20 de novembro de 2015

Capítulo 36

Elena ficou esperando na árvore.
Na verdade aquilo não era tão diferente de seus seis meses no mundo espiritual, onde passava a maior parte do tempo observando os outros e esperando, e observando-os mais um pouco. Esses meses a fizeram desenvolver uma atenção paciente que teria assombrado qualquer um que conhecesse a velha e rebelde Elena.
É claro que a velha e rebelde Elena ainda estava dentro dela, e de vez em quando se rebelava. Pelo que ela podia ver, nada acontecia na pensão escura.
Só a lua parecia se mexer, esgueirando-se cada vez mais alto no céu.
Damon disse que aquele Shinichi tinha uma cisma de 4h44 da manhã ou da tarde, lembrou ela. Talvez aquela Magia Nega funcionasse num horário diferente do que ela ouvira falar.
De qualquer modo, isso era por Stefan. E assim que pensou nisso, entendeu que esperaria ali por dias, se fosse necessário. Ela certamente podia esperar até o raiar do dia, quando nenhum Mago Negro que se desse ao respeito começaria uma cerimônia.
E, no final, o que ela esperava pousou bem abaixo de seus pés. Primeiro vieram as figuras, que pareciam sedadas, andando do antigo bosque para os caminhos de cascalho do pensionato. Não era difícil identificá-Ias, mesmo de longe. Uma era Damon, que tinha um je ne sais quoi que Elena não confundiria de maneira nenhuma – e havia sua aura, que era uma imitação muito boa de sua antiga aura: aquela massa ilegível e impenetrável de pedra preta. Uma imitação muito boa, na realidade. Era quase idêntica à outra...
Foi quando, percebeu Elena mais tarde, ela sentiu seu primeiro mal-estar.
Mas naquele momento ela estava tão absorta no que acontecia que afastou o pensamento desagradável. Aquele com a aura cinza escura com clarões carmim devia ser Shinichi, deduziu ela. E a outra figura com a mesma aura das meninas, uma cor de lama raiada de laranja, devia ser sua irmã gêmea, Misao.
Só esses dois, Shinichi e Misao, estavam de mãos dadas, e de vez em quando se afagavam – como Elena podia ver enquanto eles se aproximavam da pensão. Certamente não agiam como irmãos, no entender de Elena.
Além disso, Damon trazia uma menina praticamente nua pendurava em seu ombro, e Elena não imaginava quem poderia ser.
Paciência, pensou ela consigo mesma. Paciência. Os protagonistas enfim estavam ali, como Damon prometera. E os coadjuvantes...
Bom, primeiro, seguindo Damon e seu grupo havia três meninas pequenas.
Ela reconheceu Tamra Bryce de imediato, pela aura, mas as outras duas lhe eram estranhas. Elas saltitavam, pulavam e deram cambalhotas do bosque para a pensão, onde Damon lhes disse algo e todas foram se sentar na horta da Sra. Flowers, quase diretamente abaixo de Elena. Um olhar nas auras das meninas estranhas foi o bastante para identificá-Ias como outros bichinhos de estimação de Misao.
Depois, apareceu na rua um carro muito conhecido – pertencia à mãe de Caroline. A menina saiu dele e foi acompanhada até a pensão por Damon, que fez alguma coisa com seu fardo. Mas Elena não conseguiu ver o que era.
Elena se alegrou ao ver luzes se acendendo à medida que Damon e os três convidados percorriam a pensão, iluminando o caminho. Apareceram no último andar, parados em fila na sacada do telhado, olhando para baixo.
Damon estalou os dedos e as luzes do quintal se acenderam como se respondessem a uma deixa de um show.
Mas Elena só agora via os atores – as vítimas da cerimônia que estava prestes a começar. Eram conduzidos pelo canto extremo da pensão. Podia ver todos eles: Matt, Meredith, Bonnie e a Sra. Flowers e, estranhamente, a velha Dra. Alpert. O que Elena não entendia era por que eles não lutavam mais – Bonnie certamente fazia barulho suficiente por todos, mas eles agiam como se estivessem sendo empurrados contra a própria vontade.
Foi quando viu a escuridão assomando atrás deles. Sombras escuras e imensas, sem feições que ela pudesse identificar.
