temos dois. — Ela se virou para Sage. — Conte a eles, por favor.
— Bom, normalmente não trago esses dois para festas. — Sage estendeu a mão para afagar o pescoço de Sabber. — Mas um passarinho me contou que vocês podiam estar com problemas. — Sua mão moveu-se para afagar Talon, agitando de leve as penas do falcão. — Então, diga-me, por favor: o quanto vocês manipularam a meia chave?
— Toquei nela esta noite e na noite em que a encontramos — disse Elena. — Mas Lady Ulma a segurou e Lucen fez uma arca para ela, e todos tocamos nela.
— Mas fora da caixa?
— Eu a segurei uma ou duas vezes — disse Damon.
— Bem! O cheiro dos kitsune ainda deve estar muito forte nela. E os kitsune têm cheiros muito distintos.
— Então quer dizer que Sabber... — a voz de Elena falhou de pura fraqueza.
— Pode farejar qualquer coisa com o cheiro dos kitsune. E Talon tem uma visão muito boa. Pode voar e procurar o brilho do ouro, caso esteja à vista em algum lugar. Agora mostrem a eles o que deverão procurar.
Elena obedientemente estendeu a meia chave para Sabber sentir o cheiro.
— Voilà! E Talon, dê uma boa olhada. — Sage recuou ao que era, como Elena supôs, a distância ideal de visão para Talon. Depois voltou e disse: — Comece! — E o cachorro preto partiu num pulo, o focinho no chão, enquanto o falcão voava em círculos altos, majestosos e abrangentes.
— Acha que os kitsune estiveram nessa grama? — perguntou Elena a Sage, enquanto Sabber começava a correr de um lado a outro, o focinho ainda pouco abaixo da grama, e de repente desviou para o meio da escada de mármore.
— Eles certamente estiveram aqui. Vê como Sabber corre, como uma pantera negra, de cabeça baixa e o rabo rígido? Ele achou alguma coisa! Encontrou um rastro quente.
Conheço outro que parece estar sentindo o mesmo, pensou Elena ao olhar para Damon, que estava de braços cruzados, imóvel, tenso, esperando por qualquer novidade que o animal trouxesse.
Por acaso ela olhou para Sage exatamente naquele momento e viu uma expressão em seu rosto que... Bem, devia ser a mesma expressão que ela mesma tivera um minuto antes. Ele a olhou e Elena corou.
— Pardonnez-moi, Monsieur — disse ela, desviando o olhar rapidamente.
— Parlez-vous français, Madame?
— Un peu — disse Elena com humildade; uma situação incomum para ela. — Não consigo manter uma conversa séria. Mas adoraria ir à França. — Ela estava prestes a dizer mais alguma coisa quando Sabber latiu uma vez, decidido, para chamar atenção, e se sentou ereto no meio-fio.
— Eles usaram uma carruagem ou liteira — traduziu Sage.
— Mas o que fizeram na casa? Preciso de um rastro que vá para o outro lado — disse Damon, olhando para Sage com algo parecido com puro desespero.
— Muito bem, muito bem. Sabber! Contremarche!
O cachorro preto imediatamente se virou, colocou o focinho no chão como se isso lhe desse o maior prazer, e dispararou de um lado a outro pela escada e pelo gramado que formava o Grande Salão de Baile, agora tornando-se pontilhado de buracos enquanto as pessoas escavavam com pás, picaretas e até colheres grandes.
— É difícil pegar um kitsune — murmurou Elena no ouvido de Damon.
Ele assentiu, olhando o relógio.
— Espero que isso também valha para nós — respondeu ele aos sussurros.
Sabber latiu novamente e o coração de Elena saltou no peito.
— O que é? — exclamou ela. — O que é? — Damon passou por ela, pegou sua mão e a levou com ele.
— O que ele achou? — Elena ofegava enquanto todos chegavam ao mesmo tempo no local.
— Não sei. Não faz parte do Grande Salão — respondeu Meredith. Sabber estava sentado orgulhosamente diante de um canteiro de hortênsias altas e lavanda clara (violeta escuro).
— Também não parece que trabalharam muito bem — disse Bonnie.
— E não está embaixo de nenhum dos salões superiores — disse Meredith, parando para ficar à altura de Sabber e olhando para cima. — Ali só tem a biblioteca.
— Bom... — disse Damon — então teremos que cavar neste canteiro sem pedir permissão a Srta. Olhos-de-esporinha-agora-tenho-que-matar-vocês.
— Ah, acha que os olhos dela eram esporinhas? Porque pensei que fossem campainhas — disse uma convidada atrás de Bonnie.