Foi nesse momento que Elena percebeu, mesmo com a gritaria de Bonnie, que se ficasse imóvel por dentro e se concentrasse muito, podia ouvir o que todos diziam na sacada. E a voz estridente de Misao superava as demais.
 Ah, que sorte! Pegamos todos de volta! ― guinchou ela, e beijou o rosto do irmão, apesar do breve olhar de irritação dele.
 É claro que sim. Eu te disse ― ele começava, quando Misao gritou mais uma vez.
 Mas por qual deles vamos começar?  Ela deu um beijo no irmão e ele afagou seu cabelo, amolecendo.
 Você escolhe o primeiro  ele respondeu.
 Você, meu amor ― arrulhou Misao sem o menor pudor.
Esses dois, pensou Elena, são mesmo sedutores. Gêmeos, é?
 A baixinha barulhenta.― disse Shinichi com firmeza, apontando para Bonnie. ― Urusei, pirralha! Cale-se!  ele acrescentou enquanto Bonnie era empurrada ou carregada pelas sombras. Agora Elena podia vê-Ia com mais clareza.
E ela pôde ouvir as súplicas de partir o coração que Bonnie enviava para Damon não fazer aquilo... com os outros.
 Não estou pedindo por mim  gritava ela, enquanto era arrastada para a luz. ― Mas a Dra. Alpert é uma boa mulher; ela não tem nada a ver com isso. Nem a Sra. Flowers. E Meredith e Matt já sofreram o bastante. Por favor!
Houve um coro furioso dos outros, que aparentemente tentavam lutar e eram dominados. Mas a voz de Matt se elevou acima das outras.
 Toque um dedo nela, Salvatore, e é melhor tratar de me matar também!
O coração de Elena saltou ao ouvir a voz de Matt, tão forte e bem. Ela enfim o viu, mas não conseguia pensar numa maneira de salvá-Io.
 E temos que decidir primeiro o que vamos fazer com eles  Misao falou, batendo palmas como uma criança feliz na festa de aniversário.
 Você escolhe  Shinichi acariciou o cabelo da irmã e cochichou no ouvido dela.
Ela se virou e lhe deu um beijo na boca. E não teve pressa nenhuma.
 O que... O que está havendo?  perguntou Caroline.
Ela nunca foi tímida, aquela ali, pensou Elena. Agora avançava para se grudar na mão livre de Shinichi.
Por um instante, Elena pensou que ele a atiraria da sacada e a veria mergulhar no chão. Depois Shinichi se virou, e ele e Misao se olharam.
E então ele riu.
 Desculpe, desculpe, é tão difícil quando você é a vida da festa  disse ele. ― Bem, o que acha, Carolyn... Caroline?
Caroline o encarava.
 Por que ela está agarrada desse jeito com você?
 No Shi no Shi, as irmãs são preciosas  Shinichi explicou. ― E... Bom, eu não a vejo há algum tempo. Estamos nos reencontrando  mas o beijo que ele plantou na mão de Misao não era nada fraterno. ― Vamos  acrescentou ele rapidamente a Caroline. ― Escolha o primeiro ato do Festival do Moonspire! O que vamos fazer com ela?
Caroline começou a imitar Misao, beijando o rosto e a orelha de Shinichi.
 Sou nova aqui  disse ela num tom sedutor. ― Não sei realmente o que quer que eu escolha.
 A tola Caroline, naturalmente, como di...  de repente Shinichi foi sufocado por um grande abraço e um beijo da irmã.
Caroline, que obviamente queria a atenção preferencial, mesmo que não entendesse do assunto, disse, melindrada:
 Bom, se não vai me contar, não posso escolher. E aliás, cadê a Elena? Não a vejo em lugar nenhum!  Ela perecia prestes a dizer mais alguma coisa quando Damon deslizou e cochichou em seu ouvido. Depois ela sorriu novamente, e os dois olharam os pinheiros que cercavam a pensão.
Foi quando Elena teve seu segundo mal-estar. Mas Misao estava falando e isso exigia toda a sua atenção.
 Que sorte! Então eu vou escolher  Misao inclinou-se para a frente, espiando pela beira do telhado para os humanos embaixo, os olhos escuros arregalados, pensando nas possibilidades, no que parecia ser uma clareira árida. Ela era tão delicada, tão graciosa ao se levantar para andar e pensar; sua pele era tão clara e o cabelo muito sedoso e escuro que nem Elena conseguia tirar os olhos dela. Então o rosto de Misao se iluminou e ela falou: ― Deite-a no altar. Trouxe algum de seus híbridos?