— Ela realmente disse que mataria vocês? Mas por quê? — outro convidado, perto de Elena, perguntou, nervoso. Elena os ignorou.
— Bom, com certeza, ela certamente não vai gostar. Mas é a única pista que temos. — A não ser, imagino, que os kitsune quisessem deixar a chave aqui, mas a levaram num coche, ela acrescentou telepaticamente a Damon.
— Então isso quer dizer que o show pode começar — um dos jovens fãs vampiros, aproximando-se de Elena.
— Mas ainda não achei meu amuleto — disse Damon categoricamente, entrando na frente de Elena como um muro impenetrável.
— Mas o terá em alguns minutos, certamente. Escute, não poderiam voltar com o cachorro de onde quer que os bandidos tenham vindo... A partir desta propriedade, entendeu? E enquanto isso podemos começar o show?
— Sabber pode fazer isso? — perguntou Damon. — Seguir uma carruagem?
— Que leve uma raposa? Mas é claro. Na verdade, eu podia ir com eles — disse Sage em voz baixa. — Posso garantir que dois inimigos sejam apanhados se estiverem do outro lado da trilha. Mostre-os a mim.
— Pelo que sei, são apenas formas. — Damon estendeu dois dedos e tocou a têmpora de Sage. — Mas é claro que terão muitas formas, talvez infinitas.
— Bom, não são a nossa prioridade, imagino. Já o amuleto sim.
— Sim — disse Damon. — Mesmo que você não os capture, pegue a chave e volte correndo.
— Então é assim? Isso é mais importante que a vingança — disse Sage suavemente, balançando a cabeça, pasmo. Depois acrescentou rapidamente: — Bom, lhes desejo boa sorte. Algum aventureiro quer ir comigo? Ah, que bom, quatro... Muito bem, cinco, Madame... É suficiente.
E ele se foi.
Elena olhou para Damon, que a olhava com os olhos vagos e negros.
— Espera realmente que eu faça... aquilo... de novo?
— Só precisa ficar parada ali. Vou cuidar para tirar a menor quantidade possível de sangue. E se quiser parar, podemos combinar um sinal.
— Sim, mas agora eu entendo. E não vou tolerar isso. — A expressão de Damon mudou de repente.
— Você não precisa tolerar nada. E se eu disser que é uma troca justa por Stefan?
Stefan! Todo o corpo de Elena congelou.
— Vamos dividir — pediu ela, e sabendo o que estava pedindo e sabia o que Damon ia dizer.
— Stefan vai precisar de você quando sairmos. — Aguente isso. Pare. Pense. Não insista com ele, disse o cérebro de Elena. Ele está manipulando você. Sabia como fazer isso. Não deixe que ele a manipule.
— Posso tolerar as duas coisas — disse ela. — Por favor, Damon. Não me trate como se eu fosse... uma garota qualquer, nem sua Princesa das Trevas. Fale comigo como se eu fosse Sage.
— Sage? Sage é o mais frustrante, esperto...
— Eu sei. Mas você conversa com ele. E costumava conversar comigo antes. Me escute. Não suportaria passar por aquela cena de novo. Eu vou gritar.
— Agora está ameaçando...
— Não! Só estou lhe dizendo o que vai acontecer. Se não me amordaçar, vou gritar. E gritar sem parar. Como se estivesse gritando por Stefan. Não posso evitar. Talvez eu esteja desmoronando...
— Mas não entende? — De repente ele girou e pegou suas mãos. — Estamos quase no fim. Você, que foi a mais forte o tempo todo... Não pode desmoronar agora.
— A mais forte... — Elena balançava a cabeça. — Achei que estávamos chegando à beira da compreensão mútua.
— Muito bem. — As palavras dele vieram como lascas duras de mármore. — E se fizermos cinco?
— Cinco?
— Cinco golpes em vez de dez. Prometemos a eles fazer os outros cinco quando o "amuleto" for encontrado. Mas na verdade vamos fugir quando o acharmos.
— Você estaria traindo sua palavra.
— Se for preciso...
— Não — disse ela categoricamente. — Você não vai dizer nada. Eu falarei a eles. Sou considerada uma traidora mentirosa e sempre brinquei com o sentimento dos homens. Vamos ver se consigo finalmente fazer bom uso de meus talentos. E não tem sentido usar nenhuma das meninas — acrescentou ela, olhando para Bonnie e Meredith.  Eu já estou com as costas nuas com esse vestido. — Ela deu uma volta para mostrar como seu vestido se unia no alto da nuca em uma alça e era bem decotado atrás.