Isso não foi bem uma pergunta, mas uma exclamação animada.
 Meus experimentos? Mas é claro, querida. Eu te disse isso também  respondeu Shinichi e acrescentou, olhando o bosque. ― Dois de vocês... Er, homens... E os antigos fiéis!
E ele estalou os dedos. Houve vários minutos de confusão durante os quais os humanos em volta de Bonnie eram golpeados, chutados, atirados no chão, pisoteados e esmagados enquanto lutavam com as sombras. E depois as coisas que antes os arrastaram para a frente agora levaram Bonnie presa entre eles, pendendo flácida pelos braços magros.
Os híbridos eram meio homens e meio árvores, com todas as folhas arrancadas. Se foram criados, pareciam ter sido feitos especificamente para serem grotescos e assimétricos. Um deles tinha o braço esquerdo torto e nodoso que chegava quase aos pés, e o braço direito era grosso, com mais volume na altura da cintura.
Eles eram horrendos. A pele parecia a superfície quitinosa dos insetos, porém com mais calombos, com nós, cavidades e todos os aspectos exteriores da casca dos galhos. Eles tinham uma aparência áspera e inacabada em certos lugares.
Eram apavorantes. O jeito como os membros se torciam; como andavam, arrastando-se feito macacos, a maneira como os corpos terminavam no alto com caricaturas de rostos humanos semelhantes a árvores, encimados por um emaranhado de galhos mais finos que se projetavam em ângulos díspares – pareciam criaturas de um pesadelo.
E estavam despidos. Não tinham nada parecido com uma roupa para disfarçar as deformidades medonhas dos corpos.
Então Elena percebeu que sabia o que significava o terror, enquanto os dois malach carregavam uma Bonnie flácida para uma espécie de toco áspero de árvore que servia de altar, deitando-a e arrancando as muitas camadas de suas roupas, desajeitados, puxando-as com dedos de varetas que se quebravam com estalos enquanto os tecidos se rasgavam. Eles não pareciam se importar com os dedos quebrados – desde que realizassem a tarefa.
Usaram pedaços de tecido rasgado, de forma ainda mais canhestra, para amarrar Bonnie, com as pernas e os braços, a quatro postes nodosos arrancados de seus próprios corpos e martelados no chão em volta do tronco com quatro golpes poderosos da criatura de braço grosso.
Enquanto isso, de algum lugar ainda mais distante nas sombras, um terceiro homem-árvore avançou.
E Elena viu que este, inegável e inconfundivelmente, era do sexo masculino.
Por um momento Elena se preocupou que Damon pudesse perder o controle, enlouquecer, virar-se e atacar as raposas, revelando agora sua verdadeira aliança. Mas os sentimentos de Damon por Bonnie obviamente mudaram desde que ele a salvara de Caroline. Ele parecia inteiramente relaxado ao lado de Shinichi e Misao, sentado e sorridente, e até disse alguma coisa que os fez rir.
De repente algo dentro de Elena pareceu afundar. Isto não era um mal estar. Era um completo terror. Damon nunca parecera tão natural, tão sintonizado, tão feliz com alguém como ficava com Shinichi e Misao. Eles não podiam tê-Io mudado, ela tentou se convencer. Não podem ter possuído Damon de novo com tanta rapidez, não sem que ela, Elena, soubesse disso...
Mas quando você lhe mostrou a verdade, ele ficou angustiado, sussurrou o coração de Elena. Desesperadamente angustiado – angustiadamente desesperado.
Ele podia procurar a possessão como um alcoólatra procura uma garrafa, querendo apenas o esquecimento. Se ela conhecia Damon, ele convidou as trevas de volta.
Não conseguiu suportar a luz, pensou Elena. E agora ele conseguia rir até do sofrimento de Bonnie.
E como ficava Elena? Com Damon passando para o outro lado, não era mais um aliado, mas um inimigo? Elena começou a tremer de raiva e ódio – sim, e de medo também, enquanto refletia sobre sua situação.
Totalmente só para lutar contra três dos inimigos mais fortes que podia imaginar, e seu exército de assassinos deformados e sem consciência? Para não falar de Caroline, a líder da torcida por maldade?
Como que para corroborar seus temores, como que para mostrar como suas chances eram pequenas, a árvore em que ela estava de repente pareceu soltá-Ia e, por um momento, Elena achou que ia cair, girando e gritando, até o chão. Os apoios de suas mãos e pés pareceram desaparecer a um só tempo e ela só se salvou por ter escalado frenética e dolorosamente pelas agulhas de pinheiro serrilhadas que subiam pela casaca sulcada e escura.
Agora você é minha garota humana, minha querida, o cheiro resinoso e forte parecia dizer a ela. E você está até o pescoço dos Poderes dos mortos-vivos e da feitiçaria. Por que lutar? Perdeu antes mesmo de começar. Desista agora e não vai doer tanto.
Se uma pessoa estivesse dizendo isso a ela, tentando convencê-Ia, as palavras podiam ter incitado alguma faísca de desafio no cerne do caráter de Elena. Mas em vez disso, só houve uma sensação que a dominou, uma aura de condenação, uma consciência da inutilidade de sua causa e da inadequação de suas armas, que pareciam cair sobre ela com a suavidade e a irrevogabilidade de uma névoa.
Ela encostou a cabeça que latejava no tronco da árvore. Nunca se sentiu tão fraca, tão impotente – nem tão só, não desde que foi uma vampira recém-criada. Ela queria Stefan. Mas Stefan não conseguiu derrotar aqueles três e por isso ela não o vira de novo.
Alguma novidade acontecia no telhado, percebeu ela, fraca.
Damon olhava para Bonnie no altar e sua expressão era petulante. O rosto branco de Bonnie fitava o céu noturno com determinação, como se ela se recusasse a chorar ou implorar mais do que já fizera.
 Mas... Todos os hors d’oeuvres são tão previsíveis?  perguntou Damon, parecendo genuinamente entediado.
Seu cretino, você entregou sua melhor amiga por diversão, pensou Elena. Bom, espere só. Mas ela sabia que a verdade era que, sem ele, ela não poderia colocar em prática o Plano A, muito menos lutar contra esses kitsunes, essas raposas.
 Você me disse que no Shi no Shi eu veria atos de originalidade autêntica  continuava Damon. ― Donzelas hipnotizadas se cortando...
Elena ignorou as palavras dele. Concentrou toda sua energia na dor que pulsava no meio do peito. Parecia que estava retirando sangue de seus menores capilares, dos recantos mais distantes do corpo, e reunindo-os ali, no meio.
A mente humana é infinita, pensou ela. É tão estranha e infinita quanto o universo. E a alma humana...
As três possuídas mais novas começaram a dançar em volta de Bonnie e cantavam numa voz falsamente doce de menininha:

Você vai morrer aqui,
Quando você morrer aqui,
lá fora vão atirar terra na sua cara!

Que encantador, pensou Elena. Depois elas se viraram para o drama que se desenrolava no telhado. O que ela viu a sobressaltou. Meredith agora estava na sacada, movendo-se como se estivesse embaixo d’água – em transe. Elena não vira como a amiga chegou lá – foi por alguma magia? Misao estava de frente para Meredith, rindo. Damon também ria, mas de incredulidade e zombaria.
 E espera que eu acredite que se eu desse uma tesoura a esta menina...  disse ele ― ela realmente se cortaria...
 Experimente e veja por si mesmo  interrompeu Shinichi, com um de seus gestos lânguidos. Ele estava encostado na cúpula no meio da sacada, ainda tentando parecer mais relaxado que Damon. ― Não vê nossa premiada, Isobel? Você a trouxe aqui... Ela nem tentou falar?
Damon estendeu a mão.
 Tesoura  disse ele, e uma tesoura de unha pousou na palma da sua mão.
Parecia que, desde que Damon tinha a chave mágica de Shinichi, o campo de magia em volta deles continuaria obedecendo a ele mesmo no mundo real. Ele riu.
 Não, tesoura de gente grande, para jardinagem. A língua é feita de músculos fortes, e não de papel.
O que ele tinha na mão agora era uma podadeira grande – sem dúvida não era brinquedo de criança. Ele a levantou, sentindo o peso. E depois, para completo choque de Elena, olhou diretamente para ela em seu refúgio na copa da árvore, sem precisar procurar – e piscou.