— Então temos um acordo. — Damon tomou mais uma taça e Elena pensou: vamos dar o show mais bêbado da história, no mínimo.
Ela não conseguia parar de tremer. Da última vez, foi um tremor interior, que vinha da mão quente de Damon em suas costas nuas enquanto dançaram.
Agora ela sentiu algo muito mais gelado, talvez fosse apenas uma lufada de ar frio. Mas a fez pensar em seu próprio sangue escorrendo pelo corpo.
De repente Bonnie e Meredith estavam ao lado dela, protegendo-a da multidão cada vez mais curiosa e excitada.
— Elena, o que houve? Disseram que uma humana bárbara seria chicoteada... — começou Meredith.
— E você sabia que era eu — completou Elena. — Bom, é verdade. Não sei como sair dessa.
— Mas o que você fez? — perguntou Bonnie furiosa.
— Ela foi uma idiota. Deixou que uns vampiros com jeito de universitários de fraternidade pensassem que o que viram na Disciplina era uma espécie de espetáculo de mágica — intrometeu-se Damon. Seu rosto ainda era sério.
— Isso é meio injusto, não é? — perguntou Meredith. — Elena nos contou como foi. Até parece que eles chegariam a essa conclusão sozinhos.
— Devíamos ter negado na hora. Agora estamos presos a essa mentira — disse Damon. Depois, como se fizesse um esforço: — Ah, bom, tem outra coisa: talvez consigamos o que viemos procurar.
— Foi como descobrimos... Um idiota desceu a escada correndo e gritando sobre um amuleto com duas pedras verdes.
— Foi só no que conseguimos pensar — explicou Elena, cansada. — Isso vai valer a pena se conseguirmos achar a outra metade da chave.
— Vocês não precisam fazer isso — disse Meredith. — Podemos simplesmente ir embora.  Bonnie a encarou.
— Sem a chave de raposa?  Elena balançou a cabeça.
— Já passamos por muita coisa e concordamos em passar por isso também. — Ela olhou em volta. — Agora, onde estão os homens que queriam tanto ver?
— Procurando no campo... Que antes era um salão de baile — respondeu Bonnie. — Ou pegando pás... Um monte delas... Na sala de ferramentas de Bloddeuwedd. Ai! Por que me beliscou, Meredith?
— Ah, meu Deus, isso foi um beliscão? Eu queria fazer isso...
Mas Elena já se afastava, ansiosa, assim como Damon, para acabar com tudo aquilo. Com metade daquilo. Só espero que ele se lembre de vestir a jaqueta de couro e os jeans pretos, pense ela. De smoking branco... O sangue... Não haverá sangue nenhum.
O pensamento foi súbito e Elena não sabia de onde vinha: Mas nos recessos mais profundos de seu ser, ela pensou: ele já se puniu o bastante. Estava tremendo quando estávamos na liteira, pensando no bem-estar de outra pessoa a cada minuto. Agora bastava. Stefan não ia querer que o irmão se machucasse mais.
Ela levantou a cabeça e viu uma das pequenas luas deformadas da Dimensão das Trevas acima dela. Agora seu brilho era vermelho vivo, como uma pluma cintilando na luz carmim sombria. Mas Elena se entregou a ela sem reservas, de corpo e alma, e a lua pousou na fonte sagrada de sangue eterno que era sua feminildade. E de repente Elena sabia o que tinha de fazer.
— Bonnie, Meredith, escutem: somos um triunvirato. Temos que dividir isso com Damon.
Nenhuma delas se mostrou entusiasmada.
Elena, cujo orgulho tinha sido inteiramente despedaçado desde o momento em que viu Stefan em sua cela, ajoelhou-se diante delas na escada de mármore:
— Estou implorando a vocês...
— Elena! Pare com isso! — Meredith arfou.
— Por favor, levante-se! Ah, Elena... — Bonnie estava a ponto de cair no choro.
E assim, foi a pequena e misericordiosa Bonnie que virou a maré.
— Vou tentar ensinar a Meredith. Mas de qualquer modo, pelo menos vamos dividir isso entre nós três.
Depois foi uma sucessão de abraços e beijos. Um murmúrio no cabelo arruivado, ― Eu sei o que você vê no escuro. Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço.
Em seguida, deixando uma Bonnie atordoada para trás, Elena começou a reunir os espectadores para seu açoitamento.

Um comentário:

  1. A parte em que Elena e Damon fogem de Bloddeuwedd foi meio sem sentido... Tipo, ela nem perseguiu eles de verdade!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!