Elena só conseguiu olhar apavorada.
Ele sabia, pensou ela. Sabia onde eu estava o tempo todo. Foi isso que ele cochichou a Caroline. Não deu certo – as Asas da Redenção não deram certo, e parecia que ela ia cair para sempre. Eu devia ter percebido que não adiantaria nada. Não importa o que fizeram com ele, Damon sempre será Damon, e agora está me propondo uma decisão: ver minhas duas melhores amigas torturadas e mortas, ou avançar um passo e parar aquele horror, concordando com os termos dele.
O que ela podia fazer?
Ele tinha arrumado as peças de xadrez com inteligência, pensou Elena. Os peões em dois níveis diferentes, para que mesmo que Elena de algum modo descesse para tentar salvar Bonnie, Meredith estaria perdida. Bonnie estava amarrada a quatro postes fortes e era protegida pelos homens-árvore. Meredith estava mais perto, no telhado, mas para tirá-Ia de lá Elena teria de chegar a ela e passar por Misao, Shinichi, Caroline e o próprio Damon.
Elena precisava tomar uma decisão. Ou avançava agora, ou seria empurrada pela angústia de uma das duas pessoas que quase faziam parte dela.
Elena pareceu pegar um fio tênue de telepatia de Damon, ali, que dizia: Esta é a melhor noite da minha vida.
Você pode simplesmente pular, veio mais uma vez o sussurro de aniquilação hipnótico como se fosse neblina. Acabe com este beco sem saída. Acabe com seu sofrimento. Acabe com toda dor. Basta fazer isso.
 Agora é a minha vez  dizia Caroline, roçando nos gêmeos ao passar por eles para ficar de frente para Meredith. ― Eu é que devia escolher primeiro mesmo. Então agora é a minha vez.
Misao ria histericamente, mas Meredith já avançava um passo, ainda em transe.
 Ah, faça como quiser  respondeu Damon.
Mas ele não se mexeu, ainda olhando com curiosidade, enquanto Caroline dizia a Meredith:
 Você sempre teve a língua de uma víbora. Por que não a retalha para a gente... Aqui e agora? Antes que eu a corte em pedaços.
Meredith estendeu a mão sem dizer nada, como um autômato. Ainda de olho em Damon, Elena respirou lentamente. Seu peito parecia entrar em espasmos como aconteceu quando as plantas sanguessugas se enrolaram nela e lhe tiraram a respiração. Mas nem as sensações de seu corpo poderiam impedi-Ia.
Como vou decidir?, pensou ela. Bonnie e Meredith - eu amo as duas.
E não havia mais nada a fazer, percebeu ela entorpecida, a sensibilidade escapando de suas mãos e dos lábios. Nem sei se Damon pode salvá-Ias, mesmo que eu concorde em... me submeter a ele. Aqueles outros – Shinichi, Misao, até Caroline – querem ver sangue. E Shinichi não só controla as árvores, como quase tudo no antigo bosque, inclusive aqueles Homens-árvore monstruosos. Talvez desta vez Damon tenha se superado, dando um passo maior do que as pernas. Ele queria a mim – mas foi longe demais para conseguir. Não vejo uma saída para isso.
E então ela viu. De repente tudo se encaixou e ficou brilhantemente claro.
Ela entendeu.
Elena olhou para Bonnie, quase em estado de choque. Bonnie a olhava também. Mas não havia expectativa de resgate no pequeno rosto triangular. Bonnie já aceitara seu destino: a agonia e a morte.
Não, pensou Elena, sem saber se Bonnie podia ouvi-Ia. Acredite, pensou ela para Bonnie. Não cegamente, nunca. Mas acredite no que lhe diz sua mente; é a verdade, e o que seu coração lhe diz é o caminho certo. Eu nunca abandonaria você - nem Meredith.
Eu acredito
E sua alma foi tocada pela força desse pensamento. Ela sentiu um impulso súbito dentro de si e sabia que era hora de soltar. Uma palavra soava em sua mente enquanto ela se levantava e tirava as mãos da árvore. E essa única palavra ecoou em sua mente enquanto ela mergulhava de cabeça de seu poleiro na árvore, a vinte metros do chão.
Acredite.

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